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Argentina: Migração e colonização Plaza Congresso (Praça Congresso), Buenos Aires

Argentina: Migração e colonização

por Reuven Faingold

Desde que Theodor Herzl colocou, em “O Estado Judeu” (1896),  o dilema de estabelecer um Estado na Argentina ou em Eretz Israel, a terra de Jorge Luis Borges virou o centro das atenções. Nesse contexto, a obra de Alberto Guerchunoff, Los Gauchos Judíos (La Plata, 1910), desvenda a epopeia da colonização judaica em terras argentinas.

Edição 95 - Abril de 2017


O processo de aculturação dos judeus na América Latina inicia-se a partir do final do século 19 e início do século 20. Argentina e Brasil tiveram realidades parecidas, assentando suas raízes na colonização agrícola. Com a compra de terras pela ação filantrópica do Barão Maurício Hirsch e da Jewish Colonization Association (JCA), começaram a surgir colônias com capacidade de trabalho e alta produtividade, muitas com infraestrutura para abrigar numerosas famílias, oriundas das mais diversas partes da Europa.

Após a independência da Argentina, em julho de 1816, este país passou a ser alvo de imigração, principalmente após o fim do Tribunal da Inquisição. Assim, aos poucos, fugindo dos pogroms e dificuldades econômicas que assolavam as comunidades asquenazitas, os judeus foram-se assentando na Argentina. De fato, a presença judaica remonta àqueles anos e, com o passar do tempo, manteve um núcleo populacional considerável, organizando a Congregação Israelita de Buenos Aires (1862) com judeus alemães, franceses, ingleses e sefaraditas.

Vindos da Europa, especialmente da Bessarábia, Rússia e Polônia, este grupo de judeus falava iídiche, enquanto outro vindo da Bacia Mediterrânea, Norte da África, Península Ibérica e Oriente Médio – o grupo sefaradita – falava ladino. Apesar de serem os judeus um elemento urbano, a colonização agrícola argentina teve êxito ao revelar um grupo definido que podemos identificar como Los gauchos judíos.

Porém, a maior leva imigratória, proveniente dos shtetls (aldeias judaicas da Europa Oriental), começaria nos anos 80 do século 19, em decorrência de dificuldades econômicas vivenciadas pelos judeus na Zona de Assentamento (moradia legalmente permitida aos judeus) da Rússia czarista.

Os judeus da Europa Ocidental, cientes do que se passava com seus correligionários na Rússia, mobilizavam-se para encontrar soluções que facilitassem o traslado de seus irmãos a países de escassa população e que demandassem mão de obra colonizadora. Em 1881-1882, a Argentina demonstra interesse em receber imigrantes judeus, e seu governo designa naquele ano um agente na Europa com essa finalidade: estabelecer contatos com funcionários do governo russo para receber essa população, sob o manto de proteção das leis argentinas.

Os incidentes antissemitas de 1881-1882 na Rússia czarista, um desdobramento das Leis de Maio, estimularam a atuação dos agentes de imigração argentinos, que, por sua vez, receberam apoio de instituições judaicas como a “Alliance Israelite Universelle (AIU), fundada em 1860. Nessa época, a AIU já tinha destacado papel em organizar a imigração dos judeus soviéticos rumo aos Estados Unidos e à Palestina turco-otomana, incentivando a formação de núcleos imigratórios na Argentina, o que de fato  veio a ocorrer em 1884.  Pouco tempo depois, em 1889, chegam à província de Santa Fé oito famílias judias para se estabelecer em Monigores Vieja, que, mais tarde, se converteria na colônia Moisés Ville, fundada pela “Jewish Colonization Association”.

A “JCA” E BARÃO HIRSCH

No final de 1889, o representante  do Barão Hirsch na Argentina,  o cientista judeu-alemão Wilhelm Loewenthal, debateu um projeto colonizador judaico com o presidente do país, Carlos Pellegrini, e também com latifundiários privados, negociando a compra de aproximadamente 3.250.000 hectares. Loewenthal elaborou esse projeto visando organizar anualmente a imigração de 5 mil judeus da Rússia. 

Essa colonização não deveria assumir apenas um caráter filantrópico, mas pretendia assegurar a independência econômica dos colonos com o trabalho agrícola. A filantrópica JCA não só criaria colônias, mas fomentaria uma melhora nas condições materiais dos judeus.

Os planos da JCA e do Barão Maurício Hirsch para a Argentina eram mirabolantes, havendo necessidade de adequá-los a proporções mais modestas. Assim, foram fundadas apenas cinco colônias judaicas nas províncias de Buenos Aires, Entre Rios e Santa Fé, numa superfície de 200.619 hectares, assentando-se 6.757 colonos com suas famílias, num total de 910 chácaras. Este era o balanço da maior empreitada colonizadora já realizada na Argentina até 1896, ano em que Alberto Guerchunoff deixava Entre Rios para iniciar sua promissora carreira de escritor em Buenos Aires.

O governo russo autorizou o funcionamento de um Comitê Central da JCA em São Petersburgo, com filiais nas províncias. Por sua parte, o governo argentino reconheceu a JCA como uma associação civil de fins filantrópicos. Uma saída desordenada de massas, sem o devido preparo para encaminhá-las a trabalhos produtivos fez Maurício Hirsch publicar uma circular pedindo que judeus interessados em emigrar se inscrevessem nos devidos comitês, advertindo que não arcaria com a responsabilidade sobre aqueles que se aventurassem a emigrar por conta própria.

O projeto colonizador de Wilhelm Loewenthal foi aceito pelo Barão Hirsch, que, na ocasião, resolveu enviar uma comissão para avaliar os resultados obtidos. Em 1890 a comissão chegou a Moisés Ville e lá encontrou 68 famílias judias emigradas, que ocupavam 4.350 hectares de terra. Foi organizada a “Sociedad Cooperativa de Agricultores em Moisés Ville”, recebendo seus membros o primeiro apoio financeiro do Barão Hirsch. Em relatório da comissão descrevendo a situação da colônia consta que os judeus russos são inteligentes e, com seu entendimento, aprendem em pouco tempo, procurando ser autossuficientes o mais rápido possível”.

Em 1894 chegam os primeiros grupos da nova imigração judaica russa, principalmente saídos da zona rural, com experiência agrícola. Assim, nesse mesmo ano, chegaram 286 judeus para fundar a Colônia Lucien-Ville, em Basavilbaso, província de Entre Rios. Com essas famílias se encontrava também um representante dos judeus da Lituânia que se estabeleceria na colônia de Moisés Ville. Seu nome era Noach Kaciovich e havia sido designado para exercer uma posição de liderança no fomento àquele movimento entre os judeus russos.

Com este objetivo, Kaciovich viajou algumas vezes à Europa conseguindo trazer colonizadores judeus para o trabalho agrícola, estabelecendo-se na região de Moisés Ville uma colônia de 91 famílias, em 1896, e 250 famílias, em 1902. Nesse meio tempo, com ajuda direta da JCA, foram fundadas colônias em várias regiões da Argentina. Até 1925, a JCA continuava criando colônias e desenvolvendo um ótimo trabalho social que lhe permitiu fundar uma rede escolar judaica para filhos de colonos, com bibliotecas, sinagogas e organizações para a juventude, permitindo-lhes manter atividades culturais diárias em língua iídiche e em espanhol.

A agropecuária constituiu-se na principal atividade econômica dos colonos, mas para obter o sustento muitos faziam trabalhos remunerados para os fazendeiros argentinos, seja trabalhando a terra ou especializando-se nas fábricas.

As colônias judaicas agrícolas na Argentina tinham um planejamento em unidades familiares que variavam de 30 até 100 hectares, dependendo de sua localização, composição humana e tipo de cultivo. O sucesso do trabalho se devia à adoção do cooperativismo, introduzido desde os primórdios da colonização, a começar pela “Sociedade Agrícola Lucien-Ville”,fundada em 1904, e “La Mutua Agrícola” de Moisés Ville, fundada em 1908, entre outras. Antes de eclodir a 1ª Guerra Mundial, o número de judeus nas colônias argentinas chegava a 7.000. Nessa época, a superfície das terras compradas pela JCA superava 600.000 hectares.

Em 1925 constituiu-se a “Fraternidad Agraria”, reunindo 23 cooperativas agrícolas das colônias judias argentinas, e não é de surpreender que 10 anos mais tarde, em mais de 20 colônias da JCA se cultivavam aproximadamente 650.000 hectares, que representam 2% do total de terras cultivadas no território nacional. Assim, a colonização judaica conseguiu sobreviver, apesar da atração exercida pela vida urbana. Naturalmente, houve casos de abandono do campo, lugar que exigia sacrifícios, tal qual constatamos em “Los gauchos judíos”.

A contribuição judaica à Argentina foi significativa, pois além de se manifestar na organização cooperativa, introduziu cultivos que até então eram desconhecidos no país, tais como girassol e alfafa, cultivados em larga escala. Também as cooperativas introduziram a industrialização de produtos como manteiga, coalhada, queijos e derivados do leite, sempre amparados com o respaldo financeiro de instituições que surgiam, dentre elas o “Banco Comercial Israelita”.

A VOZ DE GUERCHUNOFF

Los Gauchos Judíos foi a primeira grande expressão literária da epopeia rural judaica. Escrita em 1910, esta obra de Guerchunoff não só comemorava o centenário da independência argentina, mas também inaugurava um novo gênero literário sobre a colonização em terras latino-americanas. Desde sempre o Novo Mundo era visto pelos cronistas como um espaço peculiar, um outro lugar onde seria possível recomeçar a vida longe das perseguições. Não por acaso surgiu uma enorme leva migratória transatlântica entre 1824-1924, um êxodo de 52 milhões de pessoas chegadas do Velho Mundo, 93% das quais se encaminharam às Américas: 72% rumo à América do Norte e 21% à América Latina. Certamente Guerchunoff escolheu ambientar sua obra na província de Entre Rios, pois ali, ele pretendia reconstruir um espírito telúrico, descrevendo a influência da terra sobre o caráter e costumes dos habitantes. Era uma forma de resgatar o volkgeist argentino das chácaras onde os colonos da JCA trabalhavam arduamente. Desta forma, o autor visa integrar sua obra à narrativa nacional, demonstrando que o imigrante judeu também podia absorver o espírito crioulo1. Obviamente, até 1910, nenhuma das levas migratórias de espanhóis, italianos, alemães ou ingleses, havia concebido um narrador tão determinado em fundir a identidade judaica com os valores e símbolos pátrios argentinos.

No prólogo de Los Gauchos Judíos há elogios a Alberto Guerchunoff como um dos escritores que possui o “dom” de desentranhar a beleza oculta dos temas simples e familiares. Enfatiza-se o fato de os colonos judeus aprenderem a fazer os primeiros sulcos, assimilando-se rapidamente ao espírito campestre do criollo. Esta assimilação dos judeus de fato aconteceu, e alguns inclusive foram abandonando parte de seus hábitos, adotando trajes típicos e absorvendo do meio ambiente uma liberdade e autonomia que caracterizam o perfil do agricultor argentino.

Os 24 relatos que constituem Los Gauchos Judíos giram em torno do elemento que organiza a própria narrativa: o espírito da terra de Entre Rios. Guerchunoff consegue transformar os campos da infância na colônia Rajil, em vales montanhosos recortados das paisagens bíblicas. A Terra de Promissão de Guerchunoff é a almejada Sion, reencontrada nos pampas argentinos. A rigor, o autor desenvolveu esta alegoria justamente no momento em que o nicaraguense Rubén Dario (1867-1916) atribuía à Argentina um caráter sagrado de Terra Prometida. Dario escreve em “Siónida en el Nuevo Mundo”, um dos1.001 versos da obra “Canto a la Argentina” (1910), um  texto que inspirou Guerchunoff:

¡Cantad judíos a la Pampa!                         Cantem judeus à Pampa!
Mocetones de rude estampa,                     Moços de rude aparência,
dulces Rebecas de ojos francos,                 Rebecas doces de olhos sinceros,
Rubens de largas guedejas.                      Rubens de longos tufos.
Patriarcas de cabellos blancos                   Patriarcas de cabelos brancos,
y espesos como hípicas crines.                   espessos como crinas hípicas.
Cantad, cantad Saras viejas                       Cantem, cantem velhas Saras
y adolescentes Benjamines                         e Benjamins adolescentes
con voz de nuestro corazón:                       com a voz de nosso coração:
¡Hemos encontrado a SIÓN!                       Encontramos SION!

O talento de Guerchunoff o fez reencontrar Sion em sua amada Entre Rios. Certamente, o Guerchunoff de 5 anos já teria ouvido de seu pai acerca dessa Terra de Promissão. Nela os “gauchos judíos” trabalhariam a terra como os judeus bíblicos. Sua autobiografia, escrita em 1914 e publicada post-mortem, em 1950, descreve a atmosfera pastoril extraída da Torá:

“Pela manhã, nos claros amanheceres quentes e doces; bíblicas manhãs do campo argentino, os judeus de longas barbas se inclinam sobre o solo intacto, com suas pás redondas e seus rastelos... Havia nisso algo daquele ritual místico, da seriedade com que eles desenvolviam suas simples tarefas”.

Em cada um dos 24 relatos de “Los Gauchos Judíos” os conflitos desaparecem, uma vez que o mais importante é destacar que, ao lavrar o campo argentino, os Abraham, Jacob e Moisés, tornaram-se homens livres. Guerchunoff foi o primeiro dos escritores naturalizados que criou uma identidade cívica perdurável para denominar seus correligionários camponeses: gauchos judíos. Até então, o termo gauchos judíos soava no discurso nacionalista argentino como uma contradição impensável. Desde que surgiu, esta denominação foi recebida como a síntese do perfil de dois espíritos: gaucho ou criollo (autóctone) e judeu (imigrante). Era uma mescla embrionária de terra argentina com os fundamentos bíblicos.

Para Guerchunoff, tradições milenares são sinônimo de tradições bíblicas, um modelo aceito tanto por cristãos como por judeus. Certa vez, ele chegou a dizer: Admiro tanto os gauchos como os hebreus da Antiguidade”. Procurando legitimar seus personagens na velha língua hispana, “Los Gauchos Judíos” guarda reminiscências da língua de Cervantes, utilizando arcaísmos, sintaxe própria e um sofisticado jogo de palavras com ornamentação estilística.  

A menção a filósofos e poetas da Idade de Ouro dos Judeus em Al-Andalus, figuras destacadas como Maimônides (1135-1204), Rabi Yehuda Halevi (1075-1141) e SemTob Carrión, foi outro dos recursos utilizados por Guerchunoff para recriar seus personagens.  O exemplo mais claro é o conto “El viejo colono”, uma ode ao gaucho judeu. Do relato emerge uma nova identidade judía-gaucha que não oculta suas origens, mas que deixa transparecer sua vontade de apagar todo resquício da Galut em prol do orgulho de ser argentino. O trecho diz:

“Em Rajil meu espírito se apoderou de lendas regionais. Naquela natureza incomparável, sob aquele céu único, no amplo sossego da campina sulcada de rios; minha existência se encheu de fervor, [um fervor] que apagou minhas origens e me fez argentino”.

GUERCHUNOFF  DURANTE A 2ª GUERRA

Apesar de ser um escritor profícuo, no imaginário literário dos argentinos Guerchunoff é autor de um livro só: Los Gauchos Judíos. Mesmo com um sucesso literário garantido, não solicitou a reeditação de sua obra. É possível que houvesse motivos suficientes para explicar esse desinteresse: a ascensão do nazismo e o início da 2ª Guerra enfraqueceram suas convicções literárias, dedicando-se a fazer um jornalismo comprometido com a causa de seu povo. Silenciando amigos fascistas, Guerchunoff combateu o nazismo não apenas como liberal argentino comprometido com os Aliados, mas principalmente através de sua avassaladora dignidade judaica.

Em junho de 1940, Guerchunoff rejeitou homenagens oferecidas pelo jornal “La Nación” para comemorar os 30 anos da 1ª edição de Los Gauchos Judíos. Em plena conquista da Europa por Hitler, argumentou que Nas circunstâncias em que vivemos – os iminentes perigos que hoje ameaçam a civilização – proíbem todo tipo de homenagens pessoais”. O escritor se desculpa dizendo que atualmente é necessário ocupar-se daquilo que interessa à comunidade argentina, daquilo que aflige a consciência do mundo”.

No jornal “Argentina Libre”, que exigia do governo abandonar sua postura neutra, Alberto Guerchunoff publicou artigos denunciando os crimes perpetrados pela Alemanha contra o Povo Judeu. Aumentou esta série de matérias às vésperas do início da execução da “Solução Final”, em janeiro de 1942. Na época, escreveu quatro artigos denunciando o massacre nazista: “Más de 1.000.000 de judíos” (2/7/1942), “Extermínio de judíos” (03/7/1942), “Matanza de judíos” (10/7/42) e “Los culpables del gran crimen” (24/7/42).

Em dezembro de 1942, a pedido da DAIA (Delegação de Associações Israelitas Argentinas), Guerchunoff preparou um pôster intitulado “Al Pueblo Argentino”, denunciando o extermínio sistemático de judeus. Sua pena continuaria a combater as atrocidades da Alemanha até sua capitulação, em 1945.

Guerchunoff condenou ainda a exibição de documentários e exposições retratando os brutais massacres de Auschwitz. Na ocasião, em matéria intitulada “El crematório nazi en los cines de Buenos Aires”, declarou: “Não pretendo verificar os horrores registrados pelos aparelhos fotográficos nem preciso assistir ao desfile de efeitos que se apresentam para medir a barbárie nazista... São as multidões não judaicas quem tem por obrigação presenciar estas exibições, penetrar em seus significados, estudar as causas que levaram uma organização [nazista] a tamanha bestialidade, e em que medida colaborou (ou não) para um antissemitismo ativo ou latente, com sua indiferença fosca ou com seu consentimento tácito a essa perfeita indústria da morte judaica... Este acontecimento horripilante de que foi cúmplice o mundo inteiro, também gerou sua própria agonia... A exclusão dos judeus, praticada inclusive em países que carecem de uma politica discriminatória, de forma dissimulada e hipócrita como na nossa [Argentina], deixa claro que em diversos setores importa preparar um ambiente que oculte as atrocidades dos campos de concentração”.

A indiferença e a cumplicidade da “inteligência” latino-americana ante o Holocausto afetaram Guerchunoff profundamente. Após a queda do Terceiro Reich, denunciou aquilo que denominou de o “Fantasma do Quarto Reich”. Derrotado o Nazismo, ele temia que o exacerbado nacionalismo, aliado ao câncer do antissemitismo, faria sua incursão em território argentino. Grande era também seu desapontamento diante da atitude hostil do mundo livre em relação à causa sionista na Palestina Britânica. Por isso, mobilizou-se como sionista, determinado a defender a existência do Estado de Israel nos fóruns latino-americanos.

O SIONISMO DE GUERCHUNOFF

Entre 1946-1948 Guerchunoff foi editor de “Jalda”, o boletim informativo da “Agência Judaica Pró-Palestina”. Assim, poucos dias antes da convocação da Assembleia das Nações Unidas para discutir a “Partilha da Palestina” (29/11/1947), ele recorreu a seus amigos e intelectuais mais próximos para apoiarem a Partilha e a criação de um Estado Judaico.

Outrora admirada, a Grã Bretanha deixou Guerchunoff indignado, basicamente pela adoção de uma nefasta política de Livros Brancos que impunha cotas migratórias aos sobreviventes do Holocausto, interessados em ingressar ilegalmente na então Palestina. Mas Guerchunoff também se irritou diante da repressão colonialista britânica contra os procurados “terroristas sionistas” (adeptos ao revisionismo de Zeev Jabotinsky), que lutavam por um Estado judeu.

O escritor da colonização judaica criticou os burocratas britânicos responsáveis pelas colônias britânicas. Homens como Ramsay MacDonald e Clement Attlee esqueceram que os judeus lutaram pelas nações aliadas, e as potências aliadas não se viram na obrigação de honrar as promessas feitas aos judeus. Isto era, sem dúvida, uma clara alusão ao teor da “Declaração Balfour”, que, desde 2/11/1917, apoiava o estabelecimento de um “Lar Nacional Judaico” na Palestina.

Durante 1946-1950 Guerchunoff informou ao público acerca da atividade sionista em Eretz Israel. Falou da incansável luta do ishuv pela libertação dos britânicos, da busca de amigos na ONU a favor da proclamação do Estado, do início da Guerra da Independência e da vitória do Estado judeu contra os países árabes. Algumas dessas páginas foram compiladas em  “El piano y la palmera”, revelando seu fervor sionista.

Nos últimos anos de vida, Guerchunoff começou uma obra monumental que pudesse testemunhar o Holocausto. Seu projeto tinha duas partes: a primeira, denominada “Estrella de David”,seria uma crônica da Shoá entre junho de 1938 e abril de 1946; e a segunda, intitulada “Israel”, relataria os anos decisivos do jovem país desde maio de 1946 até dezembro de 1949. Infelizmente, sua repentina morte em 2 de março de 1950, interrompeu o ambicioso projeto.

PALAVRAS FINAIS

Los Gauchos Judíos de Guerchunoff  é um “salmo” composto por 24 relatos laudatórios acerca da integração e contribuição dos imigrantes judeus à cultura argentina. A obra narra episódios da vida agrícola judaica nos “pampas argentinos”. São textos breves inspirados nas recordações da infância e da adolescência do autor.

Guerchunoff escreveu em espanhol sua primeira obra acerca da atividade judaica no Novo Mundo. A construção dessa epopeia na Argentina, tida como a “Terra Prometida”, é um grito de otimismo, uma leitura obrigatória que nos remete a situações construtivas de progresso e civilização.

Ao escrever Los Gauchos Judíos, Alberto Guerchunoff se afasta dos conflitos antissemitas que nasceram na Argentina dos anos 1930. Seu livro ocupa o 35º lugar entre as 100 melhores obras de literatura judaica, ranking estabelecido pelo National Yiddish Book Center, nos EUA.

1 Crioulo – de criollo - Na América espanhola, crioulo, em geral, designa uma pessoa descendente de europeus que tenha nascido na América. Os filhos dos grandes aristocratas europeus - em especial espanhóis - que tinham filhos nascidos em terras americanas chamavam a seus filhos de criollo. Na Argentina, o termo é utilizado para referir-se aos descendentes dos antigos colonizadores espanhóis que

BIBLIOGRAFIA
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Gerchunoff, A., Los gauchos judíos, prólogo de Martiniano de Leguizamón, La Plata 1910.  (Outras edições foram publicadas em 1950, 1957, 1964, 1968, 1975, 1981, todas com prólogos de destacados escritores). 
Senkman, Leonardo, La identidad judía en la literatura argentina, Ediciones Pardes, Buenos Aires, 1983, capítulos 1 e 2. 
Senkman, Leonardo, Argentine Culture and Jewish Identity, em: Judith Laikin Elkin and Gilbert W. Merkx (eds.), The Jewish Presence in Latin America, Boston, 1987, págs. 259-260.

Prof. Reuven Faingold é historiador e educador; PHD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. É sócio fundador da “Sociedade Genealógica Judaica” do Brasil e, desde 1984, membro do “Congresso Mundial de Ciências Judaicas” em Jerusalém. Atualmente, é responsável pelos projetos educacionais do “Memorial da Imigração Judaica” de São Paulo. vivem no interior do país.