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O CASO LEO FRANK Leo Frank: julgado e condenado

O CASO LEO FRANK

A prisão e posterior condenação de Leo Frank mostrou a profundidade e a força do anti-semitismo vigente no sul dos Estados Unidos no início do século XX. Atlanta, Geórgia, 1913.

Edição 29 - Junho de 2000



Uma multidão enfurecida amontoava-se em volta do tribunal, gritando: "Enforquem o judeu, enforquem o judeu". Homens armados olhavam pelas janelas da sala onde estava sendo julgado Leo Frank. Alguns apontavam para os jurados, outros para o juiz. Nenhum policial interferiu para dispersar os manifestantes. Tanto os jurados quanto o juiz haviam recebido ameaças de morte caso o réu não fosse declarado culpado e sentenciado à morte na forca.

Tais fatos não poderiam ter acontecido nos Estados Unidos, mas aconteceram: um jovem judeu, Leo Frank, foi injustamente acusado de violentar e matar uma jovem de 14 anos, Mary Phagan. Mesmo declarando-se inocente e sem provas de sua culpa, Leo Frank foi condenado à morte.

Leo Frank era um jovem brilhante, formado pela prestigiosa universidade de Cornell. Foi morar em Atlanta, onde passou a administrar uma fábrica de lápis, da qual tornou-se sócio. Em 1910, foi recebido como membro da B'nai B´rith de Atlanta, para combater o mesmo anti-semitismo do qual seria vítima três anos mais tarde.

A tragédia de Frank inicia-se no dia 27 de agosto de 1913, quando foi preso juntamente com um dos empregados da fábrica, Jim Conley, um jovem negro. A acusação que pesava contra eles era de ter violentado e assassinado Mary Phagan, funcionária da mesma empresa.

Vários fatores conspiraram contra o jovem Frank, entre os quais o anti-semitismo que reinava em Atlanta e o fato de tanto o xerife como o promotor desejarem "mostrar serviço" para serem promovidos. Precisavam de um caso explosivo e o tinham encontrado. Um caso e dois suspeitos: "um negro e um judeu, ambos membros de minorias odiadas". Vale a pena notar que o promotor Hugh Dorsey, encarregado do caso, acabou sendo eleito governador da Geórgia.

Não há dúvidas sobre a extensão do preconceito racial contra negros, vigente no sul dos Estados Unidos. Porém, o anti-semitismo em Atlanta era forte o suficiente para que um judeu fosse sentenciado à morte tendo como única base o testemunho de um negro, Conley, o outro acusado.

A promotoria não apresentou qualquer evidência que indicasse a culpa de Frank, somente o testemunho de Conley. Assim, após um vergonhoso julgamento no qual Frank foi condenado, também Jim Conley foi condenado a um ano de trabalho forçado.

O mais irônico neste caso foi que o verdadeiro assassino era a própria testemunha da acusação. O advogado de defesa de Conley estava ciente do fato - o próprio Conley lhe confessara - mas não revelara a informação alegando "a ética que salvaguarda a relação advogado - cliente".
Enquanto Frank estava sendo "julgado", as facções anti-semitas de Atlanta iniciaram uma virulenta campanha, usando todos os clichês antijudaicos possíveis.

No restante dos Estados Unidos, tanto a mídia quanto personalidades políticas e públicas se manifestavam contra a perseguição a Frank.

Juristas de renome diziam que os indícios levavam a Jim Conley. A B'nai B´rith mobilizou-se para que pessoas influentes intercedessem a favor de Frank. Um jornal de Atlanta denunciou os procedimentos do tribunal, pedindo um novo julgamento. Tudo foi inútil e todos os apelos em favor de um novo julgamento foram negados.

Os protestos vindos de todas as partes dos Estados Unidos só conseguiram adiar a execução da sentença, o que provocou uma nova onda de demonstrações anti-semitas em Atlanta.


Dois anos mais tarde, o novo governador eleito da Geórgia, John Slaton, apesar dos protestos, mudou a sentença de Frank para prisão perpétua e, para protegê-lo das ameaças de linchamento, ordenou que fosse transferido para um lugar mais seguro. Na prisão, foi agredido várias vezes e, após ser esfaqueado no pescoço, foi hospitalizado.

No dia 15 de agosto, 30 homens que se autodenominavam "Comitê de Vigilância" entraram livremente na prisão, supostamente de segurança máxima, na qual Frank se encontrava e, como se não existissem portas de ferro ou guardas, tiraram-no de seu catre. Ninguém tentou impedir. Frank foi amarrado com uma corrente na parte traseira de um carro e seu corpo foi arrastado pelas estradas por mais de 100 quilômetros. Depois, foi enforcado em uma árvore. Durante anos, fotos macabras de seu corpo pendurado na árvore foram vendidas como cartões postais no sul dos Estados Unidos.

No norte dos país, os jornais denunciaram horrorizados o linchamento. Na Geórgia, porém, nada aconteceu. Os ataques contra os judeus continuaram em algumas publicações e as autoridades sequer tentaram encontrar os assassinos.

Em 1982, 69 anos após o julgamento de Frank, Alonzo Mann, de 83 anos, confessou que havia visto Jim Conley levando o corpo da jovem até o subsolo da fábrica. Disse, também, que não revelara esta informação na época porque sua mãe o proibira de se envolver. Em 1986, após uma minuciosa revisão do caso, o Estado da Geórgia concedeu a Frank perdão post mortem.

O caso Leo Frank foi um dos três julgamentos ocorridos no final do século 19 e início do 20, de cunho anti-semita. Dos três - Dreyfus, na França, e Mendel Beilis, na Rússia, somente Frank morreu. O caso Frank passou a ser conhecido nos Estados Unidos como "o julgamento preconceituoso". Um dos resultados desse trágico acontecimento foi a criação da Liga Anti-Difamação por um amigo de Frank, o advogado Sigmund Livingston.