Morashá
70 ANOS DA PARTILHA VOTAÇÃO DA ONU EM 29 DE NOVEMBRO DE 1947

70 ANOS DA PARTILHA

por Zevi Ghivelder

O dia 29 de novembro de 1947 ascendeu à condição de data histórica por registrar a decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas que adotou a resolução de dividir a antiga Palestina em dois estados, um árabe, outro judeu. Agora está sendo celebrado o 70º aniversário desta partilha que se desdobrou em um sucesso e um fracasso.

Edição 98 - Dezembro de 2017


O sucesso corresponde à efetiva criação de Israel, no ano seguinte, e que em sete décadas alcançou êxitos surpreendentes em todos os campos da atividade humana na moldura de um estado democrático de direito. O fracasso diz respeito à recusa dos árabes em aceitar os termos da partilha, tendo deixado de estabelecer sua própria nação no território que lhes competiria, preferindo submeter-se à soberania do rei Abdullah, da então Transjordânia, atual Jordânia.

Entretanto, é importante assinalar que sobre o atual 70o aniversário avulta outro, de 80 anos, igualmente relevante, que foi a semente do conceito da implantação de dois estados na antiga Palestina. Trata-se da Comissão Peel, constituída em maio de 1936 pelos mandatários britânicos, com a finalidade de resolver os dramáticos problemas então existentes naquela região. Sete anos antes, uma rebelião árabe havia massacrado judeus em Jerusalém, Hebron, Safed e outras cidades, resultando em mais de uma centena de mortos e mais de 300 feridos. No mesmo ano de 1936, os árabes promoveram uma greve geral no território sob mandato, sabotando ferrovias, linhas telefônicas e bloqueando estradas, além de incendiarem propriedades e plantações do ishuv (judeus residentes na Palestina) e atacarem os ingleses com operações de guerrilhas.

A chefia da comissão foi confiada ao lorde William Peel, 69 anos, destacado político e empresário inglês. A chamada Comissão Peel chegou à Palestina em novembro, tendo os árabes desde logo anunciado que boicotariam todas as suas ações. Os líderes do ishuv perceberam que seu futuro estava ameaçado e preparam para apresentar à Comissão Peel um memorando com 228 páginas e cinco apêndices, no qual esmiuçaram a história da Palestina e seu vínculo ancestral com o povo judeu, as implicações legais e territoriais que levaram à atribuição do mandato ao Império Britânico e os progressos materiais e agrícolas alcançados pelos colonos judeus nos últimos vinte anos, ou seja, desde a Declaração Balfour. (Trata-se de um documento emitido por Lord Balfour, membro do gabinete inglês, em novembro de 1917, afirmando que o governo de Sua Majestade era favorável à criação de um lar nacional judaico na Palestina). A argumentação do ishuv enfatizava que há três anos os nazistas estavam no poder na Alemanha e, portanto, eram graves as ameaças que pairavam sobre os judeus.

Entre novembro de 1936 e fevereiro de 1937, Chaim Weizmann, David Ben Gurion e Zeev Jabotinsky, líderes proeminentes do movimento sionista, prestaram depoimentos perante a Comissão Peel. Uma leitura atual de suas palavras demonstra que o sionismo jamais foi apresentado e defendido com tanto fervor e precisão desde a atuação de Theodor Herzl no Primeiro Congresso Mundial Sionista, quarenta anos antes. De todos, Ben Gurion foi o mais assertivo: “Nossos direitos na Palestina não decorrem do mandato, nem da Declaração Balfour. Nossos direitos estão no mandato da Bíblia que nós mesmos escrevemos em nosso idioma, aqui nesta terra”. O depoimento de Jabotinsky foi em fevereiro de 1937, na Câmara dos Lordes, com o recinto em Londres lotado e mais milhares de pessoas fazendo vigília em torno do prédio. Weizmann também falou em Londres, a portas fechadas, advertindo aos ingleses que eles se arrependeriam das concessões que estavam sendo estendidas ao Mufti de Jerusalém, um declarado aliado do regime nazista.

Por causa das repercussões internacionais alcançadas por esses depoimentos, os árabes decidiram suspender o boicote à Comissão Peel e o próprio Mufti testemunhou: “Tanto o mandato quanto a Declaração Balfour são inválidos porque resultaram de pressões exercidas pelos judeus que querem reconstruir o Templo de Salomão em nossas sagradas propriedades. A Palestina está plenamente ocupada e não tem como acolher dois povos”. Nos meses seguintes, à medida em que eram colhidos novos depoimentos, os membros da Comissão Peel começaram a concluir que a solução mais plausível seria a partilha da Palestina em dois estados. Chamaram Weizmann informalmente para ouvir sua opinião e este disse: “Não estou autorizado a falar em caráter oficial. Mas acho que é uma boa ideia e que deve ser levada adiante”. Em março, o parlamentar Winston Churchill compareceu perante a Comissão e se opôs à partilha, argumentando que tal divisão daria origem a uma guerra na qual os judeus da Palestina seriam exterminados em face da abissal diferença numérica existente entre os dois lados. Em junho, Sir Archibald Sinclair, líder do Partido Conservador da Inglaterra, ofereceu um jantar a Chaim Weizmann ao qual compareceram Churchill, o líder sionista britânico James de Rothschild e outros ilustres políticos. Quando Weizmann se referiu à ideia da partilha, ainda em gestação, Churchill foi incisivo: “Isso não passa de uma miragem. Vocês, judeus, têm que perseverar, perseverar e esperar!”

No dia 7 de julho de 1937, o gabinete britânico divulgou o relatório da Comissão Peel, com 435 páginas. O documento assinalou a conexão judaica com a Palestina ao longo de três mil anos, as vantagens obtidas pelos árabes por conta do fluxo do capital judaico investido na Palestina, pelo aumento da população árabe nas áreas urbanas desenvolvidas pelos judeus, pelos novos hospitais e clínicas que atendiam tanto a judeus quanto a árabes, além de destacar que a ação dos judeus contra a malária beneficiava a todos na Palestina, sem distinção. O documento ressaltou que no decorrer dos últimos vinte anos os árabes não tinham se afastado sequer uma polegada de sua forma contrária e irredutível ao abordar a Declaração Balfour e o mandato britânico. Em outro trecho, o relatório afirmou que o maior problema não eram os ataques dos árabes contra os judeus, nem contra os ingleses, mas os ataques dos árabes contra outros árabes que não se submetiam às determinações sectárias do Mufti.

Mais adiante o documento diz que o nacionalismo árabe, em vez de emanar de fatores positivos, só tinha como meta incentivar o ódio aos judeus. Mesmo assim, foram acolhidos os nacionalismos de ambas as partes como movimentos legítimos e, por fim, a Comissão Peel sugeriu uma tragicômica divisão da Palestina: os judeus ficariam com 13% do território e os árabes com 80%, cabendo o pouco restante ao Império Britânico, incluindo Belém e Jerusalém. A Comissão sugeriu, ainda, que os árabes locais se incorporassem à então Transjordânia.

O relatório acirrou ânimos entre os judeus, entre os árabes e também entre os ingleses, chegando a atravessar o Atlântico. Lloyd George, chanceler à época da Declaração Balfour, disse que adotar a proposta divisão seria a “afirmação do fracasso da nossa política externa”.

Dezenas de parlamentares, mesmo os simpáticos ao sionismo, tendo à frente Winston Churchill, também foram contrários. Nos Estados Unidos, o célebre magistrado Louis Brandeis manifestou-se contra aquela proposta de partilha e o fez por escrito numa carta endereçada a Felix Frankfurter, outro famoso magistrado americano. Desgostoso, Weizmann escreveu em seu diário: “O terrorismo árabe acaba de conquistar uma grande vitória”. No 20o Congresso Mundial Sionista, reunido em Zurique poucas semanas depois da divulgação do relatório, Chaim Weizmann pediu aos 484 delegados que aprovassem a partilha tal como fora sugerida porque “trata-se de uma proposta revolucionária que abre caminho para o nosso objetivo”. Ben Gurion também aprovou: “Por menor que seja o estado, de uma forma ou de outra ele poderá ser expandido no futuro”. Depois de acalorados debates, o plano da Comissão Peel foi aprovado por 300 votos contra 158 e 26 abstenções. Por seu turno, os árabes rejeitaram a totalidade do relatório e afirmaram que jamais reconheceriam um território judaico na Palestina por menor que fosse. A violência árabe prosseguiu até 1939, quando os ingleses emitiram o infame White Paper que além de proibir a imigração de judeus para a Palestina também anulou o relatório da Comissão Peel. Mas, a semente da solução por dois estados estava plantada e viria a frutificar dez anos depois de sua concepção.

A Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, provocou um hiato nas aspirações sionistas e o ishuv participou do conflito com a criação da Brigada Judaica que lutou incorporada às forças britânicas. Finda a guerra, do ponto de vista britânico, a situação na Palestina se tornara insustentável. No mar, os ingleses faziam de tudo para interceptar os navios da Haganá (exército clandestino judeu), que traziam imigrantes ilegais para a Terra Santa, e muitas vezes não eram bem sucedidos. Em terra, enfrentavam as ações da Irgun, organização também clandestina comandada por Menachem Begin, que atacava e sabotava sem cessar grande número de alvos militares britânicos, incluindo, com grande audácia, seu quartel-general no hotel King David, em Jerusalém.

No dia 27 de janeiro de 1947, teve início uma série de reuniões em Londres, com uma delegação árabe e outra judaica, separadamente. Após dez dias de conversações, os ingleses apresentaram às partes a possibilidade de uma prorrogação de quatro anos do mandato na Palestina, seguido de independência para ambas as partes, caso chegassem a um posterior entendimento e permissão para uma entrada limitada de judeus. Não houve acordo e em abril de 1947, o chanceler Ernest Bevin, ferrenho adversário do sionismo, que já havia remetido para o âmbito das Nações Unidas o problema da Palestina, decidiu jogar mais uma cartada. Propôs a criação de uma Comissão Especial das Nações Unidas Para a Palestina, a United Nations Special Committee on Palestine, ou seja, a sigla Unscopem inglês, que, a partir de junho, percorreria a região e apresentaria novas recomendações para a solução da questão entre árabes e judeus. Bevin julgava que poderia manipular o comitê em favor dos árabes e de seus próprios interesses.

A criação da Unscop agitou a delegação da Agência Judaica (órgão representativo do ishuv), que se encontrava nos Estados Unidos para acompanhar os trabalhos da ONU, instalada num grande rinque de patinação em Flushing Meadows, perto de Nova York. A delegação tinha à frente Moshe Sharett (futuro chanceler e primeiro-ministro de Israel) e seu braço direito, o economista David Horowitz. Ambos decidiram que a Agência Judaica deveria ter dois observadores junto à Unscop. Levaram este pleito à ONU, que o aceitou. Horowitz seria um deles. Àquela altura, encontrava-se em missão em Amsterdã um jovem de 32 anos de idade, militante da Agência Judaica em Londres, nascido na África do Sul, chamado Audrey Sacks, que se tornaria uma celebridade mundial e seria consagrado chanceler de Israel com o nome de Abba Eban. Chamado por Sharett para ir a Nova York e integrar-se como o segundo observador na Unscop, ele conta em sua autobiografia que voltou a Londres e correu para a livraria Foyle’s onde comprou tudo que havia sido publicado até então sobre as Nações Unidas e sobretudo sobre os seus procedimentos internos: “Foi a minha entrada na arena internacional”. Pouco adiante acrescentou: “Como pressenti que o trabalho a partir dos Estados Unidos seria longo, levei comigo, por minha conta, minha mulher Suzy”. Em Londres, antes de partir, Eban narra que se deparou com um ambiente imerso em rancor, a ponto de Bevin ter-se recusado a receber Weizmann, o que era uma absurda quebra no comportamento tradicional da chancelaria britânica. Além disso, membros da Câmara dos Comuns se mostraram céticos quanto à missão da Unscop, tendo um deles afirmado que o problema da Palestina só seria resolvido com guerra e não com um relatório. A propósito, num trecho muito significativo da autobiografia, Eban escreve: “Um dos momentos mais sensíveis da minha vida pública aconteceu quando eu, Horowitz e John Kimche (historiador e jornalista judeu de nacionalidade suíça), fomos ao encontro do diplomata egípcio Azzam Pasha, secretário-geral da Liga Árabe, no hotel Savoy, em Londres.  Horowitz foi o primeiro a falar. Disse que a presença dos judeus no Oriente Médio era um fato consumado e que, mais cedo ou mais tarde, os árabes teriam que aceitar essa realidade. Em seguida, apresentou um plano de acordo político, de garantias mútuas de segurança e de cooperação econômica. Azzam Pasha respondeu que o mundo árabe não estava propenso a nenhum entendimento, acrescentando que o plano de Horowitz era lógico e racional, mas que os destinos das nações não eram determinados por lógicas racionais. E enfatizou que nações não concedem, lutam. Disse que talvez os judeus poderíamos conseguir algo, mas que isso só daria através da força das armas, razão pela qual os árabes tentariam nos derrotar e porque qualquer acordo só seria aceitável segundo os termos da Liga Árabe”. Em seguida, conforme Eban escreve, Pasha foi dura e francamente explícito: “O mundo árabe vê os judeus como invasores e está pronto para lutar contra vocês”. Depois de duas horas de conversa, Kimche, Horowitz e Eban chegaram à rua atônitos. Eles não haviam percebido nenhum sinal de ódio nas palavras de Azzam Pasha que, inclusive, se referira aos judeus como primos. O que lhes aterrorizou foi a impassível postura árabe no sentido de ignorar a lógica, até mesmo a lógica do rancor, dando lugar a um cego fatalismo.

Chegando em Nova York, Eban juntou-se a Horowitz e os dois se dedicaram a analisar os onze nomes internacionais indicados para a constituição da Unscop. Chegaram à conclusão de que, com poucas exceções, não eram homens públicos ou diplomatas de primeira grandeza. O presidente do Comitê era o sueco Emil Sandstrom, juiz da Suprema Corte de Estocolmo em fim de carreira, mas uma pessoa conhecida por suas posições humanitárias. Nicholas Blum, da Holanda, tinha sido governador das Índias Orientais, atual Indonésia. Uma figura central era o juiz da Suprema Corte canadense Ivan Rand, magistrado probo e independente. O diplomata John D.L. Wood representava a Austrália e assim Eban se refere na autobiografia aos três indicados da América Latina: “Salazar, do Peru, era um estereótipo de embaixador de cinema, cabelos brancos, taciturno, austero e dono de um ar de mistério decerto adquirido no Vaticano, aonde servira. O dinâmico e loquaz Rodriguez Fabregat era do Uruguai e García Granados, da Guatemala, tinha experiência com os britânicos no que se referia ao conflito de seu país a respeito do território de Belize”. O nomeado da Checoslováquia foi Karl Lisicky, incerto quanto ao futuro de seu país, prestes a ser dominado pela União Soviética. Da Iugoslávia incorporou-se Vladimir Simic, diplomata veterano. O mundo islâmico se fez representar pelo indiano Sir Abdul Rahman, que, segundo a descrição de Eban, “era 120% britânico no sotaque e nos maneirismos” e o persa Nazrollah Entezam, diplomata de primeira categoria. A Unscop foi oficialmente confirmada pelas Nações Unidas no dia 15 de maio de 1947 e desembarcou na Palestina um mês depois. Abba Eban descreve uma escala em Malta, protetorado britânico, onde por controle remoto de Bevin, o Comitê foi tratado com uma descortesia que beirou à hostilidade.

Dos dias 18 de junho a 3 de julho a Unscop percorreu Jerusalém, Haifa, o Mar Morto, Hebron, Beersheva, Gaza, Jaffa, a Galiléia, Acre, Nablus, Tel Aviv, Tulkarm e Rehovot, além de visitar dezenas de kibutzim (colônias agrícolas coletivas). As audiências públicas da Unscop, constantes de depoimentos de judeus e árabes, aconteceram de 4 a 17 de julho, tendo a Agência Judaica apresentado um inacreditável total de 32 toneladas de documentos. As oitivas foram tão extensas que até mesmo o Partido Comunista da Palestina teve espaço para manifestar sua posição contra o sionismo.

No dia 19 de julho, parte dos membros da Unscop se deslocou até o porto de Haifa, aonde estava em curso o drama do navio Exodus, cujos 4.554 passageiros, sobreviventes do Holocausto, fizeram uma greve de fome que emocionou o mundo, mas mesmo assim foram impedidos pelos ingleses de pisar o solo da Terra Santa e deportados à força de volta para a Europa. Os componentes do Comitê ficaram horrorizados com o macabro espetáculo que presenciaram e ficaram ainda mais sensibilizados quando ouviram o testemunho do reverendo cristão John Stanley, que estivera a bordo do Exodus e implorou à Unscop que decidisse em favor dos judeus. Anos mais tarde, Golda Meir declarou que a intervenção de Stanley tinha sido crucial para a criação do Estado de Israel.

Depois da Palestina, a Unscop foi para o Líbano, onde foi recebida pelo primeiro-ministro Riad al-Sohld e pelo chanceler Hamid Franjieh, e manteve prolongada conferência com representantes da Liga Árabe e breve encontro com maronitas cristãos favoráveis ao sionismo. Em seguida, parte dos componentes do Comitê rumou para a Transjordânia com audiência marcada com o rei Abdullah. O monarca declarou que via com muita dificuldade a aceitação por parte dos árabes do estabelecimento de um estado judeu na Palestina, mas que ele mesmo não era completamente contrário a tal hipótese e que se a mesma se concretizasse, os palestinos deveriam fazer parte de seu reino.

O passo seguinte da Unscop, no dia 26 de julho, foi na direção de Genebra, de onde saiu um sub-comitê para percorrer as zonas da Alemanha e da Áustria ocupadas pelos britânicos e entrevistar centenas de sobreviventes judeus, mantidos em campos de refugiados. Mais de 90 por cento responderam que queriam emigrar para a Palestina. Nas semanas seguintes, a Unscop deu início à tarefa de redigir seu relatório final que constou de dez recomendações, sendo a primeira o fim do mandato britânico da Palestina e outras disposições de natureza econômica, além de dispor claramente que o território deveria ser partilhado entre árabes e judeus, conforme o estipulado e de acordo com um mapa anexado. A cerimônia de assinaturas do documento, em ordem alfabética, pelos onze membros da Unscop foi completada no Palácio das Nações, em Genebra, faltando 15 minutos para a meia-noite do dia 31 de agosto de 1947. O secretariado das Nações Unidas contabilizou que desde o dia de sua investidura até o final dos trabalhos, a Unscop havia recebido 27 mil comunicações, entre cartas e cartões postais. A Palestina a ser dividida contava com uma população de 1 milhão e 200 mil árabes e 570 mil judeus, cabendo às Nações Unidas a tutela de Jerusalém.O futuro Estado Judeu ficaria com 55% do território e 58% do total de seus habitantes. O Estado Árabe, com 45% da área e 99% dos habitantes. A decisão final sobre a partilha caberia à Assembleia Geral.

Abba Eban escreveu em sua autobiografia: “Nós tínhamos bons aliados. O presidente da Assembleia, Oswaldo Aranha, do Brasil, estava religiosamente devotado ao conceito da existência de um estado judaico. Ao seu lado estava a sólida e rotunda figura do secretário-geral, Trygve Lie, que tinha um interesse duplo em nosso sucesso: era necessário um acontecimento que desse ressonância às Nações Unidas na opinião pública mundial e, como socialista norueguês, tinha acompanhado de perto as perseguições nazistas em seu país”. David Horowitz e Moshe Sharett mais outros militantes trabalhavam 24 horas por dia. Telefonemas, cartas e telegramas percorriam febrilmente os continentes. Era preciso encontrar alguém nas Filipinas que tivesse acesso ao presidente e alguém, nos Estados Unidos, que fosse amigo do presidente da Libéria. Faltava convencer diversos países da América Latina e, muito mais difícil ainda, atrair a França e a Bélgica para a causa sionista. Dentre os embaixadores de fala espanhola, García Granados, da Guatemala, ex-Unscop, foi um gigante na defesa da causa sionista.

No dia 27 de novembro, quando a Assembleia Geral se reuniu, os líderes judeus eram uma só depressão. Se houvesse a votação, estava longe a possibilidade de serem alcançados os dois terços dos votos. A única alternativa era pedir aos embaixadores dos países favoráveis à partilha que ocupassem a tribuna e discursassem o máximo possível para que o horário extrapolasse, obrigando o adiamento da sessão. O representante do Uruguai, Rodriguez Fabregat, também ex-Unscop, foi particularmente brilhante, falando por longo tempo, sem, no entanto, deixar transparecer que se tratava de uma obstrução. Ao anoitecer, Oswaldo Aranha cedeu aos apelos da liderança judaica e num gesto amigável deu a sessão por encerrada. O dia seguinte seria feriado nos Estados Unidos, o Dia de Ação de Graças, e, portanto, a Assembleia só voltaria a se reunir dois dias depois. Esse intervalo de 24 horas acabou se tornando crucial. Foi nesse tempo que, a exemplo de outros países, as Filipinas e a Libéria asseguraram seus votos pela partilha. A França, inclinada a votar contra, dava sinais de que poderia mudar de ideia. À última hora, o chefe da delegação árabe, o libanês Camile Chammoun, desencavou uma resolução do comitê político das Nações Unidas, através da qual uma comissão formada pelos embaixadores da Austrália, Tailândia e Islândia tentaria uma solução de compromisso entre as partes. O relatório final caberia ao islandês Thor Thors.

Na manhã do dia 29 de novembro de 1947, o embaixador da Tailândia, Príncipe Wan, deixou Nova York às pressas, alegando que havia um princípio de revolução em seu país. Foi a maneira que encontrou para fugir à pressão árabe de votar contra a partilha.

De qualquer maneira, a sessão seria aberta por Thor Thors; Abba Eban decidiu procurá-lo de manhã cedo no Hotel Barclay. Disse-lhe que se o povo judeu triunfasse com a partilha, estaria realizando um sonho duas vezes milenar. Se fracassasse, esse sonho poderia ficar extinto por muitas gerações. Tudo dependeria da atmosfera que viesse a ser criada por ele na abertura dos trabalhos. A emocionada resposta de Thors deixou Eban desconcertado. Ele disse que a Islândia estava menos remota do destino judaico do que se poderia supor porque a cultura de seu país estava impregnada de lições bíblicas, porque seu povo lutava contra terríveis adversidades da natureza e, portanto, bem compreendia a luta dos judeus.

À tarde, era indescritível a tensão nas Nações Unidas, com frenéticos repórteres, fotógrafos e cinegrafistas de todas as partes do mundo, os embaixadores sendo assediados nos corredores, as galerias lotadas. Aberta a sessão, Oswaldo Aranha deu a palavra a Thor Thors. O embaixador islandês declarou de forma imperativa estar convencido de que era impossível um acordo e que cabia à Assembleia Geral tomar uma decisão. Camille Chamoun ainda tentou obter novo adiamento, mas foi obstado por Aranha, apoiado pelos embaixadores Herschel Johnson, dos Estados Unidos, e Andrei Gromiko, da União Soviética.

Quando os discursos terminaram e Oswaldo Aranha deu início à votação, chamando os países por ordem alfabética, um manto de solenidade cobriu a Assembleia. Os votos foram-se alternando, mais para “sim” do que para “não” e a vitória sionista tornou-se evidente quando a França disse “oui”. Ao término, Aranha declarou com voz firme: “São 33 a favor, 13 contra, 10 abstenções e uma ausência. A resolução está adotada”. Já era madrugada em Jerusalém. A multidão dançava e cantava nas ruas. Sozinho em seu gabinete da Agência Judaica, David Ben-Gurion mantinha a cabeça abaixada e coberta pelas palmas das mãos. Ele avistava a fumaça de uma guerra terrível que viria e que não poderia ser evitada.

BIBLIOGRAFIA

Eban, Abba, An Autobiography, Random House, 1977.

Gavison, Ruth, The Two-State Solution, Bloomsbury Academy, 2013.

Louis, William Roger e Stookey, Robert M., The End of the Palestine Mandate, University of Texas Press, 1988.

Cohen, Michael J., Palestine and the Great Powers 1935-1948, Princeton University Press.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista

Os votos

Votação referente à Partilha da Palestina na Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 29 de novembro de 1947

A favor: 33

África do Sul, Austrália, Bélgica, Bolívia, Brasil, Bielorússia, Canadá, Checoslováquia, Costa Rica, Dinamarca, Equador, Estados Unidos, Filipinas, França, Guatemala, Haiti, Holanda, Islândia, Libéria, Luxemburgo, Nicarágua, Noruega, Nova Zelândia, Panamá, Paraguai, Peru, Polônia, República Dominicana, Suécia, Ucrânia, União Soviética, Uruguai e Venezuela.

Contra: 13

Afeganistão, Arábia Saudita, Cuba, Egito, Grécia, Iêmen, Índia, Irã, Iraque, Líbano, Paquistão, Síria e Turquia.

Abstenções: 10

Argentina, Chile, China, Colômbia, El Salvador, Etiópia, Honduras, Iugoslávia, México e Reino Unido.

Ausência: 1

Tailândia