Morashá
A tragédia do SS St. Louis Foto Ilustrativa

A tragédia do SS St. Louis

Maio de 1939. O navio St. Louis partia do porto de Hamburgo com destino a Cuba. Levava a bordo centenas de judeus que deixavam a Alemanha, na esperança de escapar do nazismo que já lançava sua sombra negra sobre a Europa. Mas, ao chegar a Havana, o sonho de liberdade daquela gente se transformou em pesadelo.

Edição 65 - Setembro de 2009


Desde o final de 1938, o desespero tomara conta da comunidade judaica alemã. Após a subida de Hitler ao poder, a Alemanha se tornara verdadeiro inferno para eles. Leis raciais limitavam seu cotidiano e suas possibilidade de trabalho. Perseguidos e segregados, os judeus eram "encorajados", de toda maneira, a emigrar para qualquer país que os aceitasse e dos 600 mil judeus que viviam na Alemanha em 1933, metade deixara o país.

As últimas ilusões judaicas se haviam despedaçado junto com as vitrines e vidraças de suas lojas, na Noite dos Cristais, a infame Kristallnacht, em novembro de 1938. A violência que haviam presenciado era a prova cabal de que não havia mais lugar para os judeus na Alemanha nazista, e dezenas de milhares deles se dirigiram aos consulados estrangeiros à cata de algum visto.

Porém, se ficar era perigoso, sair se tornara quase impossível. A maioria dos países - e principalmente os Estados Unidos - mantinham rígidas quotas de imigração e era cada vez mais difícil para um judeu obter um visto de emigração, ainda mais num curto espaço de tempo. Os ministérios do exterior e da propaganda da Alemanha exploravam as recusas das outras nações de abrir suas portas aos refugiados judeus para justificar, perante o mundo, a política anti-semita do 3º Reich. Ao saber da viagem do St. Louis, Josef Goebbels, ministro da Propaganda, decidiu usar a embarcação e seus passageiros - judeus que buscavam escapar dos horrores nazistas - em uma campanha propagandística magistral.

A notícia da partida do St. Louis, embarcação da Hamburg-America Line (Hapag), para Cuba, marcada para 13 de maio, pareceu a centenas de judeus uma oportunidade única de partir. No início daquele ano, o governo cubano aprovara o Decreto 55, que permitia a entrada de refugiados portadores de vistos de imigração e do comprovante de pagamento da taxa de US$500, como garantia de que a pessoa não seria um peso para Cuba. Turistas ou pessoas em trânsito, por outro lado, além de muito bem-vindos, não necessitavam de visto. O diretor-geral da Divisão de Imigração, Manuel Benitez Gonzalez, logo percebeu que o decreto não especificava quem era considerado turista ou refugiado. Benitez passou então a vender, por US$150, "autorizações" que permitiam o desembarque em Cuba de pretensos turistas. A empresa marítima Hapag comprou de Benitez centenas dessa autorizações, pois percebera a vantagem de oferecer a seus passageiros um pacote que incluía, além da passagem, a autorização de desembarque.

O St. Louis, um transatlântico de grande porte, possuía oito deques que abrigavam 400 passageiros na 1ª classe e 500 na classe turística. Cada passageiro pagava 800 Reichmarks(moeda vigente durante o 3º Reich) por cabine de 1ª classe ou 600 Reichmarks em 2ª classe, e ainda outros 230 marcos - uma taxa para "contingências" que, supostamente, cobriria os custos no caso de uma inesperada viagem de retorno. Apesar da maioria não dispor de tais recursos, as passagens se esgotaram rapidamente. Alguns conseguiram o dinheiro com seus parentes do exterior, enquanto outros fizeram uma "vaquinha" para conseguir enviar ao menos um membro da família para a liberdade. Alguns dos passageiros se viram obrigados a deixar suas famílias, esperando poder mandar buscá-las algum dia. A maioria tinha também requerido vistos para os EUA, planejando ficar em Cuba até ter permissão para entrar no país vizinho.

Ansiedade e expectativa

No sábado, 13 de maio, 937 passageiros, em sua maioria judeus, embarcaram em Hamburgo no St. Louis. Cada judeu levava consigo suas próprias marcas de segregação e perseguição, de violência e humilhação. Perguntavam-se como seriam tratados em um navio de tripulação alemã, com uma suástica na bandeira. A foto de Hitler pendurada no salão principal parecia confirmar todos os seus receios. Não sabiam que o Capitão do navio, Gustav Schroeder, alertara a tripulação que os passageiros judeus haviam pago as passagens integralmente e portanto deviam ser tratados como os demais, com consideração e respeito. Schroeder, com 37 anos na linha marítima Hamburg-America Line, fez de tudo, durante a viagem, para ajudar seus passageiros. O Capitão chegou mesmo a dar o passo, sem precedentes e extremamente perigoso, de remover o retrato de Hitler da parede do salão de baile para que os judeus o utilizassem como local de orações.

A tripulação acatou as ordens do Capitão, com exceção de Otto Schiendick, o Ortsgruppenleiter, que não procurava esconder seu anti-semitismo. Não foram poucas as vezes em que ele veiculou cópias do Der Stürmer, trocando filmes de entretenimento por filmes de propaganda nazista e transmitindo músicas nazistas. Na verdade, Schiendick era membro da Abwehr, a polícia secreta alemã. Sua missão era levar de volta para a Alemanha informações sobre a movimentação militar norte-americana. Estas estavam de posse de Robert Hoffman, representante da Hapag em Cuba. Este fato iria ser uma importante variável no desenrolar do drama.

Os passageiros

À medida que o St. Louis foi-se afastando do porto de Hamburgo, o alívio foi-se instalando entre os judeus. Deixavam para trás as políticas nazistas e o anti-semitismo, tão virulentos. Ansiavam por começar vida nova, quem sabe na América, após breve estada em Cuba. À bordo do navio havia homens que, tendo sido enviados para Dachau e Buchenwald após aKristallnacht, tinham sido libertados com a condição de que deixassem a Alemanha, para sempre, no prazo de duas semanas.

Em seu diário de bordo, o Capitão Schroeder descreve aqueles momentos: "Há certo nervosismo a bordo. Apesar disso, todos parecem convencidos de que não retornarão à Alemanha. Cenas comoventes de despedida ocorreram no cais. Enquanto uns lamentavam profundamente a perda de seus lares, outros se sentiam aliviados. No entanto, o bom tempo, a brisa marinha, a boa comida e os bons serviços conseguirão criar o tradicional clima descontraído de todas as viagens. As lembranças dolorosas desaparecerão rapidamente e, em breve, serão apenas sonhos distantes".

Enquanto isso, as crianças dividiam seu tempo entre brincadeiras, passeios pela cabine do Capitão e pelo navio. Estavam felizes.Há anos não tinham permissão de brincar nas praças públicas, playgrounds nem de freqüentar as escolas "arianas". Os adultos relaxavam, nadavam na piscina, tiravam fotos, comiam refinadas refeições servidas por alemães, ou, no caso das mulheres, passavam horas no salão de beleza enfeitando-se, onde também eram atendidas por profissionais alemãs. Todas as noites havia música e baile. Fazia anos que os nazistas haviam proibido sua entrada nos parques, restaurantes, locais de lazer, lojas de departamentos ou mercados. A cada dia que passava, o vasto oceano lhes trazia um novo sopro de esperança. A liberdade parecia cada vez mais próxima. O pesadelo nazista, cada vez mais distante...

Sempre que necessário o Capitão Schroeder procurava ajudar os passageiros. Em 23 de maio, um deles faleceu e teve que ser enterrado no mar. Seu corpo, no entanto, não foi enrolado na bandeira nazista, como determinava o protocolo da marinha alemã, mas na bandeira da linha marítima. No mesmo dia, Schroeder havia recebido um telegrama alertando-o de que as autoridades cubanas não autorizariam o desembarque em Havana de passageiros portadores dos "certificados Benitez" - o que constituía a maioria dos embarcados no St. Louis. Somente aqueles que possuíam vistos de imigração e o comprovante do pagamento dos US$500 regulamentares poderiam entrar em Cuba. Após receber tal notícia, o Capitão formou um pequeno comitê entre os passageiros para explorar as possibilidades de desembarque na ilha.

A venda ilegal de certificados de desembarque por Benitez provocara a ira de membros do governo cubano. Segundo estimativas norte-americanas, Benitez amealhara um "pé-de-meia" entre US$500.000 e US$1.000.000, soma que ele não pretendia dividir com ninguém. Em 5 de maio, uma semana antes da partida do navio, o presidente cubano, Federico Laredo Bru, emitiu o Decreto 937, eliminando qualquer dúvida de interpretação do precedente Decreto 55. Ou seja, invalidava todos os "certificados Benitez". Antes da partida da embarcação, a Hamburg-America Line, proprietária do St. Louis, tinha conhecimento de que a maioria dos passageiros haviam adquirido o pacote incluindo passagem, certificado de desembarque e visto de trânsito de Benitez - e que provavelmente enfrentariam problemas ao desembarcar em Cuba.

Esses passageiros tinham-se tornado vítimas do antagonismo existente em Cuba entre as diferentes facções política e a difícil situação econômica. No meio de uma forte recessão, Cuba já absorvera um grande fluxo de refugiados, entre os quais cerca de 4 mil judeus, e os recém-chegados eram vistos pela população local como concorrentes a suas próprias vagas no mercado de trabalho. Esse antagonismo e a xenofobia contra os refugiados estavam sendo ardilosamente utilizados por Goebbels. Ele tinha dois objetivos: mostrar ao mundo que ninguém se importava com os judeus e, conseqüentemente, "limpar" a imagem dos nazistas e sua política judaica. Goebbels enviara agentes a Havana para fomentar o anti-semitismo na ilha e organizar protestos. Antes mesmo que o navio deixasse Hamburgo, os jornais cubanos de direita publicaram matérias contra a iminente chegada do SS St. Louis, conclamando o governo a impedir a entrada de refugiados no país, principalmente judeus. Goebbels fabricou histórias sobre a natureza criminosa dos passageiros, tornando-os ainda mais indesejáveis. Pouco levou para que outros 1.000 judeus refugiados que iam aportar em Cuba fossem vistos como uma ameaça social. Protestos foram organizados em várias cidades, sendo que a maior demonstração anti-semita de toda a história da ilha ocorreu em Havana em 8 de maio, cinco dias antes que o St. Louis levantasse âncora. Na manifestação, os cubanos foram incitados a "combater os judeus até que o último deles fosse expulso". O protesto reuniu 40.000 espectadores. Outros milhares acompanharam pelo rádio.

Refúgio negado

Os passageiros a bordo do St. Louis que sequer tinham idéia do que vinha ocorrendo, aproveitavam o que julgavam serem seus últimos dias de viagem.

Era o dia 27 de maio. O navio entrou em águas territoriais cubanas. Na 6ª. feira à noite, um dia antes da chegada, o Capitão recebeu um telegrama de Luis Clasing, representante da Hapag em Havana, informando que o St. Louis teria que atracar no ancoradouro, e não no cais da companhia. Ainda sem saber o que ocorria, a tripulação acordou os passageiros às 4h do sábado para preparar o desembarque. Poucas horas depois, funcionários da Imigração subiram a bordo e, sem nenhuma explicação, vistoriaram o navio e desceram, deixando para trás guardas para impedir o desembarque. Familiares e amigos que tentavam aproximar-se em barcos não puderam fazê-lo.

A atmosfera ficou muito tensa quando deu-se permissão de desembarque apenas a 22 passageiros judeus - todos de posse de vistos e do recibo do pagamento dos US$500, e a 4 espanhóis e 2 cubanos. O restante dos passageiros, portadores dos certificados Benitez, receberam ordem de esperar. O pânico se espalhou rapidamente. Inutilmente o Capitão tentou acalmar os ânimos, assegurando que não os levaria de volta à Alemanha. Enquanto a ansiedade e a insegurança aumentavam a bordo, uma intrincada rede se formava em terra tentando encontrar uma solução.

As instituições judaicas internacionais só perceberam a gravidade do caso quando o governo cubano se manteve firme, não autorizando o desembarque dos judeus sem vistos legítimos. No domingo, 28, chega a Cuba, vindo dos USA, Lawrence Berenson, do American Jewish Joint Distribution Committee, para negociar diretamente com o presidente Laredo Bru. No entanto, apesar de levarem cinco dias, tais negociações fracassaram. A proposta presidencial era que o AJDC pagasse entre US$ 450-500 por pessoa. Berenson fez uma contra-proposta que Bru, além de recusar, ainda usou como pretexto para interromper as negociações, em 2 de junho.

Enquanto Berenson tentava retomar as tratativas, mesmo com o acesso ao presidente negado, Benitez continuava a alardear que Bru retrocederia e permitiria o desembarque. Queria US$ 250.000 para reatar as relações com Bru e assim rescindir o Decreto 937. Conseguiu convencer as pessoas influentes de que a situação não era tão séria quanto parecia. Entre os que acreditaram em Benitez estavam Clasing e Hoffman, representantes da Hapag em Havana. No entanto, a empresa se recusou a pagar os US$ 250.000 a Benitez.

Encalhados em Cuba

A ansiedade dos passageiros se transformou em suspeita à medida que a espera de horas ia-se convertendo em dias. Enquanto isso, Hoffman, já de posse das informações sobre a movimentação militar norte-americana, procurava um meio de entregá-las a Otto Schiendick, elemento da polícia secreta alemã, infiltrado no navio.Na 2ª feira, dois dias depois do navio estar em Cuba, Hoffman encontrou um meio de subir a bordo. Ele escondera os documentos secretos na lombada de revistas, dentro de canetas e de uma bengala e assim as levou consigo a bordo. Na escada de emergência do navio disseram-lhe que não poderia subir com nada nas mãos. Deixando para trás as revistas e bengala, subiu com as canetas, apenas. Levado diretamente ao Capitão, Hoffman usou a influência da polícia secreta, a Abwehr, forçando Schroeder a fazer descer a tripulação. O Capitão, chocado com a ligação da Abwehr com seu navio, aquiesceu. Após rápido encontro com Schiendick, Hoffman deixa o navio. Com a mudança na política de licença da tripulação, Schiendick recupera as revistas e a bengala e volta a bordo do navio. Este passa, então, a ter um único objetivo: fazer o navio voltar à Alemanha, sem escala nos EUA, temendo ser detido com os documentos secretos em seu poder.

Três dias após chegar a Cuba, o Capitão Schroeder reúne novamente o comitê de refugiados a bordo. Pede-lhes que escrevam cartas a pessoas influentes, amigos e familiares pedindo ajuda. O desespero e a paranóia aumentam. No dia 30 o drama daquela gente chega a um trágico crescendo quando Max Loewe, veterano da 1ª Guerra Mundial, condecorado com a Cruz de Ferro, corta os pulsos e se atira ao mar. Loewe havia sido prisioneiro dos nazistas em Buchenwald. Um tripulante pulou na água e conseguiu resgatá-lo. Após tentar pular novamente, finalmente Loewe é levado a um hospital, sozinho. Sua esposa não pode acompanhá-lo, sequer visitá-lo. Dia a dia aumentava a apreensão dos refugiados. As autoridades cubanas haviam tomado todas as providências para impedir que as pessoas pulassem na água e tentassem chegar em terra a nado. O navio fora cercado, o número de policiais a bordo aumentara e, à noite, a área ao redor do St.Louis era intensamente iluminada. A pergunta que não calava era: o que eles fariam se fossem levados de volta à Alemanha? Com certeza seriam enviados aos campos de concentração.

Insensibilidade mundial

A história do navio da Hapag já estava nas manchetes dos jornais europeus e norte-americanos. Reuniões dos altos escalões do governo cubano e dos EUA aconteciam a portas fechadas, mas a responsabilidade pelo desfecho trocava de mãos. O ministro do exterior de Cuba afirmava que o Gabinete resolveria. E o Gabinete resolveu: o retorno era a única opção. Se o navio não zarpasse por bem, tomar-se-iam medidas mais drásticas. O clima de terror a bordo era tal que o Capitão Schroeder temia suicídios em massa, pois muitos passageiros haviam declarado preferir a morte a voltar. Para evitar tal situação, passageiros e tripulantes criaram uma patrulha que circulava principalmente à noite.

Apesar da divulgação da posição oficial do governo cubano, as tentativas de fazer o presidente Bru mudar de opinião continuaram, e mais dois enviados do Joint uniram-se às negociações. O presidente, no entanto, negou-se a qualquer contato até que o navio estivesse fora das águas territoriais cubanas, dando três horas para que o St. Louis partisse. Diante dos apelos do Capitão, o prazo foi estendido até as 10h de 2 de junho.

O navio já circundava a ilha, mas Lawrence Berenson ainda negociava. As lideranças judaicas não acreditavam que teriam que pagar aquele valor exorbitante, imaginando que US$ 125.000 bastariam. Ao longo do dia, ele foi procurado por várias pessoas que afirmavam representar as autoridades, alertando-o que seria necessário pagar na íntegra. Ele não acreditou. Infelizmente estava errado. No mesmo dia, Bru encerrou definitivamente as negociações. Quando, no dia seguinte, o Joint concordou em pagar, o presidente cubano simplesmente afirmou: "É tarde demais". A opção de atracar em Cuba estava definitivamente descartada. O impossível acontecera.

Sem outra alternativa a não ser levantar âncoras, o St. Louis se afastou de Cuba e o Capitão dirigiu-se à costa da Flórida. Esperava que os EUA aceitassem a entrada dos refugiados judeus no país. Mais uma vez, um sopro de esperança: uma mensagem autorizando o desembarque na Ilha da Juventude, ao largo de Cuba. Na manhã seguinte, o desmentido. Desesperados, os refugiados já não pensavam.

Os Estados Unidos também deixaram de ser uma opção. Em 5 de junho, anunciaram que ninguém poderia descer do navio na costa da Flórida. Ainda havia alguma esperança de que algum país europeu os recebesse. Enquanto as negociações prosseguiam nesse sentido, Aaaron Pozner - que deixara esposa e dois filhos na Alemanha - reuniu alguns jovens para organizar um motim, que acabou fracassando. No entanto, em vez de seguir diretamente a um porto alemão, o Capitão Schroeder arrastou o quanto pôde a viagem de volta, recusando-se a regressar à Alemanha até encontrar um porto seguro para seus passageiros. Chegou ao extremo de criar um plano contingencial no qual o St. Louis deveria naufragar "espetacularmente" perto da costa inglesa, para forçar as autoridades britânicas a agir.

Quando tudo parecia perdido, após árduas negociações, o Joint conseguiu convencer alguns países a receber grupos pequenos de passageiros. A Holanda concordou em receber 181; a França, 228; a Inglaterra, 228; e a Bélgica, 214. Em 7 de junho, o St. Louis rumou à Europa, a países que breve seriam ocupados pelas tropas hitleristas. Entre 16 e 20 de junho, os passageiros do St Louis foram transferidos para outros navios e levados a seu novo destino. Depois de ter atravessado o oceano duas vezes em menos de 40 dias, os judeus sentiam-se sós e rejeitados pelo mundo. Com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, poucos meses depois, e com a ocupação dos países nos quais haviam sido autorizados a desembarcar, muitos acabaram sendo enviados para o Leste europeu. Uma pesquisa do Museu do Holocausto realizada por Sarah Ogilvie e Scott Miller e publicada no livro Refuge Denied, sobre o destino daqueles passageiros, revelou que a maioria dos 288 enviados à Inglaterra sobreviveram. No entanto o destino dos que desembarcaram na Europa continental foi mais sombrio: 254 morreram, a maioria em campos de concentração; apenas 365 sobreviveram; desses, 87 conseguiram emigrar para os Estados Unidos antes de a Alemanha invadir os países que os acolheram.

Para Hitler, o caso do SS St. Louis representou uma grande vitória. Provou que, a despeito dos protestos em contrário dos líderes aliados, eles não queriam judeus em seus países. De fato, quando perguntaram a um oficial canadense quantos judeus em fuga da Europa nazista poderiam ser admitidos no Canadá, ele respondeu: "Nenhum deles já seria muito".

Um pontinho brilhante ilumina esse negro quadro do SS St. Louis: o Capitão Gustav Schroeder, que emergiu da tragédia como o herói que realmente foi. Em 11 de março de 1993, o Instituto Yad Vashem o reconheceu postumamente como "Justo entre as Nações". Tivesse o navio voltado diretamente a um porto alemão, seus passageiros judeus todos certamente teriam acabado seus dias em campos de morte nazistas. Foi graças, antes de tudo, à coragem e determinação desse homem de não abandonar seus passageiros à sua sorte que muitos deles puderam escapar da armadilha de morte nazista.

(Esses eventos foram dramatizados em um romance de 1974 e no premiado filme de 1976, "A Viagem dos Condenados").

Bibliografia:

Ogilvie, Sarah A. e Miller, Scott, Refuge denied: the St. Louis passengers and the Holocaust, Ed. United States Holocaust Memorial Museum ... 
Voyage of the St. Louis, artigo publicado no site do United States Holocaust Memorial Museum http://www.ushmm.org/