Morashá
O que Yossef nos ensinou Foto Ilustrativa

O que Yossef nos ensinou

"E Yossef veio a eles, pela manhã, e viu-os. E eis que eles estavam tristes. E perguntou aos oficiais do Faraó… 'Por que vossas faces estão tão abatidas, hoje? " (Gênese, 40:6-7).

Edição 63 - Dezembro de 2008


No artigo intitulado "José, Retrato de um Tzadik" (Morashá nº. 48, abril 2005), recontamos a história extraordinária da vida de Yossef, filho de Jacob e Rachel. Nele discutíamos por que razão ele, entre todos os personagens bíblicos, merecia o título de HaTzadik - o Justo. Aqui, tomaremos um versículo da Torá - contendo uma pergunta que Yossef fez a dois egípcios a quem encontra na prisão - e exploraremos as grandes lições que nos transmite sobre aquilo que o judeu deve aspirar a ser e sobre a visão do judaísmo sobre a vida e a história.

Antes, no entanto, iniciaremos com um breve relato da vida de Yossef.

Da pobreza à riqueza

Yossef tinha um irmão por parte de pai e de mãe, Benjamin - a quem sua mãe, Rachel, dera à luz pouco antes de morrer - e 10 meio-irmãos, que eram os filhos de Leah, Zilpá e Bil'há. Esses meio-irmãos o invejavam pelo fato de ser o filho favorito de Jacob e esse sentimento se converteu em ódio após ele ter contado à família que tivera dois sonhos que indicavam que, em algum tempo futuro, ele reinaria sobre os demais.

Certo dia, quando estava com 17 anos, seu pai o envia em busca dos irmãos que apascentavam as ovelhas da família nos arredores da cidade de Shchem (Nablus). Quando Yossef os encontra, eles tentam matá-lo e, não conseguindo, vendem-no a ismaelitas, mercadores de escravos. Yossef é levado ao Egito onde é vendido como escravo para Potifar, homem de grande autoridade e poder na hierarquia egípcia.

Durante um ano Yossef trabalha na residência de Potifar. Desincumbe-se de suas tarefas com tanto sucesso, que o patrão o nomeia administrador de seu palácio. Mas, tão logo sua vida começa a melhorar, a mulher de seu amo, hipnotizada por sua beleza, tenta seduzi-lo. Por mais tentado que estivesse - não esqueçamos que era rapaz jovem, solitário, ao passo que a mulher era linda e poderosa - ele repetidamente repele as investidas e as artimanhas da mulher.

Um dia, no entanto, quando estavam apenas os dois em casa, o rapaz sucumbe à tentação. Se deita ao lado da mulher de Potifar. Mas, antes de qualquer contato, ele tem uma visão de seu pai. Assustado, põe-se em fuga. Raivosa e frustrada, a mulher leva as roupas de Yossef como prova da mentira que engendra, de que ele tentara violentá-la. As diferenças sociais entre ambos - ela poderosa princesa egípcia e ele, um escravo hebreu - atiram Yossef no cárcere, com pena indeterminada.

Dez anos se passaram e Yossef continuava preso. Certa manhã, ele viu que dois funcionários da Casa Real, o sommelier e o confeiteiro do Faraó, que já estavam presos há um ano, pareciam muito deprimidos. Foi até eles e lhes fez uma pergunta. "Madúa Pneichem Rayim Hayom?" Em tradução livre, "Por que seus rostos estão abatidos, hoje?". E os dois egípcios lhe respondem que, na noite anterior, ambos haviam tido um sonho perturbador, cujo significado não conseguiam decifrar. Yossef, tentando aliviar a melancolia que se abatera sobre os homens, pede-lhes que contem o sonho para que ele os interprete. Dito e feito - ele lhes decifra o significado. O do sommelier era o prenúncio de sua libertação; o do confeiteiro, de sua execução. De fato, a interpretação de Yossef fora pontual: o primeiro retorna ao serviço na Casa Real enquanto o segundo é enforcado.

Dois anos depois, o Faraó teve dois sonhos parecidos, ambos perturbadores, que nenhum dos magos egípcios conseguiu interpretar a contento. É então que o sommelier conta ao Faraó sobre o grande interpretador de sonhos que conhecera na prisão. Yossef é chamado à presença real e não só decifra a profecia transmitida em ambos os sonhos do Faraó - de que sete anos de fartura seriam seguidos de sete anos de escassez - mas sugere, também, uma estratégia que poderia salvar o país da desgraça por inanição. O Faraó, deslumbrado com o prodigioso homem, alça-o ao cargo de primeiro ministro do Egito. Para o escravo hebreu, aquilo representava uma reviravolta em sua sorte: tendo despertado prisioneiro, naquela manhã, deitar-se-ia como o homem mais influente de um império poderoso! Nos 80 anos que se seguiram, ele teve plenos poderes na Casa Real egípcia. Mas fez por merecer. Pessoalmente, encarrega-se de implementar a estratégia que arquitetara para salvar o país, sua família e o Oriente Médio inteiro da mais terrível fome. Como pressagiado em seus próprios sonhos, anos antes, de fato ele acaba tendo poder governamental sobre seus irmãos.

Voltamos à pergunta de Yossef aos dois egípcios: "Por que seus rostos estão abatidos, hoje?",tentando elucidar os ensinamentos que nossos Sábios derivaram dessa pergunta.

Três perguntas desconcertantes

O relato da Torá do encontro de Yossef com os dois prisioneiros egípcios dá origem a perguntas desconcertantes. A considerar o local onde o episódio ocorreu, não teria sido absurda e óbvia sua pergunta aos dois presos? Estivessem eles em uma ocasião festiva, certamente seria apropriada. Estando na prisão, era óbvio que estivessem infelizes. Temiam por sua vida e, de fato, um deles é executado. À primeira vista a pergunta de Yossef não fazia sentido algum.

A segunda pergunta: será que ele realmente se importava com aqueles dois egípcios? Eles menosprezavam os hebreus e eram funcionários de um reino que o mantivera cativo, injustamente, durante 10 anos. Qualquer um, em seu lugar, ficaria totalmente indiferente ou até se regozijaria por ver o sofrimento de dois súditos de um governo que o prendera. Por que, então, Yossef se preocupa com seu abatimento e por que se empenha em minorar sua angústia?

A terceira pergunta - e a mais intrigante: e que dizer do próprio Yossef? Não seria ele a pessoa a estar deprimida? Sua pergunta aos dois egípcios pressupõe que ele próprio não estivesse naquele estado. Difícil de entender, pois ele tinha motivos de sobra para estar angustiado. Vejamos a história de sua vida até aquele momento. Tinha ficado órfão aos nove anos de idade - ou seja, crescido o bastante para guardar lembranças e sentir falta da mãe, Rachel. Seus 10 meio-irmãos, ao invés de se solidarizarem e cuidar dele, detestavam-no. Certamente, sua infância fora muito solitária. Aos 17 anos, é raptado - não por estranhos - mas por seus meio-irmãos. Estes tentam matá-lo, mas como sobrevive, vendem-no a mercadores de escravos. Um ano depois, esse jovem solitário e distante de casa é falsamente acusado de tentar violentar uma princesa egípcia. É atirado à masmorra, onde fica preso por 10 anos, sem qualquer contato com o mundo exterior. Estava só no mundo: a mãe, morta; o pai o julgava morto; os meio-irmãos tinham muitos motivos para não o procurar. Yossef tinha razão de sobra para ter perdido a fé em D'us, para querer esconder e até se esquecer de sua identidade judaica. Ele tinha razão de sobra para detestar o mundo e a humanidade.

Os dois grandes momentos trágicos na vida de Yossef - quando foi vendido como escravo e quando foi levado ao cárcere - foram uma decorrência de sua insistência em cumprir dois mandamentos Divinos: "Honrarás teu pai..." e "Não cometerás adultério". Rashi nos revela que quando Yossef se põe a caminho de Shchem em busca dos irmãos, o anjo Gabriel lhe aparece na forma de um homem para lhe dizer que não fosse, pois seus meio-irmãos conspiravam para o matar. Mas ele insiste em cumprir o mandamento e atender o pedido que lhe fizera o pai. Sua devoção a D'us e a seu pai fazem com que acabe como escravo no Egito. Mal se passara um ano e, novamente, ele permanece fiel a D'us não sucumbindo perante uma grande tentação. Yossef chega mesmo a dizer à mulher de Potifar que não cometeria adultério porque isso seria uma traição a seu amo e um grave pecado contra D'us. Por sua integridade e obediência ao Eterno, Yossef é falsamente acusado de tentativa de ato criminoso e infame; e é jogado numa prisão egípcia. Lá permaneceu por 12 anos - tempo de sobra para chegar a duvidar da valia de honrar e ser fiel a D'us. Quem sabe, talvez, se ele fosse menos íntegro e menos justo, poderia estar no aconchego da casa paterna ou no calor dos braços da bela princesa egípcia...e não apodrecendo no cárcere, como de fato estava.

Qualquer um, em seu lugar, também iria querer esconder, quiçá esquecer, sua identidade judaica. Os hebreus eram cidadãos de segunda classe, no Egito. Além disso, recordar suas origens significava lembrar-se de que era escravo por causa de seus meio-irmãos. Talvez se Yossef deixasse suas origens e sua identidade para trás, ele poderia relegar ao esquecimento grande parte do sofrimento pelo qual passara.

Finalmente, a vida lhe dera todas as razões para detestar o mundo. A maioria das pessoas a quem conhecera o tinham magoado. Seus meio-irmãos, querendo matá-lo, tinham-no jogado numa cova com cobras e escorpiões. E quando um milagre o fez sobreviver, os irmãos o venderam, sem piedade, como escravo. Os mercadores que o compraram, venderam-no a outros e estes a outros, até ser levado ao Egito onde foi parar como escravo de Potifar. Este importante mandatário egípcio, a quem ele sempre fora fiel, atirara-o na prisão mesmo sabendo que sua mulher, ela sim, infiel, mentia. Quanto a esta última, ela havia repetidamente declarado a Yossef seu amor por ele, chegando a dizer que desejava que ele matasse Potifar para tomar seu lugar. Mas quando percebeu que não conseguira seduzi-lo, rejeitada, faz valer seu poder.

O mais surpreendente é que, a despeito de todo o seu sofrimento indevido, Yossef, ao longo de sua vida, nos bons ou maus momentos, continuou profundamente conectado a D'us, orgulhoso de ser judeu e preocupado com seus semelhantes, quem quer que fossem. Quando é levado perante o Faraó, não se vangloria de sua singular habilidade; declara abertamente que será o Todo Poderoso, e não ele, quem elucidará os sonhos perturbadores do Faraó. Sempre atribuíra seu talento de intérprete de sonhos a D'us. Mais importante ainda, sempre se declarava judeu, abertamente. No palácio de Potifar, na prisão ou já primeiro ministro, era conhecido em todo o Egito como hebreu, recusando-se a adotar o nome que lhe atribuíra o Faraó ao nomeá-lo mandatário supremo sobre todas as terras egípcias.

Mas, acima de tudo, ao longo de sua vida, ele demonstrava consideração, carinho e preocupação por todos, indiscriminadamente. Não trai a confiança de Potifar. Faz tudo o que pode para aliviar a angústia dos dois prisioneiros egípcios. É um primeiro ministro leal ao Faraó. Consegue perdoar seus meio-irmãos e é generoso e bondoso com eles. Do alto de seu poder, continuava o mesmo filho obediente de Jacob, humilde e bondoso. Ele salva o Egito, país que o prendera injustamente durante 12 anos. E, em vez de desfrutar individualmente das benesses do poder que detinha naquela terra poderosa, ele se empenha em pôr em prática a estratégia que salvaria o país, seus habitantes e os povos vizinhos - em última instância, pessoas a quem ele jamais conheceria.

O comportamento de Yossef não é o que se esperaria de alguém que teve sua juventude e vivência familiar roubadas. Como ele era um ser humano de carne e osso, deve haver alguma explicação para seu comportamento. Por que não se abatera, na prisão? Por que lhe interessara a sorte dos dois egípcios? E por que lhes teria feito uma pergunta aparentemente tão absurda? As respostas dadas por nossos Sábios muito nos ensinam sobre a vida.

Yossef: um judeu exemplar

Yossef enfrentou muitas experiências dolorosas durante os primeiros 30 anos de sua vida. Um fator que tornava tudo pior era sua natureza emotiva e sensível. Vivenciou traições, violências e injustiças: foi raptado, açoitado, vendido, escravizado e aprisionado. A liberdade, direito inato de todo ser humano, ele havia perdido com meros 17 anos, só a recebendo de volta aos 30. Mas apesar do sofrimento, não nutria a raiva que se poderia esperar de alguém que passara por tudo isso. E a razão para seu comportamento era algo que ele sempre soubera: sua vida, como a de todos os seres vivos, é guiada pela Divina Providência. Yossef não sabia por que razão D'us havia permitido que ele fosse vendido pelos irmãos ou acusado de um crime que não cometera ou por que o deixara apodrecer na prisão. Mas sabia que não há coincidências na vida - que tudo o que acontece tem um propósito Divino e é parte de um plano maior do Eterno.

Yossef não sucumbiu ao desespero pois confiava na Divina Providência e tinha consciência de seu próprio valor. Não depositava este valor em eventos externos nem tampouco na opinião de terceiros. Tinha consciência de ser um homem justo que levava uma vida digna, baseada em integridade, moralidade; na bondade e serviço aos outros e na obediência ao Eterno. Acreditava ter sido a mão de D'us - e não a do homem - quem o levara ao Egito e à prisão, para que ele cumprisse algum propósito predeterminado. Assim sendo, vale-se daquilo que estava a seu alcance e é bem sucedido no que faz. Quando Potifar percebe que ele era uma fonte de grandes bênçãos, delega-lhe a responsabilidade de gerir seu palácio. Na prisão, sucede algo semelhante: é nomeado supervisor dos demais prisioneiros. Mesmo nas profundezas de seu abismo pessoal, Yossef não desistiu da vida. Agiu tirando o melhor da situação em que estava - enquanto, em paralelo, tentava obter sua liberdade para galgar os degraus que o levariam ao futuro que D'us lhe reservara.

A pergunta de Yossef aos dois egípcios - o porquê de seu abatimento moral - não foi absurda, já que ele próprio não se deixara abater. Como sabia que a depressão é a antítese de uma vida produtiva e com um propósito, sua pergunta ao sommelier e ao confeiteiro era mais um ensinamento do que um questionamento. Ele era o paradigma de um ser humano justo e, com sua pergunta, dá a entender que quem permanece fiel a D'us e a si próprio pode encontrar a paz e algum grau de felicidade, ainda que em situações difíceis. Como nunca se esqueceu de que era um emissário de D'us, não um escravo do homem, ele não se ressentia do mundo nem dos homens - que tão mal o trataram. A exemplo de seu bisavô, Abraham, Yossef preocupava-se com todos os seres. E quando vê dois homens que sofriam, sente-se honestamente incomodado. Não lhe importava quem eram. Vendo-lhes a melancolia estampada no rosto, aproxima-se dos dois e tenta usar seus dons sobrenaturais de interpretação de sonhos para lhes aliviar a aflição. Não consegue ajudar o Confeiteiro Mór - pois sua sorte já fora selada, mas consegue acalmar o segundo egípcio assegurando-lhe que logo estaria em liberdade, de volta a seu cargo na Casa Real.

A visão judaica da história

Se a história de Yossef ocorresse em nossos dias, a que seria atribuída a mudança extraordinária em seu destino? Podemos pressupor que a mídia diria que Yossef era um gênio financeiro, estadista e político de primeira linha. Diriam que era brilhante estrategista e administrador, homem de visão e percepção sem iguais. Talvez alguns o descrevessem como um místico que empregava seus talentos e conhecimento espiritual em benefício próprio. Outros, do mundo das celebridades, mencionariam sua beleza, carisma e elegância. De fato, todas explicações plausíveis para o sucesso de Yossef. Mas, todos eles estariam redondamente enganados.

Segundo Aquele que compôs a Torá, a história da extraordinária ascensão de Yossef é esta: certa manhã, um prisioneiro judeu com todos os motivos para estar abatido e desiludido com a vida e o mundo, avista dois egípcios com o semblante melancólico. Aquilo o perturba e, na esperança de poder aliviar-lhes o sofrimento, aproxima-se e pergunta: "Por que seus rostos estão abatidos, hoje? Há algo que eu possa fazer por vocês?" Ao ajudar aqueles homens, Yossef fez com que se desencadeasse uma cadeia de eventos que acabariam por elevá-lo a grandes alturas. Por ter interpretado o sonho dos dois egípcios e, com isso, aliviado seu sofrimento, ele próprio é convocado pelo Faraó, dois anos mais tarde, para uma incumbência semelhante, que resultou na sua nomeação como gestor de um poderoso império. E tendo interpretado os sonhos do Faraó e pressagiado seu significado, Yossef não apenas vivenciou uma total reviravolta em sua sorte, mas também salvou sua família e muitos outros seres humanos da terrível morte por inanição.

Sua história, portanto, não trata apenas da redenção de um homem. Trata de como um único gesto de bondade - a pergunta feita por um judeu aprisionado - salvou inúmeras vidas. Por meio dessa história, a Torá nos ensina que a história do mundo pode ser moldada por qualquer pessoa, ainda que escravo ou prisioneiro. Não é preciso ser um homem de poder, riqueza ou fama. Qualquer pessoa, com um simples ato, pode alterar todo o curso da História.

Um versículo da Torá - a pergunta de Yossef aos dois egípcios - ensina a essência do judaísmo. Ser um judeu justo é assemelhar-se a Yossef. Ele é conhecido como HaTzadik, o Justo, porque durante toda a sua vida foi bom com D'us e com os homens. Enfrentou as provações do sofrimento e as tentações do sucesso, e conseguiu prevalecer sobre ambos. O fracasso não o destruiu e o sucesso não o corrompeu. Quer como escravo quer como prisioneiro ou primeiro ministro, permaneceu fiel a D'us e à sua identidade judaica, enquanto ajudava e se empenhava por judeus e não-judeus, indiscriminadamente. Como ele sabia que toda a sua vida tinha sido moldada pela Divina Providência, permaneceu incólume à pobreza e à riqueza, à servidão e ao poder. Durante toda uma vida, valeu-se das oportunidades para melhor desempenhar sua missão neste mundo, jamais se esquecendo de sua condição de judeu e de que seu Senhor Único era D'us.

O que Yossef nos ensinou

A história de Yossef contém lições para todos os tipos de seres humanos, e não só os estudiosos da Torá aprendem de seus ensinamentos. Ele é citado como modelo de proatividade no famoso livro de Stephen Covey, "Os 7 hábitos de pessoas altamente eficazes".1 E, um recente artigo publicado no The Economist, que sugeria um ajuste nos regulamentos bancários como forma de melhorar os ciclos econômicos, baseava suas recomendações em sua estratégia para salvar o Egito.

Mas sua história de vida transcende os negócios, as finanças e a política. É uma lição de vida, que nos ensina que quem guia nossa vida é a Divina Providência. Onde quer que estejamos, temos que entender que estamos neste mundo com um propósito Divino. O livre arbítrio é um presente de D'us para que possamos decidir como viver a vida. Quase sempre podemos escolher entre nos ressentir contra os desafios que a vida nos apresenta ou maximizar suas oportunidades; podemos viver nobremente ou raivosamente; podemos desperdiçar nossos dias ou fazer bom uso de cada uma de suas horas e de cada um de seus minutos. Isto se aplica não só à nossa vida, mas aos eventos diários - como vimos na história de Yossef, em que uma ação simples teve tremendas conseqüências. Dando-lhes um exemplo de nosso cotidiano: se alguém fica preso no aeroporto e há um atraso nos vôos, esse alguém pode escolher entre irritar-se e ameaçar a empresa aérea com um processo; ou pode deduzir que, por alguma razão, D'us decidiu que essa pessoa tem que estar no aeroporto por mais tempo porque lá terá que realizar alguma ação muito importante. Talvez aquele atraso resultasse em algum encontro que, de alguma forma, mudaria o curso da vida da pessoa.

Confiar em D'us não significa que temos que ser passivos. Na verdade, como Yossef, temos que fazer tudo o que estiver a nosso alcance para nos livrar de situações difíceis. Mas nunca podemos esquecer que a Divina Providência está em toda parte e em todos os acontecimentos, e que algo que, à primeira vista, pode parecer um castigo, pode estar encobrindo uma grande bênção. Quando Yossef estava na prisão, ele não sabia a razão para estar lá, e por tanto tempo. Mas sabia que lá estava porque assim o quis D'us.

O papel da Divina Providência na vida de Yossef é constante: se ele nunca tivesse sido vendido como escravo, ele não teria chegado ao Egito. Se ele não tivesse sido injustamente preso, ele não teria interpretado os sonhos dos dois egípcios. E se tivesse sido libertado antes dos 12 anos em que ficou preso - antes de que o Faraó tivesse tido os sonhos que o perturbaram - ele não se teria tornado primeiro ministro.

Se Yossef tivesse tido a opção de escolher, talvez preferisse viver uma vida comum, sem a vivência do sofrimento e sem a do triunfo. Mas a história de sua vida afetou a vida de uma multidão de seres, entre os quais os seus familiares, que, um dia, dependeriam dele para sobreviver. Por alguma razão que nos escapa - na qualidade de simples mortais - a Divina Providência decretou uma trágica penúria. Essa fome moldou a tal ponto a vida de Yossef que, um dia, coube-lhe a incumbência de salvar boa parte do mundo. Se ele não temesse a D'us, se não fosse um justo, provavelmente sua vida teria sido mais fácil. Talvez ele nunca fosse vendido como escravo. Talvez, ao invés de ser encarcerado, ele se teria envolvido com a mulher de Potifar. Mas, se isso tivesse ocorrido, muitas pessoas, talvez até mesmo ele próprio e sua família, teriam acabado perecendo nos sete anos de vacas magras.

É muito difícil ler a história de Yossef e não se emocionar. É uma história que toca, fundo, em todos nós. Através dela, ele nos ensinou muitas lições relevantes - sobre a Divina Providência, sobre a confiança em D'us, sobre a definição e o papel de um Tzadik, bem como sobre o cuidado e a generosidade com nossos semelhantes, a paciência e a coragem em face da tentação e da adversidade, e sobre o amor. Mas, acima de tudo, Yossef HaTzadik ensinou-nos a nunca subestimar a força de um simples ato de bondade.