Morashá
A invenção do telefone Foto Ilustrativa

A invenção do telefone

Quatro inventores, em três países diferentes, disputam o cobiçado título de pai do telefone.

Edição 53 - Junho de 2006


A descoberta de documentos, em outubro de 2003, no Museu das Ciências de Londres (Grã-Bretanha), reforçou a tese de que teria sido J. Philipp Reis, judeu alemão de descendência portuguesa, quem, 15 anos antes de Alexander Bell, criara um aparelho que transmitia e recebia sons. Os documentos encontrados pelo curador de comunicações da instituição, John Liffen, comprovam a realização, já em 1863, de testes bem-sucedidos com a engenhoca. O aparelho transmitia conversas com sinais fracos, recebendo sons de boa qualidade - mas o padrão dos sons era de baixa eficiência. Reis deu ao aparelho o nome de "telefone" - das Telephon, em alemão, termo que passaria a fazer parte do vocabulário de todo o planeta nos séculos seguintes. Essa palavra já havia sido utilizada antes em outros sentidos, como por exemplo, para descrever tubos de comunicação. O equipamento criado por Reis, no entanto, foi o primeiro "telefone" elétrico capaz de transmitir sons.

A vida do inventor

Johann Philipp Reis nasceu em janeiro de 1834, na pequena cidade alemã de Gelnhausen. Seu pai, Segismundo Reis, padeiro sem maiores recursos, era filho de judeus portugueses oriundos da Beira Baixa, estabelecidos, desde fins do século 18, em Hamburgo, onde florescia uma comunidade oriunda de Portugal.

Órfão de pai e mãe, Johann Philipp foi criado pela avó materna, mulher culta e religiosa, que matriculou o neto no conceituado Instituto Garnier, em Friedrichsdorf, arredores de Frankfurt. O jovem passava horas na biblioteca do Instituto Hanssell, lendo tudo o que conseguia, principalmente sobre suas matérias preferidas: geografia, matemática, física e idiomas. Seu amor às ciências já era evidente e seus professores recomendaram aos tutores que o fizessem seguir os estudos na Escola Politécnica de Karlsrühe. Mas um de seus tios queria fazer dele um comerciante, profissão tradicional na família, e, em 1850, começa a trabalhar como aprendiz em uma firma de corantes, em Frankfurt. Mas o jovem tinha outras aspirações. Autodidata, em seu tempo livre continuou a estudar matemática e física, filiando-se à Associação de Físicos de Frankfurt. Foi em 1852 que, pela primeira vez, deu expressão às suas idéias de gerar sons através da eletricidade.

Em 1858, Hofrath Garnier, amigo e antigo professor, contrata-o para lecionar matemática e ciências no Instituto Garnier, onde estudara. Um ano mais tarde, Johann Philipp casa-se com a filha de seu tutor, com a qual teve dois filhos. A casa onde moravam em Friedrichsdorf foi transformada em um museu dedicado ao inventor.

O acaso levaria Johann Philipp a iniciar a caminhada em direção à invenção do telefone. Sua avó, já em idade avançada, tinha problemas auditivos e, em 1852, com apenas 18 anos, o jovem começou a investigar a possibilidade de criar uma "orelha artificial" para reduzir a surdez da avó que o criara. Nos fundos de casa, em um barracão rudimentar, improvisou um laboratório. Conseguiu criar seu primeiro aparelho com componentes inusitados: um violino, uma agulha, uma rolha de cortiça oca, fios de cobre e pele de salsicha. Esticada sobre a rolha, a pele servia de membrana para seu rudimentar microfone. Em seguida, usou cera para ligar o fio de cobre à membrana. Essa conexão era, então, ligada às cordas do violino, que funcionava como receptor e caixa acústica. Os primeiros resultados não foram muito animadores, mas Reis não desistiu.

Dois anos mais tarde, em 1854, um artigo do telegrafista francês, Charles Bourseul, publicado na revista L'Illustration de Paris, fornece uma base teórica às experiências de Reis. No trabalho, o autor descrevia sua teoria sobre a transmissão de sons através de uma corrente elétrica intermitente.

Longo caminho

Philipp Reis imaginava que a eletricidade poderia propagar-se através do espaço da mesma maneira que a luz, sem o auxílio de materiais condutores, e realizou alguns experimentos neste sentido. Os resultados obtidos foram descritos no trabalho "Sobre a Radiação da Eletricidade", enviado em 1859 ao professor J. C. Poggendorf, para ser incluído no respeitado periódico Annalen der Physik. Para grande decepção do jovem autor, o texto foi rejeitado. Nem assim, no entanto, desistiu de suas idéias.

Em 1860, 16 anos antes de Bell registrar sua patente e quase dez anos após as primeiras experiências de Reis, suas tentativas começam a produzir resultados significativos. A primeira frase transmitida pelo telefone de Reis foi "das pferd frisst keinen gurkensalat" (literalmente, "o cavalo não come salada de pepino"). Escolheu esta frase curiosa para ter certeza de que cada palavra seria entendida sem que o ouvinte precisasse "adivinhar" o significado da sentença.

No ano seguinte, com apenas 27 anos, Johann Philipp Reis decide fazer sua primeira demonstração pública, provando, com sucesso, a possibilidade teórica da conversão de variações de corrente elétrica em ondas sonoras. Em 26 de outubro de 1861, proferiu a palestra "Telefonia através de Corrente Galvânica", perante a Sociedade de Físicos de Frankfurt. Durante a demonstração foi possível ouvir uma música cantada por um cantor profissional posicionado a cem metros de distância. No entanto, só era possível reconhecer a seqüência de sons musicais, o aparelho não reproduzia nem as variações de intensidade do som nem as palavras cantadas, quanto menos as características da voz do cantor. "Das Telephon" não foi recebido com o entusiasmo que esperava seu inventor. A Sociedade de Físicos e parte da comunidade cientifica alemã classificaram a invenção como mero "brinquedo filosófico". Mesmo assim, a primeira demonstração pública proporcionara a Reis relativo sucesso.

O assunto tornou-se tema tanto de conferências populares quanto de encontros científicos, a portas fechadas. Protótipos de sua invenção foram enviados para Londres, Dublin e outras grandes cidades. Dois anos mais tarde, 50 aparelhos foram fabricados por uma firma alemã e mais alguns na Inglaterra, porém sem grandes resultados. Enquanto alguns aparelhos funcionavam bem, outros transmitiam apenas ruídos de estática.

J.P.Reis realizou numerosas outras demonstrações de versões mais aprimoradas da invenção. O aparelho estava longe de ser perfeito e era preciso que o som fosse sempre muito forte para manter a oscilação da corrente. Construído para converter quebras de corrente elétrica em som, o equipamento conseguia transmitir música, mas tinha dificuldades em reproduzir a voz humana. Por causa disso, a invenção ficaria conhecida, na época, como "telefone musical". Pode-se dizer que Reis inventou o primeiro aparelho para transmitir sons à distância por meio da eletricidade, o qual, porém não transmitia voz à distância. Infelizmente, não tinha aplicação prática suficiente para se transformar em sucesso comercial, pela dificuldade na compreensão das palavras e pelo fato de ser um equipamento delicado. Reis, no entanto, jamais desistiu e continuou com o aprimoramento até morrer.

Pouco antes de sua morte, escreveu: "Olhando para a minha vida, posso dizer, que tem sido de 'trabalho e sofrimento'. Mas tenho também de agradecer a D'us, que deu a Sua bênção à minha carreira e à minha família, e me concedeu mais do que ousaria pedir. D'us ajudou-me até aqui. Ele há de me ajudar daqui para frente". Morreu vítima de tuberculose, em 24 de janeiro de 1874, com apenas 40 anos de idade.

Em 22 de março de 1876, um editorial do The New York Times intitulado "The Telephone" apontava Johann Phillipp Reis como o inventor do fantástico aparelho. O texto não fazia qualquer menção a Alexander Graham Bell, que poucos meses depois obteria uma patente norte-americana, sob o registro de "melhoramentos na telefonia".

Posteriormente Bell afirmava ter transmitido sua mensagem doze dias antes da publicação do tal editorial. Ironicamente, quando Elisha Gray entrou na disputa com Bell pela patente, usou como sustentação para seu argumento o fato de o aparelho ter sido inventado por Reis - e não por Bell. O tribunal, no entanto, determinou que além de Bell ter entregado seu pedido antes, a invenção de Reis não poderia ser considerada um telefone de fato. Assim sendo, Bell ganhou a disputa pela patente.

Em 1878, um grupo de físicos da Sociedade de Frankfurt mandou erguer um monumento a Reis, definindo-o como "o inventor do telefone". A paternidade do invento foi-lhe igualmente atribuída em inúmeros livros e tratados publicados por toda a Europa.

Com a subida de Hitler ao poder, pelo fato de Johann Philipp Reis ser judeu, o regime nazista haveria de expurgar o seu nome dos manuais escolares alemães, sendo reabilitado somente após a 2ª Guerra. Em 1952, ele foi homenageado pelo governo de seu país com uma coleção de selos comemorativos dos 75 anos do serviço telefônico na Alemanha. Um novo selo, este com uma gravura da invenção, seria emitido em 1989.

Em 1986, as cidades de Friedrichsdorf e Gelnhausen, em conjunto com a Deutschen Telekom, instituíram o "Johann Philipp Reis Preis", prêmio que concede uma bolsa anual de 10 mil euros, destinado a premiar jovens cientistas que se distinguem no campo das telecomunicações.

Bibliografia

Johann Philipp Reis (1834-1874), Erfinder und Erfindungen, www.pbs.org Telephones Through the Years

Johann Philipp Reis Telecommunications, the telephone conquers business and society (www2.fht-esslingen.de/telehistory/biogra.html#pr)

John H. Lienhard "Who invented the Telephone?"

Johann Philipp Abelin at AllExperts based on John Munro's Heroes of the Telegraph published in 1891

"Johann Philipp Reis, o judeu "português" que inventou o Telefone", Nathan Altman

www. http://ruadajudiaria.com