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BEN HECHT- um judeu acima do bem e do mal Foto Ilustrativa

BEN HECHT- um judeu acima do bem e do mal

por por Zevi Ghivelder

Este ano assinala o 120º aniversário do nascimento de Ben Hecht. Este notável jornalista, escritor, autor teatral, roteirista de dezenas de filmes e sionista combativo, avultou como uma das mais consagradas celebridades americanas do século passado. Ao longo de toda a vida, ele jamais foi indiferente aos rumos do mundo, em geral, e ao povo judeu, em particular.

Edição 84 - Julho de 2014


A certa altura de sua fascinante trajetória, Hecht empenhou-se com devoção em angariar fundos destinados aos judeus que confrontavam os mandatários ingleses na antiga Palestina. Nessa tarefa, decidiu obter doações, talvez vultosas, dos magnatas judeus que eram donos dos maiores estúdios de Hollywood porque o admiravam e respeitavam. (No decorrer de sua prolífica carreira, Hecht teve quatro indicações e duas vitórias nos Oscars).

Na ida para a Califórnia, tinha como primeiro nome da lista o produtor David O. Selznick, seu amigo de longa data, responsável, entre muitos outros, pela realização do filme E o Vento Levou, cujo roteiro foi escrito pelo próprio Hecht. Não foi uma conversa agradável. Irritado, Selznick disse que não queria nem ouvir falar das agruras dos judeus mesmo porque ele era antes de tudo um patriota americano. Hecht não se abalou e fez-lhe uma proposta: “Então, telefone para cinco amigos seus, que não sejam judeus, e pergunte se você é judeu ou americano. Se responderem americano, você ganha 20 mil dólares; se disserem que é judeu, eu recebo uma contribuição de 20 mil dólares”. Dito e feito: os cinco disseram que Selznick era acima de tudo judeu e Hecht, com o cheque no bolso, partiu feliz em busca de novos doadores.

Ben Hecht nasceu no Brooklyn, Nova York, em 1894, filho de imigrantes russos. O pai, alfaiate no ramo de confecções, mudou-se depois com a mulher e o único filho, Ben, para Wisconsin. O menino costumava passar o verão em acampamentos perto de Chicago, cidade aonde acabou se fixando e onde começou no jornalismo como repórter, cobrindo os mais variados assuntos. Depois da 1ª Guerra Mundial foi mandado para Berlim como correspondente do jornal Chicago Daily News. Permaneceu durante dois anos na Alemanha e ali escreveu seu primeiro romance, intitulado Erik Dorn, que alcançou significativo sucesso. Depois de três peças encenadas na Broadway, que tiveram pouca repercussão, a fama chegou em 1928 quando lançou a peça The Front Page (A Primeira Página), em parceria com Charles MacArthur. O espetáculo teve 276 apresentações e, desde então, tem tido frequentes novas versões tanto nos Estados Unidos como em palcos de todo o mundo.

É uma engenhosa e cativante comédia que já foi vista no Brasil e sua versão para o cinema, com Jack Lemmon e Walter Matthau nos principais papéis e direção de Billy Wilder, também alcançou expressivo êxito.

Ben Hecht foi um dos primeiros homens de letras a perceber o perigo do nazismo desde a sua tomada do poder, em 1933. Passou a escrever em sua coluna diária, publicada em diferentes jornais americanos, dezenas de artigos contra o regime instalado na Alemanha e também contra o fascismo que crescia na Itália. Pouco depois da invasão da Polônia, em 1939, e já sabendo dos massacres contra os judeus, sentiu, como ele mesmo escreveu, “ferver o meu sangue judaico”. Assim anotou em suas memórias: “O assassinato em massa de judeus estava apenas começando e todo o meu judaísmo veio à superfície. Não sei se senti pena das vítimas, mas sei que rugia em mim um enorme impulso de violência contra os criminosos nazistas”.

Ao mesmo tempo, passou a escrever ácidos textos dirigidos aos judeus americanos que se alienavam em face do que estava acontecendo na Europa. Também conclamou os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra a fazerem algo em favor dos judeus e sua ira foi aumentando na mesma proporção em que suas palavras estavam sendo ignoradas.

Em 1941, Hecht recebeu uma visita que iria mudar os caminhos de sua vida. O recém-chegado, vindo da antiga Palestina, apresentou-se como Peter Bergson, mas seu verdadeiro nome era Hillel Kook, sobrenome que preferiu esconder porque era sobrinho do então rabino-chefe de Jerusalém e assim evitava comprometer sua família. Bergson fora discípulo de Vladimir Jabotinsky (falecido em Nova York no ano anterior), fundador do movimento revisionista no âmbito do sionismo, que deu origem à Irgun, organização clandestina chefiada por Menachem Begin, que optara por combater e sabotar os ingleses na Palestina. A Irgun não julgava que as ações políticas e diplomáticas de líderes como Chaim Weizmann e Ben-Gurion poderiam fazer com que a Grã-Bretanha abdicasse do seu mandato na Terra Santa.

Bergson instou Hecht a atuar em duas frentes: usar de sua influência nos meios jornalísticos e artísticos americanos no sentido de obter apoio para a causa revisionista e endossar a coleta de fundos para as atividades da Irgun. Hecht abraçou as duas tarefas com intenso fervor. No dia 16 de fevereiro de 1943, já ciente do Holocausto, redigiu um anúncio que foi publicado em página inteira no New York Times, provocando inusitado furor. O texto dizia: “À venda para a humanidade: 70 mil judeus. Garantia de que são seres humanos. 50 dólares por cabeça”.

No mesmo mês escreveu para a publicação American Mercury um artigo intituladoO Extermínio dos Judeus, dramático relato ainda desconhecido pelos americanos sobre os horrores do Holocausto. O texto foi reproduzido na revista Reader’s Digest, a de maior circulação nos Estados Unidos. A partir de seu prestígio pessoal, organizou uma reunião de jornalistas a escritores no apartamento do famoso autor teatral e romancista George S. Kaufman. Em sua autobiografia, A Child of the Century, escreveu: “Compareceram 30 pessoas, alguns amigos, alguns inimigos, todos judeus. Disse-lhes como seria importante se todos nos uníssemos para denunciar os crimes do nazismo. Se juntássemos nossos talentos talvez fossemos capazes de impedir os massacres. Quando terminei minha fala, não houve nenhum aplauso e eu nem esperava que houvesse. O que me espantou, foi que uma dúzia dos convidados se levantou e foi embora sem sequer se despedir. Na saída, Beatrice, a mulher de George, disse que estava muito sentida com o que tinha acontecido e chamou a minha atenção para o fato de eu ter tocado no ponto fraco daquelas pessoas: eles se consideravam mais americanos do que judeus. Preferi não discutir. Entretanto, Moss Hart (diretor de teatro que veio a contar entre seus grandes sucessos o musical My Fair Lady) aproximou-se de mim e disse que estava disposto a colaborar de todas as formas. O mesmo me foi repetido pelo compositor Kurt Weil”.

Entusiasmado com aquelas adesões de tamanha relevância, Hecht concebeu e promoveu um colossal evento artístico na arena do Madison Square Garden de Nova York, sob o título Nós Jamais Morreremos. Com música de Kurt Weil e texto do próprio Hecht,a apresentação de uma noite só contou com a presença de 40 mil emocionados espectadores. O espetáculo foi produzido por dois grandes nomes: o cineasta Ernest Lubitsch e o legendário produtor Billy Rose, com direção geral de Moss Hart, e tendo como mestres de cerimônia dois dos mais famosos atores do cinema daquela época, ambos judeus, Paul Muni (pseudônimo artístico de Meshilem Meir Wiesenfreund) e Edward G. Robinson (pseudônimo de Emmanuel Goldenberg). Em julho, o espetáculo foi apresentado no Hollywood Bowl, em Los Angeles, e transmitido pela televisão.

Entretanto, o grande êxito teatral de caráter sionista da autoria de Ben Hecht ainda estava por vir. No dia 5 de setembro de 1946 estreou no teatro Alvin, na Broadway, a peça A Flag is Born (Nasce uma Bandeira), tendo nos principais papéis Paul Muni, Celia Adler (da aclamada dinastia teatral dos Adler) e um ator principiante chamado Marlon Brando. O filho de Celia Adler conta que quando a mãe chegou em casa, voltando do primeiro ensaio da peça, disse: “Tem um rapazinho no elenco, nem me lembro do nome dele, que é um grande talento”.

Ellen, filha de Stella, a fundadora do célebre Actor’s Studio, que namorou Brando durante alguns anos, recordou: “Num dos ensaios, o desempenho de Marlon foi tão intenso que Luther, o patriarca de nossa família, chegou a chorar.

Na verdade, Brando não estava apenas representando. Ele se preocupava com o destino dos refugiados judeus, assim como anos mais tarde se empenhou na campanha dos direitos civis e dos direitos dos índios”. (No meio da temporada, em virtude de outro compromisso já assumido, Marlon Brando foi substituído por Sidney Lumet, que se tornaria um dos maiores diretores do cinema americano). Em princípio a peça era para ficar apenas um mês em cartaz, o tempo disponível do teatro, mas acabou se prolongando por quase um ano e depois percorreu diversos estados americanos, e chegou, inclusive,  aos campos de refugiados da Europa tendo sobreviventes do Holocausto como intérpretes.

Um dos momentos mais emocionantes da peça ocorria quando o personagem David, interpretado por Marlon Brando, dizia o seguinte monólogo: “Judeus, onde estão vocês? Onde vocês estavam enquanto prosseguia a matança? Onde vocês estavam enquanto seis milhões de judeus eram assassinados? Onde estavam suas vozes para impedir os massacres?

Não houve voz nenhuma. E vocês, judeus da Inglaterra? Judeus fortes, judeus ricos, judeus aristocráticos, poderosos e geniais. Onde estavam seus protestos que poderiam ter apagado os incêndios? Em lugar nenhum! E isto porque vocês não queriam se expor como judeus. Vocês deixaram os judeus morrerem contanto que vocês mesmos não fossem identificados como judeus. Seu silêncio merece a maldição. Vocês se esconderam atrás de seus sotaques britânicos, um bom disfarce para não serem vistos como judeus”. Anos depois, Brando lembrou que em uma das apresentações, quando terminou o monólogo, uma senhora levantou-se na plateia e gritou, dirigindo-se a ele: e você, onde estava? “Quis responder que quando a guerra começou eu tinha apenas 15 anos de idade, mas preferi me calar para não interferir na profunda emoção daquela mulher”. O clímax do espetáculo acontecia quando a música de Kurt Weil entrava com vigor e o elenco agitava uma bandeira azul e branca parecida com a atual bandeira de Israel.

A escritora americana Miriam Chaikin, uma das colaboradoras de Bergson, escreveu: “É um canto de esperança que dá lugar a um sentimento de força e de orgulho destinado a acordar os corações adormecidos dos judeus americanos”. O escritor Victor Navasky, então adolescente, ao fim dos espetáculos percorria a plateia com uma cesta na qual os espectadores depositavam quanto dinheiro quisessem para a causa sionista. Anos mais tarde, já bem-sucedido, ele escreveu: “O público assimilou com grande entusiasmo a mensagem da peça. Valeu-me como um despertar político para a questão de os judeus conquistarem sua pátria”. Walter Winchell, o mais famoso e respeitado jornalista americano daquele tempo, assinalou: “É uma peça que deve ser vista, ouvida e lembrada. Vai mover seus corações e fazer derramar torrentes de lágrimas dos seus olhos. Aconselho que levem muitos lenços para o teatro”. O texto continha uma corrosiva crítica quanto à atuação dos ingleses na Palestina. Em Londres, o jornal The London Evening Standard enfatizou: “Jamais um espetáculo tão anti-britânico foi apresentado num palco dos Estados Unidos”.

O volume de dinheiro arrecadado pela cesta de Navasky no Alvin e em outros teatros americanos, a par de fundos complementares, serviu para que Hecht e Bergson comprassem uma embarcação dos anos 1930, caindo aos pedaços, chamada Argosy, incorporada depois da 2ª Guerra à Guarda Costeira dos Estados Unidos, rebatizada como Abril, e em seguida descartada como sucata. A Tyre Shipping Company, uma empresa de fachada do movimento revisionista, comprou o navio de 400 toneladas que começou a ser reformado para transportar passageiros, ou seja, imigrantes ilegais para a Palestina. Itzhak Ben Ami, um dos colaboradores de Bergson, foi incumbido de contratar a tripulação.

Anos mais tarde, ele recordou: “Eu tinha que encontrar idealistas e aventureiros dispostos a enfrentar aquela dura missão. Acabei reunindo 20 homens com 20 razões diferentes para se juntarem a nós. Não eram todos judeus.

A maioria era composta por católicos irlandeses dispostos a entrar em qualquer briga contra a Inglaterra”. A função de capitão coube ao veterano comandante Robert Levitan, que chamou para ser seu imediato o experiente marinheiro Walter Greaves, sobrevivente de três ataques de torpedos durante a 2ª Guerra. Um dos marinheiros, de 33 anos de idade, era um negro do Brooklyn chamado Walter Cushenberry: “Como negro, eu sabia o que era a perseguição e não me conformava com o fato de os judeus refugiados da guerra estarem sendo perseguidos”. Ainda com o nome de Abril o pequeno navio zarpou para o porto de Bouc, na França, em dezembro de 1946. Rumou para a Palestina em março de 1947, com 600 pessoas a bordo, e em alto mar recebeu o nome definitivo de SS Ben Hecht. No mar Mediterrâneo, a embarcação foi interceptada por um destróier britânico e escoltada até o porto de Haifa. Os refugiados foram levados para a ilha de Chipre e a tripulação foi encarcerada na fortaleza de Acre, de onde escapou durante o célebre e espetacular ataque conjunto da Haganá e da Irgun, tal como mostrado no filme Exodus. O navio Ben Hecht foi incorporado à nascente marinha do Estado de Israel em 1948.

Voltando a A Flag is Born, a peça estava programada para representações no National Theater, em Washington, mas Hecht rescindiu o contrato porque o teatro não permitia a entrada de negros. Ele soube, então, que o Maryland Theater, na mesma região da capital, aceitava negros, contanto que se acomodassem no balcão. Na noite da estreia, Ben Hecht sentou-se na plateia acompanhado de dois amigos negros. Em face disso, a direção do teatro liberou ingressos para os negros em quaisquer assentos. O caso teve tanta repercussão, que a cidade de Baltimore aboliu as restrições aos negros em todas as suas casas de espetáculos.

Entretanto, enquanto Hecht era aplaudido e admirado nos Estados Unidos, a reação inglesa à peça A Flag is Born foi devastadora. O governo britânico ficou particularmente revoltado com um artigo de Hecht sob o título O Ataque É a Melhor Defesa, no qual comparou a luta da Irgun à luta dos americanos contra os colonizadores ingleses. Lord Rothermere, dono do jornal Daily Mail, escreveu que Hecht “é um vulcão sionista vitriólico”. A embaixada britânica em Washington tentou convencer o presidente Truman a ordenar a deportação de Peter Bergson, mas seu pedido não foi atendido. Mais uma vez, Winchell saiu em defesa de Hecht evocando o mesmo exemplo. Os jornais ingleses reagiram, dizendo de uma forma ou de outra que Hecht e Winchell não passavam de “uma praga de dois idiotas”. Em 1948, a Associação dos Exibidores Cinematográficos da Inglaterra proibiu que qualquer filme que tivesse a participação de Ben Hecht fosse levado às telas de cinco mil cinemas do país. Foi uma medida que doeu em seu bolso. Os produtores de Hollywood, aos quais havia proporcionado lucros de centenas de milhões de dólares, nem mais lhe atendiam seus telefonemas.

Não queriam correr qualquer risco que lhes levasse a perder o importante mercado inglês. Para minimizar seu prejuízo, Hecht concordou em receber a metade do que costumava receber por seus roteiros e inclusive concordou que seu nome não constasse nos créditos dos filmes de sua autoria. Essa proibição só foi levantada quatro anos depois e Ben Hecht fez o seguinte comentário: “Que coisa impressionante! Um grande império declarou guerra contra um homem só e depois fez a paz!” Mas a animosidade de Hecht com relação aos ingleses foi de tal natureza que, em 1972, oito anos depois da sua morte, o crítico teatral Kenneth Tynan, então diretor do National Theater de Londres, decidiu encenar uma nova montagem da peça A Primeira Página. A atriz Helen Hayes, viúva de Charles MacArthur, aceitou de imediato, porém Rose, a viúva de Hecht, e portanto herdeira meio a meio dos direitos autorais, recusou-se a dar permissão para a realização do espetáculo “em um país que tanto perseguiu meu marido”. Foram necessárias muitas idas e vindas e rendas diplomáticas por parte dos britânicos até que ela permitisse o projeto.

Há pessoas nos Estados Unidos, notadamente em Nova York, que até hoje se lembram dos peculiares e inflamados discursos que Hecht costumava fazer para convencer os alienados ou para angariar fundos: ”Vou dizer-lhes algumas coisas que vocês talvez não gostem de ouvir. Eu recebi um telegrama de Tel Aviv, assinado por Menachem Begin, no qual ele me pede que façamos o possível e o impossível para ajudar os judeus que estão lutando na Terra Santa e enfrentando enormes dificuldades. Os inimigos são muito mais numerosos do que nós, mais bem equipados e contam com recursos ilimitados. Por mais que isto não nos agrade, esta é a verdade. Vocês talvez me perguntem o que os judeus americanos têm a ganhar com o renascimento da nação de Israel. Eu lhes respondo com outra pergunta: o que vocês perderam quando seis milhões de nossos irmãos estavam sendo assassinados na Europa? Se nossa vontade e nossos espíritos forem despertados decerto venceremos! Uma nação judaica há de permitir que possamos viver lado a lado com as demais nações do mundo. Sou obrigado a recorrer à imagem da luta de David contra Golias. Eu lhes peço, judeus, comprem uma pedra para a atiradeira de David!”.

Ben Hecht abandonou o ativismo sionista pouco depois do estabelecimento do Estado de Israel por ocasião do polêmico episódio do afundamento do navioAltalena. Para quem não está a par, vale lembrar que o Altalena  foi uma embarcação carregada de armas que seriam entregues à Irgun quando as forças de defesa de Israel, embora já empenhadas na guerra pela independência, ainda não estavam organizadas em uma só unidade e sob um comando central.

O julgamento de Ben-Gurion era no sentido de que o país deveria contar com um só exército e que a Irgun não poderia constituir-se como um exército em separado. Em face da obstinação da Irgun de não entregar os armamentos em seu poder, só restou a Ben-Gurion a amarga decisão de mandar bombardear e afundar o Altalena,ancorado próximo à costa de Tel Aviv, fazendo vítimas fatais que se encontravam a bordo. Para Ben Hecht aquela foi uma ferida que jamais se fechou.

Entretanto, seu judaísmo permaneceu atuante. Em 1954 escreveu sua autobiografia A Child of the Century, aclamada pelo público e pela crítica. Em 1961 publicou o romance Perfidy (sem tradução para o português) sobre a controvérsia até hoje existente a respeito da deportação dos judeus da Hungria para Auschwitz. Hecht deixou, ainda, um projeto inacabado sob o título Shylock, My Brother.

Trata-se de um estudo sobre a personalidade do personagem judeu da peça O Mercador de Veneza, de Shakespeare, que alguns estudiosos apontam como uma expressão de antissemitismo. Lê-se em seu rascunho: “Eu sinto muito que os judeus deixem de reconhecer Shylock como seu irmão. Jamais o considerei um vilão. Pelo contrário. Vejo-o como um dos raros heróis judeus da literatura clássica, talvez o único. Shylock foi um vingador dos insultos proferidos contra os judeus”.

Ben Hecht, um judeu acima do bem e do mal, morreu de um súbito ataque cardíaco, aos 70 anos de idade, em seu apartamento da rua 67 West, em Nova York. À beira do túmulo, seu elogio fúnebre foi feito por Menachem Begin.

 BIBLIOGRAFIA
“Ben Hecht: The Man Behind the Legend”, de William MacAdams, editora Scribner, EUA, 1990.

“A Child of the Century”
, de Ben Hecht, editora Primus Plume, EUA, 1985.

ZEVI Ghivelder,
ESCRITOR E JORNALISTA

Principais roteiros escritos por Ben Hecht

1931 –  The Front Page (A Primeira página)
1932 –  Scarface (A Vergonha de uma nação)
1934 –  Twentieth Century (Século Vinte)
1934 –  Viva Villa! (Viva Vila)
1938 –  Nothing Sacred (Nada é sagrado)
1939 –  Gone With the Wind (E o vento levou)
1939 –  Gunga Din (Gunga  Din)
1940 –  Foreign Correspondent
           (Correspondente estrangeiro)
1940 –  His Girl Friday (Jejum de amor)
1945 –  Spellbound (Quando fala o coração)
1946 –  Gilda (Gilda)
1946 –  Notorious (Interlúdio)
1948 –  Rope (Festim Diabólico)
1950 –  Edge of Doom (Alma em revolta)
1951 –  Strangers on a Train (Pacto sinistro)
1952 –  Angel Face (Alma em pânico)
1955 –  The Man With the Golden Arm
          (O homem do braço de ouro)
1956 –  Trapeze (Trapézio)
1956 –  The Hunchback of Notre Dame
          (O Corcunda de Notre Dame)
1957 –  A Farewell to Arms (Adeus às armas)
1959 –  John Paul Jones
           (Ainda não comecei a lutar)
1962 – Mutiny on the Bounty (O grande motim)
1963 – Cleopatra (Cleópatra)
1974 – The Front Page (Nova produção)