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FELIX NUSSBAUM, UM RETRATO DA SHOÁ Foto Ilustrativa : Auto-retrato com carteira de identidade judaica (1913 )

FELIX NUSSBAUM, UM RETRATO DA SHOÁ

O pintor alemão, hoje considerado um dos melhores exemplos da arte alemã do século XX, morreu com apenas 40 anos, em agosto de 1944, nas câmaras de gás de Auschwitz. Sua arte, no entanto, permanece viva ao longo das décadas.

Edição 44 - Março de 2004


Alguns meses antes de sua deportação, apesar de acreditar que de alguma forma sobreviveria à Shoá, disse a um amigo que escondia seus quadros: "Se eu perecer, não permita que o mesmo aconteça com minhas obras, mostre-as ao mundo".

Sua obra foi praticamente esquecida durante 25 anos, como se tivesse tido o mesmo destino de seu criador. A primeira reviravolta aconteceu em 1960, quando os únicos sobreviventes da família de Nussbaum - duas primas maternas - souberam que mais de cem telas estavam apodrecendo no porão de Josef Grosfils, dentista belga a quem o artista fizera aquele pedido.

Auguste Moses Nussbaum e Shulamit Jaari Nussbaum imediatamente iniciaram o longo caminho que as levaria a redimir a obra do primo. Pediram ao dentista que lhes entregasse os quadros, já que eram as únicas herdeiras do pintor. Diante de sua recusa, apelaram à justiça belga. Nove anos depois, uma Corte belga proferiu uma sentença a favor delas.

Os 177 trabalhos estavam em condições lamentáveis, danificados pela umidade e sujeira e até rasgados, em alguns casos. Aconselhadas por curadores do Museu de Jerusalém, as herdeiras de Nussbaum levaram as telas para Osnabrück, cidade natal do pintor, onde o diretor do museu da cidade - que felizmente conhecia o trabalho de Nussbaum - concordou em restaurar e guardar os quadros. A primeira retrospectiva de sua obra foi realizada nessa cidade, em 1971. Osnabrück, assim como o restante da Alemanha, mudara, o Holocausto deixara de ser um tema tabu e seus habitantes julgavam haver chegado o momento de redimir, de alguma forma, os erros cometidos durante o nazismo. E, como afirmara o diretor do Museu, era "necessário devolver a Nussbaum o lugar que merecia na história da arte e da pintura alemã".

A partir de 1970, o museu passa a pesquisar a vida do artista, encarregando especialistas de encontrar seus quadros e de comprá-los a preço de mercado. Em 1975, um antiquário belga vende para o museu oito quadros pintados entre 1942-1944, o período mais expressivo do artista. Tudo leva a crer que estas e outras obras estavam guardadas no ateliê do artista, em Bruxelas, e teriam desaparecido imediatamente após sua prisão e deportação para Auschwitz.Osnabrück inaugurou, em 1998, o "Complexo Felix Nussbaum", uma ala nova e independente do Museu de História Cultural. A ala, com uma arquitetura arrojada e moderna, foi idealizada por Daniel Libeskind e abriga quadros e trabalhos gráficos do artista. O brilhante arquiteto judeu é responsável, entre outros, pelo projeto do Museu Judaico de Berlim e do Museu Judaico de São Francisco, além de ter sido escolhido para projetar o novo World Trade Center.

Atualmente, Nussbaum é reconhecido internacionalmente como um dos grandes artistas de seu tempo e seus quadros têm sido apreciados tanto por seu valor artístico como histórico. Exposições realizadas em todo o mundo têm atraído centenas de milhares de visitantes. Em 2001, em um leilão da Sotheby's, a obra "Auto-retrato no campo" atingiu o valor de US$ 1,68 milhão. Seu desejo foi realizado. Sua arte não foi esquecida.

Para entender e apreciar a obra de Nussbaum é inevitável relacioná-la às terríveis circunstâncias em que o artista viveu, pintou e morreu. Além de grande pintor, ele foi, também, testemunha e vítima da barbárie nazista e seus trabalhos são vitais quando colocados no contexto artístico do período do Holocausto. São testemunhos vivos do sofrimento de todo um povo, da exclusão, do ódio racial e do extermínio.

Enquanto vivia acuado e perseguido, retratou em suas obras a tragédia e a destruição que se abateram sobre os judeus da Europa. Os temas dramáticos e a atmosfera apocalíptica de suas telas são a pura expressão da angústia e da dor. Irit Salomon, curadora do Museu de Israel, afirmou durante uma exposição lá realizada, em 1997, que "o surrealismo que influencia e permeia a obra de Felix Nussbaum tornara-se, para o pintor, uma metáfora de sua vida, também surreal".

Mas, ao se traçar a carreira do artista, ao longo dos acontecimentos de sua vida, se estaria sugerindo que Nussbaum destacou-se mais como vítima da fúria nazista do que como pintor brilhante? Não! - respondem críticos de arte e historiadores. Ele tanto foi vítima quanto grande pintor. E sua arte é um reflexo de seu destino.

Juventude

Felix Nussbaum nasceu em 11 de dezembro de 1904, em Osnabrück, no noroeste da Alemanha, no seio de abastada família judia. Seus pais, Philip e Rachelle, eram judeus tradicionais que consideravam a Alemanha como pátria. De certa maneira, pode-se dizer que sua trajetória familiar carrega a mesma ironia atualmente tão conhecida de todos os estudiosos do período. Seu pai era fervoroso patriota alemão, tendo sido oficial da Cavalaria durante a Primeira Guerra Mundial. Contudo, ele, a esposa, os filhos e a nora morreram por serem judeus.

Desde pequeno, Nussbaum queria ser artista e seu pai, próspero comerciante, encorajara-o a seguir sua vocação. Queria ver o filho "pintar como Van Gogh". Aos 18 anos, Felix deixa sua cidade natal e parte para Hamburgo, onde passa a estudar arte. No ano seguinte se muda para Berlim, onde continua os estudos e monta um ateliê. É em Berlim que, em 1924, Nussbaum conhece Felka Platek, sua futura esposa. Judia polonesa e também pintora, ela se torna uma companheira inseparável e o acompanha até a morte nas câmaras de Auschwitz. Naquele período, o artista, assim como milhares de outros judeus, sentia-se dividido entre sua identidade judaica e a possibilidade de se assimilar no seio da sociedade alemã. Mesmo assim, aos 21 anos, sentado na sinagoga de Osnabrück, ele pintou "Os dois judeus". O quadro sobreviveu ao incêndio que destruiu a sinagoga durante a Kristallnacht. Nussbaum acaba abandonando os temas judaicos do início da carreira, retomando-os apenas em 1941.

Apesar de, no final da década de 1920 e início dos anos 1930, não conseguir vender muitos trabalhos, suas exposições em Berlim obtêm relativo sucesso. Em 1932, como reconhecimento por seu trabalho, o jovem recebe uma bolsa de estudos para a Villa Massima, prestigiosa academia de arte alemã, em Roma. Em outubro do mesmo ano, deixa a Alemanha e vai para a Itália com Felka, país onde conhece o pintor surrealista italiano Giorgio de Chirico, cuja obra o influenciará profundamente.

Alemanha, não

A ascensão do nazismo na Alemanha torna cada vez mais difícil a vida dos judeus e, apesar de viver longe, Nussbaum logo sofre as conseqüências dessa realidade. Em dezembro daquele mesmo ano um incêndio destrói seu estúdio, em Berlim, e mais de 150 de suas telas acabam consumidas pelo fogo. Apesar dos indícios de que o fogo tinha sido iniciado por artistas que viviam no ateliê, Nussbaum nunca descartou a idéia de que tivesse sido provocado por membros da Juventude Hitlerista.

Em 1933, Hitler toma o poder na Alemanha e o pintor muda seus planos de retornar à terra natal. Sua determinação de não voltar se torna definitiva, em maio desse mesmo ano, após ouvir Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, discursar perante os estudantes da Vila Massima sobre as "doutrinas artísticas do Führer". Compreende que na Alemanha não havia mais lugar para ele como artista e muito menos como judeu. Deixa Roma com a futura esposa, seguindo viagem pela Itália, Suíça, França. Logo após deixar a cidade, recebe a notícia de que fora expulso da academia.

No verão de 1934, o artista encontra-se com seus pais na Riviera italiana. Seria o último encontro familiar. Philippe e Rachelle Nussbaum - assim como mais da metade dos 500 judeus que viviam em Osnabrück - tinham abandonado a Alemanha. Desde 1926, a cidade tornara-se o celeiro perfeito para o nazismo e para o anti-semitismo. O arcebispo católico local, Wilhelm Berning, era conhecido como o "bispo nazista".

Segundo um historiador encarregado de pesquisar a vida de Nussbaum, "em Osnabrück, durante a guerra, ninguém escondeu um único judeu". Mas os pais de Felix amavam sua terra natal e, apesar dos perigos e dos protestos do filho, decidem no ano seguinte voltar à Alemanha, enquanto Nussbaum e Felka vão para a cidade de Oostende, na Bélgica, com visto de turista.

Na Bélgica, a vida de Nussbaum torna-se difícil e insegura. As autoridades negam ao casal documentos de identidade e ele se sente acuado. É em Oostende que conhece o pintor James Ensor, de quem se torna amigo. O estilo deste e suas máscaras amargas e cínicas ajudam-no a delinear sua própria alienação.

Em 1937, Nussbaum e Felka se mudam para Bruxelas e se casam. No mesmo ano, seu irmão Justin foge com a esposa e filha da Alemanha, estabelecendo-se em Amsterdã. Seus pais ainda lá permanecem por mais dois anos, indo para Amsterdã apenas em 1939.

 

Sua obra

 

Durante toda sua vida foi um pintor prolífico e, mesmo nas situações mais difíceis, continuou a pintar. Sua arte, mais do que a de qualquer outro pintor, reflete os rumos da primeira metade do século XX. Até o fim, Nussbaum recusa-se a adotar um estilo "uniforme" e "inconfundível". Sempre voltava a confrontar, na forma e na temática, a situação criada por suas circunstâncias pessoais ou políticas. E precisamente a aparente "desunião" e "desigualdade" de sua obra têm que ser vistas como o aspecto crucial de sua arte - pois que constituem o elemento da verdade em sua criação. Nesta é possível encontrar e reconhecer a vida tranqüila das províncias, sua breve passagem por Berlim, a emigração, o campo, a guerra e a conquista da Europa pelos nazistas e, posteriormente, a exclusão do povo judeu pela política racista, a vida clandestina e, por fim, a exterminação dos judeus da Europa. Suas últimas pinturas, verdadeiro testemunho do Holocausto do qual fora vítima, são consideradas únicas. Até viver como estrangeiro indesejado na Bélgica, grande parte de seus quadros era composta por retratos, naturezas mortas e paisagens. A tempestade que estava para atingir a Europa aparecia, apenas, em alguns de seus óleos. Mas, a partir de 1936, muda a sua arte, assim como mudara a sua vida. Sua pintura torna-se mais politizada. Seus sentimentos e conflitos internos são vistos sob a ótica dos acontecimentos externos que o envolvem e ameaçam. Nussbaum passa a usar formas surrealistas e grotescas e a pintar inúmeros auto-retratos, nada comuns.

 

Sentia sua identidade ameaçada e esta era a única forma que, como " estrangeiro indesejado", encontrara para reafirmá-la. As telas desse período revelam a alienação e o isolamento artístico no qual se encontrava, assim como o medo e a sensação de perseguição que não o deixavam. Na medida que pioravam sua vida e sua situação, torna-se cada vez mais expressiva a sua obra. No óleo "Auto-retrato de Nussbaum no estúdio" , de 1938, o olho direito do artista olha para fora, para o mundo, enquanto uma de suas mãos cobre a boca, horrorizada e muda.

 

Em 1939, entram em sua última fase sua arte e sua vida. Os eventos da noite de 9 de novembro de 1938, a famigerada Noite dos Cristais, marcam a vida e a obra do artista. Pela primeira vez, ele reconhece o vínculo entre seu destino e o dos judeus alemães. Em trabalhos gráficos de 1939, o pintor revela sua intuição sobre a mudança dramática provocada pela ascensão de Hitler e o trágico destino que aguardava a Europa. No mesmo ano pinta "O refugiado" , em que retrata o desespero de um refugiado que não encontra abrigo em lugar algum do mundo.

 

Campo em Saint-Cyprien

 

Em 10 de maio de 1940, os exércitos nazistas ocupam a Bélgica. O artista, assim como outros "estrangeiros indesejados", é preso e deportado em vagões de gado para um campo de internamento na França de Vichy - Saint-Cyprien -, sul da França. Em agosto, após três longos meses "no inferno de Saint-Cyprien", sujeito às mais humilhantes condições, Nussbaum consegue fugir e volta à Bélgica e para Felka. A partir de então, o casal é obrigado a viver escondido. Para sobreviver, vendiam suas ilustrações e cerâmicas sob nomes não judaicos. Amigos belgas os ajudam de todas as formas; conseguem até providenciar um estúdio e tudo o que era preciso para pintar. Apesar de acuado e escondido, continua produzindo. Como artista, esta foi sua fase mais brilhante; parecia que o terror no qual vivia desabrochara sua criatividade. Pinta inúmeras vezes suas experiências em Saint-Cyprien. Os meses passados nesse campo tiveram um profundo impacto em Nussbaum. Até então, ele era um jovem de classe média abastada, um tanto frio e reservado. O tratamento desumano, a falta de comida, água potável e medicamentos, as doenças e a brutalidade dos guardas o marcam de forma decisiva. Foi lá que, preso por ser judeu, Nussbaum assume por completo sua identidade. Compreende que é judeu, que compartilha o destino de seu povo e que o mundo o vê como judeu. Fica-lhe claro o grande perigo que o nazismo representava para qualquer um de seu povo. Estes sentimentos são expressos em um de seus mais importantes trabalhos - "A sinagoga do campo em Saint-Cyprien", de 1941. Foi seu primeiro quadro sobre um tema judaico, após muitos anos. A partir de então, todas as suas obras giravam em torno do destino dos judeus europeus.

 

A idéia de que sua vida corria perigo passa a ser retratada em muitos trabalhos. Mas, apesar da catástrofe que via à sua volta, ele estava determinado a não se desesperar, a resistir, pintando. Tinha a tênue esperança de sobreviver...

 

Em 1942, quando a "Solução Final" começava a devastar os judeus belgas, Nussbaum escondeu grande número de pinturas com Josef Grosfils, o dentista belga que dizia ter pago "um mero franco por cada quadro". Em várias ocasiões, o pintor lhe recomendara: "Se eu morrer, não permita que o mesmo aconteça com minhas obras, mostre-as ao mundo". Repete este apelo, em carta datada de 1944 para uma família de amigos, em Bruxelas, informando que parte de seus trabalhos estavam guardados com o Dr. Grosfil.

 

Nos quadros que pintara entre julho e outubro de 1943, dispôs-se a fazer o que entendia ser a missão de sua arte - mostrar a verdade. Na seqüência de pinturas que levam a Estrela de David, o que cria vai além de seu destino pessoal, retratando as condições físicas e mentais de seu povo. Conseguiu dar expressão à impotência e ao desamparo dos judeus que, ameaçados de extinção, apenas aguardavam.

 

Foi em agosto de 1943 que Nussbaum pintou um de seus mais famosos quadros - "Auto-retrato com carteira de identidade judaica". Nele, um Nussbaum acossado, encara a si mesmo com claridade e precisão. O artista, vestido com um sobretudo, olha para o espectador enquanto levanta a gola da roupa para mostrar uma Estrela de David amarela - que ele própria nunca usara. Exibe uma carteira de identidade na qual está apagada sua naturalidade alemã, a nacionalidade marcada como "nenhuma" e em vermelho destaca-se a palavra "Juif-Jood".

 

Nenhuma de suas telas impressiona mais do que a última, datada 18 de abril de 1944 - "Triunfante, a Morte", ou "Esqueletos tocam para a morte" (figura). No meio das ruínas da civilização ocidental, músicos tocam usando máscaras macabras de esqueletos humanos. O fundo está repleto de objetos que representam as ciências, a tecnologia e as artes. Mas, apesar da morte e destruição, há esperança, no quadro. As nuvens escuras são explodidas e nos céus voam aviões aliados. O quadro retrata o mundo do pós-guerra e a derrota do nazismo. As feições do artista podem ser identificadas no rosto macilento, mas vivo, do tocador de realejo. Estimulado pelas notícias sobre o avanço aliado, Nussbaum acredita que conseguira escapar e se vê como um dos sobreviventes. Mas o destino dele e da esposa, bem como o de praticamente toda a sua família, estava selado.

 

Os Nussbaum viveram até um mês antes da libertação da Bélgica, pelos aliados. No verão de 1944, após o "Dia D" e apesar de estar perdendo a guerra, a Gestapo decide acabar com todos os judeus que restavam em Bruxelas. Até oferecem recompensas a quem os entregasse. Em 20 de junho de 1944, o casal é denunciado por belgas interessados no prêmio. Presos durante a noite, Felix e Felka são enviados para Mechelen, o "campo de trânsito", do qual 25 mil judeus belgas já haviam sido enviados para a morte.

 

Em 31 de julho de 1944, o casal é despachado para Auschwitz naquele que seria o último transporte de judeus para as câmaras de gás. Três semanas mais tarde, as forças britânicas libertariam Mechelen. Ao chegar em Auschwitz, não há milagre que salve o casal: ambos morrem nas câmaras de gás, segundo as autoridades belgas, no dia 9 de agosto.

 

O artista não conseguiu salvar-se, mas salvou sua arte. Seus quadros, admirados pelo mundo todo, são mais do que documentos vivos da loucura que envolveu a Europa nazista. São testemunhos pungentes do poder do espírito humano, de sua capacidade de transcender toda e qualquer adversidade.

 

Bibliografia :

 

E. Berger, I. Jaehner, P. Junk, K. G. Kaster, M. Meinz, W. Zimmer Felix Nussbaum, A Biography -Art Defamed, Art in Exile, Art in Resistance, Ed. The Overlook Press, N.Y., 1997

 

Felix Nussbaum (1904-1944), Yad Vashem Museum.

 

Felix Nussbaum, Reviled in Life, Embraced in Death, artigo de Alan Riding.

 

Felix Nussbaum and the Art of Resistance, artigo de John Felstiner

 

Still with Gas, Jerusalem Report, artigo de Netty C. Gross, 3 abril de 1997