Morashá
Kissinger: a libertação de Ahlem Henry Kissinger e Fritz Kraemer, Alemanha, 1945

Kissinger: a libertação de Ahlem

O livro de Niall Ferguson, “Kissinger, Vol. 1, 1923-1968: O Idealista”, é o primeiro a dedicar várias páginas a um aspecto até então nunca explorado: a participação de Kissinger na 2ª Guerra Mundial, militar do exército americano, na libertação de um campo de concentração nazista, o de Ahlem-Hanover.

Edição 100 - Junho de 2018


Como explica o autor, “em 10 de abril de 1945, poucos dias antes da captura da célula terrorista da Gestapo, Kissinger viu-se cara a cara com o Holocausto quando ele e outros integrantes da 84ª Divisão do exército americano descobriram, por acaso, o campo de concentração de Ahlem.

Durante muitos anos, Kissinger não falou desse evento. E, de fato, o acontecimento só veio à luz quando o operador de rádio Vernon Tott, um dos soldados que integrava a Divisão de Kissinger, decidiu publicar as fotografias que tinha tirado no dia em que descobriram o campo. Para soldados americanos como Vernon Tott, as monstruosas cenas em Ahlem foram inesquecíveis. Mas foi ainda pior para seus camaradas judeus e, especialmente, os judeus de origem alemã. Um deles, Bernie Cohn, “começou a soluçar baixinho” quando saíram do campo...

Como reagiu Henry Kissinger? “Entrar em Ahlem”, Kissinger diria mais tarde, havia sido “uma das experiências mais angustiantes e horripilantes de minha vida”.

Em 2005, 60 anos depois, as recordações de Kissinger continuavam vivas. Ficaram marcados em sua mente os “absurdos chocantes” como “o pessoal das SS que... tinham permanecido porque ‘pensavam que seriam necessários para administrar ‘o grande empreendimento’; o estado quase irreconhecível como humano dos prisioneiros, tão debilitados, que era necessário quatro ou cinco deles para agarrar um único SS – que conseguia facilmente se livrar deles”; meu “instinto imediato... de alimentá-los e... de salvar vidas”. Um sobrevivente, Moshe Miedzinski, revelou anos mais tarde que jamais se esqueceu do olhar com que Kissinger lhe disse “Você está livre”!

Kissinger escreveu uma carta de duas páginas descrevendo como foi seu encontro com os 35 prisioneiros desnutridos – os sobreviventes de um grupo de 850 judeus que haviam sido confinados em Ahlem. A angústia e fortes emoções que o jovem Kissinger expressou, logo após a libertação do campo, permaneceram ocultas entre seus escritos – que ele doou à Biblioteca do Congresso, em 1977, – até que Ferguson as publicou em um novo volume.

Essas declarações têm ainda mais impacto por terem sido escritas pouco depois do acontecido, quando Kissinger deu o seguinte título ao manuscrito: “O Judeu Eterno” – uma referência irônica ao filme de propaganda nazista antissemita, com esse título, “Der ewige Jude”. Como explica Ferguson, o documento tem importância enorme pelo fato de registrar as reações angustiadas e imediatas sobre o maior crime jamais cometido – que merece ser reproduzido sem reduções ou comentários:

“O campo de concentração de Ahlem foi erguido em uma colina em Hanover. Arame farpado o rodeava. E enquanto nosso jipe viajava rua abaixo, esqueletos vestidos de roupa listrada ladeavam a estrada. Havia um túnel nas encostas da colina onde os prisioneiros trabalhavam 20 horas por dia, na penumbra.

Parei o jipe. As roupas pareciam se desprender dos corpos; a cabeça presa por uma vareta do que outrora devia ter sido uma garganta. Varas estavam penduradas dos lados, em lugar dos braços, outras em lugar das pernas. ‘Qual o seu nome?’, e os olhos do homem embaçam e ele tira o chapéu esperando um golpe. ‘Folek… Folek Sama’. ‘Não tire o chapéu, você agora é um homem livre’.

Enquanto eu falava, olho em direção ao campo de concentração. Vejo os barracões, observo os rostos vazios, os olhos sem vida. Vocês estão livres, agora. Eu, com meu uniforme bem passado, não vivi em meio à sujeira e à total miséria, não apanhei nem fui chutado. Que tipo de Liberdade posso oferecer? Vejo meu companheiro entrar em um dos barracões e sair com os olhos lacrimejando. ‘Não entre lá. Foi preciso chutá-los para saber quem estava morto e quem estava vivo’.

Isso é a humanidade no século 20. As pessoas chegaram a tal estupor de sofrimento que vida e morte, vitalidade ou imobilidade não se podem mais diferenciar. Ademais, quem está morto e quem está vivo, o homem deitado cujo rosto agonizante me encara ou Folek Sama, com a cabeça curvada e o corpo emaciado? Quem teve sorte, o homem que desenha círculos na areia balbuciando ‘Estou livre’, ou os ossos que estão enterrados na colina?

Folek Sama, seus pés foram quebrados para que não pudesse fugir, seu rosto parece ter 40 anos, a idade de seu corpo é indecifrável. No entanto, sua certidão de nascimento diz que você tem 16 anos. E eu estou aqui de pé, com minha roupa bem passada e faço um discurso para você e os que ainda estão vivos.

Folek Sama, você é motivo de acusação contra a humanidade. Eu, ‘Joe Smith’, a dignidade humana; todos falharam perante você. Você deve ser preservado em cimento, aqui no alto da colina, para que as futuras gerações olhem para você e reflitam. A dignidade humana, os valores objetivos pararam de existir diante deste arame farpado. O que diferencia você e seus camaradas dos animais?

Contudo, Folek, você continua sendo um homem. Você está diante de mim e as lágrimas correm em seu rosto. Soluços histéricos se seguem. Pode chorar, Folek Sama, porque suas lágrimas são o testemunho de sua humanidade, porque elas serão absorvidas por este solo amaldiçoado, consagrando-o.

Enquanto existir consciência neste mundo, você a personificará. Nada do que for feito para você, Folek, jamais o poderá restaurar. Você é eterno, neste sentido.”

Em 2005, Vernon Tott publicou um “livro caseiro, de 2,5 cm de grossura”, com relatos dos soldados americanos que libertaram Ahlem e fotografias que tirou com a câmera que levava no bolso do colete. Em 2007, ele produziu um documentário sobre sua unidade do exército americano, que libertara Ahlem. O Anjo de Ahlem foi produzido pelo Instituto de Documentários da Universidade da Flórida. O filme teve sua estreia em um evento em maio do mesmo ano, no Lincoln Center, em NY, e no público estavam 12 sobreviventes do Campo de Concentração de Ahlem. Pouco antes da exibição do filme, Henry Kissinger fez o seguinte discurso, que não consta no livro de Ferguson, mas é uma indicação do impacto perene do que ele viu em Ahlem como jovem soldado:

“Costumo falar para vários grupos e tenho inúmeras oportunidades de expressar minhas ideias, mas quero dizer que não há grupo algum que signifique mais para mim do que este grupo em particular, aqui esta noite. E estou profundamente honrado por terem me deixado aqui estar. Fiz parte da 84a Divisão de Infantaria. Comecei na Companhia G do 335º Regimento, cavando trincheiras em Louisiana. Quando a divisão foi transferida para a Alemanha, eu continuava na Companhia G da 335a Divisão, até que um dia nosso General veio para fazer uma inspeção. Ele me chamou de lado e disse: ‘Soldado, explique-me o que ocorre aqui’. Eu expliquei. Em seguida, fui transferido para a Seção G-2, da Inteligência. E, nessa capacidade, eu servia na 84ª Divisão de Infantaria quando esta capturou a cidade de Hanover. E, nos arredores de Hanover, como os sobreviventes que estão hoje presentes sabem, ficava o campo de concentração – ou de trabalhos forçados – de Ahlem.

Claro que eu havia lido sobre os campos de concentração. Posteriormente, fiquei sabendo que minha avó e muitos membros da minha família haviam sido enviados a campos de concentração. Na verdade, 13 familiares morreram nos campos, inclusive minha avó. Mas eu não podia sequer chegar a imaginar o que eram na realidade. Nunca havia visto pessoas degradadas, reduzidas ao nível em que eles estavam em Ahlem. Mal pareciam homens. Eram meros esqueletos. Não preciso dizer isto aos sobreviventes. De fato, estavam tão esqueléticos que era perigoso dar-lhes alimento sólido, já que muitos poderiam não o digerir. Foi a experiência mais chocante que tive, em toda a minha vida, e que ficou gravada em minha memória.

Muitos artigos foram escritos a meu respeito, e muitos afirmam que, quando criança, fiquei traumatizado com o que ocorreu na Alemanha Nazista. Pura bobagem! Quando eu ainda estava na Alemanha Nazista eles ainda não estavam matando pessoas. Saí de lá em 1938. Mas o evento traumático foi ver Ahlem. Foi aí que vimos a barbárie do sistema nazista e a degradação de seres humanos. Não há nada que me deixe mais orgulhoso de meu serviço a este País do que ter sido um dos que tiveram a honra de libertar o Campo de Concentração de Ahlem. E isso é algo que não devemos esquecer. É uma obrigação que todos nós temos. Não falo muito sobre isso, pois aqueles que não passaram por isso não podem entender. Mas saúdo os sobreviventes aqui presentes, e eu ficaria extremamente honrado se pudessem vir até aqui e tirar uma foto comigo. Muito obrigado a todos”. 

Baseado no artigo de  Menachem Butler publicado em 29 de outubro 2015