Morashá
Lloyd Blankfein e o Sonho Americano

Lloyd Blankfein e o Sonho Americano

Ao falar aos formandos de 2013 do LaGuardia College, Lloyd Blankfein perguntou-lhes “Quais as chances de um garoto dos conjuntos habitacionais de moradias populares do Brooklyn dirigir uma das maiores instituições financeiras do mundo” – E ele mesmo respondeu: “Nunca se sabe. Essa imprevisibilidade é o que a vida tem de bom!” 

Edição 89 - Setembro de 2015


Lloyd Blankfein é a concretização do “Sonho Americano”. O garoto judeu que cresceu no Brooklyn, nos conjuntos habitacionais de Nova York, e vendeu amendoins e cachorros-quentes no Yankee Stadium, tornou-se o Chief Executive Officer, o CEO, do Grupo Goldman Sachs, um dos mais prestigiados cargos no mundo financeiro. Quando, em 2006, Henry Paulson, então CEO da Goldman Sachs, foi nomeado para o cargo de secretário do Tesouro no governo de George W. Bush, Lloyd Blankfein tomou seu lugar. Paulson disse, na época, que não havia ninguém mais adequado para assumir tal função. Em 2014 Blankfein supervisionava cerca de US$ 915 bilhões em fundos de investimentos e 32.900 funcionários. De acordo com a revista Fortune, na ocasião ele era o CEO mais bem pago de Wall Street e a Forbes o apontou como sendo o 27º indivíduo mais poderoso do mundo, logo após o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Neste ano de 2015 entrou para a lista dos bilionários do mundo.

Sua vida

Lloyd nasceu em 1954, no Bronx, em uma família judaica de poucos recursos. Em 1957, quando ele tinha três anos, sua família mudou-se do Bronx para o Brooklyn, também em busca de melhores condições de vida. A família se instalou numa das Linden Houses – conjuntos habitacionais da parte leste de Nova York, o Brooklyn. Linden Houses é um complexo de 19 edifícios inaugurados em 1957, com 1.600 apartamentos. Na época, a maioria dos moradores eram judeus.

Seu pai, Seymor Blankfein, após perder o emprego como motorista de uma padaria, trabalhou em uma agência de correios. Trabalhava à noite, pois o salário para o turno da noite era 10% mais alto. Em uma de suas entrevistas, Blankfein disse ter certeza de que “nos últimos anos de sua vida, meu pai, fazia algo que uma máquina faria melhor e de forma mais eficiente. Mas a agência de correio manteve-o na função até que se aposentasse”.

Sua mãe trabalhava como recepcionista em uma empresa de alarmes contra roubos. Ele recorda que, na época, “todas as famílias que eu conhecia lutavam para sobreviver. Eu pensava que todo pai judeu dirigia um caminhão ou trabalhava no correio. Não conhecia ninguém cujo pai fosse médico, advogado ou coisa parecida... O único judeu que eu conhecia que usava terno era o rabino”.

Quando Blankfein era adolescente, a área do Brooklyn onde ele morava entrou num processo de deterioração econômica e a segurança tornou-se questão primordial. Duas gangues haviam praticamente tomado conta da escola onde estudava e ele guarda muitas lembranças da violência da época, quando era forçado a correr para pegar o ônibus, ou quando a polícia baixava na escola para acabar com a confusão.

Educação

Lloyd estudou em escolas públicas e na escola judaica B’nai Israel de Nova York, perto de onde morava. Participou de um programa no Ensino Fundamental que permitia que os alunos fizessem três anos em dois, pulando a 8ª série. Ele poderia ter-se formado aos 15 anos, mas preferiu permanecer mais um ano na escola, e foi o melhor aluno de sua turma, em 1971.

Enquanto cursava o Ensino Médio, para ganhar algum dinheiro trabalhou como salva-vidas e como vendedor de amendoins, cachorro-quente e refrigerantes no Yankee Stadium, no Bronx. Lloyd era um jovem charmoso e inteligente. Aluno aplicado, era adorado pelos professores. De acordo com o Rabino Abner German, “aos 12 anos, ele era um menino brilhante”. No entanto, Blankfein costuma afirmar que seu bom desempenho na escola não foi porque era “algum tipo de gênio”, mas porque queria ter sucesso, enquanto a maioria dos seus colegas de classe não pareciam dar a mínima para os estudos. Ele credita ao seu rabino a sua participação nos programas extracurriculares patrocinados pela Federação Judaica local e nas colônias de férias judaicas. Ao participar dessas atividades, ele começou a entender que havia um mundo “além de East New York”. Isso foi fundamental para sua decisão de cursar uma faculdade.

A Universidade de Harvard recrutava os melhores alunos na Thomas Jefferson High School. Imediatamente detectou Blankfein, aceitando-o para lá estudar. Ofereceram-lhe um misto de ajuda financeira e bolsa de estudo, que lhe permitiu frequentar o curso. Ao chegar em Harvard, encontrou um ambiente intimidador. Viu-se rodeado de jovens ricos, filhos de pessoas proeminentes, com sobrenomes famosos. Eram jovens sofisticados que sabiam de quem deveriam ser amigos. Não era de Blankfein. Ele era bolsista e precisava trabalhar na lanchonete da universidade para se sustentar. Fez amizade com jovens que compartilhavam seu modesto background, e que até hoje estão entre seus melhores amigos. Muitos se lembram de seu senso de humor e sua incrível memória. Terminou o Harvard College, com especialização em História, e logo em seguida foi aceito para a Escola de Direito de Harvard, de onde se formou em 1978.

Carreira extraordinária

Blankfein não se encontrou, de imediato. Logo após se formar, entrou como associado no escritório de advocacia Donovan, pequeno e tradicional, onde ficou por alguns anos. Mas não estava feliz, não era o que ele queria fazer. Decidiu, então, deixar a firma Donovan e entrar no mundo das finanças, que lhe parecia mais interessante do que o Direito. Quando disse à sua futura esposa, Laura Jacobs, moça judia, de família tradicional de Nova York, que estava mudando de área, ela ficou preocupada, pensando que não teria a vida confortável com a qual sonhara. Mas ele seguiu em frente, começando a operar com commodities, negociando com ouro em barras. Eles se casaram em 19 de junho de 1983 e tiveram três filhos: Alexander, Jonathan e Rachel.

Blankfein procurou emprego em várias empresas, entre as quais, Morgan Stanley, Dean Witter e Goldman Sachs. Mas nenhuma dela o contratou. Acabou entrando na J. Aron & Company, uma pequena firma do setor financeiro, onde acabou sendo um dos principais responsáveis pelo sucesso da empresa. A firma foi posteriormente comprada pela Goldman Sachs. Por isso, Blankfein costuma dizer que entrou no Grupo Goldman Sachs “pela porta dos fundos”.

Desde o início, ele concebeu uma transação lucrativa de $100 milhões – na época, a maior desse tipo que a Goldman Sachs já tinha negociado. Aí a carreira de Blankfein deslanchou rapidamente. Ele parecia ter um sexto sentido sobre quando levar os investidores a carregar mais risco em suas carteiras ou quando tirar o pé do acelerador, de uma só vez. Em 1988, Blankfein foi um dos 36 homens (nem uma única mulher) que foram nomeados sócios-solidários. Daí até o topo foi só um pulo.

Em 1994, Blankfein foi escolhido para dirigir a J. Aron e, três anos mais tarde, para co-presidente do business de investimentos em renda fixa da Goldman.

Quando, em 1999, a Goldman Sachs abriu o capital da empresa, muitos dos executivos, potenciais rivais de Blankfein, deixaram a firma, ficando o campo livre para sua ascensão profissional. O Conselho de Administração, especialmente Hank Paulson, então CEO do Grupo, estava cada vez mais impressionado com sua atuação.

Paulson descreveu sua tenacidade, ambição e maneira de gerenciar os negócios, afirmando: “Lloyd mostrou estar pronto para assumir grandes responsabilidades”. Paulson e Blankfein passaram a trabalhar juntos – o primeiro viajando e buscando clientes, o segundo assumindo cada vez mais o controle operacional da empresa. Ano após ano, a companhia ganhava bilhões em rendimentos. “Lloyd fazia tudo funcionar”, segundo Paulson.

Em junho de 2006, quando Paulson deixou o cargo na Goldman Sachs para se tornar secretário do Tesouro durante a Administração Bush, Blankfein tornou-se o CEO. Embora não fosse o “herdeiro natural”, Paulson disse que não havia ninguém melhor do que Blankfein para o cargo. Era o 11º a assumir tal posição nos 140 anos de vida da empresa. A companhia já era, então, uma incrível máquina de fazer dinheiro.

Em 2007, Blankfein recebeu o astronômico salário de US$ 68,5 milhões, estabelecendo um recorde para um CEO na Wall Street. Durante a crise financeira, em 2009, ganhou US$ 9,8 milhões, despertando ressentimentos em Washington e em outros segmentos da sociedade americana, que responsabilizavam Wall Street pela crise financeira.

Quase no auge da crise, em setembro de 2008, Warren Buffet investiu US$ 5 bilhões na Goldman Sachs. Na época, Blankfein afirmou que o negócio não apenas traria para a firma o caixa necessário, mas também a credibilidade de Buffet. Todas as suas inteligentes ações para proteger a Goldman Sachs só serviram para enfurecer o Governo. A empresa conseguiu sair da crise intacta e, ainda por cima, registrando lucros.

Jornalistas, advogados e membros do governo, no entanto, criticaram duramente a política da empresa. A Goldman Sachs tornou-se um símbolo de tudo que havia de errado nos bancos, em Wall Street, nas corporações e até mesmo no capitalismo. O grupo foi acusado de ganhar bilhões de dólares enquanto pessoas comuns estavam perdendo suas casas durante a crise. Em resumo, a GS foi castigada pelo presidente Obama, acusada pela SEC e processada por inúmeros clientes. A empresa fez um acordo com a SEC no valor de $ 550 milhões.

No entanto, apesar das críticas, Blankfein entrou na história da Goldman Sachs e será lembrado por ter conseguido liderar com sucesso a empresa através de alguns dos meses mais difíceis de sua longa história.

O segredo do sucesso

Pessoas próximas a Blankfein o descrevem como um indivíduo dono de uma combinação incomum de humildade e autoconhecimento, duas características que não são, geralmente, associadas aos executivos de sucesso de Wall Street. Ele é conhecido por ser espirituoso e autodepreciativo, atitudes que, de modo geral, desarmam os que poderiam considerá-lo intimidador. Além disso, encobrem o fato de que, por trás do sorriso, há uma mente extremamente ágil e rápida. Não há dúvida de que ele possui um talento especial para ganhar dinheiro, qualidade que não passou despercebida entre os escalões mais altos da empresa.

Hank Paulson revelou as razões que o levaram a escolhê-lo como seu sucessor: “O que acabei vendo nele – algo que me fez admirá-lo – era o fato de que ele se “alimentava”, vivia em função da empresa e dos mercados. Ele era por natureza rápido e muito inteligente. Mas isso pode ser superestimado, porque há uma infinidade de executivos muito brilhantes que não são bons, ou que se metem em problemas, ou não têm discernimento. O que logo me atraiu nele foi uma insegurança positiva. Sem nenhum sentido de direito adquirido. Nenhuma arrogância. Lloyd sempre foi consciente de seus pontos fracos e queria melhorar. ( ...) Os bons líderes precisam de autoconhecimento para reconhecer suas fraquezas e a capacidade de crescer. E eu ficava vendo o Lloyd ficar cada vez melhor...”.

Para Blankfein o segredo de seu sucesso na Goldman Sachs foi, simplesmente, sua habilidade de adaptação a novas situações, novas circunstâncias e novas pessoas. “Sempre tive muita confiança em minha capacidade de avaliar uma situação e as pessoas e tentar entendê-las e o que queriam dizer e em que contexto”, diz.

Embora atualmente sua fortuna seja avaliada em torno de 1 bilhão de dólares, Blankfein nega que seja movido pelo desejo de riqueza ou status. E fica muito impaciente com o clichê do “garoto esforçado do conjunto habitacional de Brooklyn”.

Apesar de seu sucesso, ele é descrito como um homem relativamente simples, conhecido por sua disponibilidade. É visto descer do seu escritório no 41o andar para se misturar à turma do pregão ou deixando recados pelo voice-mail para funcionários que se tenham destacado.

Jud Sommer, ex-diretor dos assuntos governamentais da GS, atribui o sucesso profissional do Blankfein não apenas à sua “pura capacidade mental”, mas a seu altíssimo QI. “Ele é um homem interessante, apaixonado por História e ótimo colega de trabalho, pronto para uma piada sempre que o ambiente fica carregado”, afirmou Sommer em entrevista.

Seus amigos também o descrevem como sendo “engraçado e envolvente. O tipo de pessoa com quem a gente quer jantar. E ainda é casado com a sua primeira mulher”.

Retorno à comunidade

A Goldman Sachs, seja por filantropia, seja para melhorar sua imagem, é uma das maiores corporações filantrópicas do país, tendo doado desde 2008 mais de US$ 1,6 bilhão.

Como CEO, Blankfein ajudou a lançar o projeto “10.000 Pequenos Negócios”, uma iniciativa filantrópica lançada em novembro de 2009 que disponibilizou US$ 500 milhões para auxiliar vários pequenos negócios nos Estados Unidos. O objetivo do programa é criar oportunidades econômicas que permitam maior acesso à educação, capital e serviços de apoio às empresas. Lloyd Blankfein, Warren Buffett e Michael Porter, professor da Harvard Business School, são os presidentes do Conselho Consultivo do programa.

Blankfein faz parte, também, dos conselhos de várias instituições importantes em Nova York, como a Sociedade Histórica e a Fundação Robin Hood. Atua em vários projetos e programas de arrecadação de fundos, doando altas somas.

Sua esposa Laura, formada em Direito, é extremamente ativa em obras sociais. A Fundação Lloyd e Laura Blankfein está envolvida em vários projetos e doou uma média anual de US$ 1,3 milhão na última década. Entre as principais instituições que recebem sua ajuda está a UJA Federation, a instituição judaica cujo objetivo é ajudar os necessitados, fortalecendo a comunidade judaica mundial.

Além de doar altas somas, Blankfein participa ativamente na arrecadação de fundos para várias entidades da comunidade judaica americana. Certa vez, durante um evento, disse: “Muitos de vocês não conhecem uma família judaica que está lutando para se sustentar. Vocês não os veem, mas ele estão por aí. Há milhares de famílias nesta situação a três milhas daqui”.

BIBLIOGRAFIA
http://fortune.com/2011/04/21/
where-blankfein-came-from/
http://forward.com/articles/188678/goldman-sachs-ceo-credits-rabbi-and-jewish-organiz/#ixzz3HTCVlhuS
http://nymag.com/news/business/
lloyd-blankfein-2011-8/index1.html