Morashá
SÃO PETERSBURGO Foto Ilustrativa

SÃO PETERSBURGO

Segunda maior cidade da Rússia, São Petersburgo foi construída em 1703, por arquitetos italianos e holandeses, a pedido do czar Pedro I, que a tornou sua capital. Conhecida por Leningrado no século passado, sempre foi considerada a mais bonita cidade da Rússia.

Edição 42 - Setembro de 2003


De estilo barroco e neoclássico, seus famosos canais e imponentes palácios sempre exerceram grande fascínio sobre os europeus. 

Ao longo de todo o período czarista, a vida e a situação econômico-social dos judeus em São Petersburgo oscilava de acordo com as diretrizes tomadas por cada novo czar. Sua presença na cidade foi, em algumas épocas, totalmente proibida, em outras bastante restrita. Foi em São Petersburgo que os judeus iniciaram o processo de sua emancipação intelectual e de fortalecimento do ideal sionista. A cidade testemunhou, também, o sofrimento da comunidade, sistematicamente maltratada ao longo dos anos.

Presença judaica

Em 1762, Catarina II, a Grande, é coroada czarina. Até então, os judeus só tinham permissão de viver na Rússia se aceitassem converter-se ao cristianismo. Mas a expansão imperial leva à anexação, a partir de 1772, de uma parte substancial do território polonês. Com a divisão da Polônia, centenas de milhares de judeus que, há séculos, viviam na área, tornam-se, de uma hora para outra, súditos indesejáveis para os czares. 

Preocupada em ter elementos "mal-vistos" em solo russo, Catarina os proíbe de entrar nas grandes cidades da Rússia, obrigando-os a viver no chamado "Território do Acordo" que ela própria estabelece em 1791. Mas, por motivos econômicos, a czarina abre uma exceção: permite a entrada dos judeus em São Petersburgo e até mesmo facilita a sua instalação na cidade. Assim, muitos passaram a lá viver durante seu reinado.

No decorrer das décadas, somando-se os que receberam permissão definitiva aos que obtiveram licença de residência apenas temporária, lentamente foi crescendo a população judaica na cidade e, por volta de 1802, já era grande o suficiente para pensar em ter seu próprio cemitério. Era o primeiro passo para o estabelecimento de uma comunidade judaica organizada.

Em 1825, quando o czar Nicolau I (1825-1855) subiu ao poder, iniciou-se um dos períodos mais sombrios da história dos judeus russos. Havia na cidade apenas uma pequena comunidade e as fortunas judaicas em todo o Império começam a se deteriorar rapidamente. Surge uma melhora substancial somente em 1855, quando Alexandre II ascende ao trono. Mais liberal, o novo czar promove a industrialização e modernização da economia russa, concedendo, também, mais direitos aos judeus e amenizando os nefastos decretos de seu antecessor. 

O ishuv de São Petersburgo

Com as reformas econômicas, nasce o capitalismo russo. Para o governo czarista, os judeus são divididos em "úteis" e "inúteis". A primeira categoria abrange mercadores, médicos, juristas, banqueiros e engenheiros. Para esta minoria mais abastada e instruída, é concedida a permissão de morar na capital. É então que realmente se inicia a história da comunidade judaica de São Petersburgo. 


Numericamente, a comunidade é pequena, mas consegue enriquecer rapidamente. Muitos judeus estrangeiros, com recursos para investir, associam-se aos de São Petersburgo, atraídos pelos negócios rentáveis. Vestiam-se seguindo os padrões ocidentais, falavam russo e seus filhos freqüentavam escolas seculares. Alguns participaram ativamente no processo de industrialização do país, destacando-se em várias áreas. 

Os irmãos Poliakov, agraciados pelo czar Alexandre II com títulos de nobreza, tornaram-se famosos por construir as primeiras ferrovias da Rússia e fundar o Banco de Moscou. Os barões Guinsburg, pai e filho, fundadores do Banco Guinsburg de São Petersburgo e grandes investidores nas minas de ouro da Sibéria, foram algumas das mais importantes personalidades da comunidade. O barão Horace Guinsburg foi também o primeiro grande líder judaico da cidade, atuando junto às autoridades em defesa dos interesses comunitários. Sua suntuosa casa era ponto de encontro de escritores e artistas. A residência de sua família ainda pode ser vista no número 18 da avenida Profsoyusov. 

As famílias Rosenthal, Friedland, Zaks e Brodski também se instalaram na cidade. A partir de 1869, o Conselho Administrativo da comunidade judaica assina um acordo com o Conselho Municipal para adquirir um terreno no qual será construído um cemitério. A comunidade pede, também, autorização para construir uma sinagoga. O governo czarista concorda, desde que o local escolhido seja distante das igrejas. Após anos à procura de um terreno, o Conselho Administrativo judaico compra um lote perto do Lermontovski Prospekt, localizado atrás do atual Teatro Kirov. A pedra fundamental do edifício é colocada em 1883 e a sinagoga inaugurada em 1893. É a famosa Sinagoga Choral.

O financista Leo Rosenthal é um dos fundadores e patronos da Sociedade para a Promoção da Cultura entre os Judeus da Rússia. Fundada em 1863, a Sociedade só deixa de existir em 1930. Durante os anos em que funcionou, publica várias obras literárias e pedagógicas, assim como implementa programas educativos.

É a época também em que a comunidade se mostra solidária e ajuda seus irmãos menos favorecidos. Um grupo de judeus influentes assina a Carta de Apelo, enviada a dez mil membros da comunidade, em toda a Rússia. Em 1880, com o dinheiro arrecadado e uma doação do barão Guinsburg, nasce um fundo assistencial. É a semente para a criação da organização ORT, que tinha por objetivo "difundir o trabalho artesanal e agrícola entre os judeus" e que também contribui para a criação de renomadas escolas profissionalizantes, em funcionamento até nossos dias em várias partes do mundo, entre as quais, no Rio de Janeiro, especializada em eletrônica e telecomunicações.

Infelizmente o crescimento econômico, social e cultural da comunidade de São Petersburgo foi acompanhado por um afastamento das leis e tradições judaicas. Enquanto nos pequenos vilarejos, os shtetls, localizados no "Território do Acordo" o chassidismo florescia e a chama do judaísmo permanecia acesa, nos centros urbanos a assimilação se alastrava.


É nesse período que se fortalece o grupo da Haskalá (Iluminismo judaico), movimento político que prega uma atitude mais aberta para os valores seculares e o modo de vida dos não-judeus. As idéias da Haskalá incentivam a emancipação da juventude, que procura distanciar-se do judaísmo ortodoxo e das ieshivot. Um número cada vez maior deles passa a freqüentar as universidades estatais e a usar a língua russa no lugar do iídiche. A assimilação tomava, então, proporções assustadoras. Ao perceber o crescimento dos ataques contra o judaísmo chassídico e os ventos do liberalismo que estavam atingindo as ieshivot, o Grão-Rabino de Israel manda seu discípulo, o rabino El-Chanan Cohen, para São Petersburgo. Sua espinhosa missão era tentar salvar o judaísmo ortodoxo. 

A cidade tornou-se também o centro da imprensa judaica em língua hebraica, russa e iídiche e da literatura russo-judaica. Em 1881, Adolf Yefimovitch Landau inaugura o primeiro periódico judeu russo. Este jornal mensal educativo, produto da Haskalá, é para alguns a expressão da assimilação; para outros, uma arma na luta para a emancipação judaica e um aliado do sionismo. Os judeus também se destacam no mundo artístico. Os pintores Isaac Levitan, Leon Bakst e Marc Chagall surpreendem o mundo com suas criações. 

Mas os "favores" concedidos pelo czar Alexandre II aos judeus despertam ciúmes e a volta do anti-semitismo, especialmente na extrema direita. As grandes empresas, temendo a concorrência, começam a denunciar "o perigo judeu" através da imprensa, que lhes dá ouvidos. Com o assassinato de Alexandre II, em 1881, as reformas cessam. No final do século XIX, a comunidade judaica de São Petersburgo somava cerca de 17 mil pessoas, constituindo o núcleo catalisador de intensa vida judaica Uma faculdade e uma escola de comércio são inauguradas, assim como um museu histórico e etnográfico. Os clubes, centros de encontros judaicos e restaurantes se multiplicam na capital.

Com a subida ao trono do czar Nicolau II (1895-1918), último dos Romanovs, conhecido na história judaica como o czar dos pogroms, os sonhos de emancipação dos judeus chegam ao fim. Os eventos que seguem provocam uma profunda crise entre os que viram frustradas suas expectativas de integração na sociedade e cultura russa. Nicolau II resolve tentar afogar a Revolução Bolchevique no sangue judeu. Entre 1903 e 1907 a violência contra os judeus se reascende em todas as formas. Muitos passam a acreditar que não há mais esperanças para a vida judaica na Rússia. É o início de uma grande emigração judaica para a América, Grã-Bretanha e a Terra de Israel. 

A insatisfação popular estava prestes a explodir na Rússia. Em janeiro de 1905, durante uma manifestação pacífica na Praça do Palácio de São Petersburgo, o czar Nicolau II ordena a seus cossacos que descarreguem as armas sobre as massas, mais de 150 pessoas são mortas. É o sinal: a Revolução está à porta.

Desponta, então, o nome de Leon Trotski. Filho de um agricultor judeu, é presidente do Soviet de São Petersburgo e prepara a Revolução. Em 1914, São Petersburgo muda de nome, passando a se chamar Petrogrado. 

Durante o comunismo

A Revolução de Outubro de 1917 traz de volta as esperanças da população judaica. A queda do regime czarista e a Revolução são festejadas pelos judeus de toda a Rússia como uma nova era de liberdade. Uma das primeiras atitudes do governo provisório bolchevique foi abolir as restrições legais impostas aos judeus. Mas apesar da aparente tolerância, a sombra negra do ódio ao nosso povo ainda pairava, ameaçadora.

Durante a sangrenta guerra civil que se seguiu à Revolução, centenas de shtetls foram vítimas de terríveis pogroms. Os judeus e suas propriedades tiveram que ser protegidos por unidades de segurança. Somente na Ucrânia, 200 mil foram massacrados. 


Quando a União Soviética é criada sobre os escombros da Rússia czarista, Trotski se une a Lênin e participa do novo governo. Os judeus comemoram o fim do anti-semitismo e os esforços para normalizar a sua situação. A intelligentsia judaica é chamada a integrar o governo e ajudar na edificação do socialismo. O anti-semitismo é legalmente proibido, mas a política soviética em relação aos judeus continuou ambígua e cheia de contradições. 

Temendo a intervenção estrangeira e como sinal de rompimento com o passado czarista, os bolcheviques transferem a capital de São Petersburgo para Moscou, em 1918. Assim, enquanto o antigo centro do poder cai no esquecimento, Moscou ressurge como eixo em torno do qual gira a vida política e econômica nacional. As privações causadas pela Primeira Guerra Mundial, pela Revolução e pela Guerra Civil levaram grande parte da população a deixar São Petersburgo e, em 1920, menos de um terço dos habitantes que havia, em 1916, permanecera na cidade.

Em 1924, com a morte de Lênin, a cidade passa a se chamar Leningrado. Stalin, que emergira vitorioso na disputa pelo poder após a morte de Lênin, despreza São Petersburgo e seus vínculos tanto com o czarismo quanto com os revolucionários que o tinham derrubado. Stalin assume o poder e, entre suas primeiras medidas, manda exilar Trotski e inicia uma era de repressão, conhecida como "o Grande Terror". As perseguições de 1936 a 1938 e a ideologia soviética afetam a vida dos judeus. Apesar de o marxismo admitir o desenvolvimento cultural das várias nacionalidades, condena todas as religiões. A emancipação dos judeus é acompanhada por uma dura repressão ao judaísmo. O iídiche e o hebraico, reconhecidos nos primeiros anos como línguas nacionais, acabam sendo prescritos no fim da década de 1920. A vida cultural judaica em todo o território soviético entra em declínio, os jovens começam a se afastar das tradições e da cultura judaica e os casamentos mistos se multiplicam a história assimilacionista se repetia uma vez mais. 

O anti-semitismo abolido por lei volta com todo o vigor. Stalin acusa os judeus de querer destruir a revolução socialista, milhares são deportados para a Sibéria. Seu profundo sentimento antijudaico veio à tona principalmente nos anos de 1948-1953, conhecidos como "os anos negros do judaísmo soviético". O clímax desta perseguição deu-se no início de 1953, quando nove médicos entre eles seis judeus são acusados de tentar envenenar Stalin em conluio com agentes britânicos, norte-americanos e sionistas. Este julgamento forjado deveria ser o prelúdio de uma deportação em massa de judeus para a Sibéria. Stalin morreu antes do julgamento e os judeus foram salvos.


Com Kruschev no poder, a situação não melhora para o nosso povo. Vários pogroms acontecem. É proibida a confecção de matzá para Pessach, assim como a impressão dos livros escritos por judeus. As escolas judaicas são fechadas.

Os judeus sofrem. Nada muda durante os governos de Brejnev a Gorbatchev. A comunidade judaica tenta sobreviver o mais discretamente possível.

O fim da União Soviética

Quando, em 1985, Mikhail Gorbatchev assumiu o poder, tentou superar os problemas da União Soviética adotando políticas mais liberais, que visavam implantar liberdades democráticas. Os judeus se encheram de esperança. A liberdade de exercer a religião fato proibido no regime comunista é festejada por todos os credos. Em 1989, a queda do Muro de Berlim e o desmantelamento do bloco comunista permitem aos judeus emigrar para Israel com toda a liberdade. Várias ondas de aliot se seguem, deixando para trás uma pequena comunidade enfraquecida. 

Em 1991, a cidade volta a adotar seu nome original, São Petersburgo. É nessa época que um grupo de judeus da nova geração tenta reconstruir a comunidade. A Unesco declarou 2003 como "o ano de São Petersburgo", pois em maio deste ano a cidade festejou 300 anos. Os judeus que lá ainda vivem comemoram o renascimento de sua comunidade, em solo russo.

Bibliografia:
• Cattan, Olívia, artigo publicado no Euro J Magazine
• The Jewish Traveller, Alan M. Tigay