Morashá
A epopéia dos Vingadores Foto Ilustrativa

A epopéia dos Vingadores

A trajetória do poeta Abba Kovner é uma das menos conhecidas e uma das mais extraordinárias nos sombrios anais do holocausto.

Edição 50 - Setembro de 2005


Na década de 30, a cidade de Vilna, capital da Lituânia, tinha uma vida religiosa, artística, literária e cultural judaica tão rica e efervescente que era chamada de "a Jerusalém da Lituânia". Nascido em 1918, em Sebastopol, na Rússia, foi ali que chegou, com sua família, o menino Abba Kovner. Ele logo se destacou na escola judaica local por seus escritos dotados de rara inspiração poética. Rapaz crescido, já era considerado um poeta de longo alcance e, ao mesmo tempo, ganhou proeminência na comunidade como um dos líderes do movimento juvenil sionista Hashomer Hatzair (Jovens Guardiães).

No dia 19 de setembro de 1939, pouco depois do início da 2ª. Guerra Mundial, Vilna foi ocupada e incorporada à União Soviética. Inconformado, Kovner começou a organizar um movimento clandestino de resistência, sempre acompanhado por duas jovens, também do Hashomer, Ruzka Korczak e Vitka Kempner. Os três eram como uma só pessoa, afinados com a mesma ideologia e unidos por uma amizade granítica.

No dia 24 de junho de 1941, dois dias depois de a Alemanha invadir a Rússia, quebrando o pacto firmado entre Hitler e Stalin, os nazistas irromperam em Vilna, onde viviam cerca de 80 mil judeus, logo submetidos aos procedimentos iniciais do que viria a ser a "Solução Final". Kovner e mais dezesseis companheiros do Hashomer, incluindo as duas moças, conseguiram escapar da cidade e encontraram refúgio, não muito distante da capital lituana, num convento de freiras dominicanas.

Os alemães começaram por reunir parte dos homens, dizendo-lhes que seriam levados para trabalhar fora da cidade. Entretanto, todos eram conduzidos para uma localidade chamada Ponar, onde eram executados a tiros e enterrados em valas comuns. Em seguida, os comboios também passaram a levar as mulheres para o mesmo lugar, perfazendo um total de mais de oito mil mortos. No início de setembro, os judeus foram confinados num gueto e, embora uma sobrevivente de Ponar lhes revelasse o que estava acontecendo, a maioria preferiu não acreditar.

Kovner e seus companheiros decidiram voltar para o gueto com a finalidade de organizar a resistência, contando com as pessoas que não se iludiam quanto à futura tragédia que os aguardava. Àquela altura, estavam diante de duas opções: seguir para Varsóvia ou Bialystok, em cujos guetos talvez encontrassem melhores condições para lutar, ou internar-se nas florestas circundantes. Kovner julgava que seria melhor permanecerem em Vilna, apesar de muitos judeus já terem abandonado a cidade.

Sua primeira tarefa consistiu em costurar uma coalizão dos diferentes movimentos juvenis sionistas que, apesar das dramáticas circunstâncias enfrentadas, persistiam em suas diferenças ideológicas. Era uma tarefa difícil porque a permanente vigilância dos alemães impedia que os judeus se reunissem em grupos. Contudo, foi na noite do dia 31 de dezembro que, aproveitando um relaxamento da vigília, Kovner conseguiu reunir 150 jovens no número 2 da rua Zuna, onde funcionava um refeitório de distribuição gratuita de comida. Ali procedeu à leitura de um ardente manifesto: "Juventude judaica! Não acredite naqueles que nos pretendem enganar. De nossos 80 mil compatriotas, aqui só restaram 20 mil. Ponar não é um campo de trabalho, é um lugar destinado a assassinatos. O plano de Hitler consiste em eliminar todos os judeus da Europa e nós, de Vilna, estamos na linha de frente. Mas, não nos deixaremos levar como cordeiros para os matadouros! É verdade que estamos indefesos, porém a única resposta que temos para as execuções é a rebelião! Irmãos! Melhor cair como guerreiros do que viver à mercê dos assassinos. Levantem-se! Ergam-se com suas últimas forças!" A resposta inicial foi um longo silêncio. Em seguida, todos cantaram o Hatikva.

Como conseqüência, as diferentes facções sionistas se reuniram em meados de janeiro e, mais uma vez persuadidos por Abba, decidiram lutar juntos num movimento a que deram o nome de Fareinikte Partisaner Organizatsie (Organização Unida dos Partisans), cabendo o comando a três jovens: Joseph Glazman, pelo Betar; Itzhak Witenberg, pelos comunistas; e Abba Kovner, pelo Hashomer. A premência básica do grupo era obter armas e munições. Ao longo de um ano e meio de atividades clandestinas, foram conseguindo armamentos, comprando-os, roubando-os e até mesmo subornando soldados alemães. No dia 15 de julho de 1943, a Organização viu-se em estado de choque com a súbita prisão de Witenberg. Seus companheiros foram ao máximo da ousadia: atacaram o quartel alemão e o libertaram. No dia seguinte, os nazistas informaram que se Witenberg não se entregasse, os 20 mil habitantes do gueto seriam executados. Por um instinto natural de sobrevivência, os judeus se voltaram contra a juventude rebelde e passaram a atacar seus membros com pedras e paus. Mesmo sabendo que iria de encontro à tortura e à morte, Witenberg rendeu-se, deixando uma carta na qual nomeou Abba Kovner seu sucessor e comandante único da Organização Unida.

Um mês depois, os alemães resolveram liquidar o gueto, removendo todos que ali viviam. Kovner distribuiu folhetos incitando a que não cedessem, que resistissem. No entanto, os judeus continuavam acreditando que seriam levados apenas para trabalhar - o que de fato, e de modo surpreendente, aconteceu. Tiveram como destino campos de trabalhos forçados, na Estônia. Os alemães haviam cercado o gueto. Abba Kovner e seus companheiros fugiam através dos esgotos enquanto os prédios da cidade eram reduzidos a pó por tiros de canhões. Os jovens conseguiram chegar até a floresta e criaram uma aguerrida divisão de partisans, cujos atos de sabotagem incluíram a destruição da infra-estrutura alemã de redes de energia e de água, a libertação de prisioneiros de campos de concentração e explosivos detonados em trilhos de trens que conduziam tropas nazistas. Essas ações se prolongaram até o fim do conflito, do qual Abba, Ruzka e Vitka saíram vivos.

Depois de percorrer diversos caminhos na Europa destruída pela guerra, Abba Kovner foi parar em Bucareste, na Romênia, onde se aliou a emissários da Agência Judaica, vindos da antiga Palestina para promover a transposição de refugiados para a Terra Santa, apesar do bloqueio imposto pelos mandatários britânicos. No Pessach de 1945, ele celebrava o Seder com seus companheiros de luta quando, no final da cerimônia, leu o Salmo 94: "Pois o Senhor não rejeitará o seu povo, nem desamparará a sua herança. Mas o juízo voltará a ser feito com justiça e hão de o seguir todos os retos de coração. Quem se levantará por mim contra os malfeitores? Quem se colocará ao meu lado contra os que praticam a iniquidade?" E tornou a repetir o primeiro verso: "Ó, Senhor, D'us da vingança, ó D'us da vingança, resplandece!" Em seguida, completou: "É verdade que a guerra acabou, mas não deve acabar para os alemães. Chegou a hora em que eles devem sofrer. Os alemães que mataram os judeus devem pagar com suas próprias vidas". Em suma, fixava-se no conceito do "olho por olho" e convocou os presentes para integrar uma nova organização: os "Vingadores". Em menos de uma semana, o grupo já contava com mais de 50 participantes, comandados por cinco pessoas, entre as quais Vitka e Abba, que assim propunha seu ponto de vista: "A destruição não esteve em torno de nós, mas dentro de nós. Não imaginávamos que sobreviveríamos e não teremos o direito de seguir em frente enquanto não acertarmos as contas com os alemães". Um de seus combatentes, chamado Gabik Sedlis, especialista no gueto em falsificar documentos, disse-lhe que partiria para os Estados Unidos, onde tinha parentes. Ouviu o seguinte: "Por que você acha que sobreviveu? Porque é mais esperto do que aqueles que morreram? Você sobreviveu por uma só razão: porque teve sorte. Portanto, sua vida não lhe pertence, pertence a nós". Muitos anos depois, Sedlis diria a um jornalista em Nova York, onde trabalhou como arquiteto: "Eu tive que ficar. Eu queria dizer 'não', mas quem conseguia dizer 'não' a Abba Kovner?"

Kovner julgava que a vingança deveria ser anônima. Ele desaprovava as ações de judeus vindos da então Palestina e outros mais que perseguiam os criminosos de guerra nazistas pela Europa e, quando os encontravam, os assassinavam. Dizia que tais atos eram demasiadamente pessoais porque reconheciam os nazistas como indivíduos, permitindo-lhes estar face a face com seus executores, algo que os alemães jamais haviam feito com os judeus. E também não era a favor dos tribunais, fossem internacionais ou alemães, que submetiam aqueles carrascos a julgamento, porque achava que eles deviam ser executados da mesma forma desumana com que haviam matado os judeus.

Os membros dos "Vingadores" foram incumbidos de se espalhar pelas cidades alemãs que continham maiores valores simbólicos para os nazistas: Munique, Berlim, Weimar, Nuremberg e Hamburgo. Nessas localidades, valendo-se de documentos falsificados, deveriam procurar empregos em seus sistemas de distribuição de água. A um dado sinal simultâneo, fechariam as comportas de abastecimento dos bairros onde viviam estrangeiros e colocariam grandes porções de veneno no restante da água, de modo a atingir toda a população alemã. Era o que Abba chamava de "Plano A". Um "Plano B" seria subseqüente, tendo como alvo altos oficiais nazistas detidos em campos de detenção controlados pelos aliados, e consistia em envenenar os pães que lhes seriam fornecidos. A determinação de Kovner era inabalável: mesmo que os dois planos viessem a falhar, a história registraria que os judeus tinham tentado vingar seus mortos.

Certa ocasião, em Bucareste, Vitka avistou um caminhão militar que tinha, de um lado, a bandeira da Grã-Bretanha e, do outro, uma bandeira azul e branca com a estrela de Davi no meio. Os soldados confraternizavam com os refugiados e lhes diziam palavras de encorajamento. O veículo era proveniente de Ponteba, uma pequena cidade ao norte da Itália, onde havia sido instalado um quartel da Brigada Judaica da Palestina, agregada ao exército inglês. Abba decidiu partir de encontro aos militares judeus na esperança de obter recursos e equipamentos para pôr em prática seus dois planos. Depois de uma atribulada travessia pela Europa ao lado de um companheiro, Joseph Harmatz, conseguiu chegar até Ponteba, sede dos cinco mil soldados do 3º Batalhão da Brigada Judaica. Deles ouviu relatos sobre suas participações no conflito, inclusive um episódio em que encontraram oficiais nazistas se fazendo de doentes num hospital aliado. Todos foram presos pelos militares judeus e levados à força para limpar uma sinagoga próxima que, antes, haviam conspurcado. A Brigada dava assistência a centenas de refugiados, fornecendo-lhes roupas, comida e medicamentos, celebrando as datas religiosas judaicas e mantendo uma escola onde as crianças aprendiam o idioma hebraico. Um dia, apareceu em Ponteba um velho amigo de Abba, chamado Lebke Distel, que ele vira pela última vez sendo empurrado para dentro de um trem, em Vilna. Lebke e um irmão, depois de mil peripécias e passagens por diversos campos de concentração, tinham conseguido escapar a caminho de Dachau e, depois, na Áustria, encontraram um soldado judeu que lhes informou que em sua base havia muitos sionistas de Vilna e que seu líder era um tal de Abba Kovner. Daí sua vinda para Ponteba onde, de imediato, juntou-se aos "Vingadores".

No verão de 1945, Abba se dirigiu aos militares da Brigada. Com a voz embargada pela emoção, relatou sobre os combates enfrentados pelos partisans a partir das florestas e seus atos de sabotagem. Fez apenas uma vaga referência a seus "Planos A" e "B", mas assim concluiu o discurso: "Se nós não nos vingarmos, quem nos vingará? Não posso prometer que os judeus jamais tornarão a ser assassinados. Mas lhes posso assegurar que nunca mais correrá sangue judeu que não corresponda a um ato de vingança". Quando os emissários da Agência Judaica tomaram conhecimento do "Plano A" e o aprovaram, sugeriram que Abba seguisse para a Palestina, disfarçado como militar britânico, onde encontraria apoio e poderia adquirir o veneno, já que na Europa tal compra despertaria suspeitas. Vitka seria deslocada para Paris, de onde coordenaria todas as ações. Ruzka já estava na Terra Santa, no kibutz Eilon, ao norte do país. Esperou por Kovner no porto de Haifa e quando soube do "Plano A", ficou chocada por sua brutalidade. Entretanto, acabou concordando e decidiu ajudar o companheiro. Ambos foram ao encontro de Meir Yari, líder do Hashomer Hatzair. Cauteloso, Abba apenas lhe relatou o "Plano B" e a resposta que ouviu foi desanimadora. Yari lhe disse que tinha muito a aprender com ele como morrer como herói, no entanto era mais importante que lhe ensinasse sobre o tipo de vida que deveria ser dado às futuras gerações judaicas. Abba Kovner bateu em diversas portas e todas foram-se fechando. O movimento sionista estava empenhado em obter, nas Nações Unidas, os votos necessários à criação de uma nação judaica independente. Uma ação como aquela proposta pelos "Vingadores" só serviria para prejudicar sua causa junto à opinião pública internacional. A única palavra de apoio que ouviu, referente apenas ao "Plano B", foi de Chaim Weizmann, que viria a ser o primeiro presidente do Estado de Israel: "Se eu fosse você, se tivesse passado por tudo o que você passou, faria a mesma coisa". Em seguida, Weizmann deu-lhe o endereço de um químico amigo, garantindo que este o ajudaria com o veneno, o que de fato aconteceu.

No dia 14 de dezembro de 1945, sempre vestindo um uniforme britânico e com a ajuda da Haganá (organização paramilitar judaica, anterior à fundação do Estado), Abba Kovner embarcou num navio rumo a Toulon, na França. Quando a embarcação já se aproximava do porto de destino, Abba ouviu seu nome falso ser chamado pelo alto-falante, para que se apresentasse ao capitão do navio. Jogou ao mar uma das latas que continha veneno e deixou uma segunda com um "Vingador" que o acompanhava, dando-lhe o endereço de Vitka em Paris. Foi imediatamente preso e levado de volta para uma prisão militar no Cairo. Durante os três meses em que ali permaneceu, uma só pergunta o atormentava: quem o teria denunciado? Essa indagação até hoje não tem uma resposta segura, mas acredita-se que tenha sido a própria Agência Judaica de Jerusalém, temerosa de que os planos de Abba, caso fossem bem sucedidos, pudessem aniquilar todo o seu esforço de relações públicas na arena internacional, a favor do estabelecimento de um futuro Estado de Israel.

Uma semana depois, em Paris, Vitka recebeu a lata do veneno, acrescida de um bilhete de Kovner: "Prossiga com o "Plano B". Ela se encontrou na Itália com Lebke, que seguiu para Nuremberg. Este juntou-se a dois outros "Vingadores" e, sob nome falso, conseguiu emprego numa padaria que fornecia pães para os nazistas presos no Stalag 13, controlado pelos americanos. Sua primeira intenção foi adicionar o veneno à massa dos pães, antes que entrassem no forno. Entretanto, a alta temperatura de certo dissolveria o veneno. Era preciso esperar que os pães esfriassem para injetar-lhes o arsênico e, mesmo assim, separando três mil pães pretos dos pães brancos que só os americanos comiam. Numa noite, burlando o vigia da padaria, os três "Vingadores" cumpriram sua tarefa. No dia seguinte, ficaram sabendo que centenas de oficiais nazistas tinham sido levados às pressas para um hospital. Os três logo se separaram e no dia 24 de abril de 1946, o jornal The New York Times publicou a seguinte notícia: "Autoridades do exército dos Estados Unidos informaram que 2.238 prisioneiros de guerra da elite alemã, confinados no Stalag 13, foram hospitalizados com sintomas de envenenamento. Garrafas com resíduos de arsênico foram encontradas numa padaria de Nuremberg que servia o campo". O jornal não noticiou nenhuma morte, talvez para salvaguardar a responsabilidade do exército americano, mas pesquisas posteriores, principalmente as publicadas num livro de 1977, America's Achilles Heel, deram conta das mortes de milhares de ex-oficiais nazistas naquele episódio.

Um mês depois, ainda ignorante de tudo a esse respeito, Abba Kovner foi transferido para uma prisão, na cidade velha de Jerusalém, e dali libertado sem que lhe dissessem uma só palavra. Escreveu para Vitka, recomendando que todos os "Vingadores" viessem para Eretz Israel porque novas batalhas se alinhavam no horizonte. Suas palavras implicitamente significavam: "Venham para casa". Parte do grupo conseguiu romper o bloqueio britânico e desembarcou na costa da Palestina. Foi ao encontro de Abba, esperando dele receber instruções para um "Plano C". Entretanto, este não existia. Abba havia enterrado o desejo de vingança junto com seu passado.

Após uma breve passagem pelo campo de detenção inglesa de Atlit, Vitka seguiu para o kibutz Ein Hachoresh, ao sul de Haifa, onde já estavam Abba e Ruzka. O kibutz havia sido fundado em 1920 por judeus vindos da Polônia, todos pertencentes ao Hashomer Hatzair. Em novembro de 1947, ao ser decidida pelas Nações Unidas a partilha da antiga Palestina, os judeus de Eretz Israel tinham a consciência de que logo deveriam enfrentar uma nova guerra. Um membro da Haganá, que havia ajudado Abba no ano anterior, foi procurá-lo pedindo que assumisse um posto de oficial na Brigada Guivati que se tornou uma das mais ativas e vitoriosas na Guerra da Independência, sobretudo ao conter na frente sul o avanço do exército egípcio. A missão de Abba Kovner, em função de seus excepcionais dons de oratória e de escritor, consistia em motivar os novos recrutas, muitos deles refugiados recém-chegados ao novo país. Além disso, voltou-lhe a determinação e a coragem dos partisans em sucessivos combates.

Finda a guerra, com a vitória de Israel, Abba Kovner seguiu para o norte e, de carona em carona, chegou a seu kibutz. Ele e Vitka se casaram, tendo Ruzka como testemunha, e lá viveram até o final de seus dias. Abba Kovner morreu em setembro de 1987, após uma cirurgia em que foram retiradas suas cordas vocais. Por amarga ironia, o homem que tinha feito da palavra sua arma mais poderosa, partiu em eloqüente silêncio.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista

Bibliografia:

"The Avengers", por Rich Cohen. First Vintage Books Edition, Nova York, outubro, 2001.

Abba Kovner ao vivo

Em meus anos de jornalismo, um dos momentos mais emocionantes que vivi foi o depoimento de Abba Kovner, durante o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, cuja cobertura fiz para a revista Manchete, em Jerusalém. Percebo, agora, que Kovner era muito parecido com o ator Adrien Brody, que fez o principal papel no filme O Pianista: o nariz saliente, a testa larga, os olhos bem ao fundo das pálpebras. Sua fala era mansa, até mesmo meiga, mas possuía um incomparável magnetismo. Sua força não estava nos gestos, sempre discretos, mas nas palavras que fluíam com ênfase precisa para cada uma delas, como se as esculpisse a cada momento.

Os episódios que ele narrou e vivenciou, sem levantar os olhos na direção de Eichmann, corresponderam a uma impressionante seqüência de horrores. Kovner relatou que, na floresta, seus partisans foram obrigados a obedecer ao comando de uma unidade soviética. Um dia, um oficial russo o convocou para reclamar que os combatentes judeus, em vez de interrogarem os prisioneiros alemães, o que era importante, os estavam matando. Abba Kovner respondeu: "É verdade. Cada tiro que eles disparam, são acompanhados das seguintes exclamações: pelo meu Moishele, pela minha Esterke, por minha Rachel!"