Morashá
Um ABC Paulista e judaico KETER TORÁ DO SHIL DE SANTO ANDRÉ, BELAS COROAS DA TORÁ DA SINAGOGA DE SANTO ANDRÉ

Um ABC Paulista e judaico

por Um ABC Paulista e judaico

Sem temer as dificuldades de uma terra nova, em tudo diferente de suas aldeias na Europa, os judeus enfrentaram a distância, reinventaram-se e estabeleceram suas comunidades, desbravando cidades do interior de São Paulo, para onde os levava a linha férrea do estado. Dessa época são as comunidades judaicas de Santo André, São Bernardo e São Caetano, de onde provêm tantos homens e mulheres que se destacaram em vários campos da vida brasileira.

Edição 111 - Junho de 2021


O ABC Paulista entrou para a história do Brasil como um importante polo industrial, com destaque para o setor automobilístico. Quem vive fora do Estado de São Paulo talvez não o associe prontamente, mas a sigla ABC se refere às cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano do Sul, onde nos anos 1960-1970 a comunidade judaica chegou a cerca de 300 famílias.

Os judeus começaram a se estabelecer no ABC Paulista no fim da década de 1920, e a maioria seguiu um destino comum aos imigrantes judeus de outras terras: adotou a profissão de clientelchik, no iídiche, ou, em bom português, mascate. Inicialmente, os mascates do ABC se movimentavam de bonde para vender suas mercadorias porta a porta.

Esses profissionais são considerados os introdutores da compra a crédito no Brasil. Anotavam o nome dos clientes no caderno, um cadastro com o endereço, os produtos adquiridos e o valor das prestações. Voltavam todo mês para recolher a quantia correspondente à parcela e, se houvesse oportunidade, fazer novas vendas. Em um cenário em que as mulheres em geral pouco saíam de casa e as moradias ficavam distantes do comércio diversificado, muitos lares eram abastecidos dessa forma.

Logo que obtinham um sucesso inicial, os mascates compravam cavalos e charretes para transportar os produtos – lençóis, roupas, toalhas, panelas e outros itens. Um dos maiores símbolos de sua ascensão era quando o mascate se fixava em um endereço e abria a própria loja.

No ABC Paulista, não foram poucos os judeus que alcançaram esse feito. Na década de 1950, em Santo André, onde mais de 30 famílias judaicas estavam ligadas ao comércio, o dia do Yom Kipur era facilmente percebido pelas lojas fechadas em ruas tradicionais do Centro, como General Glicério e Oliveira Lima. Santo André e São Caetano sempre tiveram uma comunidade maior do que São Bernardo por um motivo simples: suas estações de trem.

Os trilhos desempenharam um papel fundamental na imigração em São Paulo. A partir da Estação da Luz, os imigrantes chegavam ao interior, atraídos pelas oportunidades em fábricas e pequenos negócios abertos no entorno da linha férrea. Esse vaivém dos passageiros e o estabelecimento de novos moradores para atender à indústria embrionária favoreciam o comércio – e aqueciam as vendas dos mascates. Tanto que há registros da presença judaica em pelo menos 35 municípios do interior paulista em meados do século 20, a maioria deles muito bem servidos pelo trem.

A formação de uma comunidade

Em 1928, a luz elétrica ainda era de certa forma novidade no ABC. Predominavam as ruas de terra e as mais modernas eram pavimentadas com paralelepípedos. Os imigrantes do Leste Europeu e de países árabes desembarcavam ao lado de espanhóis, italianos, portugueses e outras nacionalidades que vislumbravam uma sorte melhor no Brasil. As famílias judaicas nem sempre vinham completas. Era comum os homens chegarem sozinhos, arrumarem casa, trabalho e se adaptarem ao novo país para aí então trazerem mulher e filhos.

Esses pioneiros também se preocupavam com a forma de manter seu judaísmo. Uma das primeiras iniciativas dos imigrantes em Santo André foi a organização de um Cabalat Shabat. Na época em que não havia uma sinagoga, as cerimônias eram realizadas a cada semana na residência de um outro integrante do grupo.

Quando os recém-chegados conseguiram homens suficientes para formar um minyan, compraram um Sêfer Torá. Os rolos sagrados ficavam guardados – e bem protegidos – no armário da casa de um dos participantes do minyan e eram retirados apenas para a leitura no Shabat. Nas Grandes Festas, a solução era se deslocar até as sinagogas da capital. Muitos se hospedavam na casa de parentes para não depender do carro ou do trem.

Com o tempo, o número de judeus cresceu e a construção de uma sinagoga se tornou urgente. O prédio erguido na década de 1940, com projeto do arquiteto Vittorio Corinaldi, foi fruto de uma grande mobilização da comunidade judaica andreense. Houve quem tivesse tomado empréstimos na Cooperativa de Crédito Popular do Bom Retiro para investir na ideia e até caminhado de Santo André à Lapa recolhendo donativos.

Há testemunhos de que um dos membros da comunidade literalmente pôs as mãos à obra. Sem maiores somas para contribuir, foi encontrado passando tijolos aos pedreiros. Esse homem participara, alguns anos antes, como operário na construção do Grande Templo, na rua Martinho Prado, atual Museu Judaico de São Paulo.

Um dos fatos mais curiosos na história da sinagoga ocorreu durante as campanhas de nacionalização do Governo Vargas. Entre a série de medidas que buscavam estimular a cultura nacional e reduzir a influência externa, foram proibidas publicações e aulas em idiomas estrangeiros. Os nomes de clubes, associações e outras entidades também foram afetados e invariavelmente precisavam ser substituídos. Até mesmo as conversas em “línguas diferentes” poderiam sofrer punições.

Foi assim que durante uma aula de Bar-Mitzvá alguém do lado de fora da sinagoga escutou a cantoria do professor e dos alunos, e correu para denunciar o uso de idioma estrangeiro à polícia. A turma foi surpreendida pelos agentes que bateram à porta para investigar o “crime”. Quem acabou responsabilizado foi o então presidente da comunidade e, a partir daí, a história tem duas versões. Em uma delas, ele foi levado à delegacia, onde passou 24 horas na prisão, sendo libertado por interferência de representantes das instituições judaicas de São Paulo. A outra versão diz que o presidente da comunidade teria subido no telhado até que os policiais cansados de procurar o responsável pelas aulas tivessem decidido ir embora.

A comunidade que salvou um Sêfer Torá

Quase todos os judeus que procuraram o ABC Paulista vieram da Europa, poucos do Oriente Médio. Algumas famílias antes de chegarem ao ABC passaram por outras regiões do Brasil, como cidades do próprio interior de São Paulo. Em Bauru (SP), por exemplo, onde existia um encontro de linhas férreas, estabeleceu-se uma comunidade. Uma das famílias que se transferiu de Bauru para Santo André veio inicialmente do vilarejo de Trochenbrod, atual Ucrânia. Quando começaram as perseguições aos judeus com a participação dos cossacos, o patriarca da família correu até a sinagoga de Trochenbrod para resgatar o Sêfer Torá, que corria o risco de ser atingido em meio aos ataques.

No início da década de 1930, o Sêfer Torá de Trochenbrod atravessou o Atlântico de navio dentro da mala da família, passou pelo Rio de Janeiro e a capital paulista até chegar em segurança a Bauru. Com o passar dos anos e a mudança de seus integrantes para outras cidades, a comunidade judaica de Bauru se esvaziou. O Sêfer Torá de Trochenbrod, porém, não foi esquecido. Como boa parte dessa comunidade se fixou no ABC, foi levado para a sinagoga de Santo André.

Outro ponto de passagem de alguns dos judeus que chegaram ao ABC Paulista foram as colônias do Rio Grande do Sul. É o caso da família do premiado cineasta Aron Feldman (1919-1993), que nasceu na colônia de Quatro Irmãos.

Mas, se houve uma cidade mais bem representada nesse mosaico de múltiplas origens, foi a vila de Rozyszcze (pronuncia-se Rogisque). Em Santo André, pouco mais de uma dezena das famílias veio desse povoado pertencente à Ucrânia, que já foi parte da Rússia e da Polônia. No fim do século 19, Rozyszcze tinha uma população de 5 mil pessoas, 70% judaica. Seus antigos moradores sempre foram zelosos em guardar suas memórias. Em Israel, existe um comitê especialmente criado para preservar a história do local, com livros, monumentos, viagens e outras iniciativas.

No ABC, embora não tenha sido criada uma entidade oficial para isso, as famílias de Rozyszcze que lá se estabeleceram sempre fizeram questão de lembrar suas origens, apesar de construírem fortes laços de amizade com o restante da comunidade. A pequena cidade foi muito atingida por ataques nazistas durante a 2ª Guerra Mundial.

A força feminina na construção do ABC judaico

O engajamento das mulheres no crescimento da comunidade judaica local se tornou formalmente estruturado em 1946, quando começaram as reuniões da Women International Zionist Organization (Wizo), em Santo André. Poucos anos após a inauguração da Wizo, as atividades femininas duplicaram, com a abertura de uma unidade da então Organização das Pioneiras, hoje Na’amat Pioneiras.

Entre as atividades desses grupos, eram organizados debates, palestras, eventos de música e até a visita de personalidades brasileiras e internacionais. Consta nas atas da Wizo que um de seus convidados foi Dom Jorge Marcos de Oliveira. Nomeado primeiro bispo de Santo André nos anos 1950, Dom Jorge era pleno conhecedor da cultura judaica e amigo da comunidade, sendo reconhecido por sua atuação em prol dos Direitos Humanos durante o regime militar no Brasil. E fez questão de compartilhar uma visita sua a Israel na entidade.

A primeira missão da Wizo foi reunir condições para a inauguração de uma escola judaica. Uma das estratégias para concretizar o projeto foi realizar jantares e outros eventos de arrecadação de fundos.

Como muitas das famílias eram recém-chegadas e desembarcaram no Brasil com poucos recursos, obter contribuições nem sempre era fácil. Mesmo assim, a cultura de ajuda aos mais necessitados sempre foi uma constante entre os recém-chegados. No caso da escola, motivada pela possibilidade de reunir os alunos judeus que se espalhavam por instituições de ensino públicas e creches da região. Até então, os pais que desejassem oferecer uma educação judaica dependiam majoritariamente de professores particulares contratados em São Paulo.

Assim nasceu o Externato Hebreu Brasileiro Chaim Weizmann, nomeado em homenagem ao primeiro presidente de Israel. A primeira reunião para a criação da escola foi realizada em 1953 e teve registro em uma ata em iídiche. No documento, os participantes destacam que, por mais ousado que fosse o orçamento, tratava-se de um custo pequeno se comparado aos grandes resultados previstos.

E os esforços para a manutenção de uma instituição judaica desse porte no ABC não foram poucos. Uma das dificuldades vivenciadas logo de início foi que nem sempre os pais e mães conseguiam buscar os filhos na hora em que as aulas acabavam. Para evitar que as crianças ingressassem em outras escolas, houve professores que se prontificaram a levar os alunos para a própria casa, dar almoço e lanche, oferecer um espaço para brincadeiras, até que os responsáveis conseguissem sair do trabalho e buscar seus filhos.

Quando o número de crianças matriculadas cresceu, a escola ganhou uma estrutura maior, em outro endereço. Houve ainda uma segunda mudança, quando passou a ocupar um imóvel próprio, na rua Onze de Junho, 172. Nos anos 1960, o Externato viveu o seu auge, alcançando mais de 100 alunos, sendo cerca de 40 apenas no Jardim de Infância. Em 1972, a escola sentiu o impacto de uma medida que não estava em seus planos. Foi obrigada a se adequar à nova legislação federal, que criava o Ensino Fundamental de oito anos.

De repente, o Externato com uma professora para o jardim, um professor de hebraico e quatro professores – um para cada classe – precisou passar para o novo regime, contratando mestres para diversas disciplinas, que atendessem a uma grade muito mais ampla.

As dificuldades aumentaram de tal forma que pais e professores viram-se obrigados a pedir a transferência dos estudantes para outras escolas, onde os jovens concluiriam o novo Ensino Fundamental.

O plano de transferência não foi adiante por uma razão principal: os alunos organizaram passeatas e protestos. Carregando faixas e cartazes, pediram a permanência das atividades na escola, que a partir das transformações implementadas mudou seu nome para Externato Oswaldo Aranha. Além da contratação dos professores, foi necessário adaptar o prédio para aumentar as turmas, reformar o pátio para as aulas de Educação Física, multiplicar as reuniões de diretoria, entre outras ações.

Nos anos 1970, diante das dificuldades financeiras, os funcionários da escola de Santo André deram um importante exemplo de dedicação à educação judaica no município. Professores abriram mão dos aumentos de salário para que a quantia fosse investida em infraestrutura para os alunos. Também uma diretora pagou transporte a estudantes que moravam em bairros mais afastados, para que mantivessem seus vínculos diários com o Externato.

Ao longo do tempo, a situação se tornou insustentável, agravada pela redução no número de alunos e classes muito pequenas. Quando já se previa o fechamento, a diretoria orientou os pais e preparou os estudantes, buscando amenizar os possíveis impactos das mudanças. Depois de quase 35 anos, em dezembro de 1987, a escola encerrou suas atividades.

O imóvel onde o Externato funcionava, porém, não ficou inativo por muito tempo. Em 1995, com a demolição da construção e após nove meses de obras, foi erguido o Centro Comunitário Itzhak Rabin, sede da Associação Religiosa Israelita de Santo André (Arisa), para onde foi transferida também a sinagoga da cidade. Além das atividades religiosas, o Centro possui uma mikvê, dá espaço a um coral e oferece cursos diversos de música, dança, culinária e outros temas da cultura judaica.

São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul

Os primeiros registros da chegada de imigrantes judeus a São Bernardo do Campo datam dos anos 1940. O número de famílias na cidade nunca ultrapassou duas dezenas e a união à comunidade de Santo André foi um caminho natural. Havia inclusive um revezamento de pais e mães para levar e trazer os filhos matriculados no Externato Oswaldo Aranha. Os próprios nomes das famílias de São Bernardo apareciam com frequência nas listas de doadores das campanhas beneficentes realizadas na cidade vizinha.

Em São Caetano, os imigrantes judeus começaram a se estabelecer em meados dos anos 1920 e uma estrutura organizada de comunidade foi registrada em 1948, com o lançamento da pedra fundamental da Sociedade Religiosa Israelita de São Caetano do Sul (SRISCS). A primeira providência tomada pelos membros da entidade, que funciona até hoje no mesmo endereço, foi a aquisição de um Sêfer Torá.

Em 1950, a comunidade construiu sua sinagoga, com pinturas que retratam cenas bíblicas, feitas por um artista israelense. O prédio, completamente restaurado em 2014, é reconhecido pela prefeitura de São Caetano na lista de patrimônios culturais da cidade. Em conjunto com os moradores de São Bernardo e Santo André, os jovens do município frequentavam movimentos como Dror e Hashomer Hatzair. O grupo de judeus de São Caetano chegou a vivenciar uma intensa atividade cultural, recebendo conferencistas e grupos de teatro argentinos, que apresentavam peças dos grandes escritores em língua iídiche. A cidade também serviu de base para uma unidade da Na’amat Pioneiras, que esteve ativa por quase meio século.

Ao longo dos anos, as atividades dos judeus de forma geral foram mudando. Se de início predominavam os comerciantes, as novas gerações diversificaram suas ocupações. Tornaram-se administradores, advogados, artistas, cineastas, engenheiros, escritores, jornalistas, médicos. Alguns até com participação política no ABC.

A região assistiu também ao deslocamento de dezenas de famílias judaicas principalmente para São Paulo, motivadas por casamentos ou exigências profissionais, e para Israel. A comunidade de São Caetano, que chegou a contar 100 famílias, abriga hoje em torno de 30. Em Santo André, que mantém uma chanukiá próximo ao Paço Municipal, passou de 180 famílias para cerca de 100, constituindo uma presença que ainda hoje contribui para a construção de uma identidade judaica e o desenvolvimento do ABC Paulista.

BIBLIOGRAFIA

Gedankien, Anna; Glezer, Raquel; Shor, Eduardo. Coragem, Trabalho e Fé. A história da comunidade judaica na região do ABC Paulista. Santo André, 2019.

Gedankien, Anna; Gedankien, Dan Iosef; Polesi, Alexandre; Polesi, Odete. A comunidade israelita do ABC. Revista Brasil-Israel, São Paulo, número 204, pgs. 34-39. Jan/fev/mar 1981.

Jovanovic, Aleksandar. Os filhos de Israel nas terras do Tijuaçu. Revista Raízes, Fundação Pró-Memória, São Caetano do Sul, 22, 1992, pgs 26-33.

Rozyszczer Comittee in Israel. http://www.rozyszcze.org/

Eduardo Shor é jornalista e escritor. Autor de biografias e livros institucionais.