Morashá
Sinagoga Hurva Foto Ilustrativa

Sinagoga Hurva

Construída no século 18, no coração da Cidade Velha de Jerusalém, a Sinagoga Hurva foi destruída e reconstruída duas vezes. No dia 15 de março de 2010, seis décadas após ter sido arrasada pelo exército jordaniano, a Hurva será reinaugurada em seu local original

Edição 67 - Março de 2010


No decorrer da rica vivência de Jerusalém, dezenas de sinagogas foram erguidas e arrasadas, mas a sinagoga Hurva é a única que é chamada de "local em ruínas", pois seu nome vem da palavra hebraica "churvá", que significa ruínas. A Sinagoga tornou-se conhecida como Hurvat Yehudá Ha-Chassid(Ruínas de Rabi Yehudá, o Chassid, o Piedoso), em 1720, quando foi destruída duas décadas após ter sido construída pelos seguidores de Rabi Yehudá. Reconstruída em meados do século 19, tornou-se a principal sinagoga asquenazita, em Jerusalém. Em seus dias de glória, a Sinagoga Hurva sediou eventos históricos e várias personalidades discursaram em seu recinto, até ser novamente destruída pelos exércitos árabes, durante a Guerra de Independência de Israel.

O local, que mais uma vez ficou em ruínas, permaneceu em mãos árabes até junho de 1967, quando Israel reconquistou e reunificou Jerusalém. Em 1977, ergueu-se, no local, um arco transpondo o antigo vestíbulo central, que viria a se tornar o símbolo da Sinagoga Hurva e, de certa forma, do bairro judaico da Cidade Velha de Jerusalém. Mas, foi somente no ano de 2000, que foi anunciada a reconstrução da Sinagoga em seu antigo local, exatamente igual àquela que fora destruída, preservando sua antiga arquitetura e esplendor.

Uma história conturbada

Desde o século 14, na área em que se localiza a Hurva funcionava uma sinagoga de reduzidas proporções, que atendia a pequena comunidade asquenazita que vivia em Jerusalém. No entanto, sua história remonta aos primórdios do século 18, sendo que, à época, a região estava sob domínio otomano.

No dia 14 de outubro de 1700, chega a Jerusalém o Rabi Yehudá Ha-Chassid, proveniente da Europa Oriental. Vinha acompanhado por 500 de seus seguidores. Esse evento causou tamanho impacto que houve quem dissesse serem 1.000, todos eles místicos, comprometidos em trazer a redenção a Israel através de orações e estudos cabalísticos. Sua chegada praticamente dobrou a população judaica de Jerusalém.

Na época, viviam na cidade cerca de 200 ashquenazim e 1.000 sefaradim. Poucos dias após chegar à cidade, o Rabi Yehudá Ha-Chassid deixa sua morada terrena. Além de se verem inesperadamente destituídos de sua liderança espiritual, seus seguidores viram-se sem recursos, em meio a um povo desconhecido. Não obstante, conseguem adquirir o pátio contíguo à Sinagoga Ramban e, nesse local, iniciaram a construção de uma sinagoga. O desenrolar dos acontecimentos desse grupo chegou até nós através de um pequeno livro, Sha'alu Shalom Yerushalayim ("Orai pela Paz de Jerusalém", Berlim, 1716), escrito por Gedaliah de Siemiatycze, um dos seguidores de Rabi Yehudá Ha-Chassid. No livro, Gedaliah descreve a aliá de Rabi Yehudá e seu grupo, sua chegada em Jerusalém, a morte de seu líder, as obras no pátio após sua aquisição, bem como a opressão por parte das autoridades que lhes extorquiram uma soma incalculável na forma de impostos e subornos inescrupulosos.Relata, também, como, no decorrer da construção, diferentes pashás passaram a exigir o pagamento de somas cada vez mais altas, levando os judeus a tomar dinheiro emprestado dos árabes a juros altíssimos. Afundaram-se cada vez mais em dívidas e, apesar dos esforços para obter recursos no exterior, a situação se deteriorava a cada ano.

Em 1720, os credores árabes exigiram dos judeus o pagamento de todas as dívidas, ameaçando confiscar suas propriedades e matar a todos se as mesmas não fossem quitadas. A comunidade não conseguiu recursos para fazê-lo e, em 1721, uma turba enfurecida arrasou a sinagoga, queimando os Sifrei Torá. A partir de então, o local ficou em ruínas e se tornou conhecido como Hurvat Yehudá Ha-Chassid. Depois o nome foi abreviado para "a Hurva", ou "a Ruína".

Os otomanos culparam todos os judeus asquenazitas pela confusão, responsabilizando-os, coletivamente, pelas dívidas. Expulsaram-nos da cidade, confiscaram suas casas e propriedades. Um decreto otomano passou a proibir a qualquer judeu de origem asquenazi de viver em Jerusalém até que a dívida fosse saldada. A penalidade para quem infringisse a lei era a morte. Por quase um século não houve judeus dessa origem morando na cidade.

Em 1816, o Rabi Menachem Mendel of Shklov chega a Jerusalém, vindo de Safed, com a esperança de obter um "firman", um decreto otomano eximindo os ashquenazim de todas as dívidas. Esperava, também, conseguir uma autorização para reconstruir a sinagoga. Discípulo do Gaon de Vilna, o Rabi pertencia a um grupo conhecido como os Perushim, que haviam emigrado da Lituânia para Eretz Israel entre 1809 e 1812, radicando-se primeiramente em Safed.

Não foi fácil convencer as autoridades. Um renomado rabino foi à Istambul para negociar com os turcos o fim do decreto e lideranças sefaradim - que então mantinham boas relações com as autoridades muçulmanas - intervieram junto às mesmas. Por fim, as autoridades otomanas emitem o firman, absolvendo os asquenazitas de todas as dívidas em aberto. O próximo passo era conseguir a permissão para reconstruir a sinagoga. Finalmente, obtiveram um documento legal com a descrição de todo o terreno da Hurva adquirido em 1700, inclusive as acomodações já dilapidadas e as lojas construídas pelos herdeiros dos credores em parte do terreno. Em 1820, a sinagoga e o pátio ao redor foram considerados propriedade judaica, mas a construção nunca se materializou.

Mudanças geopolíticas

Em 1830, em uma de suas campanhas militares, Mohammed Ali Pachá, do Egito, conquista aos otomanos a então Palestina e a Síria. Ao assumir o controle sobre Jerusalém, Mohammed Ali Pachá concede aos judeus permissão apenas para a realização de reparos nas sinagogas existentes na cidade. Insatisfeitos, os Perushim - liderados pelo rabino lituano Shlomo Zalman Tzoref - conseguem o apoio dos cônsules russo e austríaco. Depois de meses de negociação, obtêm permissão para a construção. Após arrecadar recursos, iniciam, em 1836, a construção de uma pequena casa de orações. Já no ano seguinte, inauguravam a Sinagoga Menachem Zion. No entanto, apesar do novo nome, o local continuava a ser chamado de Sinagoga Hurva. Quando, quatro anos mais tarde, os turcos otomanos reassumiram o controle sobre a região, não alteraram o status quo dos judeus asquenazitas que viviam em Jerusalém, cujo número aumentara muito após o terremoto que sacudira Safed, em 1837. A comunidade asquenazita carecia de uma sinagoga maior. O assunto novamente caiu nas mãos de Rabi Shlomo Zalman Tzoref, que, em conjunto com o empenho de Sir Moses Montefiore e a ajuda dos cônsules britânicos em Jerusalém e Istambul, obteve, em 1856, junto ao sultão otomano, um novo firman que favoreceu a construção de uma sinagoga de maiores proporções.

Em abril daquele ano foi colocada a pedra fundamental do que viria a ser a magnífica Sinagoga Hurva. Estiveram presentes à cerimônia o Rabi Shmuel Salant e o Barão Alphonse J. de Rothschild, irmão de Edmond J. de Rothschild. A sinagoga foi denominada Sinagoga Beit Yaakov em homenagem ao seu pai, James (Yaakov) Rothschild. No entanto, continuou a ser conhecida como Sinagoga Hurva. À medida que progrediam as obras, foram-se esgotando os fundos, levando a construção a demorar oito anos além do previsto.

A contribuição de maior vulto veio de Yechezkel Reuben, judeu de Bagdá, que doou 100 milhões de piastras. Seu filho, Menashe, e sua filha, Lady Sassoon, complementaram, posteriormente, a sua contribuição. As doações das duas famílias, Reuben e Sassoon, em conjunto, cobriram mais da metade do custo da sinagoga, marcando um importante passo na união das comunidades sefarditas e asquenazitas da cidade. Outro importante doador foi o Rei Frederick William IV, da Prússia, cujo nome foi gravado no frontão acima da entrada, ao lado dos demais benfeitores. Além disso, ele deu permissão para que se coletassem fundos de seus súditos judeus.

Em agosto de 1865, foi finalmente inaugurada a sinagoga, projetada em estilo neo-bizantino pelo arquiteto-mór do Sultanato, Assad Effendi. A fachada do prédio, de 45 metros de altura, era toda em pedra finamente trabalhada. O edifício continha um teto abobadado, que se elevava a 25 metros do solo, sustentado por quatro grandes arcos. Um detalhe que impressionava na Hurva era a sua altura, bem acima das ruelas e residências da Jerusalém de outrora. A luz penetrava na sinagoga através de 12 janelas na base da abóbada e de duas fileiras de amplas janelas incrustadas nas paredes do santuário. Suas paredes eram revestidas com desenhos e motivos decorativos de nossa tradição, tais como o Maguen David, a Menorá, o Monte Sinai e as Tábuas com os Dez Mandamentos. A bimá era coberta por placas de mármore e a Arca Sagrada consistia de quatro colunas elaboradas ao estilo coríntio e era decorada com entalhes barrocos. A Arca Sagrada e suas portas foram trazidas a Jerusalém da Sinagoga Nikolaijewsky, de Kherson, na Rússia.

Orgulho e símbolo da comunidade judaica asquenazi de Jerusalém, a Hurva foi um dos seus principais centros espirituais e comunitários. Em seus dias de glória, sediou os históricos discursos de Theodor Herzl e do Rabi Avraham Kook sobre a sorte do judaísmo europeu. Foi lá, também, que Zeev Jabotinsky promoveu o ato de alistamento de jovens para a Brigada Judaica; e, em seu pátio, tremulou a bandeira dessa unidade quando os britânicos conquistaram Jerusalém. Grande parte dos principais acontecimentos da vida judaica de Jerusalém foram realizados entre suas paredes até 1948, quando mais uma vez se desfez em ruínas.

Na batalha pela Cidade Velha de Jerusalém, na Guerra de Independência, os combatentes da Haganá estabeleceram uma posição defensiva dentro da Sinagoga em seu pátio. A sinagoga foi um dos últimos redutos da resistência judaica contra as forças inimigas, mas não conseguiu deter seu avanço. Para capturar os combatentes da Haganá, os soldados da Legião Árabe da Jordânia estouraram a parede em volta da Sinagoga e, após muita luta, conseguiram entrar. Os legionários árabes tentaram subir até ao topo da abóbada para plantar uma bandeira jordaniana. Três deles foram baleados pelos franco-atiradores da Haganá, mas o quarto conseguiu chegar ao topo. A bandeira jordaniana tremulando sobre o horizonte da Cidade Velha assinalava o triunfo da Legião Árabe. Em seguida mandaram pelos ares a sinagoga. O comandante jordaniano que comandou a operação, ao que se conta, disse a seus superiores: "Pela primeira vez em mil anos, nenhum judeu permanecerá no Bairro Judeu. Nenhum prédio permanecerá intacto. Isto impossibilitará o retorno dos judeus a esta terra".

As palavras proferidas pelo líder militar jordaniano foram desmentidas 19 anos depois, quando, durante a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, as Forças de Defesa de Israel reconquistaram e reunificaram Jerusalém.

A Praça Hurva, na qual jaziam as ruínas da antiga sinagoga, voltava triunfalmente às mãos de seu verdadeiro dono, o povo de Israel. Traçaram-se inúmeros planos e projetos para reconstruir no local a sinagoga Hurva. Segundos arquitetos famosos, se deveria construir uma estrutura moderna e arrojada.

Como não se chegava a nenhuma solução permanente, optou-se por algo simbólico, recriando-se, em 1977, um dos quatro arcos que originalmente sustentavam a monumental abóbada da sinagoga. Um arco em pedra, com 16 metros de altura, foi erguido no local onde outrora se erguia o saguão central da sinagoga. Junto com as ruínas do edifício e as placas explicativas, ele servia de triste lembrança do que ali outrora existira.

O imponente arco tornou-se o símbolo da Sinagoga Hurva. Finalmente, em 2005, a Empresa para a Reconstrução e Desenvolvimento do Bairro Judeu, financiada pelo governo, convenceu as autoridades a destinarem a verba de US$ 6,2 milhões para a reconstrução da antiga sinagoga. O novo edifício teria capacidade para 200 pessoas, no setor masculino, e 60 no segundo andar, para o setor feminino.

O arquiteto de Jerusalém, Nahum Meltzer, foi comissionado para o trabalho, recebendo a incumbência de se ater ao máximo ao desenho do século 19, de Assad Effendi, tanto em seus detalhes internos quanto externos. Segundo ele, o trabalho de reconstrução pôde ser feito graças a estudos detalhados de suas ruínas, fotografias e testemunhos orais e escritos. "A precisão das informações permitiu que a restauração fosse feita e garantiu o seu brilho passado.

Pela memória histórica do povo judeu e em respeito à arquitetura da Cidade Velha, era mais do que justo que se reconstruísse a Sinagoga Hurva da exata maneira como era no passado. Assim foi possível restaurar sua glória perdida".

Bibliografia

Kroyanker David, Jerusalem Architecture

"The Hurva Synagogue: Heart of the Jewish Quarter", artigo publicado no site http://www.jerusalem.com

"Hurva Synagogue to be Rebuilt", artigo publicado por Hillel Fendel no site http://www.israelnationalnews.com