Morashá
A história e a família do 'Anjo de Hamburgo' Foto Ilustrativa

A história e a família do 'Anjo de Hamburgo'

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa ganhou o nome de ‘Anjo de Hamburgo’ por salvar centenas de judeus do nazismo, ignorando leis anti-semitas e conseguindo vistos que abriam caminho para refúgio no Brasil. Atos de coragem e de heroísmo se desenrolaram no consulado brasileiro da cidade alemã onde ela trabalhava no setor de passaportes e onde conheceu o diplomata e escritor João Guimarães Rosa, com quem se casou.

Edição 60 - Abril de 2008


Aracy de Carvalho Guimarães Rosa ganhou o nome de "Anjo de Hamburgo" por salvar centenas de judeus do nazismo, ignorando leis anti-semitas e conseguindo vistos que abriam caminho para refúgio no Brasil. Atos de coragem e de heroísmo se desenrolaram no consulado brasileiro da cidade alemã onde ela trabalhava no setor de passaportes e onde conheceu o diplomata e escritor João Guimarães Rosa, com quem se casou.

Morashá reuniu, no final de março, representantes de três gerações de descendentes de Dona Aracy para falar, no ano em que ela completa 100 anos de vida, sobre a história e a personalidade da paranaense nascida na cidade de Rio Negro.

Vítima do mal de Alzheimer, Aracy Guimarães Rosa mora desde meados dos anos 1990, quando deixou o Rio de Janeiro, no apartamento do filho Eduardo, no bairro paulistano dos Jardins. A saúde debilitada significa um cotidiano de isolamento, ao lado da família, que se dedica cada vez mais aos esforços para organizar e registrar a memória de uma vida que, em nome de firmes valores, desafiou também a repressão militar no Brasil no final da década de 1960.

Por meio de suas iniciativas, os descendentes do "Anjo de Hamburgo" buscam contribuir com pesquisadores que mergulham na tarefa de documentar a trajetória de uma mulher que tinha a discrição como uma de suas características mais marcantes. A neta Vera Tess, psiquiatra, relata que apenas em sua idade adulta tomou contato em mais detalhes com a epopéia de sua avó durante o nazismo. "Acho que notei a dimensão exata da história, de que ela tinha feito algo mais especial, depois de algumas homenagens a ela feitas pela comunidade judaica em São Paulo, em particular uma cerimônia realizada com jovens empenhados em não esquecer a história", relata Vera Tess.

Uma data marcante da trajetória é 1934, quando Aracy, depois de se separar do primeiro marido, de sobrenome Tess, decidiu viajar para a região de Hamburgo, onde morava uma irmã de sua mãe. Levou o filho Eduardo, então com cinco anos de idade. A fluência em alemão, francês e inglês ajudaram-na a conseguir um emprego no consulado brasileiro daquele movimentado porto alemão.

O hoje advogado Eduardo de Carvalho Tess relembra os momentos em que a barbárie nazista apertava o cerco contra a comunidade judaica e menciona a Noite dos Cristais, quando a 9 de novembro de 1938, sinagogas, residências e lojas foram destruídas na Alemanha e na Áustria. Cerca de 90 pessoas foram assassinadas. "No dia seguinte, nas ruas principais de Hamburgo, eu vi vidros e vidraças quebradas, já que morávamos num bairro bastante central. Perguntei o que tinha acontecido e estranhei muito, isso ficou gravado em minha memória", conta ele.

Aracy, em sua estratégica posição de funcionária do consulado brasileiro, mergulhava na tarefa de conseguir vistos para que judeus pudessem viajar ao Brasil, ignorando, assim, determinações contrárias que vinham do governo brasileiro no final da década de 1930. As ações de Aracy incluíam obter, com a ajuda de um funcionário da polícia de Hamburgo, passaportes sem a identificação da condição de judeus para facilitar a fuga. Aracy, segundo relatos, também enfiava os vistos em meio ao calhamaço de papéis que levava para despachar com o cônsul-geral, que acabava assinando-os sem ler.

O "Anjo de Hamburgo" ajudou a esconder judeus, a levar-lhes alimentos e a transportá-los secretamente. Refugiados relataram que ao escapar de navio eram escoltados a bordo pela funcionária do consulado brasileiro, que ainda levava jóias e dinheiro dos viajantes em sua bolsa para evitar que os bens fossem confiscados pelos nazistas.

Em 1938, João Guimarães Rosa chegou ao consulado para trabalhar como cônsul-adjunto. Soube das atividades de Aracy. Casaram-se em 1940, no ano seguinte ao início da 2ª Guerra Mundial. Ainda sobre a atuação do "Anjo de Hamburgo", comenta Eduardo Tess: "Não era um assunto de conversa naquela época. Mas eu ouvia minha mãe dizer alguma coisa a conhecidos, a amigos".

Em 1942, Aracy e João Guimarães Rosa, depois de enfrentarem dificuldades com autoridades nazistas e da declaração de guerra brasileira à Alemanha, retornaram ao Brasil, para morar no Rio de Janeiro. No ano anterior, Eduardo havia se mudado ao país natal e, com a vida organizada na capital paulista, decidiu fincar raízes em São Paulo. Apesar do contato freqüente com a mãe e da derrota imposta aos nazistas, a discrição continuava a envolver a atitude de Aracy em relação aos episódios de Hamburgo. Ela pouco falava sobre aqueles dias em que colocou a sua vida em risco.

Indagado sobre os motivos da atitude de sua mãe, Eduardo opina não se tratar apenas de um traço de personalidade. "Eu acho que ela não se sentia uma heroína. Numa cerimônia aqui da comunidade judaica, em homenagem a ela, um rapaz perguntou à minha mãe por que ela se dedicou aos judeus, já que ela não é judia. E minha mãe respondeu que tinha feito aquilo porque somos todos irmãos."

"Eu creio que tinha essa questão da naturalidade", avalia a neta Vera. "Ela achava que era isso que tinha de ser feito". No âmbito familiar, a história do "Anjo de Hamburgo" ganhava um tratamento de excessiva discrição. A bisneta Sophia MacInnes Tess, 21 anos e estudante de cinema, lembra que ouvia sobre a história de Aracy nos tempos da Alemanha, mas em geral dentro de um contexto mais amplo. "Meu pai me falava mais disso, e também de como ela escondeu o (cantor e compositor) Geraldo Vandré em sua casa no Rio de Janeiro". Eram tempos da repressão militar em solo brasileiro.

Dona de fortes convicções, Aracy quebrou barreiras ao se separar numa época em que o casamento era uma instituição bem mais preservada do que atualmente. Na década de 1930, tampouco o trabalho feminino despontava como um fato corriqueiro. "Embora trabalhasse, minha mãe acompanhava de perto a minha educação, era enérgica, brava", rememora Eduardo. Há relatos de ela ter enfrentado policiais alemães de dedo em riste, em pleno domínio nazista.

Vera fala com ternura de uma avó que define como "muita carinhosa e muito disciplinadora". A neta recorre a memórias de infância para exemplificar o comportamento de Aracy. "Minha irmã e eu costumávamos passar as férias de verão com ela, no Rio de Janeiro. Enquanto a maioria das pessoas ficava na praia das 11 da manhã às 5 da tarde, passando óleo de bronzear, nós tínhamos de chegar às 7 da manhã para voltar para casa duas horas mais tarde, pois a minha avó já alertava, mais de 30 anos atrás, para os riscos da exposição excessiva ao sol, enquanto pouca gente ligava para isso".

Sophia, a bisneta, conta que Aracy, apesar das convicções claras, nunca assumiu o estilo doutrinadora. "Eu a vejo muito mais como um exemplo do que como alguém que fica falando, vejo como exemplo de uma pessoa corajosa, que quebrava barreiras".

Em 8 de julho de 1982, o Yad Vashem, Museu do Holocausto em Jerusalém, incluiu Aracy de Carvalho Guimarães Rosa na lista dos "Justos entre as Nações", homenagem a não-judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus do Holocausto. Em 1985, na sua última viagem internacional, Aracy visitou Jerusalém, onde há uma placa de mármore eternizando seus atos heróicos nos tempos do nazismo.

Uma exposição do Yad Vashem contribuiu para destacar o trabalho de Aracy. Sob o título "Vistos para a Vida", ela reuniu a história de 18 diplomatas que salvaram judeus durante o Holocausto, fornecendo-lhes papéis para que chegassem a um destino seguro. São as sagas, por exemplo, do sueco Raoul Wallenberg, que atuou na Hungria, e do japonês Chiune Sugihara, que chefiou um consulado na Lituânia. Na lista da exibição do Yad Vashem, Aracy desponta como a única mulher.

Diversas homenagens, no Brasil e no exterior, jogaram luzes sobre a vida de uma mulher discreta que foi chamada de "Anjo de Hamburgo". Um fenômeno literário como "Grande Sertão: Veredas", publicado em 1956, também oferece, logo de início, uma menção a ela: "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro". Assim escreveu João Guimarães Rosa.

O jornalista Jaime Spitzcovsky é editor do site www.primapagina.com.br. Foi editor internacional e correspondente em Moscou e em Pequim.