Morashá
Cinco mil anos de história estão sendo ameaçados

Cinco mil anos de história estão sendo ameaçados

Nos últimos anos, o Estado Islâmico tem levado a cabo uma verdadeira “limpeza cultural” nos locais conquistados. Entre as “vítimas” estão muitos lugares sagrados do judaísmo.

Edição 88 - Junho de 2015


Desde o final de maio deste ano de 2015 tem circulado a notícia de que a antiga tumba do Profeta Nahum Elkoshi está sob ameaça de destruição pelos militantes do Estado Islâmico (EI), que estão controlando a antiga cidade assíria de Al Qosh, ao norte de Mosul (Iraque). A tumba está localizada a cerca de 5.000 km da frente de combate onde as forças curdas lutam contra o EI.  

O Profeta Nahum, cujo nome em hebraico significa “o consolador”,  é um dos Profetas Menores do Tanach. Seu livro, 7º livro dos  Doze Profetas, éuma “pronúncia contra Nínive”, capital do Império Assírio.  O Profeta previu a queda do Império Assírio – hoje, o Iraque. Até o início da década de 1950, milhares de judeus costumavam reunir-se no local durante a celebração de Shavuot, alguns ali permanecendo por até duas semanas. A tumba, de 2.700 anos, está em uma das últimas sinagogas do Iraque e tem sido protegida por uma família de cristãos.  Nos últimos anos, constatar o estado dos tesouros históricos e culturais do Oriente Médio virou uma tarefa penosa para arqueólogos e estudiosos da Antiguidade à medida que o Estado Islâmico vai-se apossando de mais e mais territórios. A situação, segundo autoridades sírias e iraquianas, é cada vez mais preocupante. Irinia Bokova, diretora do Departamento Cultural da UNESCO, falando sobre a ação do EI em relação ao sítios históricos e culturais, disse que “a destruição deliberada do patrimônio cultural é um crime de guerra”. A verdade é que cinco mil anos de história estão sendo ameaçados pelo EI, que, intencionalmente, depreda e destrói mesquitas, santuários, túmulos, igrejas e sinagogas. O EI já atacou vários locais no Iraque e na Síria, destruindo incontáveis manuscritos, livros e outros artefatos, sob a alegação de que são “anti-islâmicos” e “blasfemos”. Enquanto isso, surgem no mercado negro artefatos antigos, através de intermediários que o Estado Islâmico utiliza para a venda de tesouros inestimáveis, que, por sua vez, financiam suas atividades.

Para muitos estudiosos, uma das maiores catástrofes ocorreu em Alepo, onde a parte central do Souk foi destruída. Um dos lugares mais saqueados é Apameas, no oeste da Síria, até então um dos sítios romanos e bizantinos mais preservados do mundo. Mas, ainda mais grave é a pilhagem de Dura-Europos, onde há uma sinagoga cuja construção e decoração não encontram paralelo em nenhum outro templo da antiga cidade.

A sinagoga, datada com uma inscrição em aramaico em 244 da Era Comum, é famosa pelo maior conjunto de afrescos da Antiguidade inspirados na Torá, no Midrash, nos Livros dos Profetas e em outros textos judaicos.

Dura-Europos, situada na atual Síria, próxima à fronteira com o Iraque, foi fundada no ano 300 a.E.C., às margens do rio Eufrates, como entreposto militar. Suas riquezas arquitetônicas e artísticas foram preservadas pelas toneladas de areia sob as quais a cidade ficou soterrada desde sua destruição, em meados do século 3 desta Era, até sua descoberta, em 1920. O tesouro arqueológico multicultural de Dura-Europos inclui, além da uma casa-igreja cristã, uma forma primitiva de arquitetura eclesiástica.

Segundo Maamoun Abdulkarim, diretor de Antiguidades da Síria, militantes do EI têm depredado sistematicamente o local, desde o início de 2013. Imagens de satélite confirmaram a existência de escavações e saques por toda a área. Imagens mostram, também, centenas de pessoas, incluindo homens armados, participando das escavações. Abdulkarim ressalta a presença de compradores do mercado negro no local e quando um artefato é descoberto, a venda é imediata.

Atualmente, o EI controla cerca de um terço do Iraque e da Síria, tendo destruído muitos sítios antigos em território iraquiano nos últimos meses. Fontes oficiais informam que o Estado Islâmico se apossou de 1.800 dos 12 mil sítios arqueológicos do país, quando capturaram as cidades de Mosul e Nínive, ao norte, em junho último, além de Kalhu, Dur, Sharrukin, Ashura, Nimrud, Khorsabad e Hatra. Nimrud, principal cidade assíria, é considerada um dos mais importantes sítios arqueológicos do Iraque. E, em Kalhu encontram-se ruínas do grande palácio do rei assírio, Ashurnasirpal II, que reinou no século 9 a.E.C. 

Ainda na região de Mosul, foram saqueados os túmulos do Profeta Yoná, e do Profeta Daniel. O EI divulgou um vídeo que mostra seus militantes utilizando tratores e outros equipamentos para destruir antigos monumentos e frisos de pedras de valor incalculável, muitos dos quais lá estão há mais de 3 mil anos, antes do local ser totalmente arrasado com explosivos. As primeiras informações sobre estragos na cidade de Mosul foram divulgadas em março deste ano, mas o vídeo sem data mostra a destruição em grande escala. Essa última demolição aconteceu depois de relatos de que o EI queimara a Biblioteca de Mosul com seus mais de 8 mil manuscritos antigos.

A mais recente conquista do EI na Síria, a cidade de Palmyra, horrorizou a comunidade internacional. Não apenas por ser estrategicamente importante para o grupo, mas por nela estar situada a sede do Patrimônio Mundial da UNESCO, que abriga tesouros históricos insubstituíveis, como edifícios romanos de mais de 2 mil anos e magníficas estátuas da época pré-muçulmana.