Morashá
Os judeus de Alexandria Foto Ilustrativa

Os judeus de Alexandria

Após a poderosa comunidade de Alexandria ter sido arrasada pelas Legiões romanas, milênios se passariam sem uma importante presença judaica na cidade. Somente no século 20 os judeus voltariam a vivenciar uma segunda época áurea na cidade, no entanto, também sem um final feliz.

Edição 65 - Setembro de 2009


A relação entre os judeus e o Egito é muito antiga. Foi lá o primeiro exílio de Israel, pois devido a um surto de fome em Canaã, Jacob e seus 12 filhos se radicam no Egito, onde seu filho Josef já era o poderoso vice-rei. Os Filhos de Israel permanecem na terra de Goshen, no delta do rio Nilo, durante 210 anos. Escravizados, são libertados, provavelmente no início do século 13 aEC, por Moshé, que os conduz até o Monte Sinai, onde D'us lhes outorga os Dez Mandamentos. E, após vagar no deserto durante 40 anos, finalmente entram em Canaã, a terra prometida por D'us.

Os judeus só reapareceriam no Egito séculos mais tarde, por volta de 650 aEC, na ilha Elefantina, no Alto Egito. Inicialmente uma instalação militar judaica, essa comunidade desapareceu no século 2 aEC. Outra leva de judeus, entre os quais o profeta Jeremias, refugia-se no Egito por volta de 588 aEC. Provenientes de Judá, fugiam de Nabucodonosor II, que, após conquistar Jerusalém e destruir o Templo Sagrado, levou cativas para a Babilônia milhares de pessoas. Contudo, a grande onda de imigração judaica só ocorreu após a conquista do Egito por Alexandre, o Grande.

No ano 332 aEC, no delta do Nilo, às margens do Mediterrâneo, o imperador funda Alexandria. Segundo Flávio Josefo, já havia judeus na fundação da cidade e Alexandre lhes outorgara permissão de lá viver com "os mesmo direitos que os macedônios", direitos esses mantidos por seus sucessores.

Morto Alexandre, seu império é dividido entre seus generais: a Macedônia e a Grécia ficam com Antígono, com Seleucos I Nicator fica a parte oriental do Império, cabendo a Ptolomeu o Egito.

De todas as cidades que Alexandre fundara, nenhuma se comparava à magnificência de Alexandria. Através de seu porto, iluminado por uma das sete maravilhas do mundo antigo, o Farol de Alexandria, eram comercializadas mercadorias provenientes dos três continentes. A população da cidade era predominantemente grega, pois, além de um grande número de judeus, poucos egípcios nativos tinham autorização para nela viver.Rapidamente, Alexandria se torna a capital da cultura helênica, o maior centro cultural da Antigüidade. Estudiosos de todas as partes do mundo acorriam para sua universidade e para sua inigualável Biblioteca.

Foi durante o domínio ptolemaico de Judá que se inicia a vinda de judeus em grande escala. Relata Flávio Josefo em sua obra que, após a conquista de Judá, 120 mil pessoas foram levadas escravas para o Egito e que, ao serem libertadas, permaneceram em terras egípcias. Outros habitantes de Judá, atraídos pelas oportunidades econômicas, também se estabeleceram em Alexandria. No século 3 aEC havia judeus em outras cidades do país e a população judaica excedia a da Babilônia.

Até o final do século 1 desta Era, a rica e educada comunidade judaica de Alexandria era uma das maiores do mundo e inúmeros de seus membros ocuparam importantes cargos no governo. Os privilégios e direitos que os judeus locais gozavam eram maiores do que os de quaisquer de seus pares no mundo grego.Os judeus constituíam uma parcela significativa da população da cidade. Culturalmente integrados, também utilizavam o grego como idioma, sendo que poucos conheciam o hebraico ou o aramaico. No século 3 aEC, Ptolomeu II Philadelphus incumbiu 72 sábios judeus de traduzir para o grego os Cinco Livros de Moisés, a Torá, obra que passou à história como a Septuaginta.

No entanto, apesar do helenismo influenciar suas vidas e seu pensamento, os judeus de Alexandria permaneciam fiéis à sua fé. Vistos como "diferentes" por pagãos helenizados, eram alvo da hostilidade das massas, o que resultava em conflitos ocasionais que, às vezes, tornavam-se violentos. São de fabricação egípcia as primeiras calúnias contra os judeus, obra de Manetho, um sacerdote que viveu por volta de 3 aEC. De Alexandria, berço do antijudaísmo pagão, escritores judeu-fóbicos espalhavam suas "doutrinas" através do mundo greco-romano.

Sob domínio romano

No ano 30 aEC, o Egito se torna província romana e Alexandria um importante centro do comércio romano com o Oriente. Os direitos e privilégios da comunidade judaica egípcia foram mantidos por Roma. Entre outros, a isenção do culto ao imperador, de enviar contribuições para o Templo, e de estabelecer sinagogas, cemitérios e tribunais para julgar suas disputas.

No início da Era Comum, florescia, no Egito, a maior comunidade da Diáspora judaica, com cerca de um milhão de pessoas. Em Alexandria os judeus constituíam mais de um terço da população da cidade e o bairro judaico era tão extenso, que se acreditava que lá vivessem mais judeus do que em Jerusalém. Havia muitas sinagogas espalhadas por toda a cidade. Filon, filósofo judeu que vivia em Alexandria, menciona, em sua obra, uma como sendo especialmente ampla e magnífica. No centro, dessa sinagoga havia uma Tebá na qual ficava o chazan, e na conclusão de cada bênção, ele sinalizava com uma bandeira para que a congregação respondesse "Amém".

Sob domínio romano, a aversão mútua entre judeus e gregos crescera. Os pagãos helenizados de Alexandria viam com desprezo as "peculiaridades" religiosas e sociais da população judaica. Era tambem forte o sentimento antijudaico que permeava a intelectualidade grega de Alexandria, sendo Apion seu principal expoente. A hostilidade se manifestava em ataques a bairros judeus. Eram verdadeiras batalhas de ruas com milhares de mortos.

No ano 37 desta Era sinagogas são atacadas, judeus são expulsos de suas casas e isolados em uma área da cidade, suas propriedades destruídas. Muitos são barbaramente mortos, outros tantos espancados, por vezes até a morte. Os violentos distúrbios coincidem com uma tentativa do imperador Calígula, que se auto-investiu de divindade, de forçar os habitantes do império a lhe render culto. Judeus de todo o império se recusam a erguer a estátua de Calígula em seus locais de orações. Em 40, utilizando-se dessa recusa como pretexto, os judeus de Alexandria são novamente alvo de violência.

Duas delegações vão a Roma em conseqüência desses motins. Uma delas, liderada por Filon, pretendia reunir-se com Calígula para se defender das acusações. Outra, liderada por Apion, vai até o imperador para apresentar formalmente as acusações de deslealdade. A difícil situação dos judeus somente se acalma depois do assassinato de Calígula. Apion decide permanecer em Roma, onde abre uma "escola" a partir da qual propaga seu virulento antijudaísmo.

Novos conflitos eclodem na cidade durante os reinados de Nero e de Vespasiano. E, quando, em 66, irrompe na Judéia uma revolta generalizada contra o Império Romano, Alexandria é palco de mais um grave e sangrento conflito.

A grande revolta dos judeus egípcios

A importância da comunidade judaica egípcia prevaleceu até a chamada Guerra da Diáspora. No ano de 115, legiões romanas do imperador Trajano em campanha contra os partas são obrigadas a deter seu avanço devido ao levante que eclodira nos territórios recém-conquistados. Durante o levante milhares de judeus cerraram fileiras contra Roma, ao lado dos partas. No mesmo ano, os judeus de Cirenaica, na Líbia, revidam um ataque sofrido pela população local, que, dessa vez, não conta com o apoio das tropas romanas. Em Alexandria e no resto do Egito os judeus também tomam as armas contra os gregos e saem vitoriosos.

As revoltas se transformam em guerra total, na qual participam as comunidades judaicas de Chipre, Creta e Síria, inclusive. Os judeus organizam legiões para enfrentar Roma, que envia imediatamente forças para derrotá-los. O escritor cristão Eusébio, do século 4, assim relata os acontecimentos: "Em Alexandria e no resto do Egito, e igualmente em Cirenaica, como que inflamados pelo mesmo espírito de revolta, os judeus lançaram-se numa luta contra seus concidadãos gregos, altearam a temperatura ao ponto febril e, no verão seguinte, iniciaram uma guerra em escala total... Contra eles, o imperador enviou MárcioTurbo... Ele conduziu a guerra aos judeus, sem descanso, numa longa série de batalhas, matando muitos milhares deles...".

A Guerra das Diásporas terminou em 117, quando as legiões romanas esmagaram as revoltas. Sua violência deixou centenas de milhares de judeus mortos, dos quais mais de 500 mil eram do Egito e da Líbia. Desta forma, foi praticamente aniquilada a comunidade de Alexandria, a mais culta e numerosa da Diáspora, suas sinagogas destruídas e as propriedades judaicas confiscadas pelas autoridades romanas.

A invasão árabe

Em 641, o general árabe Amir Ibn el-As conquistou o Egito. Quando, dois anos mais tarde, na margem oriental do Nilo, funda o núcleo de Fustat, que se tornaria o centro da vida egípcia, a cidade de Alexandria perde sua importância. À medida que Fustat foi-se desenvolvendo, levas de judeus ali se radicaram, muitos vindos da Babilônia e da Síria. Alguns voltaram a viver em Alexandria, a comunidade que se formara na cidade, mas que em nada lembrava aquela de outrora.

Sob o domínio árabe, apesar da condição de dhimmis, a vida dos judeus egípcios era relativamente tranqüila, chegando alguns de seus membros a ocupar importantes cargos nas cortes muçulmanas.

Ao se consolidar como centro das rotas comerciais do Levante, o Egito passou a atrair um número cada vez maior de judeus vindos de todo o Oriente Médio. A maioria se estabelece em Fustat, que se tornou o principal centro cultural e religioso dos judeus egípcios. Na Guenizá da sinagoga Ben Ezra dessa cidade, construída no século 9, foram encontrados documentos não apenas da comunidade local, mas também de outras de todo o Levante. Seu conteúdo constituiu importante registro da vida judaica no Oriente Médio entre os séculos 10 a 13.

Em 969, o califa al-Mu'izz conquista o Egito e manda construir perto da localidade de al-Fustat uma nova cidade, al-Qahirah ("a Vitoriosa"), conhecida no Ocidente como Cairo. Sob a dinastia fatimida - que se manteve no poder até 1171- o Egito recuperou sua importância econômica. Os fatimidas passam a dominar o comércio das rotas orientais mediterrâneas e o porto de Alexandria torna-se novamente um dos mais movimentados do Mediterrâneo.

Apesar da relativa tolerância dos fatimidas, ainda assim, os judeus estavam sujeitos às variações de humor do poder dominante. Um dos mais graves episódios de intolerância religiosa ocorreu no final do reinado de al-Hakim bi-Amr Allah (996-1021). Entre outras medidas, em 1012, al-Hakim forçou judeus e cristãos a se converterem ao islamismo e ordenou a destruição de igrejas e sinagogas. No final de seu califado inicia-se o declínio dos fatimidas, sendo o último califa da dinastia deposto em 1171 por Saladino, o Grande.

Rabi Benjamin de Tudela, que chega ao Egito nessa mesma época, encontrou 12 mil judeus vivendo no Cairo e 3 mil em Alexandria, que Tudela assim descreve em seu livro de viagem: "Alexandre a fez excessivamente forte e bela... também construiu um píer no porto, quase uma estrada real que adentrava mar adentro. E lá ergueu uma grande torre, um farol."

Em 1175, quando Saladino se torna sultão do Egito, inicia-se mais um período de tranqüilidade para os judeus. Rabi Moses Ben Maimon, que se radicara no Cairo em 1166, torna-se médico do próprio Saladino. Nascido em Córdoba, Maimônides se refugiara com a família no norte da África, fugindo dos almôadas, que governavam a Espanha moura. Pensador judeu de maior influência na Idade Média, Maimônides se torna líder espiritual dos judeus do Egito, sendo nomeado rabino-chefe da comunidade do Cairo.

Quando os mamelucos, em meados do século 13, tomam o poder no Egito e empreendem medidas discriminatórias contras os dhimmis, milhares de judeus deixam o país em direção de lugares mais acolhedores. O italiano Meshullam da Volterra, que visitou o Egito em 1481, relata que havia apenas 800 famílias judias no Cairo e somente 61 em Alexandria.

Em 1516, as forças otomanas derrotam os mamelucos e são recebidas pelos judeus como verdadeiros "libertadores". O Egito se torna um dos bastiões do controle otomano do Mediterrâneo Oriental, e inúmeros judeus são nomeados para importantes cargos administrativos. A comunidade cresce durante o século 16, após a chegada dos judeus ibéricos, passando a ser composta por três grupos, com distintos costumes: os must'arabim, judeus locais que falavam árabe; os magrebim (do norte da África); e os sefaradim. Em pouco tempo, os sefaraditas de maior erudição ganham ascendência sobre os demais e seus costumes e ritos se tornam predominantes. Os três grupos acabam fundindo-se em uma única comunidade e, com o decorrer do tempo, quase todos se comunicam em árabe, ficando o ladino restrito a uma minoria. A comunidade judaica, no entanto, não fica imune à decadência econômica e à corrupção governamental que marcaram a história egípcia nos séculos 17 e 18, e entra num período de estagnação.

Era Contemporânea

A invasão napoleônica de 1789 trouxe a modernidade ao Egito. Integrando as forças otomanas enviadas ao Egito para deter os franceses estava Mohamed Ali, que, em 1805, toma o poder. Impondo-se ao sultão otomano, estabelece um principado semi-autônomo que passa a organizar à maneira européia. Mohamed Ali Pasha moderniza o exército, investe em infraestrutura e na educação, criando instituições modernas.

Em termos econômicos, reestrutura a produção agrícola, expandindo o cultivo do algodão destinado à exportação e transformando o Egito em um dos maiores produtores do mundo. Era o próprio governo que comprava a safra do algodão a um preço fixo e a revendia aos exportadores de Alexandria.

Com a nova política econômica, Alexandria volta a florescer, passando a ser a capital comercial do país, uma cidade moderna, ocidentalizada. A partir do final do século 18, atraídos pelas novas oportunidades comerciais, imigrantes, entre eles muitos judeus de outras cidades egípcias e de várias partes do Império, estabelecem-se na cidade.

À medida que Alexandria se desenvolve num ritmo vertiginoso, a comunidade judaica entra em um período de acelerado crescimento, havendo grande influxo de judeus da Itália, muitos deles vindo de Livorno e, também, da Grécia. Em 1789, em Alexandria havia apenas 5 mil habitantes; em 1880, 600 mil; e destes, 10 mil eram judeus. A maioria dos recém-chegados se estabelece no bairro Moharrem Bey, ao sul da cidade, onde foi construído o primeiro hospital judaico; e os mais abastados em Nebi Daniel e em Ramhe. Nas décadas de 1850 e 1860 são fundadas, em Alexandria, escolas religiosas modernas, os Talmud Torá, que incluíam matérias como idiomas estrangeiros.

Heterogênea e poliglota, o principal idioma da comunidade de Alexandria era o italiano, usado inclusive para redigir os estatutos comunitários de 1872. O italiano era, também, a principal língua usada nas escolas judaicas, onde os alunos aprendiam francês, árabe e hebraico. O ensino de idiomas estrangeiros era considerado de vital importância do ponto de vista comercial.

A segunda Idade de Ouro

A partir do final do século 19 Alexandria volta a viver um período áureo. A cidade tornara-se o mais importante centro comercial e financeiro do Egito, cuja economia se voltava, cada vez mais, à exportação do algodão, principalmente para a Inglaterra. Para a comunidade judaica também foi uma época áurea, pois o comércio internacional estava, grandemente, nas mãos de não-muçulmanos, europeus, judeus e cristãos.

A cidade começa a atrair imigrantes de todas as regiões da Europa, dos Bálcãs e do Império Otomano, entre os quais, milhares de judeus. A população de Alexandria chega a 150 mil habitantes, dos quais mais de um terço eram estrangeiros; no Cairo esse percentual era de cerca de 20%. Como estipulava o sistema otomano de Capitulações, os estrangeiros mantinham sua cidadania. Os europeus, assim como os judeus, formavam um grupo à parte. Vestiam-se segundo a moda européia e viviam em bairros modernos, recém-construídos, tendo suas próprias escolas, seus hospitais e locais de recreação.

A economia egípcia floresceu ainda mais após a inauguração, em 1869, do Canal de Suez que ligava Port Said, o porto egípcio no Mar Mediterrâneo, a Suez, no Mar Vermelho. No entanto, apesar da prosperidade, o profundo endividamento externo levou o governo a vender sua parte do Canal à Grã-Bretanha, em 1875. Durante uma transação conduzida pelo primeiro-ministro Benjamin Disraeli, o Banco Rothschild levantou fundos para que a Coroa britânica adquirisse o controle do canal.

A partir do final do século interesses econômicos e geopolíticos levam a Inglaterra e França a interferir de forma crescente no Egito. Em 1882, após violentos distúrbios, os britânicos ocuparam o país para restabelecer a ordem e assegurar os seus interesses. A partir desses episódios, embora não de forma expressa, a Grã-Bretanha assume o controle sobre o Egito. Os judeus se vêem favorecidos pela intervenção britânica, passando a ter, pela primeira vez, os mesmos direitos civis e legais que os demais cidadãos. Em 1914, os britânicos colocam um fim à soberania otomana no Egito e o país fica sob seu protetorado. Somente em 1922 é instalado no país um regime monárquico sob o rei Farouk I.

A comunidade alexandrina

A comunidade judaica egípcia que, em 1800, contava com 5 mil pessoas, salta para 25 mil em 1897. Com uma comunidade de 10 mil pessoas, Alexandria ultrapassa numericamente a do Cairo, que tinha 9 mil. Nos 25 anos seguintes, de 1882 a 1907, quadruplicou o número de judeus de Alexandria. Eram provenientes de todo o Império Otomano, da África do Norte, bem como do Leste europeu. É grande o número de judeus sírios que lá se estabelece, havendo entre eles muitos jovens que lá se refugiam para escapar da convocação militar do exército turco.

A comunidade judaica de Alexandria mantinha inúmeras instituições beneficentes, um moderno hospital judaico, um orfanato e um lar de idosos e várias sinagogas. A mais famosa era a Sinagoga Eliahu Hanabi, já mencionada em um relato de um viajante, em 1354. Destruída pelos canhões de Napoleão, foi reconstruída em 1850. Outra sinagoga da cidade, a Zardel, remonta a 1391.

Apesar de haver em Alexandria nove escolas judaicas, mesmo assim muitas famílias mandavam seus filhos a escolas não judaicas modernas, oficiais ou estrangeiras, para depois continuar seus estudos nas universidades do Cairo ou de Beirute, e alguns mesmo na Europa. Cultos e ocidentalizados, a maioria dos judeus falavam dois ou três idiomas. Publicavam-se jornais em francês, árabe, iídiche e ladino.

No início do século 20 já havia em Alexandria um ativo movimento sionista. Esse tomou mais força após a 1ª Guerra Mundial, quando a comunidade recebeu 12 mil judeus do ishuv, entre eles, Joseph Trumpeldor, expulsos de Eretz Israel por autoridades otomanas. Nessa época foi fundada a Federação das Organizações Sionistas Egípcias. Em 1917, milhares de judeus saíram às ruas em Alexandria e no Cairo para demonstrar seu apoio à Declaração Balfour. Naquele ano a comunidade judaica egípcia somava 60 mil pessoas, das quais 40 mil viviam em Alexandria. Os movimentos juvenis, como a Union Universelle de La Jeunesse Juive e o Macabi, fundado em 1930, também eram muito atuantes.

Manifestações abertas contra judeus começaram a aparecer no Egito a partir da década de 1930. Eram o resultado do crescente nacionalismo árabe, infectado por violento anti-sionismo e conseqüente anti-semitismo. Os distúrbios antijudaicos que eclodiram em 1929 na então Palestina haviam contribuído para a intensificação da propaganda anti-sionista. Além do mais, os laços dos grupos nacionalistas árabes com a Alemanha nazista estreitavam-se cada vez mais. Os judeus egípcios responderam com vigor a essa aproximação. Em abril e março de 1933 milhares foram às ruas de Alexandria, do Cairo e de outras cidades egípcias para protestar contra as políticas anti-semitas nazistas. Foi também criada La Ligue International contre L'Antisemitisme Allemand, com 1.500 membros em 1935. Estudantes que também haviam criado uma associação contra o anti-semitismo organizaram um boicote contra produtos alemães.

Quando em 1936 estouram novos embates entre judeus e árabes na então Palestina, grupos islâmicos egípcios, principalmente a Sociedade da Fraternidade Muçulmana, passam a hostilizar abertamente a população judaica. A situação piora em 1940, ocorrendo violentos ataques.

2ª Guerra Mundial

Nos primeiros anos da 2ª Guerra Mundial a comunidade judaica do Egito observava temerosa a proximidade do exército alemão de Rommel e a simpatia do governo egípcio pela Alemanha nazista. O próprio rei Farouk chegou a expressar seu "grande respeito e o apoio de cerca de 90% de seu povo ao Führer". Felizmente sendo o Egito a principal base estratégica da Inglaterra na África e no Oriente Médio, durante toda a guerra forças britânicas exerciam um rígido controle no país e os judeus passaram a ver nos britânicos sua principal fonte de segurança.

Em julho de 1942, quando em seu avanço sobre o Egito Rommel se aproxima de Alexandria, milhares de judeus fogem da cidade, muitos indo para o Cairo. Quando a vitória alemã parecia iminente, o primeiro-ministro Mustafa Al Nahhas Pasha assegurou ao Rabi Haim Nahum, rabino-chefe da comunidade egípcia, que o Egito não iria instituir leis raciais anti-semitas. As palavras do primeiro-ministro não tranqüilizaram a comunidade, que, no entanto, não sabia do real perigo que corria. Pois, enquanto Rommel avançava pelo norte da África, Walter Rauff, chefe das SA-SS, organizava o pelotão especial de comando, o Einsatzkommando, que seguiria as tropas alemãs para assassinar os judeus. Em setembro, os judeus egipcios respiram aliviados. Na batalha de El-Alamein, as forças britânicas detêm o avanço nazista. Em novembro, os exércitos anglo-americanos desembarcam no Magrebe e, em maio de 1943, derrotados, os alemães abandonam a África.

Nos anos de 1940-1946 os judeus egípcios chegaram ao apogeu financeiro. Durante a guerra, o país vivenciou um boom econômico. Mercadorias estocadas eram vendidas a preço de ouro, e as dificuldades de importação levaram ao florescimento das indústrias locais. Ademais, o fato de ser a principal base da Inglaterra na região, significou o crescimento de uma demanda por produtos e mão de obra jamais vista.

Período pós-guerra

No final da 2ª Guerra, a concatenação de uma série de forças e eventos deu início a um processo que, em um tempo relativamente curto, minou a posição das comunidades judaicas no mundo árabe e levou à sua total desintegração. Nos anos da guerra o nacionalismo árabe e o pan-arabismo cresceram ainda mais entre as populações muçulmanas e grupos militantes, como a Sociedade da Fraternidade Muçulmana, já eram poderosas forças populares. Paralelamente, um forte anti-sionismo tomara conta de todo o mundo árabe e o Egito foi palco dos primeiros distúrbios.

Em 1945, a comunidade egípcia, composta de 65 mil pessoas, a maioria em Alexandria e no Cairo, era uma das mais urbanizadas e com o maior grau de instrução de todo o mundo árabe. Naquele mesmo ano, a comunidade foi sacudida por violentas ações anti-semitas. No dia de 2 novembro, maciças demonstrações organizadas por grupos nacionalistas islâmicos ocorreram em Alexandria, Cairo e em outras cidades. No Cairo, foram depredados uma sinagoga, o hospital judaico e outras instituições comunitárias, assim como vários estabelecimentos comerciais de proprietários judeus. Centenas de pessoas ficaram feridas e um policial morreu. Em Alexandria, a violência provocou a morte de seis pessoas, cinco das quais eram judias, e feriu 150.

O rei e o governo se manifestaram publicamente contra a violência, mas a segurança da comunidade estava abalada. À medida que se aproximava a votação das Nações Unidas que decidiria sobre uma eventual partilha da Palestina, agravavam-se as hostilidades. Durante os debates da Assembléia Geral, o delegado do Egito, Heykal Pasha, declarou... "A solução proposta pode colocar em risco um milhão de judeus que vivem em países muçulmanos... podendo vir a criar nesses países um anti-semitismo mais difícil de ser eliminado do que o existente na Alemanha"..

Nesse mesmo ano, uma nova lei estabeleceu que as sociedades anônimas egípcias deveriam deter 51% de capital nacional e 75% dos empregadores e 90% dos empregados deveriam ter nacionalidade egípcia. Como a maioria dos judeus não possuía a nacionalidade egípcia, seu status era de estrangeiros ou apátridas, então mais de 50 mil judeus ficaram desempregados.

A proclamação do Estado de Israel, em maio de 1948, deteriorou ainda mais a situação da comunidade. Bairros judeus foram atacados, deixando um trágico rastro de 70 mortos e mais de 200 feridos. O rei Farouk se reuniu, antes da eclosão da Guerra de Independencia de Israel, quando o Egito atacou o recém-criado Estado, com as lideranças comunitárias, assegurando sua proteção. Mas, isso não conseguiu tranqüilizar os judeus. Nas primeiras semanas do conflito 1.000 judeus foram presos e levados para campos de internação.

Em julho, aviões de combate de Israel bombardearam Alexandria e Cairo levando as manifestações antijudaicas ao seu pico. Os judeus foram alvo de violências, que incluíram saques e explosões com bombas que destruíram cinemas e o comércio varejista de propriedade judaica. Os ataques custaram 50 vidas judias e danos materiais incalculáveis. Após esses acontecimentos, a situação se estabiliza e se mantém relativamente calma até 1954.

Entre 1948 e 1952, por volta de 24 mil dos nossos deixaram o Egito, sendo que um grande contingente deles foi para Israel. Os egípcios facilitaram a saída, enquanto as organizações judaicas se incumbiam de pagar as despesas. Apesar de alguns dos membros da classe alta também emigrarem, principalmente para Estados Unidos e Europa, a maioria dos que deixaram o país era composta de judeus de classe média ou baixa.

Em 1952, um golpe de estado depôs o rei e proclamou a República do Egito. O novo regime procura tranquilizar os judeus recusando-se inclusive a seguir as recomendações da Liga Árabe de congelar as propriedades judaicas no país. Esse breve interlúdio termina quando Gamal Abdel Nasser toma o poder. Em 1956, quando nacionaliza o Canal de Suez e proíbe navios israelenses de cruzá-lo, Israel reage.

Por ocasião da Guerra de Suez, como passou a ser chamado o conflito, não houve ataques de turbas violentas contra a comunidade judaica, mas o governo egípcio tomou medidas severas contra seus membros, declarando que, como todos os judeus eram sionistas, inevitavelmente eram "inimigos do Estado". Deviam, portanto, ser expulsos do Egito. Cerca de 30 mil judeus, 60% da comunidade, deixaram o país. Mais de 14 mil foram para Israel, os outros seguiram para a Europa, para os Estados Unidos e América do Sul, inclusive para São Paulo. No ano seguinte, aquele êxodo continuou. O governo que vetara aos judeus a venda dos bens, bem como levar consigo dinheiro ou qualquer outro objeto de valor, os forçava a assinar uma declaração dizendo que deixavam o Egito "por vontade própria" e concordavam com o confisco de seus bens. Três anos mais tarde, restavam apenas 10 mil judeus no país.

Na véspera da Guerra dos Seis Dias, em 1967, somente restavam entre 2.500 e 3 mil judeus. Durante o terceiro conflito com Israel, ocorreram novos confiscos e detenções; milhares de judeus foram enviados para campos de internação, onde foram torturados durante três anos. Essa última violência determinou praticamente a extinção da vida judaica no Egito e, hoje, lá vivem apenas uma centena de judeus. Apesar do Tratado de Paz que vigora entre o Estado de Israel e esse país, o anti-sionismo é um tópico quase diário na mídia egípcia.