Morashá
A VIDA DENTRO DE UM GUETO Foto Ilustrativa

A VIDA DENTRO DE UM GUETO

Os portões e guardas que supostamente protegiam o gueto, também impediam os judeus de sair à noite. Na prática, no entanto, os regulamentos do gueto nem sempre eram rigorosamente aplicados.

Edição 39 - Dezembro de 2002


Na Itália, já no século XV, por decreto do Papa Paulo IV, os judeus foram confinados a viver reclusos em guetos. No entanto, pode-se dizer que os judeus italianos, principalmente, gozavam de alguma liberdade. Era-lhes vedado usar roupas ou enfeites caros. Eram, também, obrigados a usar estranhos chapéus pontudos e a prender nas roupas insígnias amarelas. Assim, quando um deles se arriscava a sair do gueto, tornava-se objeto de zombaria e ataque dos desordeiros da cidade.

O gueto oferecia segurança e até conforto. Por concentrar e isolar a população judaica, era mais fácil observarem suas leis e tradições.

A segregação protegia os judeus contra a secularidade. Dentro do gueto, podiam manter uma vida cultural intensa, ainda que apartados. A condensação popular feita por Joseph Caro de seu grande código-lei, o Shulchan Aruch, foi publicada em Veneza e, em 1574, também em uma edição de bolso, durante a vigência da imposição de vida nos guetos.

Porém, apesar da segurança que o gueto oferecia a seus habitantes, suas características eram deprimentes. A pior zona da cidade era geralmente reservada aos judeus. Em todos os países, o gueto era pequeno demais para o número de pessoas nele confinadas. As casas tinham que ser próximas entre si e ter muitos andares, sendo bem mais altas do que em outras áreas da cidade. As ruas eram estreitas e a altura das residências impedia que os raios de sol penetrassem nas aléias escuras e insalubres.

Economia e vida comunitária

Em decorrência das várias proibições impostas pela Igreja e por inúmeros estados europeus, apenas duas ocupações tornaram-se características dos judeus: comércio de mercadorias usadas e empréstimo de pequenas quantias em troca de uma garantia de um objeto, como penhor. Os judeus saíam do gueto com embrulhos nas costas para vender os artigos adquiridos ou para comprar roupas usadas nas casas mais ricas. Dentro do gueto, os quartos que à noite eram usados para dormir, transformavam-se em oficinas durante o dia. Ali as mulheres consertavam as roupas velhas e outros objetos trazidos pelos maridos, que então os vendiam com muito pouco lucro.

Alguns judeus, por sua capacidade comercial, chegavam a tornar-se conselheiros financeiros do príncipe ou dos bispos locais. Outros, se tivessem sorte, talvez conseguissem juntar capital suficiente para poder emprestar quantias maiores a cristãos da classe alta. Alguns médicos ficaram muito famosos e tinham grande clientela. Isto porque os cristãos abastados continuavam, a despeito das proibições da Igreja, a convocar médicos judeus em caso de necessidade.

A estrutura da comunidade no gueto era, em geral, a mesma que existia durante a Idade Média. Elegia-se um chefe de comunidade (parnás) e um conselho comunitário (gabai). Somente quem pagava impostos tinha direito de votar e de se eleger. O conselho supervisionava o funcionamento das instituições de caridade, o tribunal e impunha todos os regulamentos, além de cuidar das relações entre o gueto e o mundo externo.

A religião no gueto

A grande miséria e a constante ameaça de expulsão ou ataque faziam com que os habitantes do gueto tivessem sempre em mente uma total desesperança de melhorar sua sorte. Só lhes restava o conforto da religião. No estudo do Talmud e do Midrash, os homens podiam esquecer-se das circunstâncias de tempo e de lugar. Embora residissem fisicamente em Viena, Roma, Veneza, espiritualmente habitavam a Terra de Israel e viviam na esperança de que um dia o Messias os viesse redimir. Enquanto isso, podiam apenas esperar e orar, estudar e observar as Leis, trabalhar por suas famílias e extrair da simples rotina da vida toda a alegria possível. 

As celebrações, nos estreitos limites comunais do gueto, estavam necessariamente associadas aos acontecimentos sociais desenvolvidos em torno do Shabat, dos feriados, dos comoventes Rosh Hashaná e Yom Kipur, das alegres festividades de Pessach, Shavuot e Sucot. Purim e Chanucá eram saudados ansiosamente e observados em cada pormenor. Cada festa e cada feriado tinha seus jogos característicos para as crianças, suas comidas e pratos apropriados, suas melodias e cerimônias que distraíam e entusiasmavam os judeus. O serviço da sinagoga ocupava parte considerável da celebração de um feriado. O chazan satisfazia as necessidades artísticas e estéticas do povo. Por essa razão, durante o período do gueto, assumiu grande importância. 

O espírito alegre da ocasião, mais de que as atividades em si, revigoravam e fortaleciam o espírito do povo. Acontecimentos pessoais e familiares eram outro ensejo para comemorações. Um casamento, por exemplo, era motivo de celebração na comunidade inteira. Apesar da tristeza exterior, os judeus conseguiam manter seu otimismo com relação ao futuro da humanidade e ao seu próprio. Os guetos também eram depósitos de livros. Os judeus montaram impressoras em toda parte. Apesar de freqüentes incursões de autoridades religiosas hostis, acumularam impressionantes bibliotecas. O gueto era, também, um patriarcado. Um pai estava autorizado a usar da força para ensinar a Torá a um filho quando este chegasse aos doze anos de idade. Às crianças, ensinava-se que honrar os pais era equivalente a honrar a D'us.

O gueto romano estava em pior situação do que os demais, pois nele o Papa sentia-se obrigado a instituir pregações regulares aos judeus. Todos os sábados de tarde um terço da população do gueto tinha que comparecer a uma igreja situada nos limites do bairro. O pregador ou o monge, com seus discursos, visava conquistar convertidos ao cristianismo, lançando desprezo sobre o judaísmo. Tal situação se manteve durante séculos.