Morashá
A sinagoga da casa marcada Foto Ilustrativa

A sinagoga da casa marcada

No registro das histórias de sobreviventes judeus do Holocausto, do arquivo virtual sobre o holocausto, um artigo de jornal (abaixo reproduzido) publicado em Budapeste chamou a atenção da Profa. Rachel Mizrahi. O texto, traduzido por Jorge Feldman, expressa com beleza a religiosidade de famílias judias na cidade húngara ocupada por tropas nazistas em 1944.

Edição 65 - Setembro de 2009


O autor, Lengyel István, foi testemunha da coragem de Luiz Schwarcz, um tapeceiro judeu que, ao organizar Rosh Hashaná em sua casa, transformada em sinagoga clandestina, demonstrou "que acreditava mais em D'us do que temia a morte"1.

Assim relata István em seu artigo publicado no "Uj Elet" em setembro de 1964:

"Ascendem pela 20ª vez, livremente, as orações de nossas sinagogas neste Ano Novo da expiação e, também, da recordação. Recordação das Grandes Festas judaicas dos idos de 1944, quando cerradas estavam as sinagogas e, em seus interiores, apagadas as lamparinas simbólicas do culto. O fascismo expulsara os judeus das suas sinagogas, maculadas e conspurcadas pelas suas hordas ferozes. Milhares perderam suas vidas. Os vivos, porém, em desafio ao extremo perigo, preparavam-se com crescente ardor para as tradicionais comemorações que se realizam com orações coletivas. A comunidade judaica de Budapeste, rigorosamente confinada em "casas marcadas" (com as Estrelas de David), alimentava alguma esperança de que as autoridades suspenderiam o confinamento durante a época das Grandes Festas, liberando a freqüência às sinagogas não ocupadas. Julgava-se que o governo, na eminência do avanço soviético, tomaria providências ocasionais que permitissem o culto religioso. Quando, porém, evidenciou-se a inutilidade daquela esperança, iniciou-se singular movimentação nas "casas marcadas" e, onde possível, foram elas adaptadas em "casas de oração", para o culto das grandes festividades.

Testemunhei, 20 anos atrás, a instalação de uma dessas "sinagogas domiciliares" no terceiro andar de um edifício de apartamentos à rua Paulay Ede, 43; participei mesmo, das confabulações que precederam à sua concretização, quando os mais receosos temiam que as orações coletivas pudessem ser consideradas "reuniões de cunho coletivo", então rigorosamente punidas. Por esse motivo, precedentemente à instalação das "casa de oração" nas dependências dos "lares marcados", foram formuladas consultas ao Conselho Judaico quanto à incidência de tais práticas nas proibições governamentais.Como, de costume, a resposta veio omissa e indefinida, limitando-se a expressar o desconhecimento de qualquer resolução proibitiva de cultos coletivos. Onde, porém, o espírito religioso sobrepujasse ao temor pelas conseqüências, como em nosso edifício à rua Paulay Ede, deu-se início aos preparativos, sem mais delongas.

A sinagoga foi instalada na residência "marcada do tapeceiro Luiz Schwarcz". A escolha surgiu de decisão unânime, não só porque "seu" Adolpho, pai do tapeceiro, fosse um judeu religioso notoriamente de vida ilibada, como também porque a família era a única no edifício que possuía uma Torá. E ainda porque seu filho André e as duas filhas assumiram a execução das adaptações. Todos os móveis da grande sala da frente foram removidos, com exceção da estante: desta foram retirados os livros e abertas as duas folhas de portas. Seu vão interno foi vedado com uma cortina afixada em sanefa de cobre clandestinamente retirada por André da oficina paterna, interditada pelas autoridades. De trás dessa cortina adornada com a Estrela de David tecida pelas meninas Schwarcz em fios de ouro, surgiram durante o culto festivo, os Rolos Sagrados, o Sefer Torá retirados pelas mãos do velho Schwarcz. Uma alta escrivaninha-balcão subtraída do abandonado escritório de um comerciante fora recoberta de alvo tecido brilhante, igualmente subtraído da tapeçaria.

O vizinho Dezzõ Rado, tradicionalista do culto, colocara duas velas laterais, obtendo-se, assim, improvisada mesa de orações. André retirou a porta divisória entre a sala e o quarto e, em seu lugar, afixou uma tela de organdi que, qual improvisada cortina, dividiu o recinto destinado às mulheres. Quando Schwarcz e Rado, nosso correligionário mais versado no culto hebraico no brilho de suas vestes cerimoniais, retiraram a Torá, súbito e incomum silêncio fez-se na sinagoga. Esquecemos, por momento, que éramos prisioneiros sob a mira de assassinos diante dos quais nossa arma única era a esperança na proximidade das tropas libertadoras. Estávamos unidos nessa esperança e o profundo silêncio deixava ouvir em derredor a ruína das muralhas do cativeiro. A tristeza e a esperança, comum ao destino judaico, amalgamavam-se em lamentos, na ascensão aos céus.

Inesquecivelmente belo foi o culto daquele Ano Novo e do Yom Kipur que o sucedeu.... Evoca aquelas comemorações de 20 anos atrás o filatelista Kauffman, único participante masculino que ainda vive no mesmo edifício. "Sou religioso praticante e, quando me permite a saúde de octogenário, faço minhas orações diárias na sinagoga e jamais faltei aos brilhantes cultos das Grandes Festas celebradas na grande sinagoga da rua Kohany. Não obstante evoco as realizadas em 1944 em nosso edifício, como o acontecimento espiritual e religioso máximo de minha vida; ainda evoco o inspirado semblante de Luiz Schwarcz (posteriormente martirizado) e dos demais participantes e lhes ouço as preces. Assim também as mulheres ainda aqui residentes que, 20 anos atrás, rezaram por trás da cortina de organdi.

A outrora "casa da estrela" de três quartos se acha, hoje, subdividida e, por isso, em vão se procuraria o local daquela sinagoga de 1944. Sua lembrança, porém, perdura em nossos corações, como também os cultos realizados sob as mesmas condições em outras "casas marcadas" nas quais não havia órgão, nem se elevavam coros litúrgicos, nem brilhavam naves monumentais em festiva iluminação, mas tão somente, os suspiros das almas crentes se elevavam às alturas como pálidos sinais de uma luz de esperança que se aproximava na noite sombria do nazismo2. "

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Prevalecendo antigo sentimento anti-semita, a Hungria - em especial a classe militar - deu pleno apoio à Alemanha, assim que o partido nazista ascendeu ao poder. Depois da anexação da Áustria, a Hungria passou de forma direta a manter contato com a política do Nacional Socialismo alemão. A ajuda prestada às tropas nazistas na conquista da então Tchevoslováquia permitiu a anexação de novas áreas ao território húngaro, onde existiam várias comunidades judaicas.

Os judeus da Hungria, pertencentes à média e alta classe, constituíam uma das mais organizadas comunidades da Europa, ligados às profissões liberais, à cultura e às artes. Em assimilação acelerada, a maioria se identificava com os magiares. A legislação discriminatória advinda da aliança com a nova ordem alemã impediu a finalização do processo integrativo, reforçando o conteúdo sócio-cultural tradicional judaico das comunidades.

Assim que o segundo conflito mundial teve início, os judeus, convocados para prestarem pesados serviços ao exército (inclusive limpeza de campos minados), surpreenderam-se com a brutalidade, violência e corrupção dos militares e do povo húngaro. Nos "batalhões de trabalho forçado", assistiram ao morticínio efetivado pelos Einsatzgruppen que operavam em regiões da Rússia ocupadas pelos nazistas. Apesar de encaminhados aos trabalhos pesados, os 200 mil judeus de Budapeste mantinham vida mais ou menos normal, permanecendo junto da população civil, apesar das solicitações alemãs para transferi-los para áreas orientais.

A pressão alemã em relação à população judaica na Hungria tornou-se urgente e prioritária. Em março de 1944, quando Adolf Eichmann se instalou em Budapeste, ordens exigiram o uso da braçadeira amarela identificadora. Logo depois a Hungria foi ocupada por tropas alemãs, sem que um tiro fosse disparado. As melhores casas de judeus foram expropriadas e seus donos enviados para destino desconhecido. Procedeu-se, em primeiro lugar, a expulsão dos judeus das comunidades do interior. Os de Budapeste foram cerceados em duas mil casas especiais, marcadas com a Estrela de David.

O encaminhamento massivo dos judeus a Auschwitz teve início, assim que foram concentrados logo depois de instalados em dois grandes guetos da cidade3. O número e as dificuldades em transportá-los levaram Adolf Eichmann a ordenar que parte do grupo fosse conduzida a pé até a fronteira alemã. Enquanto a população disputava e saqueava suas propriedades, cerca de 76 mil judeus caminharam 30 a 40 quilômetros diários, em direção aos campos de extermínio, sob a brutal supervisão das tropas húngaras. Dos 427 mil judeus húngaros exterminados em Auschwitz, 1.648 foram enviados ao campo de Bergen-Belsen.

Pequeno histórico da família Schwarcz

Ao ser encaminhado para Bergen-Belsen, Luiz Schwarcz conseguiu salvar seu filho André, fazendo-o escapar do trem entulhado de homens. Por causa de um defeito, o trem parou tempo suficiente para que o pai jogasse o filho por uma fresta, gritando que fugisse. André chegou a uma fazenda, próxima da ferrovia, onde se escondeu. Posteriormente, ao sair do esconderijo, conseguiu que o fazendeiro lhe fornecesse roupas. Retornando a Budapeste,integrou-se à Resistência, onde aprendeu a reproduzir passaportes falsos. Ao ser descoberto, foi enviado a um campo de trabalhos forçados, onde foi torturado.

Poucos dias antes do final da guerra, seu carcereiro, por motivos que ignora, deu-lhe liberdade, recomendando-lhe fugir. Depois do conflito, na Itália, a conselho de um amigo, embarcou em 1947 para o Brasil. Suas irmãs conseguiram refugiar-se na Austrália. Reencontrou sua mãe somente em 1955. Anos mais tarde, em viagem à Europa com a esposa, soube que seu pai Luiz morrera assim que o campo de Bergen-Belsen foi libertado.

1 Luiz Schwarcz: "Minha vida de goleiro". São Paulo: Companhia das Letrinhas - Coleção Memória e História. 2004, pág. 28 e segs. 
2 O artigo foi entregue a André Schwarcz em Viena por um amigo de seu pai - o último a vê-lo vivo. Recebi, gentilmente, este artigo de Mirta Schwarcz, sua esposa. 
3 Moshe Sandberg: "Meu ano ma

Rachel Mizrahi é Pesquisadora Doutora do Laboratório de Estudos sobre a Etnicidade e Racismo - LEER/USP.