Morashá
Solidariedade, em Israel, também se chama “Mashav” Foto Ilustrativa

Solidariedade, em Israel, também se chama “Mashav”

Capacitação é a palavra-chave do Mashav. “Capacitação dos capacitadores” é o fio condutor do trabalho deste órgão governamental israelense voltado à cooperação internacional

Edição 69 - Setembro de 2010


Era o ano de 1958. Golda Meir, então ministra das Relações Exteriores de Israel, retornou de uma visita à África sensibilizada com as dificuldades enfrentadas pelo continente. Sua determinação em ajudar resultou na criação, por seu país, de uma Agência Nacional para o Desenvolvimento da Cooperação Internacional – uma decisão que mostraria ser estratégica na maneira do novo Estado se relacionar com a comunidade internacional.

Assim surgia o Mashav, acrônimo, em hebraico, para Centro de Cooperação Internacional do Ministério das Relações Exteriores, um projeto que nasceu como programa voltado principalmente para a capacitação profissional. Na época de sua criação, Israel engatinhava economicamente e sequer imaginava o patamar de desenvolvimento que chegaria a alcançar. Ainda assim, Golda Meir acreditava que seu país tinha a responsabilidade de compartilhar os conhecimentos que já possuía com nações menos desenvolvidas.

De um projeto sem grandes pretensões iniciais, o Mashavcresceu para se transformar no principal canal de cooperação internacional de Israel para a transferência de conhecimentos visando o desenvolvimento sustentável. Suas ferramentas são seu reconhecido know-how tecnológico e sua qualificada mão-de-obra em áreas que vão da saúde pública à medicina em situações de emergência, de modernas técnicas para aumento da produtividade agrícola ao combate à desertificação, passando pelo gerenciamento otimizado de recursos hídricos, desenvolvimento rural e urbano integrado, além de educação e capacitação de profissionais, e ajuda humanitária diante de desastres naturais e atos de terrorismo. A imagem de médicos e equipes de resgate em cujos uniformes e capacetes se destaca a bandeira azul e branca de Israel já foi vista milhares de vezes, por milhões de pessoas, em todo o mundo - na Turquia, na Rússia, na Bósnia, no Quênia, nos Estados Unidos e, mais recentemente, no Haiti. Incontáveis profissionais brasileiros já se beneficiaram dos cursos de curta e média duração do Mashav, em áreas como extensão agrícola, urbanismo, cultivo de peixes, manejo de gado de corte e de leite, cursos para dirigentes sindicalistas e vários outros, implantando ao voltar de seu treinamento importantes projetos em suas respectivas secretarias de estado e de município, ou universidades.

Para tentar reverter o grave quadro mundial de pobreza, em dezembro de 2000 a ONU adotou as Metas de Desenvolvimento do Milênio, visando reduzir a pobreza mundial até 2015. De acordo com dados recentes, de uma população mundial de 6,5 bilhões de pessoas, cerca de 1,4 bilhão vivem em condições de extrema pobreza, ou seja, por parâmetros definidos pela instituição, com uma renda inferior a $1,25/ dia. Destes, 300 milhões vivem na África. Israel é um parceiro importante nesse projeto global, e através doMashav tem lutado contra a pobreza mundial, principalmente nos países em desenvolvimento, dentre os quais a África ocupa um lugar especial.

Desde a implantação do Centro de Cooperação Internacional, mais de 200 mil pessoas de 140 países participaram de cursos em Israel e no exterior. São cerca de 300 os cursos realizados anualmente, em vários idiomas. Nestes 52 anos de existência, foram implantados dezenas de projetos pilotos, em todos os continentes. O primeiro foi na Libéria, em 1960, quando seis oftalmologistas do Centro Médico Hadassa treinaram equipes médicas e implantaram um hospital com 30 leitos para tratamentos de moléstias da visão. Assim nasceram os chamados “Campos de Olhos”, modelo que desde então passou a ser replicado em países em desenvolvimento. Além dos cursos de capacitação, exames e cirurgias realizados por médicos israelenses, o Mashav ainda fornece todos os equipamentos para o funcionamento posterior dos “Campos de Olhos”.

Mashav sempre atribuiu prioridade máxima à cooperação com os países do Oriente Médio e, desde a assinatura do Acordo de Paz com o Egito, tem atuado intensamente na promoção da cooperação técnica com seus parceiros na região, em ampla gama de áreas, além da concessão de bolsas de estudos em centros de formação israelenses. Um dos parceiros principais do Mashav em Israel é o Centro de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, Cinadco. Especializado na área de agricultura é utilizadopara ministrar cursos para bolsistas estrangeiros.

Desde 1994, por exemplo, quando foi assinado o tratado de paz com a Jordânia, cresceu a cooperação com Israel. Em 2000, Israel construiu e equipou totalmente uma Unidade de Terapia Intensiva no Hospital do Crescente Vermelho, em Amã. Ainda implantou e gerenciou, durante anos, uma fazenda-piloto na região jordaniana de Karak, para produção e processamento de leite de ovelha. Durante anos manteve-se uma parceria entre o Kibutz Yotvata e os fazendeiros das regiões jordanianas de Rahma e Umm-Mutlak, para treinamento e transferência de tecnologia agrícola. OMashav treina anualmente 100 técnicos desse país em Israel em cursos que vão desde gerenciamento de pequenas empresas a métodos agrícolas auto-sustentáveis e amigos do meio-ambiente.

Após setembro de 2000, o difícil ambiente político criou desafios para as atividades do Mashav na região. Países como o Marrocos e a Tunísia suspenderam as relações diplomáticas e a cooperação técnica com Israel e a cooperação com o Egito, Jordânia e a Autoridade Palestina diminuiu significativamente, mas alguns programas de cooperação regional ainda continuam funcionando. Um dos mais importantes é o Programa Agrícola Regional, de três anos de duração, iniciado pela Dinamarca em 1999, que abrange Israel, Egito, Jordânia e a Autoridade Palestina. O RAP, baseado no princípio de parceria entre as partes, se concentra em pesquisa aplicada, treinamento profissional e fazendas-modelo. 
 
Através do Mashav, Israel tem atuado na Organização dos Estados Americanos (OEA) desde 1972, onde conquistou um assento como observador permanente, ministrando uma série de cursos e programas na América Latina. Em maio deste ano de 2010, assinou com a OEA um Memorando de Cooperação para intensificar um programa vigente há anos, nas áreas de educação, meio-ambiente, combate à pobreza e pela igualdade entre sexos, prevenção de desastres naturais e ajuda humanitária, além de combate ao terrorismo e segurança.

Ainda este ano realizou-se, também, um seminário sobre “Manejo avançado de água para uso agrícola e urbano”, com a participação de profissionais da Coréia, Tailândia, Índia, Cazaquistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Turquia e Jordânia. Em abril, uma delegação de dez profissionais da Unidade de Resgate Turca participou de um programa de treinamento conjunto com a Unidade de Busca e Resgate de Aravá, para ações diante de desastres naturais. Promovido pelo Mashav, o projeto era realizado três vezes por anos em Israel e na Turquia.No final desse primeiro semestre, o Mashavimplantou, em conjunto com a Moriah África e com a Jewish World Watch, de Los Angeles, no Hospital Central de Bukavu, Congo, um Centro para Queimados.

Um ponto fundamental em toda a atuação do Mashav reside no fato de que os cursos e os projetos são elaborados de acordo com as necessidades e as demandas dos parceiros locais. Ou seja, o trabalho do Mashav é realizado em parceria com os governos locais, não sendo uma iniciativa implantada por Israel a partir de sua própria visão. A experiência e o know-how são israelenses, mas sempre adaptados à realidade específica. Seus técnicos acreditam que as melhores soluções são as que nascem do intercâmbio de idéias entre as equipes de Israel e seus parceiros. Em poucas palavras,Mashav é, também, um programa de solidariedade entre países.