Morashá
Zeev Jabotinsky

Zeev Jabotinsky

Amado por seus admiradores e odiado por seus opositores, Jabotinsky é uma das figuras mais importantes e controvertidas na história do sionismo. Ele é parte de uma geração de grandes líderes sionistas como Herzl, Ben Gurion, Weizmann, entre tantos outros, cujo sonho era criar um Estado Judeu. Apesar de divergir, todos eram imbuídos de um incansável idealismo e um profundo amor por seu povo.

Edição 107 - Abril de 2020


Carismático, Jabotinsky possuía muitas facetas e um extraordinário magnetismo pessoal. Intelectual brilhante, de invejável cultura, era escritor, poeta, jornalista e poliglota – dominava 12 idiomas, entre eles o hebraico. Filósofo, o epicentro de sua filosofia sociopolítica era estabelecer um Estado Judeu soberano. Um dos melhores oradores de sua época, ele magnetizava as plateias. Era dirigente político e lutou como soldado portando a farda do primeiro Exército Judeu dos tempos modernos após 2000 anos de exílio, organizado por ele mesmo.

Inúmeras lendas foram criadas em torno de sua pessoa, e seu pensamento foi deturpado por seguidores e opositores. Hoje, sua figura e suas ideias estão sendo resgatadas tanto dentro de Israel quanto na Diáspora.

Acusado por seus opositores de ter ideias fascistas, Jabotinsky se declarava um adepto do liberalismo; rejeitava qualquer pensamento dogmático e via no coletivismo uma nova forma de escravização. Ele enfatizava a primazia do indivíduo e de suas liberdades sobre o coletivo. Foi sua ferrenha oposição às teorias socialistas – tão amadas por Ben Gurion e pelos adeptos do sionismo trabalhista – o que provocou profunda animosidade entre os dois líderes e seus seguidores.

Desde jovem, Jabotinsky escolheu não ser apenas um intelectual. Após abraçar o sionismo, organizou na Rússia e em Eretz Israel grupos de autodefesa judaica. Foi o responsável, ou um dos responsáveis, por criar organizações de autodefesa judaica na Rússia e em Eretz Israel: como a Legião Judaica, o Keren Hayesod, o movimento juvenil sionista Betar, a Haganá, a Nova Organização Sionista, o Irgun Tzvaí Leumi (organização paramilitar underground de direita), a União Mundial dos Revisionistas Sionistas (URZ) antecessora do Likud, entre outras.

Os primeiros anos de vida

Vladimir Evgenevich Jabotinsky, Zeev Jabotinsky, nasceu em 17 de outubro de 1880, em Odessa, então parte do Império Russo. Era o caçula dos 3 filhos de Zach Yona Ben-Zvi e Chava Jabotinsky.

Seu pai, rico comerciante, faleceu quando Zeev ainda era criança, deixando a família em dificuldades financeiras. “Meu pai morreu quando eu tinha seis anos, deixando-nos na pobreza”, na lembrança de Jabotinsky.

Odessa era um centro de atividade judaica, mas o jovem cresceu mergulhado mais na cultura russa do que no judaísmo. Menino brilhante, escrevia poesias aos 10 anos. Aos 14, um de seus artigos, Um Comentário Pedagógico, escrito sob o pseudônimo de Vladimir Ilyich, foi publicado em um dos jornais de Odessa. Era o início de sua carreira jornalística. Quatro anos depois, já com 18 anos, deixou Odessa indo para Berna estudar Direito e trabalhar como correspondente do influente jornal Odesky Listok. Durante uma viagem de trem de Odessa a Berna, ele pôde observar a difícil vida dos judeus: “Lá no trem, tive o meu primeiro contato com o gueto... perguntando-me, silenciosamente: É esse o nosso povo?”.

Durante sua estada em Berna, aproxima-se do sionismo, tendo proferido o que ele considerava “seu primeiro discurso sionista”. Neste ele fazia seu primeiro alerta: os judeus da Europa estavam à beira de um grande desastre e deviam abandonar o continente europeu! Esta convicção tornou-se o aspecto central de seu pensamento e ação sionistas.

No outono de 1898, Jabotinsky foi para Roma, na Itália. Matriculou-se na universidade para cursar Direito, Economia Política, Filosofia e História. Foi, também, o correspondente de vários jornais russos, escrevendo sob o pseudônimo de “Altalena”. Seus despachos e artigos eram lidos por todos, sendo considerado, à época, um dos maiores nomes do jornalismo russo. No verão de 1901, retorna a Odessa, onde se torna editor do Odesskije Novosti, com uma coluna diária no jornal.

Após testemunhar incidentes antissemitas nessa cidade, Jabotinsky juntou-se à Organização para a Autodefesa Judaica, comprometendo-se a levantar fundos, comprar armas, e escrever material informativo sobre a organização.

Início da atividade sionista

Em abril de 1903, Kishinev foi palco de um devastador pogrom durante o qual 49 judeus foram mortos, centenas feridos e inúmeras mulheres judias estupradas. Além disso, 1.500 propriedades judias foram depredadas. Jabotinsky foi até o local para investigar e lá conheceu Bialik e vários outros líderes do Movimento Sionista Russo. No ano seguinte, ele traduziria para o russo o poema de Bialik, “Um Conto de Nemirov” (“Na Cidade do Massacre”). Abismado com os acontecimentos, ele forma o primeiro grupo de judeus, na História Moderna, a usar armas em sua defesa. Pouco depois, eram criadas unidades de autodefesa em todo o território russo.

De volta a Odessa, juntou-se à Organização Sionista, pois o que presenciara em Kishinev o fez tomar a decisão de se envolver de corpo e alma no movimento sionista. Nesse período, Jabotinsky defendeu a disseminação da cultura e da língua hebraica em toda a Rússia.

Aos 22 anos, ele é enviado como um dos delegados ao 6º Congresso Sionista, na Basiléia, onde conhece Theodor Herzl, de quem se torna grande admirador. Nesse congresso surge a proposta de se estabelecer um Estado judeu em Uganda, parecendo ser uma solução para a angustiante situação dos judeus na Europa. Para Jabotinsky, a criação de um Lar Nacional Judaico era algo fundamental e premente, mas não tinha dúvidas de que esse estado somente poderia ser criado em Eretz Israel, a então Palestina Otomana. Afirmava que os judeus não deviam aceitar proposta alguma que os desviasse dessa meta, votando contra a proposta de Uganda.

Após seu retorno à Rússia, passa a dedicar todo seu tempo ao sionismo. Ao mudar-se de Odessa para São Petersburgo, continua sua carreira de jornalista. Passa a viajar por toda a Europa, ganhando destaque como jornalista profissional e publicitário, além de orador vibrante e apaixonado. Perante as várias comunidades judaicas, ele expunha com ardor as aspirações sionistas. Encantado com o hebraico fluente que ouvira no Congresso, Jabotinsky voltou a estudar esse idioma, tornando-se orador e tradutor de grande talento. Foi ele quem traduziu para o russo toda a obra do maior poeta da língua hebraica e poeta nacional de Israel, Chaim Nachman Bialik.

Em 27 de outubro de 1907, Jabotinsky casa-se com Johanna (Anya) Galprin, que conhecera quando tinha 15 anos e ela, apenas 10 anos. Seu único filho, Eri, nasce em 1910.

Em 1908, o Império Otomano foi sacudido pela Revolução dos Jovens Turcos. Jabotinsky foi enviado para lá como correspondente de jornais russos. No ano seguinte, ele fez sua primeira visita a Eretz Israel, ficando impressionado com a juventude judaica, que se desenvolvia livre de medos e segregações.

Em agosto de 1913, no 11º Congresso Sionista, em Viena, Jabotinsky se dá conta de que sua abordagem aos problemas na Diáspora divergia da dos outros delegados da Organização Sionista. Enquanto os sionistas socialistas ainda acreditavam que havia uma esperança para a vida judaica na Europa e que os judeus deviam lutar por seus direitos civis dentro de seus países de origem, para ele a única forma de salvação – fosse em nível pessoal fosse como entidade nacional – residia apenas na Terra de Israel.

Nesse Congresso, decidiu-se fundar uma Universidade Hebraica em Jerusalém, sendo Jabotinsky escolhido como um dos membros de seu comitê fundador.

1a Guerra Mundial

Com o início da 1a Guerra Mundial, em 1914, Jabotinsky foi enviado para a Frente Ocidental como correspondente do jornal Russkie Vedomosti. Quando a Turquia entra na Guerra, ao lado dos Impérios Centrais, Alemanha e Áustria, ele vê uma oportunidade de ação.

Acreditava que o destino de nosso povo dependia “da libertação do domínio turco em Eretz Israel”. Parafraseando suas palavras, “Nós, o Povo Judeu, devemos participar desta libertação, como uma unidade militar judaica”. Ele queria criar uma força judaica para lutar ao lado dos Aliados e libertar Eretz Israel do jugo turco, ganhando, assim, um lugar na mesa de negociação da paz, com o direito de exigir a criação de um Estado judeu independente, em Eretz Israel. Mas suas ideias foram mal recebidas. Em Madri, reúne-se com Max Nordau, líder da seção política da Organização Sionista, a quem conta seu plano. Nordau o rejeita, escrevendo a Nahum Sokolov: “Rejeito definitivamente o plano de Jabotinsky, que é imaginário e indesejável”.

Durante a 1ª Guerra, os turcos deportaram 10 mil judeus da então Palestina para o Egito, confinando-os em campos de detenção. Enquanto estava em Alexandria, Jabotinsky conheceu Joseph Trumpeldor, encontrando nele um ardente aliado à sua ideia de criar uma Legião Judaica.  

Mas, tanto os Aliados quanto a liderança da Organização Sionista estavam relutantes. Os sionistas queriam manter a neutralidade, temendo, entre outros, comprometer a segurança dos judeus na Palestina Otomana.

Insistente, ele consegue convencer o governo britânico a criar uma Legião composta de voluntários judeus que, sob o comando da Grã-Bretanha, lutariam para libertar Eretz Israel dos turcos. Os britânicos limitaram a participação judaica a uma unidade de transporte, com o nome de Corpo de Animais de Carga de Sion. Organizada por Jabotinsky juntamente com Joseph Trumpeldor e Pinhas Rutenberg, a unidade foi formada em março de 1915. O Coronel John Henry Patterson, pró-sionistas, foi nomeado Comandante dessa unidade, tendo Trumpeldor como seu vice. Em final de 1916, após esse Corpo de Animais de Carga ter sido desmontado pelos britânicos, 120 de seus soldados chegam a Londres, onde se tornam o núcleo da Legião Judaica. Passados dois anos nos quais Jabotinsky “lutou sozinho a sua batalha” para criar aquela força, o governo britânico autorizou a Legião Judaica. Era agosto de 1917. Nascia o “38o Batalhão dos Fuzileiros Reais” (que, com o tempo, mudou seu nome para “Os Primeiros na Judeia”). Seu símbolo era a Menorá.

Um ano depois, em agosto de 1917, a Legião foi enviada para lutar no Vale do Jordão, sob o comando de Tenente Coronel Patterson e do 1º Tenente Jabotinsky. A operação foi um sucesso e Patterson elogiou Jabotinsky: “Nunca esquecerei sua coragem no comando dos Fuzileiros”. Ao término da guerra a Legião é desativada e seus veteranos se tornaram a semente que formaria a Haganá, exército de defesa do Yishuv antes de declaração do Estado de Israel.

O período entre as duas guerras

Ao término da 1ª Guerra, o Império Otomano é desmembrado e a Conferência Internacional de San Remo, em 1919, concede à Inglaterra, em forma de mandato, a administração da Palestina sobre as duas margens do Jordão, com a obrigação de lá estabelecer um Lar Nacional Judaico. Esta decisão de âmbito internacional é ratificada pela Liga das Nações, em 1922.

Pouco durou a alegria judaica, pois dois meses mais tarde, a Inglaterra estabeleceu na Margem Ocidental do rio Jordão o Reino Hashemita da Transjordânia. Quatro-quintos da área do mandato passaram a ser território jordaniano. Com isso, a maior parte da população árabe estava concentrada na negião da Judeia e da Samaria, no que hoje se chama Cisjordânia. A imigração judia passou, portanto, a ser restrita à menor e mais populosa área do Mandato, o que levou a uma violenta oposição árabe.

Jabotinsky decidira se estabelecer em Jerusalém com sua família, tornando-se editor do jornal hebraico, Hadoar. Suas ideias entravam, cada vez mais, em choque com a corrente mais forte dentro da Organização Sionista, o sionismo trabalhista. A liderança trabalhista almejava a criação de uma sociedade socialista, de base agrícola, na então Palestina. Por esse motivo, incentivavam uma imigração seletiva, a hachshará. Além disso, Chaim Weizmann, que, à época, presidia a Organização Sionista Mundial e era conhecido por sua diplomacia, comprometera-se a manter estreita cooperação com os ingleses.

Em 1920, o massacre de Tel Hai, durante o qual Trumpeldor foi morto, deixou Jabotinsky chocado. Ele havia alertado o Va’ad Le’umi, o Conselho Nacional, que os assentamentos na Galileia Superior eram indefensáveis e que deviam retirar de lá os combatentes judeus. Avisara, também, que se uma unidade judaica fosse capturada por forças árabes, seria uma sentença de morte para os combatentes judeus. Mas nada foi feito. Em 1o de março de 1920, quando os árabes atacaram, Tel Hai caiu e seus bravos defensores foram todos mortos.

Para Jabotinsky, a tragédia de Tel Hai comprovava que a existência de uma força de defesa era a primeira condição para a segurança do Yishuv, e o desenvolvimento do projeto sionista em Eretz Israel. “Cabe-nos defender Eretz Israel, não confiando nos favores do soldado inglês nem na bondade do policial árabe”, foram suas palavras.

A partir de janeiro de 1920, os ativistas já tinham formado comitês de defesa, adquirido algumas armas leves e recrutados e treinado voluntários. Após a queda de Tel Hai, em março de 1920, o comitê de Jerusalém, chefiado por Zeev Jabotinskye Pinchas Ruttenberg, assume a liderança.

Jabotinsky ficou encarregado de organizar a defesa de Jerusalém. Em abril de 1920, quando ele compreendeu que o Governador Militar britânico de Jerusalém ignorara suas advertências de que os árabes estavam planejando executar um massacre de judeus durante a festa de Nebi Musa, ele decide preparar-se. Junto com Pinchas Ruttenberg, ele organiza cerca de 600 soldados desmobilizados, veteranos da Legião e outros voluntários e cria a primeira unidade de defesa de Eretz Israel. Nascia a Haganá-Bet. Quando os árabes atacaram os judeus de Jerusalém, defrontaram-se com uma defesa judaica armada, liderada por Jabotinsky. Durante os ataques, seis judeus foram mortos e mais de 200 ficaram feridos.

Os ingleses acabaram prendendo 19 dos combatentes judeus. Enfurecido pela atitude britânica Jabotinsky vai ao Departamento de Polícia e declara: “Se vocês os consideram culpados, eu, também, sou... Se insistem em mantê-los presos, prendam-me, também”. Ele é preso em 7 de abril e sentenciado a 15 anos de prisão. Em 26 de abril, o Yishuv declara um dia de luto e jejum geral.

Durante sua permanência na prisão de Acco, ele escreve o poema “Prisioneiros de Acco”, em memória de Trumpeldor. Esse poema se tornaria o símbolo de sua campanha pela libertação nacional do Povo Judeu. A atitude britânica provocou um clamor mundial tão grande, que os ingleses tiveram que libertar Jabotinsky no ano seguinte.

Em 1o de julho de 1920, o governo militar britânico foi substituído por um governo civil, a cargo de Herbert Samuel, primeiro Alto Comissário em Eretz Israel. Em um de seus primeiros atos, ele perdoa todos os envolvidos na defesa de Jerusalém.

Em 1920, em sua capacidade de membro do Executivo Sionista, Jabotinsky se torna um dos fundadores do Keren Hayesod, instituição que este ano completa seu centenário.

Após vários congressos sionistas muito tumultuados, em 1923, desiludido com a Grã-Bretanha e irritado com que ele via como aquiescência sionista face à política britânica, Jabotinsky pede demissão do Executivo do Congresso Sionista Mundial.

Ademais, ele se opunha à política adotada pela Organização Sionista, que baseava sua legitimidade na Declaração Balfour e não nos direitos legais internacionalmente conferidos pela Conferência de San Remo. Segundo ele, faltava à Declaração Balfour reconhecimento internacional. Expressava, apenas, o compromisso do governo britânico com o estabelecimento de um Lar Nacional Judaico, na Palestina, em uma carta do Secretário do Exterior britânico ao presidente da comunidade judaica de Londres. Além de ser um assunto interno britânico, esse compromisso fora enfraquecido por promessas semelhantes feitas aos árabes.

No mesmo ano, 1923, forma o movimento juvenil Betar, abreviatura de Brit Trumpeldor of Betar (Aliança Yosef Trumpeldor do Betar). O novo movimento juvenil, tendo Jabotinsky em sua direção, imbuía seus membros com um espírito militar nacionalista. E, em 1925, ele cria a União Mundial dos Revisionistas Sionistas (URZ) para fazer uma “reavaliação” da relação entre o movimento sionista e a Grã-Bretanha, poder colonial. Entre os objetivos, estava a imigração em massa – que pretendia chegar a 40 mil judeus por ano.

Jabotinsky ainda residia em Jerusalém, em 1929, mas quando deixou Eretz Israel para fazer um tour fora do país, os ingleses que o consideravam “o inimigo”, negam-lhe entrada de volta ao país. Daquele momento em diante, até sua morte em 1940, Jabotinsky viveu fora de Israel.

Os judeus na Europa

Para Jabotinsky a situação dos judeus era desesperadora, na Europa, estando a um passo do abismo. Insistia que o principal objetivo sionista era construir, o mais rápido possível, um Estado Judeu na então Palestina. Sentindo que os judeus da Europa Oriental corriam grande perigo, ele convocou, em 1936, para a realização de uma “evacuação” total dos judeus para a então Palestina. Passa, então, a dedicar seus esforços para ajudar os judeus a saírem da Europa e chegarem à Palestina britânica de qualquer maneira possível, legal ou ilegal.

Em 1935, após o Executivo Sionista ter rejeitado seu programa político e se recusado a definir, de forma clara, o objetivo do Sionismo quanto à “criação de um Estado Judeu”, Jabotinsky renuncia a seu cargo no Movimento Sionista. Fundaria, mais tarde, a Nova Organização Sionista, que apoiava a atividade política independente, a livre imigração e a criação de um Estado Judeu.

Em 1936, a liderança árabe da Palestina inicia uma guerra praticamente declarada contra os judeus, em uma luta generalizada que durou seis meses entre revoltas e guerrilhas.

Jabotinsky alertou os ingleses de que ele recebera informações de que o Alto Comissariado Árabe planejava um ataque contra os judeus, mas os ingleses ignoraram os alertas. Perante a irrupção de violentos ataques os ingleses permaneceram passivos frente aos árabes.

Em 1936-37, a abordagem de Jabotinsky em relação a situação era continuar com a política de contenção. No entanto, à luz da crescente violência em meados de 1937, ele dá uma ordem para romper a contenção e iniciar ações militares contra os árabes. O dia do rompimento da política de contenção foi intitulado “Domingo Negro”. Era o dia 14 de novembro de 1937. Os seguidores de Jabotinsky retiraram-se da Haganá, formando o Irgun Tzvaí Leumi que se tornou o braço militar de seu movimento, tendo ele como comandante.

As três entidades que ele liderava, a Nova Organização Sionista, o movimento juvenil Betar e o Irgun Tzvaí Leumi, eram os três braços operacionais do movimento de Jabotinsky. A Nova Organização Sionista servia como o braço político, mantendo contatos com os governos e outras instituições políticas; o Betar instruía a juventude da Diáspora no sentido de libertar e erguer Eretz Israel; e o Irgun Tzvaí Leumi era o braço militar que lutava contra os inimigos do Sionismo. Todas sincronizavam seus esforços para organizar a imigração ilegal, conhecida como Af Al Pi (“no entanto”, em hebraico). Essa dramática e complicada campanha de resgate envolveu mais de 30 navios que partiram dos portos da Europa levando dezenas de milhares de imigrantes ilegais para Eretz Israel.

A Comissão Peel

Como resultado dos conflitos entre árabes e judeus na então Palestina, em 1937 é criada uma Comissão Real Britânica de investigação, a Comissão Peel. Testemunhando, nesse mesmo ano, diante da Comissão Real Britânica na Palestina, Jabotinsky fez comovente declaração. Disse que a origem do sofrimento judeu não era somente o antissemitismo, mas a Diáspora, a dispersão judaica pelo mundo. Os judeus eram apátridas. Ele defendia a urgente criação de um Estado Judeu em ambas as margens do rio Jordão, e uma imigração judia ininterrupta, pois era essencial o rápido alcance de uma maioria judaica dentro do Estado.

Dono de grande poder oratório, ele declarava que “a demanda por uma maioria judaica não é o nosso máximo – é o nosso mínimo”, e enfatizava que logo haveria 3 a 4 milhões de judeus europeus em busca de um porto seguro em Eretz Israel, com a seguinte comparação: “As reivindicações árabes versus as demandas judias são como as reclamações do apetite versus as reclamações da fome”. Para ele era imprescindível o emprego de tropas judaicas como parte da guarnição permanente de autodefesa.

Quando a Comissão Peel recomendou a partilha do que restava da Palestina do Mandato em dois estados, um judaico e um árabe, Jabotinsky se opôs ao plano, mas a liderança judaica relutantemente aceitou a proposta, justificando que um estado truncado era melhor do que nenhum estado. Os árabes, no entanto, rejeitaram-na.

A catástrofe

Durante a década de 1930, Jabotinsky incansavelmente alertava os judeus da Europa. “Saiam de qualquer forma possível, porque a catástrofe se aproxima! ”.

Em sua análise do Terceiro Reich ele concluíra que “o antissemitismo era parte integrante do nazismo”. Apesar de jamais ter imaginado que este antissemitismo levaria à destruição física dos judeus, entendera que “se Hitler não fosse contido, a catástrofe que se abateria contra eles seria completamente diferente, tanto em método quanto em objetivo, de tudo o que haviam enfrentado no passado”. Via que Hitler representava um perigo não somente para os judeus, mas para o mundo todo. E alertara: “Se os judeus do mundo e a comunidade internacional permanecerem em silêncio, Hitler destituirá os judeus de suas posses, colocá-los-á em quarentena, e os expulsará”.

Fiel a suas convicções, apesar da desaprovação das lideranças sionistas que não queriam contatos com governos antissemitas, Jabotinsky negociou para que alguns facilitassem a saída dos judeus para a então Palestina. E em 1934-35, já ciente de que o governo alemão estava inclinado a permitir a transferência dos judeus alemães, retomou o contato com o governo nazista interrompido após a morte do presidente da Agência Judaica, Haim Arlozorov, assassinado em junho de 1933. Em 1937-38 entabula negociações com as autoridades polonesas, também dispostas a dar apoio financeiro, político e logístico para que Jabotinsky planejasse a evacuação dos judeus poloneses.

Para piorar a situação dos judeus europeus, em 1939, com medo de perder o apoio árabe, os ingleses tinham decidido abandonar seu endosso à ideia de uma pátria judaica e publicaram o Livro Branco que limitava drasticamente a imigração judaica.

Apesar de ter pressentido a catástrofe, o início da 2a Guerra e da invasão alemã da Polônia deixaram-no completamente arrasado, mas logo passou a se movimentar politicamente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, tentando convencê-los a formar um exército judaico que combatesse a Alemanha Nazista. Em 1940, em sua ida aos Estados Unidos para “vender” a ideia, ao visitar uma sede do Betar, perto de Nova York, teve um infarto que lhe tirou a vida.

Seu testamento estipulava o desejo de ser enterrado em Eretz Israel, o que só poderia ocorrer com ordem expressa do Governo Judaico do futuro Estado Judeu. Seu último desejo e testamento foram atendidos por Levi Eshkol, terceiro Primeiro Ministro do Estado de Israel soberano. Em 1964, os restos de Jabotinsky e de sua esposa foram reenterrados no Monte Herzl, em Jerusalém.

Zeev Jabotinsky foi inscrito, para sempre, nas páginas da História do Povo Judeu como grande líder político, filósofo, um homem que lutou, sem trégua, para o retorno do Povo Judeu a Eretz Israel, sua terra, e para a criação de um Estado Judeu.

BIBLIOGRAFIA

Jabotinsky, Vladimir, “Vladimir Jabotinsky’s Story of My Life”, eBook Kindle

Kupfert Heller, Daniel, Jabotinsky’s Children – Polish Jews and the Rise of Right–Wing Zionism, eBook Kindle

Katz, Shmuel, Lone Wolf, A Biography of Vladimir (Ze’ev) Jabotinsky, eBook Kindle