Morashá
Sodoma Foto Ilustrativa

Sodoma

Destruída há quatro mil anos, sodoma se tornou símbolo de perversão e decadência moral. E seu destino vem suscitando temor e curiosidade.

Edição 51 - Dezembro de 2005


Antes de ser destruída, a cidade bíblica estava localizada na planície da Jordânia, área em forma de semicírculo, extremamente fértil, na fronteira sudeste do território canaanita. As referências bíblicas à Sodoma (Sdom, em hebraico) estão principalmente no livro Gênese e sua queda é relatada nos capítulos 18-19. Mas, é também citada em Deuteronômio, no Livro de Jó e no Talmud, assim como por nossos profetas. O controvertido historiador Flávio Josefo (37-100 desta Era), a menciona em sua obra. Sdom aparece pela primeira vez no capítulo Lech Lecha, quando Lot, sobrinho de Abraão, estabeleceu-se no vale do Jordão, escolhendo a cidade para lá estabelecer sua família. Assim a Torá a define: "E os homens de Sodoma eram maus e pecadores contra o Eterno" (Gênese 13-13).

Desde a primeira menção, é identificada como o epítome da crueldade e perversão. Sodoma era a antítese de tudo o que Abraão acreditava e simbolizava. A hospitalidade, virtude das mais praticadas por nosso patriarca, lá era proibida. Os sodomitas odiavam os forasteiros, aos quais não ofereciam hospitalidade, submetendo-os a abusos sexuais. A caridade era considerada crime grave, sendo executado quem a praticasse. Conta o Midrash que a lei determinava que quem alimentasse um pobre morreria na fogueira. Mas Plotit, filha de Lot, teve destino ainda pior. Certa vez, viu na rua um mendigo e decidiu alimentá-lo. Quando os habitantes da cidade perceberam o que Plotit fazia, prenderam-na, tiraram suas roupas, lambuzaram seu corpo com mel e puseram-na sobre a muralha da cidade, para que morresse picada pelas abelhas (Sanhedrin 109).

Relata a Torá que D'us ouviu o "clamor" das vítimas das iniqüidades cometidas pelos habitantes de Sodoma e da vizinha Gomorra. O Eterno revela, então, a Abraão, a Sua intenção de destruir completamente as duas cidades. O patriarca tenta intervir junto ao Senhor, para as salvar. Pede ao Todo Poderoso que tenha consideração com os Justos que lá residiam. D'us lhe promete que, se houvesse ao menos dez Justos em Sodoma, salvaria toda a cidade. Porém, na cidade não havia um Justo sequer...

E, embora o Todo Poderoso não tenha salvo a cidade, poupou Lot e sua família. E isto ocorreu em grande medida pelos méritos de seu tio, Abraão, mas também porque, mesmo após morar entre sodomitas, Lot ainda guardava em si o espírito da hospitalidade que aprendera com nosso patriarca. Quando os habitantes da cidade descobrem que ele acolhera dois "forasteiros" em sua casa, enfurecidos exigem que os entregue. Mas Lot sai em defesa de seus hóspedes.

Os estrangeiros, que, na realidade, eram anjos enviados por D'us para destruir a cidade, ordenaram a Lot que, com toda a sua família, deixasse imediatamente aquele lugar condenado. E, ao amanhecer, levam-no, com a mulher e duas filhas solteiras, para fora da cidade, alertando: "Sequer olhem para trás".

Assim que Lot e seus familiares partem, D'us faz chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. Não obedecendo às ordens dos anjos, a mulher de Lot se virou para olhar o que acontecia na cidade condenada. A punição veio como um raio: foi transformada em estátua de sal. De acordo com o Talmud, este sal chama-se Melach Sedomit, sal sodômico. Josefo, em sua obra, afirma que durante sua vida, o pilar de sal ainda podia ser visto.

De manhã, quando Abraão voltou ao lugar onde D'us lhe aparecera, viu a destruição que se abatera sobre Sodoma e demais cidades vizinhas. Densa fumaça ocultava o vale e, as chamas rapidamente consumiam a terra. Uma chuva de sal completava a catástrofe (Deut.29:22 ). Na planície queimada por enxofre e sal, a terra tornara-se estéril, sendo que lá "nada podia ser plantado e nenhuma vida brotaria". (Deut. 29:22). Quando a devastação se completou, um enorme lago de sal e betume espalhava-se a leste do deserto de Judá, em hebraico conhecido como o Yam Hamelach, o mar de sal. Na antigüidade, foi também chamado de Hayam Hacadmoni, o antigo mar;Yamá shel Sdom, mar de Sodoma; e, ainda, Yam Ha'aravá, mar do vale do Aravá. O nome Mar Morto somente surgiu após o advento do Cristianismo, atribuído pelos monges cristãos, pelo espanto causado pela aparente ausência de qualquer forma de vida em suas águas.

Hoje, o Mar Morto, cujas águas contêm 33% de sal, quantidade dez vezes superior à encontrada no Mar Mediterrâneo, é considerado uma das maravilhas do mundo. É um grande lago represado entre colinas, com 76km de comprimento por 18km de largura, e tem, em sua parte mais funda, 400m de profundidade. Suas margens, a 396m abaixo do nível do mar, são o ponto seco mais baixo do mundo. Em seu redor, espalham-se montanhas de sal naturalmente esculpidas em forma de chaminés e cavernas. Entre estas, pode-se distinguir perfeitamente uma escultura em forma de cogumelo, que, segundo antigas tradições, seria a estátua da mulher de Lot.

A região

A exploração econômica da região já se iniciara desde o tempo dos nabateus, que vendiam betume. (o depósito de lama que se acumulava no fundo do lago) aos egípcios, que o utilizavam para embalsamar seus mortos. Este comércio que se estendeu até a era romana.

Flávio Josefo, na História da Guerra Judaica, escreve: "... região de Sodoma, território outrora próspero por suas colheitas e pela riqueza de suas diversas cidades, mas, atualmente, inteiramente queimado. Diz-se que a impiedade de seus habitantes lhes valeu serem abrasados pelo raio... ainda lá existem traços do Fogo Divino e se podem ver vestígios de cinco cidades... A narração lendária sobre a região de Sodoma é, pois, plenamente confirmada por aquilo que se vê".

Sobre o Mar Morto, que Josefo chama de "lago de asfalto", ele escreve: "Salgado e estéril.... sua água faz boiar os objetos, por mais pesados que sejam...". Os gregos falavam com insistência em gases venenosos que se desprendiam por toda a parte nesse mar, enquanto os árabes diziam que, há muito, nenhuma ave conseguia sobrevoar de uma margem a outra. Diziam que, ao tentar cruzá-las, as aves se precipitavam subitamente n'água, já sem vida.

Mas, onde realmente se localizava Sodoma? Com base em informações contidas na Torá e nas várias formações de sal da região, os arqueólogos têm tentado, em vão, definir sua localização exata. Apesar de alguns terem centrado suas buscas ao norte do Mar Morto, a maioria acredita que as antigas Sodoma e Gomorra se situassem ao sul do lago, em uma área de formação geológica mais recente do que o restante da região. A tese da posição geográfica ao sul parece ser sustentada também por uma tradição local, como mostra o nome árabe da montanha de sal, Jebel Usdum, ou seja, Montanha de Sodoma, no extremo sudeste do mar Morto. A montanha tem 10km de comprimento, 5km de largura e 30m de espessura. Embora esteja coberta por uma camada de terra de alguns metros de espessura, o restante de sua composição é sal sólido.

História moderna

No século XX, o nome Sodoma foi dado a um sítio industrial a sudeste do Mar Morto. Desde o início do século, engenheiros que visitavam o local e, até mesmo, Theodor Herzl, logo percebem o enorme potencial do Mar Morto para a extração mineral, mediante o uso da energia solar. A atual cidade de Sdom foi fundada em 1937. Logo depois, construiu-se em Kalia, no extremo norte do Mar Morto, plantas de potassa para constituir uma filial da Palestine Potash Co. À época, não havia estradas que ligassem o local à cidade; a comunicação era feita através de pequenos barcos, que atravessavam o Mar Morto.

Em 1947, o plano de Partilha da Palestina elaborado pelas Nações Unidas incluía Sodoma, ou Sdom, dentro das fronteiras do futuro Estado de Israel. No início da Guerra da Independência, em 1948, Kalia passou para o controle da Legião Árabe, ficando Sdom totalmente isolada de Israel. A única maneira de enviar suprimentos à cidade era por via marítima ou aérea. Durante seis meses, de agosto a dezembro de 1948, víveres foram enviados em pequenos aviões, até que a área foi libertada por uma unidade das Forças de Defesa de Israel.

A estrada que finalmente uniu Beersheva a Sodoma foi terminada em 1952 e, dois anos mais tarde, a empresa estatal Dead Sea Works Ltd., de produtos químicos, pôde iniciar atividades. Na época, a região era uma das poucas fontes de fertilizantes à base de potassa para a África e Ásia. Atualmente constitui o quarto produtor mundial e fornecedor de produtos derivados do mineral.

A região abriga atualmente outras indústrias do setor de potassa, fosfato e sal. Em 1955 foi inaugurada a companhia Dead Sea Bromine, que figura entre as maiores produtoras mundiais de brometo. Em 1996, a empresa alemã Volkswagen AG e a israelense Dead Sea Works Ltd. anunciaram um investimento conjunto de US$ 600 milhões, em um projeto de instalação de uma usina para extração de magnésio, no Mar Morto.

Apesar da aridez que castiga a paisagem local, o Keren Kayemet LeIsrael (KKL), valendo-se de tecnologia de ultimíssima geração, está implantando, na região em torno de Sodoma, uma atividade econômica altamente rentável e nova para o local: a piscicultura.

Bibliografia:

Sarna, Nahum M, Understanding Genesis, cap.: Sodom and Gemorrah, cities of the Salt Pillars, Schocken Publishing House

http://www.jafi.org.il/