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Resgate do ídiche na Lituânia Foto Ilustrativa

Resgate do ídiche na Lituânia

Um dos pólos mais destacados e tradicionais da história do judaísmo na Europa oriental, a Lituânia testemunha atualmente esforços para resgatar e promover o uso do ídiche, em iniciativa já conhecida como uma das primaveras da cultura judaica.

Edição 56 - Abril de 2007


A pequena comunidade lituana, golpeada pela barbárie nazista e pela repressão soviética, organiza atividades dirigidas a todas as gerações, com encontros literários para os mais velhos e aulas para os mais jovens, até mesmo no jardim de infância.

Este ano foi o escolhido como um marco no projeto de revitalização do uso do ídiche, hoje em dia falado por cerca de um terço dos 5 mil judeus da Lituânia. O plano ambicioso atraiu a atenção da mídia internacional, que produziu diversas reportagens sobre a comunidade da ex-república soviética. "O ídiche é uma forma de preservarmos nossa identidade, é uma das primaveras da cultura judaica", afirmou o líder comunitário Simonas Alperovicius à Jewish Telegraphic Agency (JTA). "Sinto que não se trata apenas de orgulho, mas também de uma responsabilidade pessoal minha", acrescentou ele, um senhor de 78 anos que aprendeu ídiche na escola, em Kaunas, cidade a oeste da capital, Vilna.

Antes da 2ª Guerra Mundial, a comunidade judaica lituana contabilizava 250 mil pessoas, 94% delas massacradas pelos nazistas e seus colaboradores. Vilna, berço de rabinos e intelectuais renomados, tornou-se conhecida como a "Jerusalém da Lituânia", tamanha a intensidade de sua atividade religiosa e cultural. Às vésperas do Holocausto, acolhia mais de 110 sinagogas e 10 ieshivot, e os judeus correspondiam a quase 30% da população da cidade.

O judaísmo se enraizava naquele universo modelado por figuras, por exemplo, como o Gaon de Vilna, rabino e sábio que viveu entre 1720 e 1797. Estudos mostram que, no começo do século 20, 99,3% dos judeus lituanos consideravam o ídiche sua língua materna. Seu impacto se fez sentir, do ponto de vista cultural, especialmente nas décadas de 1920 e 1930. A capital lituana testemunhou, em 1925, a fundação do Instituto Científico Judaico, responsável por pesquisas em diversas áreas do conhecimento, como história, sociologia e literatura, sempre em ídiche. Max Weinreich, que dirigia o instituto, publicou, em quatro volumes, a história do idioma. As atividades chegaram até a Universidade de Vilna, que contava com um departamento de língua e literatura ídiche, comandado pelo lingüista Noach Prilutski (1882-1941).

A imprensa em ídiche na Lituânia contava, antes do início da 2ª Guerra, com seis jornais diários. Depois do Holocausto, sobreveio a repressão soviética, na medida em que a Lituânia passou a fazer parte do império comandado, em Moscou, por Josef Stalin. Nos primeiros anos, houve certa tolerância em relação ao uso do ídiche, situação que se alterou com o acirramento do anti-semitismo alimentado pelo Kremlin, em especial no momento do chamado "Complô dos Médicos", quando Stálin acusou falsamente diversos profissionais da saúde, em sua maioria judeus, de tentar assassinar líderes soviéticos.

Com a morte de Stalin, em 1953, ventos mais liberalizantes passaram a soprar e a Lituânia testemunhou a volta de atividades públicas em ídiche, como a reabertura do teatro, em 1956, e a criação de grupos de canto e de dança. Mas a língua não voltou a ter a mesma relevância de tempos passados.

A desintegração da União Soviética, em 1991, e a independência da Lituânia mudaram esse cenário. A comunidade passou a se organizar. O ídiche voltou a ser ouvido com mais intensidade nos encontros entre os freqüentadores da Sinagoga Choral, de Vilna. O jornal comunitário, "Jerusalém da Lituânia", é publicado em lituano, russo, inglês e ídiche. O editor Milan Chersonskij, 69, relatou à JTA, que, para conseguir uma revisão dos textos em ídiche, precisa recorrer a um colega de 85 anos que vive em Israel.

De olho na disseminação do idioma entre as gerações mais novas, o jardim de infância da comunidade passou a ensinar às crianças, músicas em ídiche. A professora, Rita Kozhevatova, foi entrevistada pela britânica BBC e contou que não fala o idioma, já que seu contato não passava de ouvir os avós conversando na língua judaica. "Se ensinarmos às crianças, eles vão passar a seus filhos e a seus netos", comentou a professora.

Na Academia de Música de Vilna, um estudante de ópera mergulha em obras em ídiche. Rafailas Karpis já se apresentou no exterior com um repertório escolhido a dedo. "Depois que você ouve uma canção em ídiche, você quer saber como a língua nasceu, e conhecer mais sobre os escritores e artistas que viveram aqui", contou ele. Seus esforços podem contar com a ajuda do nova-iorquino Dovid Katz, que cinco anos atrás fundou o Instituto de Ídiche de Vilna, que é ligado ao departamento de história da universidade local.

Katz montou uma biblioteca e uma sala de aula que viraram pontos de referência para a comunidade judaica da capital lituana. Aos domingos, amantes do ídiche se reúnem para discutir clássicos da literatura e jornais do período anterior à 2ª Guerra Mundial. E, em dezembro passado, um jantar de gala da comunidade, para homenagear obras nesse idioma, reuniu cerca de 800 pessoas.

Simon Gurevichius, 25, foi descrito pela JTA como uma raridade entre os judeus lituanos: ele guarda o ídiche como língua materna, o que ocorreu graças à insistência de seu avô. Mas o jovem narrou como aprendeu, nos tempos soviéticos, a evitar seu uso em locais públicos, para escapar à repressão.

No período em que morei na URSS, como correspondente da Folha de S. Paulo, pude testemunhar essa experiência narrada por Simon Gurevichius. Certa feita, meus pais e eu viajamos a Belz, a fim de buscar nossas raízes em terras da Bessarábia. Ao chegarmos à então república soviética da Moldávia, fomos recepcionados por judeus locais, que nos guiaram para conhecer o pouco que sobrara da vida comunitária.

Depois da partida de meus pais, perguntei a um de nossos anfitriões se eles tinham apreciado aquele contato com judeus do Brasil. Meu interlocutor foi enfático ao dar uma resposta positiva, argumentando que para eles era muito importante o momento de troca de experiências com judeus de outros pontos do planeta, depois de décadas de isolamento imposto pelo regime soviético.

No entanto, ele mesmo me confessou que houve um momento, em nosso rápido convívio de apenas alguns dias, que deixou uma lembrança amarga para aqueles judeus de Belz. "O problema foi com sua mãe", ele me disse. Durante um passeio pela praça principal de Belz, minha mãe, acompanhada de duas judias de Belz, não economizou decibéis ao conversar em ídiche com suas novas amigas, a quem incomodou o fato de a conversa ser em voz alta. "Em ídiche, temos o hábito de sussurrar, para que não nos ouçam", contou meu amigo da Moldávia. Mas agora, exemplos como o da comunidade judaica da Lituânia, ilustram esforços para que o ídiche volte a soar em tom forte em terras da desaparecida União Soviética.

O jornalista Jaime Spitzcovsky é editor do site www.primapagina.com.br. Foi editor internacional e correspondente em Moscou e em Pequim.