Morashá

O POLÊMICO PIO IX

No início de seu papado, Pio IX demonstrara uma certa tolerância em relação aos judeus, abolindo por algum tempo o gueto de Roma, o último que ainda existia na Europa . No entanto os judeus romanos foram forçados a retornar ao gueto.

Edição 30 - Setembro de 2000


Papa João Paulo II anunciou diante de 100 mil pessoas, no último dia 3 de setembro, numa cerimônia que foi parte das comemorações do Jubileu da Igreja Católica a beatificação de dois de seus antecessores: Papa Pio IX e Papa João XXIII. Se, por um lado, João XXIII foi universalmente amado, por outro, Pio IX, reacionário e intolerante, é uma figura que cria controvérsia tanto no meio judaico, pois pesa sobre ele (assim como sobre Pio IX) a acusação de anti-semitismo, como entre os católicos .

O Vaticano decidiu dar prosseguimento à beatificação de Pio IX iniciada em 1907 , após ter adia-do a de Pio XII, em virtude da polêmica criada por sua atuação durante o Holocausto. Mas a emenda ficou pior do que o soneto e, para os judeus, a beatificação de Pio IX - que, em vários documentos, referia-se aos judeus como "cachorros" - não se enquadra nas recentes atitudes do Vaticano e da Igreja Católica em relação ao povo judeu, que culminaram com a visita do Papa João Paulo II a Israel em março deste ano. Durante meses houve sérios protestos por parte de grupos judaicos, alertando o Vaticano de que uma tal atitude poderia ter repercussões sérias nas relações judeu-católicas. Grupos judaicos e grupos liberais passaram a noite em vigília, como protesto.

Papa Pio IX, como era chamado na Itália, que descendia de uma família da nobreza italiana reinou de 1846 a 1878, repudiava a democracia e o Estado italiano. Suas tendências reacionárias eram bem conhecidas dentro da própria Igreja. Intolerante e irritadiço, humilhava as pessoas que o serviam, e perseguia seus inimigos de maneira implacável. Responsável por criar o Primeiro Concílio Vaticano foi o idealizador da doutrina da "infalibilidade" do Papa implantando dentro da Igreja Católica a idéia da "supremacia papal".Em seu papado publicou documento onde negava o direito dos não-católicos de gozar da liberdade de praticar sua religião.

No início de seu papado, Pio IX demonstrara uma certa tolerância em relação aos judeus, abolindo por algum tempo o gueto de Roma, o último que ainda existia na Europa.

No entanto os judeus romanos foram forçados a retornar ao gueto até, em 1870, quando o Estado italiano fez de Roma sua capital, colocando um fim à existência de um Estado Papal. Numa carta a William Gladstone, um viajante inglês caracterizou Roma como uma prisão: "Não há nenhuma liberdade, nem ao menos esperança de vida tranqüila... Um estado de sítio permanente, atrozes vinganças... Assim é o atual governo papal." E, como sempre se viu na História, os judeus se tornaram alvo da represália. Um historiador italiano descreveu a política de Pio IX em relação aos judeus como cheia de "falsidade, arrogância e crueldade". Cecil Roth, o historiador britânico, comparou as condições dos judeus sob o reinado papal com as dos judeus na Alemanha nazista da década de 1930.

Em 1858, o Papa Pio IX envolveu-se no seqüestro de um criança judia de apenas 6 anos, Edgardo Mortara. Batizado secretamente por uma criada enquanto era ainda bebê, a criança foi seqüestrada pela polícia papal em Bolonha. Levado à força para a Casa do Catecismo foi instruído na fé católica. Pio IX adotou o menino. Apesar das súplicas dos pais e de indignados protestos tanto por parte da comunidade internacional em geral como da judaica, Edgardo Mortara não voltou para sua família e cresceu no Vaticano tornando-se um padre católico.

O caso Mortara teve repercussões internacionais, protestos diplomáticos foram inutilmente enviados ao Pontífice. Descendentes da família Mortara afirmam que a recente beatificação reabriu feridas profundas nunca cicatrizadas.

Na mesma cerimônia outro papa, bastante diferente, foi beatificado - Papa João XXIII. Papa durante o período de 1958 a 1963, João XXIII era conhecido na Itália como "il Papa Buono", o Bom Papa. Filho de simples camponeses foi um homem amado pelos católicos por sua simplicidade e bondade, e muito respeitado pelos judeus. Foi quem iniciou a fase de liberalização da Igreja em 1960, ao convocar o Segundo Concílio Vaticano.

Apesar de ter falecido antes do fim do Concílio, suas idéias se cristalizaram. João XXIII foi o primeiro papa a estender a mão aos judeus e a praticar a solidariedade humana com todos os povos. Na sua Encíclica mais conhecida, "Paz na Terra", o Papa João XXIII afirmava que toda pessoa tem o direito de adorar a D'us como quiser. Morreu em 1963 e seu papado de cinco anos marcou um momento decisivo na história da igreja e nas relações entre judeus e católicos.