Morashá
JACOB LEVY MORENO Foto Ilustrativa

JACOB LEVY MORENO

Genial, foi mal compreendido por seus contemporâneos. Buscava resgatar a espontaneidade e a criatividade, sufocadas pelas instituições.

Edição 35 - Dezembro de 2001


Sua inspiração provinha das tradições antigas da filosofia grega e do drama clássico como catarse, embora fosse um profundo estu-dioso de sociologia e psiquiatria. Personalidade independente e megalomaníaca, ainda jovem fundou uma espécie de movimento espiritual , um teatro e uma revista próprios e, no ápice da carreira, possuía um hospital psiquiátrico, uma escola e uma editora.

Moreno encontrava-se isolado na propagação de métodos de psicoterapia de grupo. Não conseguia submeter-se às restrições de instituições. Também não se preocupava em associar seu nome a sua produção: suas primeiras obras foram publicadas anonimamente; freqüentemente suas idéias acabavam permeando a cultura geral.

Moreno descendia de uma família de judeus sefaraditas que da Espanha havia-se refugiado na Turquia. Otimismo e fervor religioso eram parte da vida desses judeus e é dentro deste contexto que podemos entender o estilo pessoal de Moreno – expressivo, caris-mático e criativo – e sua busca por níveis cada vez mais altos de espontaneidade, amor e bondade. Moreno acreditava que para o homem ser amoroso e bom, precisava tentar imitar as qualidades de D’us, pois só Ele era bom.

Sua vida: infância e adolescência

Jacob Levy Moreno nasceu em 1889, na Romênia. Sua mãe, Pauline, teve-o com apenas 16 anos. Era uma mulher fervorosa, cheia de idéias e sonhos, grande contadora de histórias, versátil em idiomas. A ela cabia a transmissão das tradições judaicas no lar. Seu pai, Nissim, era sério e autoritário. Ausentava-se muito de casa e iniciou sem sucesso diversos negócios.

Aos seis anos de idade, Moreno se mudou com a família de Bucareste para Viena. Com o pai cada vez mais ausente, Jacob, o primogênito de seis filhos, acabou assumindo uma posição especial de autoridade. A família era tradicional e Moreno fez seu bar mitzvá em uma sinagoga sefaradita em Viena. Quando estava com quatorze anos de idade, em 1903, seu pai fez uma última tentativa de manter a família unida e de prover o seu sustento, mudando-se para Berlim.

Moreno voltou a Viena sozinho para dar continuidade a seus estudos, e se sustentava trabalhando como tutor, sendo bem sucedido nesse trabalho com jovens. Enquanto isso, os negócios do pai em Berlim fracassaram.O casal acabou separando-se definitivamente: o pai mudou-se para Istambul e a mãe voltou para Viena. Após a separação, Jacob continuou a viver sozinho; havia-se tornado rebelde; deixara crescer a barba, largara a escola e vivia uma vida errante e boêmia.

Durante a adolescência, importantes leituras marcaram o jovem Jacob: a Bíblia, o Zohar, assim como os filósofos Agostinho, Pascal, Spinoza, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche e os autores Dostoievski, Tolstoi e Goethe. Ele foi particularmente influenciado pelo misticismo judaico e pela Cabalá, com seu postulado central de que toda a Criação é uma emanação da Divindade.

Origem do psicodrama e dos grupos de encontro

O jovem Moreno se sentia uma espécie de “escolhido”. Sua barba ruiva lhe dava um aspecto paternal e sábio, apesar da pouca idade. Seus olhos azuis pareciam ler a mente de seus interlocutores. Toda sua pessoa transmitia ternura, bondade e altruísmo. Sua conduta o havia tornado conhecido e era procurado por pessoas com problemas. Fiel ao papel que criara para si, usava sempre um longo manto verde, no inverno e no verão. Pregava a santidade do ser, a autoperfeição, a ajuda e a boa ação cumprida no anonimato.

Aos dezenove anos, em 1908, estava matriculado na Faculdade de Medicina de Viena. Neste período, seu passatempo predileto era caminhar pelos parques da cidade reunindo crianças e formando grupos de brincadeiras de improvisação. Costumava contar-lhes contos de fadas. Nunca repetia a mesma história, para manter a sensação de encantamento. Ao trabalhar com as crianças, Moreno queria lhes proporcionar meios de lutar contra os estereótipos da sociedade, mantendo a espontaneidade e criatividade.

Cultivava a idéia de um universo primordial, onde se situavam os modelos de um mundo melhor. Queria mostrar como um homem com sinais de paranóia, megalomania, exibicionismo e outras formas de desajuste individual e social não era um doente mental, mas podia ser alguém controlado e saudável. E podia ser mais produtivo se “representasse” seus sintomas , como um ator numa peça, em vez de reprimi-los ou resolvê-los. Nisso ele antecipava o papel de protagonista do psicodrama de sua própria vida.

Entre 1908 e 1914, Moreno e cinco seguidores que compartilhavam seus ideais, viviam na comunidade . Não aceitavam remuneração por seus serviços e tudo que recebiam como gratificação ia para a Casa do Encontro, um local criado para abrigar refugiados que, nos anos tumultuados precedentes à Primeira Guerra Mundial, transitavam por Viena em busca de um novo lar nas Américas ou em Eretz Israel.

A Casa de Encontro era um local onde as pessoas eram ajudadas e assistidas pelo tempo necessário. Todas as noites havia sessões de “grupos de encontro” em que eram discutidos os problemas e desfeitos os ressentimentos. Após compartilhar os sentimentos, as pessoas cantavam e dançavam e os encontros eram uma experiência muito alegre.

Esses reuniões foram os modelos dos grupos de encontro que se espalharam mais tarde pelo mundo. Em seguida Moreno estendeu este método de terapia a um dos grupos mais problemáticos da sociedade: o das prostitutas. Assim elas puderam ajudar-se mutuamente. Conseguiram advogados para defendê-las e médicos para as tratar.

Posição filosófico-religiosa

As principais correntes ideológicas do século XX rejeitavam a religião e repudiavam a idéia de uma comunidade baseada no amor, altruísmo, bondade e santidade. Ao contrário, Moreno se colocou do lado de uma religião positiva. Sua ideologia se baseava em três princípios. O primeiro dizia que a espontaneidade e a criatividade são as verdadeiras forças propulsoras do progresso humano; mais importantes, em sua opinião, que a libido e as causas sócio-econômicas. O segundo dizia que o amor e o compartilhar mútuo são a base da vida em grupo. Enfim, o terceiro dizia que podia-se construir uma comunidade dinâmica baseada nesses princípios.

Após a Primeira Guerra Mundial, publicou “A filosofia do aqui e agora” e “As palavras do pai”, em que expõe sua posição filosófico-religiosa. A esta ele sempre se manteve fiel. Mas sua linha de pensamento foi relegada para segundo plano pelos círculos intelectuais. No entanto, sua filosofia era a base teórica das técnicas de sociometria, psicodrama e terapia de grupo, que foram universalmente aceitas fora do contexto ideológico que as inspirou. Já para Moreno, sua doutrina constituía a parte mais revolu-cionária de seu trabalho.

Em 1912, durante o curso de medicina, Moreno assistiu a uma conferência de Sigmund Freud. Num breve diálogo que conta terem mantido, ele afirmou: “O senhor analisa os sonhos de seus pacientes. Eu lhes dou coragem para sonhar de novo. O senhor os analisa e os despedaça. Eu os faço representar seus papéis conflitantes e os ajudo a reunir seus pedaços, de novo”.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) Moreno cuidou, como oficial médico, de um campo de refugiados nos arredores de Viena, cuja população era originária do Tirol do Sul e falava italiano. No campo desenvolveu-se uma vida comunitária completa. Através dessa experiência surgiu a idéia do planejamento sociométrico das comunidades e a busca de parâmetros de objetividade científica nas Ciências Sociais.

Em 1917 Moreno recebeu seu diploma de Doutor em Medicina pela Universidade de Viena. Seu diploma foi um dos últimos assinados pelo imperador Francisco José.

Teatro da espontaneidade

Na década de 1920, Viena era uma cidade muito estimulante para os intelectuais e artistas. Os cafés eram o local de encontro favorito. Moreno freqüentava com seu grupo o Café Museum, onde conheceu personalidades como Martin Buber, Arthur Schnitzler, Robert Musil e outros. Em 1918 iniciou a publicação de um jornal mensal de filosofia existencialista, o Daimon. Nele colaboraram vários intelectuais de seu círculo.

Ao mesmo tempo, Moreno se envolvia com o Teatro da Espontaneidade. Numa noite de 1911 passava a peça “Assim Falou Zaratustra”. Moreno e seus amigos, sentados na primeira fila, intervieram para despertar os atores e o público. Queriam chamar a atenção sobre os conflitos entre personagem e espectador e personagem e ator. O ator devia representar a si mesmo e não o personagem. Moreno dissertou, aos berros, sua teoria sobre um novo teatro, que representasse os problemas próprios do ator e do público, que fosse de total imaginação e criatividade, como o trabalho que ele estava realizando com as crianças nos parques de Viena.

Foi um escândalo, cuja conseqüência por sorte foi apenas uma noite passada na prisão. Mas serviu para abrir o caminho para a primeira sessão oficial de psicodrama, que se realizou num famoso teatro, em 1921. Na apresentação, Moreno tentava expurgar a platéia de uma doença que era o sentimento geral de descontentamento e revolta que pairava na Viena do pós-guerra. O público eram elenco e autor; a peça, sobre a situação.

O Teatro da Espontaneidade tornava-se uma forma de arte viável e um local de encontro para artistas e intelectuais conhecidos. Até pessoas de fora faziam questão de freqüentá-lo quando estavam em Viena. O material dramático era sugerido pela platéia ou surgia da cabeça dos atores.

Este teatro evoluiu para o teatro terapêutico. Notou-se que os atores, após representar seus papéis, lidavam melhor com seus problemas pessoais. E era mais fácil defender a espontaneidade num teatro terapêutico no qual as imperfeições e incongruências de um paciente mental são até esperadas e bem recebidas.

Nesses anos após a Primeira Guerra Mundial, Moreno clini-cava como chefe do departamento de saúde numa pequena aldeia nos arredores de Viena, Voslau, onde se tornara o ‘Doutor do Povo”. Continuava não aceitando dinheiro dos pacientes que vinham consultá-lo. Sua paixão pelo anonimato o circundou de uma aura de prestígio e fama, e seu apelido tornou-se “Wunderdoktor” (o médico prodígio).

Mas em Viena as sementes do nazismo e do anti-semitismo começavam a germinar . Enfrentando como judeu a inveja e o desejo de vingança, além da crescente mediocridade da sociedade germânica da época, Moreno teve uma intuição: deixar a Europa e buscar refúgio nos Estados Unidos. Talvez a motivação da emigração não fosse unicamente a preocupação com a salvação e a segurança pessoais, mas também a urgência de encontrar um lugar adequado para a realização de seu trabalho.

A vida na América

Em outubro de 1925, Jacob Levy Moreno chegou a Nova York. Fora convidado para os Estados Unidos graças a uma sua invenção, o “Radio Film”, um disco de aço em que podiam ser gravados sons. O modelo da invenção foi patenteado e desenvolvido por uma companhia que lhe pagaria royalties.

Mas Moreno queria mesmo seguir sua vocação. Após uma demonstração da aplicação das técnicas de psicodrama para crianças com problemas, começou a trabalhar na clínica do Hospital Monte Sinai, em Nova York. Lá foram desenvolvidos e aperfeiçoados vários testes sociométricos e de espontaneidade. Depois o psicodrama foi levado às crianças do Plymouth Institute, no Brooklyn, uma instituição ligada à Igreja. Em 1927 recebeu a licença para o exercício da medicina nos Estados Unidos.

Tendo chamado atenção sobre o seu trabalho com as prostitutas de Viena, antes da Primeira Guerra Mundial, e com a comunidade dos refugiados italianos do Tirol, durante a guerra, foi nomeado diretor da Pesquisa Social do estado de Nova York, trabalhando em duas áreas, na prisão de Sing Sing e na N. Y. State Training School for Girls, em Hudson. O objetivo era tornar a prisão uma sociedade terapêutica e ajudar as jovens da Hudson School a prepararem-se para uma vida decente e digna.

A base do seu trabalho continuava sendo o Teatro da Espontaneidade e instituiu um “Impromptu Theatre”, no Carnegie Hall, em 1927.

Em 1936 fundou o Beacon Hill Sanato-rium, seu próprio hospital para doentes mentais, e uma escola, em Beacon. Era um casarão branco comprado por US$ 2 mil, emprestados pelas filhas de uma paciente. O dinheiro da reforma do sanatório e da construção do teatro de psicodrama veio de outra paciente ilustre, Gertrude Tone, internada devido ao alcoolismo. O teatro de Beacon foi dedicado a ela. Nesses anos Moreno recebeu um importante apoio moral e financeiro de seu irmão William, que emigrara para a América pouco antes dele e era um empresário bem sucedido. Com sua ajuda foi montado, em 1942, um teatro de psicodrama, em Nova York, e uma editora, a Beacon House, para publicar os trabalhos de Moreno de forma independente e sem interferências. A revista Sociometry e a edição americana de The Words of the Father (Ética dos Pais) foram as primeiras publicações, seguidas depois por muitas outras.

Com Florence, sua primeira esposa, teve uma filha, Regina, mas esse casamento não deu certo.

Zerka, a companheira

Somente alguns anos mais tarde, em 1941, Moreno iria encontrar sua verdadeira companheira. Celine Zerka Toeman chegou ao consultório levando a irmã doente. Fugira da Europa nazista. Surgiram imediatamente um interesse e uma simpatia mútuos e uma necessidade um do outro. Zerka logo tornou-se uma colaboradora notável e insubstituível.

Em 1952 nascia o filho Jonathan. Os pais decidiram criá-lo de acordo com os princípios do psicodrama e da sociometria.

Três anos depois Zerka começou a sentir fortes dores no ombro direito. Depois surgiu um nódulo. Recebeu durante anos tratamento para artrite. Só em 1957 foi diagnosticado um tumor maligno no ombro. A única solução era uma cirurgia radical.

Moreno, médico, sentia-se impotente e não se perdoava por sua ingenuidade e insensibilidade diante do sofrimento da mulher. Zerka estava arrasada. Ele só lhe pedia que preservasse o equilíbrio por causa do filho, assegurando-lhe que a amaria para sempre.

Após a cirurgia bem-sucedida, Zerka continuou trabalhando e assumindo tarefas cada vez mais importantes. Tornou-se uma administradora capaz, psicodramatista talentosa, pesquisadora sociométrica, escritora, editora, professora. Além disso, continuou dirigindo, costurando, datilografando e dançando.

Nos anos da Segunda Guerra Mundial, a sociometria, a te- rapia de grupo e o psicodrama tiveram aplicações práticas e um importante reconhecimento. Os funcionários da Cruz Vermelha recebiam treinamento psicodramático e sociométrico para tornar mais humano seu atendimento. Essas técnicas tiveram também um papel importante nas Forças Armadas britânicas. Foram usadas na seleção e no treinamento de soldados e para reduzir as perdas por problemas psicológicos. A psicoterapia de grupo tornou-se o tratamento preferido nos hospitais militares, não somente em vista do custo mais baixo, mas por tratar-se de uma terapia eficaz. “As pessoas ficam doentes num grupo; elas se recuperam melhor num grupo...”.

Acompanhado por Zerka, Moreno visitou inúmeros países para divulgar suas idéias e métodos terapêuticos. Entre seus livros destacam-se Sociometry, Experimental Method and the Science of Society, publicado em 1951, e Who Shall Survive?, revisto em 1953, e vários outros sobre psicodrama.

Jacob Levy Moreno morreu em Beacon, em 1974, aos oitenta e cinco anos de idade.

Bibliografia
J. L. Moreno. Autobiografia. Organização Luiz Cushnir Ed. Saraiva 1997