Morashá
George Gershwin Foto Ilustrativa

George Gershwin

Em setembro de 2008 festejou-se o bicentenário do nascimento do compositor George Gershwin. Ícone da música popular norte-americana, é considerado um dos maiores e mais versáteis compositores de todos os tempos.

Edição 64 - Abril de 2009


Filho de imigrantes judeus russos, Gershwin foi pioneiro de uma nova era na música popular norte-americana, ao traduzir para a Broadway a tradição musical clássica e vice-versa. Produziu a maioria das suas obras, 22 musicais da Broadway e mais de 700 músicas populares, em parceria com seu irmão mais velho, o compositor lírico e letrista, Ira Gershwin. Juntos criaram ritmos especiais, letras singulares e melodias que ficaram gravadas no imaginário popular. "George Gershwin era um gênio musical - para ele, escrever uma canção era tão natural quanto respirar".

Entre os sucessos dos irmãos Gershwin podemos mencionar "I Got Rhythm", "Embraceable You", "The Man I Love", "Someone to Watch Over Me", músicas famosas no mundo todo até os nossos dias. Para admiradores e eruditos musicais, Gershwin revelou seu talento musical em sua primeira grande obra, "Rhapsody in Blue", peça de jazz sinfônico lançada em 1924, na qual o compositor faz uma síntese dos elementos da música clássica européia com música pop, jazz e blues. Produziu também, em parceria com Ira, a ópera "Porgy and Bess", de 1935, sua primeira incursão na dramaturgia.

Talento precoce

Nascido Jacob Gershovitz no dia 26 de setembro de 1898, no bairro do Brooklyn, Nova York, George lá viveu sua infância e adolescência. Seu pai, Morris, nasceu em São Petersburgo (Rússia) e deixou sua terra natal em busca de uma vida melhor, nos Estados Unidos, onde chegou em 1890. Sua mãe, Rosa Bruskin, também veio da Rússia e se casou com Morris quatro anos após sua chegada ao Novo Mundo. O casal teve quatro filhos, Ira, George, Frances e Arthur. Como parte do processo de adaptação ao novo lar, Morris troca o sobrenome da família por um mais americano; assim, Gershovitz tornou-se Gershvin e, posteriormente, Gershwin, esta última mudança feita pelo próprio compositor já em sua vida adulta.

Apesar da prática do judaísmo não ser muito presente na vida da família, jamais negaram suas origens e a cultura judaica acabou permeando a obra de George e de Ira. Conta-se que Cole Porter, que não era judeu, teria perguntado a George, certa vez, qual era o segredo do sucesso na Broadway, e que o compositor respondeu "compor músicas judaicas".

Para os estudiosos de sua obra, a herança judaica de George permeou o seu trabalho, principalmente as melodias litúrgicas tão presentes em sua infância. O solo de clarinete que abre a "Rhapsody in Blue", por exemplo, traz a influência da Chazanut, o bonito canto litúrgico judaico. Em 1915, o ator e diretor de teatro iídiche, Boris Thomashevsky, pediu-lhe que escrevesse uma opereta em parceria com Shalom Secunda, mas a idéia foi rejeitada pelo próprio Secunda. Em 1929, George assinou um contrato com a Metropolitan Opera House para compor um trabalho baseado na obra Dibuk, mas este projeto também não foi realizado.

A estrela da sorte que brilhou ao longo da vida artística de George e do irmão, Ira, no entanto, não acompanhou a trajetória de seu pai, marcada por inúmeros fracassos nos negócios. Em conseqüência das dificuldades financeiras, a família Gershwin foi obrigada a mudar de casa 25 vezes. Nenhuma dificuldade, no entanto, conseguiu romper os fortes vínculos existentes entre os irmãos.

A relação de George com a música começou quando ele ainda era adolescente de uma maneira até certo ponto inesperada. A primeira vez que se sentiu atraído pela música foi com 10 anos, quando assistiu a um recital de violino de seu amigo de infância, Max Rosen. Para seu pai, George jamais passaria de "um moleque irresponsável" e o talento musical da família estava concentrado em Ira. Para estimular o primogênito, comprou um piano. Porém, para alívio do próprio Ira, o irmão menor George, então com 11 anos, apossou-se do instrumento, afirmando que o piano lhe pertencia. O tempo rapidamente mostrou ao velho Morris quão enganado estava em relação ao filho menor. O pai acabou cedendo às pressões de George e permitiu que ele tivesse aulas de piano. Seu primeiro professor era um húngaro que, para ensinar o menino, cobrava US$ 1,50 a aula. Foi assim que o adolescente teve o primeiro contato com grandes autores clássicos como Chopin, Liszt e Debussy. Um novo mundo se abria aos seus ouvidos. Para aprimorar sua formação técnica, prosseguiu as aulas com o brilhante pianista Charles Hambitzer, que lhe ensinou a técnica convencional de piano, apresentando-lhe as mais variadas teorias musicais - modernas, clássicas e européias. Foi Hambitzer que lhe ensinou a importância de assistir concertos para assimilar o amplo universo musical. O pianista foi seu mentor até morrer, em 1918. Mais tarde, George também estudou com o compositor clássico Rubin Goldmark e com o também compositor e teórico Henry Cowell. Aos 15 anos escreveu sua primeira canção popular, "Since I Found You" - seu talento e criatividade começavam a aflorar.

George abandonou a escola quando conseguiu seu primeiro emprego, como "song plugger"1, na rua 28, também conhecida como "Tin Pan Alley", um local na cidade de Nova York onde os aspirantes a compositor levavam suas partituras para que uma editora musical lhes pagasse alguns trocados. Trabalhando para a empresa Jerome Remick Co., George conheceu milhares de músicas, apurando seu ouvido para a composição de boa qualidade. Assim, aos 15 anos, George já era um músico profissional e ganhava US$ 15 por semana. Era o início de uma nova vida.

Dois anos após estar trabalhando nessa empresa, teve sua primeira canção publicada. Apesar de "When You Want Me You Can't Get Me" não ter sido um sucesso imediato, começou a atrair a atenção de alguns compositores da moda, na Broadway. A música chamou a atenção da cantora Sophie Tucker, cujos elogios repercutiram rapidamente e George foi contratado como compositor por outro importante editor musical, na época, Max Dreyfuss, da Harms. Sempre em busca de novos ritmos, George uniu-se ao letrista Irving Caesar. Juntos escreveram "You Just You". Anos mais tarde, Caesar compôs uma canção cujo sucesso atravessou épocas e marcou várias gerações de românticos - "Tea for Two".

A explosão da ascensão da dupla Gershwin-Caesar, no entanto, aconteceu em 1919. Durante o musical "Sinbad", no palco do Winter Garden, o já famoso Al Jolson soltou a sua voz forte e apresentou ao público a música "Swanee". Foi um sucesso estrondoso que levou as composições de Gershwin com regularidade para as platéias da Broadway. A canção vendeu um milhão de cópias e ele recebeu cerca de US$ 10.000 em direitos autorais. Sua sorte estava lançada. Foi também com Caesar que George compôs em 1919 a música para o musical da Broadway, "La La Lucille". Foi sua primeira partitura completa.

Conta-se que George chegou a pedir um emprego ao compositor Irving Berlin, que lhe teria respondido: "Seria melhor se você trabalhasse como compositor por conta própria". E foi exatamente o que fez.

A partir de 1920, sua fama como compositor não parou de crescer. De 1920 até 1924, Gershwin foi convidado a escrever os temas musicais para um dos grandes sucessos da época - a série, extremamente popular, de revistas da Broadway, "Os Escândalos de George White", produzida pelo compositor de mesmo nome. A Broadway vivia então a era dos grandes musicais, inspirados nas famosíssimas "Ziegfield Follies", que contavam com cenários suntuosos, grandes orquestras e um público ávido por novidades. Para essa série Gershwin compôs 45 canções, muitas das quais se tornaram famosas, como "Somebody Loves Me" e "Stairway to Paradise", dois clássicos da música norte-americana.

Para um dos "Escândalos", George compôs, "Blue Monday". Não foi um grande sucesso, mas a música caiu no gosto de Paul Whiteman, um dos principais bandleaders do início da década de 1920, conhecido como o "Rei do Jazz". Whiteman então lhe encomenda uma obra de jazz sinfônico para ser executada juntamente com outros trabalhos de nível, no Aeolian Hall, num concerto de jazz que estava organizando, o "Experimento em Música Moderna". George esqueceu-se por completo da encomenda até 3 semanas antes da estréia, mas, antes desse prazo, compôs "Rapsódia em Blue", o trabalho que definiu sua carreira e o elevou a outro patamar na música. A abertura da composição apresenta um solo de clarineta, que começa como um trinado e vai num crescendo até se desfazer no ar. Em outras palavras, uma peça para ser tocada com emoção, com toda a pungência dos blues.

A sinfonia foi tocada pela primeira vez com o próprio Gershwin ao piano, no dia 12 de fevereiro de 1924, no Aeolian Hall de Nova York, diante de uma platéia que incluía personalidades como o violinista Jascha Heifetz, o compositor Rachmaninoff, Efrem Zimbalist e Alma Gluck. Se até então Gershwin era considerado uma estrela em ascensão, naquela noite passou a ser uma celebridade incontestável, seu sucesso crescendo a cada nova criação.

Os anos na Broadway

George Gershwin é principalmente conhecido por suas inúmeras canções que se tornaram parte da música americana, a maioria delas, fruto de seus anos na Broadway. A colaboração entre os irmãos George e Ira Gershwin como compositor e letrista atingiu pleno vapor depois de 1924, com o musical "Lady Be Good", que selou definitivamente a parceria entre os dois.

Naquele ano, no palco do Liberty Theater, Fred Astaire estrelou o musical dos irmãos Gershwin. A linha melódica suave e as letras inteligentes tornaram famosas muitas das canções que integravam "Lady Be Good", entre as quais, "Fascinating Rhythm", e "Oh, Lady, be Good" . Outra de suas canções, muito populares, mas que não estava incluída na produção original foi a balada "The Man I Love". Para muitos críticos, esse novo tipo de combinação entre música e letra foi responsável pela sofisticação da música popular norte-americana.

Muitas de suas composições têm sido usadas na televisão e em inúmeros filmes, além de se terem tornado um modelo para o jazz. Incontáveis músicos e cantores gravaram trabalhos dos Gershwins, incluindo Ella Fitzgerald, Fred Astaire, Louis Armstrong, Al Jolson, Bing Crosby, Janis Joplin, John Coltrane, Frank Sinatra, Billie Holiday, Judy Garland, Julie Andrews, Barbra Streisand, Natalie Cole, Nina Simone, Madonna e Sting.

Apesar de seu grande sucesso na Broadway, George decidiu escrever mais peças para piano e orquestra, entre as quais, "Concerto para Piano em Fá Maior" (1925). Para os críticos, esta obra ainda tem mais substância do que seu grande sucesso "Rhapsody in Blue". Um ano depois, foi a vez de "Três Prelúdios para Piano". Em, 1928, "Um Americano em Paris"; em 1931, a "Segunda Rapsódia" e, em 1931, "Aventura Cubana".

Durante as décadas de 1920 e 1930 o nome Gershwin era uma constante nos mais importantes eventos da cena nova-iorquina e sua presença transformava qualquer reunião em um concorrido evento.

George passava horas ao piano, encantando os presentes e era o último a deixar o local. Seu círculo de amigos incluía personalidades como Maurice Chevalier e Ravel. Aos 27 anos, já era um mito, a personalidade mais popular dos Estados Unidos, tendo sido capa da conceituada revista Time. Era o mais celebrado e rico compositor dos Estados Unidos, o que fazia dele, também, o solteiro mais cobiçado do país.

O sucesso continuava a sorrir para os irmãos Gershwin . Em 1926 eles lançaram "Oh, Kay", considerada a sua mais importante peça musical, cujas músicas se tornaram famosas, como "They Can't Take That Away From Me" e "But Not for Me", "Someone To Watch Over Me", "Clap Your Hands" e "Do-do-do". Outro grande musical de George e Ira Gershwin estreou pouco tempo depois, "Funny Face".

Em 1928, os dois irmãos foram passar uma temporada na Europa, para trabalhar em um projeto especial. A viagem tinha um segundo objetivo: assistir a apresentação da "Rhapsody in Blue" na Ópera de Paris. Durante sua permanência na França, George compôs a obra "An American in Paris", sua segunda criação, em importância, para orquestra.

Um verdadeiro poema musicado, esta composição transporta o ouvinte às ruas de Paris, na década alucinante de 1920, e foi executada pela Sinfônica de Nova York em dezembro do mesmo ano. Gershwin incluiu na partitura quatro buzinas de carro para reproduzir o tráfego barulhento da capital francesa, o que lhe deu um charme especial. Depois de "Um americano em Paris", vieram "Strike Up The Band" e os musicais "Let'em Eat a Cake" e "Of Thee I Sing", trabalhos com uma forte conotação política, algo que as canções de George e Ira até então não costumavam ter. Os EUA enfrentavam a era da Grande Depressão. O mundo artístico reconheceu, mais uma vez, a genialidade dos Gershwin e "Of Thee I Sing" foi o primeiro musical a ganhar o Prêmio Pulitzer.

Em sua escalada crescente da fama, os irmãos Gershwin se mudaram para Hollywood para trabalhar na indústria cinematográfica. O primeiro trabalho de George para o cinema foi no filme "The King of Jazz", sob a direção musical de seu velho amigo, Paul Whiteman. Estrelado por Bing Crosby, o filme apresentava também "Rhapsody in Blue" entre outras tantas. Os irmãos Gershwin também compuseram a trilha sonora do clássico "Shall We Dance", com Fred Astaire e Ginger Rogers.

A Broadway e Nova York, no entanto, continuavam sendo mais atraentes para os irmãos do que Hollywood. Assim, George retornou à sua cidade natal com mais um sucesso, "Second Rhapsody". A obra foi apresentada ao público na primavera de 1931, no Carnegie Hall. Ao piano, George Gershwin acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Boston, foi regido pelo maestro Serge Koussevitzky. Aplausos infindáveis e, mais uma vez, a aclamação do público.

Nessa época, produzir composições sérias passou a ser um dos seus principais objetivos. Optou por produzir uma peça baseada em uma obra de DuBose Heywards, "Catfish Row", sobre a vida dos negros do sul dos Estados Unidos. Para se familiarizar com a vida e os problemas desta sofrida parcela da comunidade americana, passou dez meses em Charleston, na Carolina do Sul. Assim nasceu a inesquecível ópera, "Porgy and Bess".

Ambientada no sul do EUA, sua "ópera americana", como a chamava, põe em cena a vida cotidiana de uma comunidade negra, da década de 1930, a miséria de seus guetos, seus amores e seus conflitos. Supervisionando ele mesmo todos os ensaios, Gershwin exigiu que o elenco fosse composto de negros, algo que não agradou aos produtores. Entre as canções mais populares de "Porgy and Bess", se incluem "Bess You Is My Woman Now", "Summertime" e "I Got Plenty of Nuttin".

O maior desapontamento de sua carreira foi a fria reação do público e da crítica à "Porgy and Bess", em 1935. Apesar de ovacionada, durante 15 minutos, no dia da estréia, a ópera não foi um grande sucesso. Os fracos resultados da bilheteria não foram suficientes para cobrir os custos da montagem, tendo seus produtores encerrado a temporada após meras 124 apresentações. No entanto, transformou-se em um grande sucesso após a morte de George, sendo hoje considerada não apenas um de seus maiores trabalhos, mas a maior ópera americana de todos os tempos.

Pouco depois da estréia da ópera, Gershwin voltou novamente sua atenção para a indústria cinematográfica, mudando-se para Los Angeles e se instalando em Beverly Hills. Ele pretendia retornar a Nova York dentro de pouco tempo, pois amava a cidade. Infelizmente, seus planos não se concretizaram.

No verão de 1937, aos 38 anos e no auge de sua carreira, adoeceu subitamente. Apesar das fortes e constantes dores de cabeça, continuou a compor. Preocupados com sua saúde, amigos e familiares pediram-lhe que consultasse um especialista, mas ele preferiu seguir a orientação de seu psicanalista, para quem os sintomas, como fortes de cabeça e tonturas, não passavam de sinais de uma depressão. A confiança no psicanalista era tanta que a família aceitou o diagnóstico sem questionamento.

Um dia, enquanto trabalhava nas canções do filme "Goldwyn Follies", o compositor entrou em coma. Dois dias depois foi operado e os médicos descobriram que ele tinha um tumor no cérebro. Infelizmente, George não resistiu à cirurgia, morrendo em 11 de julho de 1937, em Hollywood.

Grande comoção tomou conta do mundo artístico e do público norte-americano diante da morte súbita do artista. Em sua homenagem foram realizados serviços religiosos simultaneamente em diferentes sinagogas, em Hollywood e em Manhattan.

Um gênio na composição, George teve uma passagem meteórica pela vida terrena, mas entrou para a eternidade através de sua linda obra musical.