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Operação Secreta - Como a Haganá viabilizou a criação do Estado de Israel Foto Ilustrativa

Operação Secreta - Como a Haganá viabilizou a criação do Estado de Israel

por por Zevi Ghivelder

Num domingo de intenso verão, dia 1º de julho de 1945, o jovem americano Rudolf G. Sonnenborn, 47 anos, providenciou a colocação de vinte cadeiras na sala de estar de sua espetacular cobertura, na Rua 57 Leste de Nova York, e que fossem preparados sanduíches e sucos para as visitas que receberia naquela manhã.

Edição 85 - Setembro de 2014


Descendente de uma abastada família judaica de origem alemã, radicada em Baltimore, ele atuava como diretor-executivo de uma empresa multimilionária do ramo do petróleo e servira como aviador da marinha americana durante a 1ª Guerra Mundial. Os convidados para o dito encontro haviam sido convocados através de telegramas enviados para diversas cidades dos Estados Unidos e do Canadá. Seus destinatários eram conhecidos milionários judeus.

O primeiro a chegar foi David Ben Gurion, então com 59 anos de idade, colarinho branco aberto sobre as abas do paletó, a cabeça já coberta por revoltos cabelos brancos. Somente o anfitrião sabia sua origem, ninguém mais. Ben Gurion se encontrava há cerca de um mês nos Estados Unidos, onde se dedicava dia e noite a reuniões com incontáveis judeus: organizações sionistas, líderes religiosos, grupos de jovens, líderes comunitários e filantropos conhecidos por suas fortunas e passíveis de futuras generosidades.

A comunidade judaica americana já tomara conhecimento do Holocausto e se mostrava disposta a estender toda ajuda possível aos sobreviventes refugiados, inclusive fazendo pressão junto à Casa Branca para a concessão de vistos. Sonnenborn fez uma breve apresentação daquele homem que lhes falaria, vindo da remota Palestina. As pessoas presentes estavam a par do que havia acontecido naquela parte do mundo, tinham conhecimento da Declaração Balfour (documento britânico de 1917 que admitia a existência de um lar nacional na Palestina para os judeus), sabiam que milhares de judeus ali haviam estabelecido colônias agrícolas coletivas, os kibutzim, mas suas prioridades estavam focadas nas questões da comunidade judaica americana ainda submetida a surtos de antissemitismo e, só em segundo lugar, no problema dos refugiados. Ben Gurion começou fazendo referência justamente aos seis milhões de judeus assassinados pelo nazismo. Os principais centros judaicos do leste europeu, disse ele, haviam sido dizimados e os refugiados não tinham para onde ir, não havia países dispostos a abrigá-los e as portas da Palestina estavam trancadas por força do White Paper (documento que banira a imigração para a Palestina) emitido pelos mandatários britânicos. Portanto, acentuou Ben Gurion, só um lugar no planeta poderia absorver aqueles despojados: a então Palestina, a Terra Santa, a Terra de Sion, Eretz Israel. Prosseguiu: “Vou lhes ser sincero. Lá somos 600 mil judeus contra mais de um milhão de árabes. Só poderemos ter um Estado judaico se viermos a ser a maioria. Não vou entrar no mérito do sionismo como doutrina ou como movimento nacional. Preciso da ajuda de vocês para termos o nosso país e para acolhermos nossos irmãos. Quando os ingleses terminarem seu mandato, haverá um vácuo na Palestina, um vácuo que nós precisaremos preencher. Sei que seremos atacados pelos árabes e teremos que lutar. Para isso contaremos com a Haganá, o exército clandestino que estamos formando. Tenho muitas dúvidas sobre tudo, mas também tenho uma certeza: sem a participação de vocês, nada será alcançado”.

Alguns dos presentes fizeram perguntas a Ben Gurion, que as respondeu com absoluta clareza, mas a reunião terminou de forma quase sombria. Ninguém foi instado a declarar qual seria a sua contribuição em dinheiro, mas o relato do emissário da Palestina certamente havia sensibilizado suas mentes e corações, acrescido de um rigoroso compromisso de confidencialidade. Anos mais tarde, Sonnenborn anotou em seu diário: “Naquele dia memorável nós fomos convocados para nos tornarmos o braço americano de uma organização clandestina chamada Haganá. Não sabíamos quando nem como seríamos chamados, mas sabíamos que tínhamos que estar a postos”.

Um jovem judeu chamado Philip Alpert obtivera sua graduação em Berkeley e ganhava alguns trocados trabalhando no departamento de engenharia mecânica daquela universidade. Em busca de uma situação melhor, foi para Nova York onde passou a morar na casa de um tio. Vasculhava os classificados dos jornais e encontrava oportunidades de emprego em Connecticut e Nova Jersey, mas preferia permanecer em Manhattan. Um dia, encontrou-se por acaso com um amigo que, como ele, havia pertencido anos antes a um grupo de jovens sionistas. Disse o amigo: “Phil, há um trabalho que pode te interessar. É no ramo da engenharia e tem alguma coisa a ver com a Palestina. É só o que eu sei para te informar”. Marcaram um encontro para o dia seguinte num apartamento perto da Grand Central Station. Quando bateram numa porta do 12o andar, esta foi aberta por um sujeito de aparência eslávica, com cara amarrada, quarenta e poucos anos. Era Chaim Slavin, nascido na Rússia, que chegara à então Palestina em 1924. Ali se formou em engenharia elétrica e obteve emprego como responsável pela estação geradora de energia de Tel Aviv.

Foi atraído pela Haganá e encarregado por Ben Gurion para implantar uma oficina de produção de armas que serviriam para abastecer a Haganá, trabalhando sem levantar suspeitas dos ingleses. Habilidoso, transformou sucatas e peças metálicas numa linha de produção com potencial industrial. Logo após o término da 2ª Guerra Mundial, foi mandado para os Estados Unidos com a missão de adquirir maquinário destinado a fins bélicos: armamentos e munições restantes do conflito na Europa e no Pacífico, além de se dedicar à fabricação de armas por iniciativa própria. Slavin não falava uma só palavra de inglês e, com a ajuda do amigo de Alpert, revelou que antes de mais nada precisava comprar tubos de ferro e aço com os quais pretendia manufaturar morteiros.

Ao término da explanação, o jovem de Berkeley perguntou: “Isto é proibido pela lei americana?” Slavin foi fiel à verdade. Respondeu que a legislação dos Estados Unidos, no tocante ao excedente de armamentos, era complexa, contraditória e imprevisível em função dos rumos da política externa do país. Assim, a atividade seria ao mesmo tempo legal e ilegal. Alpert hesitou alguns minutos e disse: “Tudo bem. Posso começar na segunda-feira”. Slavin foi categórico: “Nada disso. Você começa amanhã”.

Slavin alugou um apartamento com cinco quartos no número 512 da rua 112 Oeste, perto da Universidade de Colúmbia. A primeira tarefa de ambos consistia em elaborar em papel vegetal os projetos dos quais se valeriam após a aquisição dos materiais necessários. Usando o codinome Auerbach, Slavin mandava telegramas semanais para a Agência Judaica informando sobre o desenvolvimento dos trabalhos. Alpert contava com fornecedores no Bronx que lhe vendiam cartuchos com munições. Mas, decorrido algum tempo, seu trabalho ficou mais fácil. O governo americano criou um departamento chamado Administração de Bens de Guerra, encarregado de vender em leilão, somente para empresas legalmente estabelecidas, algumas de suas fábricas de materiais bélicos e outros suprimentos militares.

Alpert e Slavin fizeram uma lista de todas as empresas que participariam dos leilões e quais delas poderiam estar interessadas em revender os itens que tivessem arrematado e que lhes pudessem ser úteis. Nessa tarefa, Alpert e Slavin percorreram os Estados Unidos de costa a costa, de alto a baixo, fazendo compras a preços muito mais acessíveis do que os de mercado. De posse de materiais portáteis e dos projetos bem desenhados e finalizados, eles cruzaram a fronteira para o Canadá, de onde conseguiram despachar tudo para a Palestina antes do prazo previsto.

O casal Ruby e Fannie Barnett havia comprado em 1944, num leilão federal de falência, um hotel situado no número 14 da Rua 60 Leste. Deram um dinheiro vivo como entrada e assumiram uma hipoteca no valor de 800 mil dólares, importância salgada para aquela época. Ele já tinha trabalhado como advogado e contador e ela era uma loura bonita já engajada em atividades sionistas.

Durante a guerra, quando Chaim Weizmann foi a Nova York, Fannie trabalhou como sua secretária. Assim que o prédio foi reformado, o Hotel 14 passou a abrigar hóspedes ilustres como residentes permanentes. No subsolo do hotel ficava a boate Copacabana, a mais concorrida de Nova York, frequentada pela alta sociedade de Nova York e celebridades como o famoso jornalista Walter Winchell. Parte dos espetáculos ali apresentados contava com dois astros: Groucho Marx e Carmen Miranda. Ao piano, quem comandava o show era o comediante Jimmy Durante. Certa ocasião, o hotel recebeu um hóspede chamado Reuven Zaslani, que, por sua discrição e mutismo chamou a atenção de Ruby. Ele perguntou à mulher se ela sabia de quem se tratava. Fannie respondeu: “Sei que veio da Palestina e parece que foi espião infiltrado nos países árabes”.

Num domingo à tarde, Ruby viu o misterioso hóspede se encontrar na porta do hotel com David Ben Gurion, que estava justamente vindo da reunião no apartamento de Sonnenborn. Perguntou à mulher se aquela ligação com palestinos não lhes traria problemas e ela informou que, em breve, acolheriam um dos mais importantes líderes da Agência Judaica, sediada em Jerusalém. Tratava-se de Jacob Dostrovsky, cuja família havia imigrado para a então Palestina depois do pogrom (massacre) perpetrado pelos russos em Odessa, em 1905. Depois de servir na Brigada Judaica durante a guerra, ele havia estudado engenharia na Bélgica e regressado a Tel Aviv, em 1926, quando se filiou à Haganá e passou a chefiar as atividades da organização na cidade de Haifa. Em 1939 foi nomeado chefe do estado maior da Haganá, posto que manteve durante sete anos, até ser enviado para os Estados Unidos com a missão de adquirir armamentos.

No quarto que ocupou no Hotel 14, Dostrovsky se manteve fiel à disciplina militar a que estava acostumado. Colou na parede um grande mapa dos Estados Unidos, pontilhado por pinos de cores diferentes: uma cor para reuniões e encontros reservados, outra para personalidades, outra para planos e outra para resultados. Oficialmente, dedicava-se à arrecadação de fundos e mantinha um escritório na sede da Agência Judaica em Nova York. Fannie atuava como sua secretária. Ele passava quase todo o tempo ditando cartas, que, de forma gentil, porém insistente, pediam às pessoas que honrassem as contribuições prometidas. As respostas eram desalentadoras e isto apenas contribuía para que ele dobrasse a quantidade de cartas. Ao mesmo tempo, criou uma série de empresas fantasmas, todas destinadas ao transporte de refugiados, desafiando o bloqueio imposto pelos britânicos que, depois da guerra, só haviam permitido a entrada de 100 mil judeus na Palestina.

Os nomes das companhias eram, entre outros, curiosos: Caribbean Atlantic Steamship e Pine Tree Industries. Dostrovsky e Slavin se reuniam regularmente no Hotel 14. Passavam em revista a situação dos armamentos e tomavam providências no sentido de adquirir dezenas de diferentes materiais necessários para a Haganá e para os pioneiros da Terra Santa. Um de seus principais achados na América foi um jovem engenheiro eletrônico chamado Dan Fiderblum, 21 anos de idade, morador de Yonkers, perto de Nova York. Como era muito moço para servir durante a guerra, fizera um curso ministrado na Universidade de Nova York pelo Corpo de Sinaleiros do exército americano. A pedido de Dostrovsky, o rapaz convocou um grupo de jovens judeus talentosos, alguns veteranos do Corpo de Sinaleiros, familiarizados com as mais modernas inovações eletrônicas. Sua missão era fabricar o maior número possível de rádios portáteis que serviriam para a comunicação entre os kibutzim e os centros da Agência Judaica na então Palestina, operando numa frequência que não pudesse ser detectada pelos ingleses.

Tudo funcionou a contento e foi enviado para Jerusalém. Finda essa tarefa, dias depois Ruby Barnett e Jacob Dostrovsky dirigiram-se ao Hotel McAlpin, no centro de Manhattan. Junto à porta de um dos salões, um pequeno dístico informava: almoço em homenagem a Rudolf. G. Sonnenborn.

Desde a reunião em seu apartamento, Sonnenborn enfatizava com seus amigos e amigos dos amigos a grave situação em curso na então Palestina. Os mandatários britânicos haviam descoberto e confiscado em esconderijos da Haganá mais de 600 rifles, pistolas, morteiros e metralhadoras. Era urgente que uma reposição fosse feita. Como se não bastasse, os ingleses desfecharam o chamado Sábado Negro,no qual prenderam todos os líderes da Agência Judaica.

Ben Gurion escapou porque se encontrava em Paris. O grupo reunido em torno da mesa intitulou-se Instituto Sonnenborn. Acertaram que eles se reuniriam ao meio-dia de todas as quintas-feiras, no mesmo hotel. Sonnenborn acentuou de forma dramática que, doravante, tudo deveria ser guardado no mais absoluto segredo porque o FBI começava a se aproximar de seus passos. A prioridade seria a aquisição de navios de quaisquer calados para transportar armas e refugiados a par de uma miríade de produtos que sempre seriam úteis para a Haganá.

Na reunião do dia 16 de outubro de 1946, ficou combinado que, a cada quinta-feira, a soma arrecadada deveria atingir a soma de 100 mil dólares, de modo a poderem contar com 1 milhão de dólares no fim do ano. Sonnenborn insistia em dizer que eles não eram uma organização formal, não havia comitês, nem comissões, nem pessoas privilegiadas e muito menos papéis timbrados. Entretanto, o Instituto havia se transformado numa verdadeira e operosa instituição. O último almoço do qual Dostrovsky participou, foi na primavera de 1947. Tinha recebido ordens para regressar a Jerusalém e reassumir seu posto na Haganá.

O Instituto Sonnenborn buscava ajudas, sem cessar, em todos os cantos do país. Assim entraram em contato com o coronel David “Mickey” Marcus, graduado de West Point, que servira no quartel-general de Eisenhower em Londres, durante a guerra. Ele se voluntariou para atuar como conselheiro da Haganá e chegou à então Palestina em março de 1948. Jerusalém estava bloqueada pelos árabes e o grande feito de Marcus foi comandar a abertura de uma estrada alternativa que recebeu o nome de Burma Road, referência a uma complicada estrada construída pelos ingleses na Birmânia. Ben Gurion destacou-o para um dos comandos da Haganá. Certa noite, em junho, nas cercanias da Jerusalém já desbloqueada, Marcus foi abordado à distância por um sentinela que a ele se dirigiu em hebraico. Como não soubesse responder, o rapaz tomou-o por inimigo e deu-lhe um tiro mortal. O corpo de David Marcus foi transportado para ser sepultado em West Point. Em sua guarda de honra se encontrava um jovem representante da Haganá chamado Moshe Dayan.

No verão de 1947, o Instituto entrou em contato com Nahum Bernstein, um dos mais respeitados advogados de Manhattan. Durante a guerra ele havia atuado na OSS, o serviço de inteligência americano que antecedeu a CIA. Ele compareceu a um dos almoços das quintas-feiras e fez amizade instantânea com Sonnenborn, que lhe disse: “Precisamos de uma pessoa como você para uma tarefa que ninguém é capaz de executar nos Estados Unidos”. Essa tarefa consistia em criar uma espécie de escola que ensinasse sistemas de códigos e a difícil habilidade para elaborar e decifrar mensagens criptografadas.

Bernstein encontrou obstáculos para encontrar judeus especialistas naquelas matérias. Acabou entrando em contato com um antigo colega da OSS, Geoffrey Mort-Smith, cristão evangélico que se dizia descendente de índios. Era um gênio na criptografia e também na matemática, jogos de bridge e de xadrez, além de um profundo conhecedor da obra de Bach. Ele concordou de imediato em ser o professor dos professores na escola de Bernstein, que já contava com 60 alunos. Estes foram incumbidos de uma missão especial: elaborar um código à prova de ser decifrado que servisse para a comunicação entre o Instituto e a Haganá, na então Palestina. Decorridas algumas semanas, o novo código começou a funcionar com perfeição e totalmente blindado.

No dia 25 de outubro de 1947, faltando pouco mais de um mês para a votação sobre a partilha da Palestina nas Nações Unidas, realizou-se no Hotel Waldorf Astoria mais um almoço em homenagem a Rudolf G. Sonnenborn. Estavam presentes 55 convidados vindos de diversos estados americanos. O anfitrião tomou a palavra e fez um relato referente às difíceis atividades dos representantes da Agência Judaica na sede da ONU, então localizada em Lake Success, perto de Nova York, no sentido de conseguir dois terços dos votos da Assembleia Geral para a aprovação da partilha.

Em seguida, apresentou um convidado especial, que vestia uma farda do exército inglês e falava com um impecável e sofisticado sotaque de Cambridge. Era o major Audrey Ebban, mais tarde mundialmente conhecido como Abba Ebban. Este focou seu breve discurso num ponto fundamental: se a partilha não fosse aprovada, não haveria um Estado Judeu. Informou que os Estados Unidos e a União Soviética se mostravam a favor da partilha, mas era preciso conquistar os votos de pelo menos 23 países. Portanto, os presentes, donos e diretores de empresas multinacionais, deveriam estender seus contatos mundo afora para obter o engajamento dos governos aos quais tinham acesso.

Àquela altura, hospedou-se no Hotel 14 mais um jovem palestino chamado Yehuda Arazi. Seguindo instruções diretas de Ben Gurion, a ele competiria a tarefa de adquirir determinados tipos de armamentos que até então eram indispensáveis e faltavam à Haganá. No decorrer de sua missão secreta, Arazi usou vários nomes: Joseph Tenembaum, José de la Paz, rabino Leflowitz, Dr. Scwartz, Dr. Oppenheim e Albert Miller. Seu êxito foi notável nessa tarefa, sobretudo no suborno de capitães de navios mercantes de inúmeras nacionalidades, que transportavam os armamentos para a então Palestina. Tudo ficou ainda mais complicado quando os Estados Unidos, após a aprovação da partilha, declararam um embargo para as exportações para a Palestina, cientes de que as armas eram embaladas sob diferentes disfarces. Mesmo assim, Arazi não desistiu e foi dando voltas por cima.

Em seguida, registrou-se um novo hóspede no Hotel 14, chamado Teddy Kollek, nascido em Budapeste, criado em Viena, e um dos pioneiros fundadores do kibutz Ein Guev, às margens do Mar da Galileia. Teddy já possuía vasta experiência em tratativas internacionais e, inclusive, negociara diretamente com Eichmann, durante a guerra, a libertação de mais de 1.000 judeus húngaros. Ele tinha uma vocação inata para fazer amigos e seduzir as pessoas, além de ser um incomparável coletor de doações. Coube-lhe também o encargo de ampliar os contatos da clandestina Haganá na América Latina. No Brasil, seu representante era um judeu de origem polonesa-alemã chamado Menashe Shepitsky, de quem fui amigo. Certa madrugada, Teddy precisava mandar um envelope com alguns milhares de dólares para o capitão de um navio de bandeira panamenha ancorado em Nova York. Olhando pela janela de seu quarto, percebeu um carro estacionado perto do hotel que, com certeza, era do FBI e seguiria qualquer pessoa que saísse do hotel àquela hora. Desceu, então, até a boate Copacabana e pediu a um jovem cantor que ali se apresentava, seu conhecido, e pediu-lhe que levasse o envelope até seu destino. O rapaz aquiesceu e, após o fechamento da boate, dirigiu-se sem ser seguido ao cais do porto e entregou a encomenda. Ele se chamava Frank Sinatra.

Um dos mais valiosos colaboradores da Haganá em Nova York foi um judeu chamado Adolf Schimmer, fisgado por Teddy Kollek. Al, como era chamado, 30 anos, servira em bombardeiros durante a guerra como piloto e engenheiro de vôo, e depois como comandante nas linhas aéreas TWA. Depois da partilha, Arazi foi ao seu encontro e deu-lhe uma vultosa quantia em dinheiro para a aquisição de aviões de quaisquer espécies. O novo país não poderia sobreviver sem uma força aérea, por mais limitada que fosse. Na fábrica da empresa Lockheed, localizada na Califórnia, Al descobriu quinze aviões do tipo Constellation, todos paralisados no solo como excedentes de guerra e necessitando alguns reparos de peças e manutenções. Como fachada, criou uma empresa chamada Schwimmer Aviation e outra, meses mais tarde, a Service Airways.O primeiro avião que comprou foi um DC-3 e depois quatro aeronaves Curtiss-46.

Finalmente, depois de incontáveis idas e vindas, conseguiu adquirir quatro Constellations e, com a ajuda de amigos veteranos de guerra, pilotos e mecânicos, voou todos eles até a então Palestina sem apresentar os necessários planos de voos às autoridades. Enquanto isso, sob o beneplácito da ex-União Soviética que queria ver as potências ocidentais fora do Oriente Médio, o Estado de Israel comprou na Checoslováquia tudo que precisava em matéria de armamentos. Agora, sim, o novo país teria condições militares para enfrentar os invasores árabes.

Com a estabilização de Israel, Rudolf G. Sonnenborn deu por encerrada sua missão na Haganá e passou a presidir a representação dos Bônus de Israel nos Estados Unidos. Aposentou-se de suas atividades comerciais e morreu em junho de 1986.

O misterioso Reuven Zaslani hebraizou seu nome para Reuven Shiloah. Representou Israel em Rhodes, em 1949, nas negociações com parte dos invasores árabes. Foi diretor-geral do primeiro Ministério das Relações Exteriores de Israel, embaixador em Washington e também diretor do serviço de inteligência Shin Bet. Morreu em 1959.

Phil Alpert implantou uma indústria de máquinas pesadas nos Estados Unidos e só esteve em Israel como turista, onde pôde ver de perto as instalações da indústria bélica de Israel, que começara, com sua participação, naquele apartamento em Manhattan.

Chaim Slavin não quis participar do primeiro governo de Israel, alegando não suportar a burocracia. Tornou-se industrial de uma empresa de casas pré-fabricadas. Morreu em 1980.

Daniel Fliderblum foi viver em Israel, onde mudou o sobrenome para Avivi. Foi um proeminente engenheiro no campo da eletrônica.

Nahum Bernstein voltou a praticar a advocacia em Nova York e deu sucessivas palestras para os serviços americanos de inteligência. Foi presidente do Jerusalem Fund, nos Estados Unidos. Morreu em 1983.

Al Schwimmer emigrou para Israel, onde atuou durante 24 anos como diretor da Israel Aerospace Industries. Por ter contrabandeado aviões para fora dos Estados Unidos, foi processado pelo FBI e teve cassada sua cidadania americana. Recebeu um perdão especial no fim do mandato do presidente Clinton. Recebeu o Prêmio Israel em 2006 e morreu em 2011, aos 94 anos de idade.

Jacob Dostrovsky hebraizou seu nome para Yacov Dori e foi o primeiro chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel. Morreu em 1973.

Yehuda Arazi abandonou as atividades militares e estabeleceu um hotel tipo resort de pouco sucesso. Morreu em 1959, sem obter o reconhecimento que merecia.

Teddy Kollek, antes de chegar ao Hotel 14, atuara como representante da Agência Judaica na Europa. Serviu na embaixada de Israel em Washington. Voltou para Israel em 1952, trabalhando como chefe de gabinete do primeiro-ministro até 1964. No ano seguinte, foi eleito prefeito de Jerusalém, cargo que manteve durante 40 anos. Morreu aos 95 anos de idade, em janeiro de 2007.

David Ben Gurion, profeta do povo de Israel, morreu no dia 1º de dezembro de 1973.

BIBLIOGRAFIA
“The Pledge”, de Leonard Slater, Editora Simon and Schuster, EUA, 1970.

zevi ghivelder é escritor e jornalista.