Morashá
A Contagem do Omer Foto Ilustrativa

A Contagem do Omer

O Êxodo do Egito ocorreu no 15º dia do mês hebraico de Nissan – primeiro dia de Pessach. Cinquenta dias depois, em 6 de Sivan, celebrado desde então como a festa de Shavuot, o Povo Judeu, em sua totalidade, reuniu-se ao pé do Monte Sinai e vivenciou a única Revelação Divina explícita de toda a história da humanidade.  D’us revelou-Se a todo o povo, proclamou os Dez Mandamentos e iniciou o processo da transmissão da Torá a Moshé, que, por sua vez, a ensinaria ao Povo Judeu durante suas andanças pelo deserto.

Edição 79 - Março de 2013


D’us revelou-Se a todo o povo, proclamou os Dez Mandamentos e iniciou o processo da transmissão da Torá a Moshé, que, por sua vez, a ensinaria ao Povo Judeu durante suas andanças pelo deserto.

O propósito do Êxodo do Egito não foi unicamente a libertação de nosso povo da escravidão – mas, muito especialmente, o recebimento da Torá. De fato, quando D’us primeiro Se revela a Moshé, no incidente da sarça ardente ao pé do Monte Sinai, Ele diz: “… depois de haveres tirado ao povo do Egito, servireis a D’us sobre este monte (Êxodo, 3: 12).

As Dez Pragas, a consequente libertação do Povo Judeu e a divisão do Mar foram um prelúdio de um evento muito mais significativo que ocorreu no Monte Sinai.  O processo de se deparar com o Divino e receber a Torá teve início, pois, na sequência do Êxodo. No calendário judaico, esse período de sete semanas, que se inicia na segunda noite de Pessach e termina na véspera de Shavuot, é conhecido como Sefirat HaOmer – a Contagem do Omer

O Omer era uma medida de cevada que era levada como oferenda ao Templo Sagrado de Jerusalém, no segundo dia de Pessach. Esse serviço era seguido pela execução de um mandamento encontrado no terceiro livro da Torá, o Levítico: “E contareis para vós... desde o dia em que tiverdes trazido o Omer da movimentação...” (23: 15). Durante 49 dias, os judeus contavam, dia após dia.  Essa contagem terminava na véspera da festividade de Shavuot.

Apesar dessa oferenda não poder ser feita na ausência do Templo Sagrado, o mandamento de Sefirat HaOmer não foi interrompido. A partir da segunda noite de Pessach, contamos 49 dias em ordenada progressão: após o cair da noite, de preferência ao concluir a oração da noite, Maariv (Arvit), os judeus, ainda de pé, recitam uma bênção específica e pronunciam o número daquele dia.

A bênção é: “Abençoado és Tu, Eterno, nosso D’us, Rei do Universo, que nos santificaste com Teus mandamentos, e nos ordenaste acerca da contagem do Omer”.

Imediatamente após recitar essa berachá, conta-se o dia. Durante os seis primeiros dias, menciona-se apenas o dia. Por exemplo: “Hoje são dois dias do Omer”. A partir da sétima noite da contagem, mencionamos o número de dias e de semanas. A dizer: “Hoje são dezoito dias, que constituem duas semanas e quatro dias do Omer”.

Como lembrança de que o Templo ainda não foi reconstruído e, portanto, não podemos cumprir a oferenda de Omer, concluímos a bênção com o seguinte pedido: “Que o Todo Poderoso restaure o serviço do Templo Sagrado em seu devido lugar, prontamente, em nossos dias. Amén, Selá”.

O mandamento de Sefirat HaOmer é, à primeira vista, intrigante.  Não constitui uma prece nem uma forma de estudo da Torá. Qual, então, seu propósito? Por que teria D’us ordenado ao Povo Judeu que contasse os dias e semanas entre Pessach e Shavuot?

Os vínculos entre Pessach e Shavuot

Essas duas festividades são bem entrelaçadas. Por um lado, o Povo Judeu tinha que ser libertado do Egito para então receber a Torá. Por outro, é Shavuot que empresta significado à liberdade adquirida em Pessach, pois, por si só, a liberdade não tem significado se não for imbuída de conteúdo e propósito interior. 

A conexão entre ambas as festas fica ainda mais evidenciada à luz do ano agrícola no antigo Israel – a primeira colheita de cevada, geralmente usada como ração animal, era colhida e entregue como oferenda de Omer em Pessach, ao passo que a colheita que é o alimento humano básico, o trigo, era ofertada no Templo Sagrado em Shavuot.

O significado simbólico dessas duas oferendas – primeiro a cevada e depois o trigo – é interpretado como sendo o relacionamento entre a festividade original, ainda que incompleta – o Êxodo do Egito, que foi a negação da escravidão e do exílio – e o grau do desenvolvimento pleno e da liberdade interior do povo, que só se deu na Outorga da Torá, no Sinai.  Quando os judeus deixaram o Egito, eram escravos em fuga. Quando se postaram no Monte Sinai, no 6o dia de Sivan, foram coroados como uma nação sagrada e como a única geração, em toda a história da humanidade, a se ter deparado com o Divino.

Os 49 dias da Contagem do Omer simbolizam, pois, “a jornada pela imensidão desértica”: o caminho de andanças e buscas, a perplexidade que o homem vivencia enquanto transaciona do primeiro estágio de libertação até que verdadeiramente adquire a liberdade genuína.  Essa jornada é necessária, pois seria impossível alcançar o Monte Sinai diretamente após sair do Egito: tamanha transformação espiritual não acontece da noite para o dia.

A Cabalá ensina que durante sua longa permanência no Egito, país impregnado de idolatria e imoralidade, os judeus descenderam ao 49º nível de impureza espiritual. Tivessem eles atingido o 50º, o nadir, ponto mais baixo, teriam chegado a um ponto sem volta – ter-se-iam aviltado tanto que seria impossível redimi-los. Quando os judeus deixaram o Egito, no 15º dia de Nissan, eles emergiram desse poço espiritual. Mas não se pode encarar o Infinito quando se está no nível mais primitivo.  E, portanto, antes do encontro com D’us e o recebimento da Torá, o Povo Judeu teria que embarcar numa caminhada de crescimento espiritual.

A Cabalá nos ensina que assim como há 50 níveis de impureza espiritual, há, também, 50 níveis de elevação espiritual.  Como mencionamos acima, para quem cai ao 50º nível de impureza espiritual, não há retorno. Mas, por outro lado, se alguém ascende ao 50º nível de elevação espiritual, esse alguém não poderia continuar a viver neste nosso mundo como ser humano. Ensinam-nos, pois, que mesmo Moshé, a maior alma que já existiu, apenas atingiu o 49º nível – o 50º só lhe foi outorgado após a sua morte. 

Em vista do acima exposto, podemos entender por que há 49 dias entre Pessach e Shavuot: cada dia corresponde a um grau de ascensão espiritual. O 50º dia, simbolizando o 50º nível e o mais elevado espiritualmente, é o dia em que a Torá nos foi outorgada.  Não o contamos porque, conforme menção acima, isso está além do alcance do ser humano. Nós não alcançamos o Infinito; o Infinito é quem chega até nós. Nós não ascendemos aos Céus para adquirir a Torá; ao contrário, a Torá desce ao nosso mundo e nos é ofertada como presente dos Céus.

Mas antes que isso aconteça, temos que fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, ou seja, tentar atingir o 49º nível de elevação espiritual.  Para o Povo Judeu chegar a se deparar com o Infinito e receber a Sua Torá, não bastou deixar o Egito. Foi necessário não apenas anular, mas reverter o seu estado espiritual anterior. D’us os removera dos 49 níveis de impureza espiritual, mas, uma vez livres, cabia a eles elevarem-se aos 49 níveis de pureza espiritual para que estivessem aptos a se deparar com o Infinito e receber Sua Torá, expressão de Sua Vontade e Sua Sabedoria. 

D’us somente outorgou a Torá uma única vez, mas nós temos que recebê-la anualmente, como se fosse pela primeira vez, na festa de Shavuot. O evento estupendo que ocorreu 50 dias após o Êxodo não voltará jamais a ocorrer, mas, em um nível espiritual e metafísico, a outorga da Torá se repete a cada ano.  Nossos olhos talvez não o vejam, nossos ouvidos talvez não o ouçam, mas nossas almas, desde que adequadamente sintonizadas, o percebem. Shavuot é o dia mais auspicioso do ano para que os judeus fortaleçam sua ligação com a Torá.  Mas para receber a Torá anualmente em Shavuot, há que se ter uma grande preparação espiritual.  Senão, a Sabedoria Divina será ofertada pelos Céus, mas não será recebida adequadamente por nós. Como a geração que foi conduzida por Moshé e se postou aos pés do Monte Sinai para receber a Torá, cada geração subsequente necessita das sete semanas de preparação espiritual que se interpõem entre Pessach e Shavuot

Qual o preparo exigido para receber a Torá? O que precisamos empenhar-nos para realizar durante os 49 dias de Sefirat HaOmer?

As sete Sefirot emocionais e a retificação de alma do ser humano

Sefirat HaOmer é a época para as pessoas se fortalecerem e refinarem a sua alma. Esse período é também conhecido por ser uma época de luto – não se realizam casamentos ou festas, nem sequer cortamos os cabelos. Para os sefaradim, este período de luto dura até Lag baOmer (o 33º dia do Omer); para muitas comunidades ashquenazim, dura até Shavuot. A explicação popular para essa ser uma época sombria no ano judaico é que estamos lembrando a morte de 24.000 alunos de Rabi Akiva, que pereceram nessa época do ano.  Mas se trata de uma explicação superficial, pois, como se sabe, mesmo o período de luto pela destruição do Templo Sagrado e o consequente exílio do Povo Judeu não dura mais do que três semanas – de 17 de Tamuz a 9 de Av. A razão profunda para a não realização de casamentos ou festas e nem cortar os cabelos durante Sefirat HaOmer é que se trata de semanas que exigem total concentração e empenho na elevação espiritual da pessoa. São semanas nas quais não há tempo nem espaço para frivolidade, diversão ou eventos mundanos, como cortar os cabelos. Além das necessidades do cotidiano, como o trabalho, a família e o cuidado com nosso bem-estar, toda a nossa energia deve ser dedicada ao processo de autoexame e refinamento espiritual.  À parte de Sefirat HaOmer, há um outro período durante o ano judaico em que nos dedicamos à autorretificação e purificação – os Dez Dias de Teshuvá, que se iniciam em Rosh Hashaná e culminam e finalizam na conclusão do Yom Kipur. Contudo, há uma diferença significativa entre esses dez dias e o Sefirat HaOmer.

Durante os Dez Dias de Teshuvá e no mês de Elul, que precede Rosh Hashaná, temos que lamentar e expiar pelos erros cometidos. Já Sefirat HaOmer não é uma época de correção de nosso comportamento, mas de retificação da nossa alma.

Durante esse período, temos que examinar não tanto nossos atos externos, mas nosso “eu profundo”: somos obrigados a melhorar não nossas ações, mas quem somos. Sob muitos aspectos, isso requer esforço ainda maior do que se exige de nós durante os Dez Dias de Teshuvá, os Dez Dias de Penitência.

Pois mesmo uma pessoa da mais alta estirpe espiritual – que age da melhor maneira possível, tanto com seus semelhantes quanto com D’us – sempre pode aperfeiçoar-se espiritualmente. Mesmo quem realiza uma abundância de atos de bondade necessita corrigir defeitos de caráter e falhas espirituais. Para podermos receber a Torá adequadamente, não basta melhorarmos nossos atos e nos arrependermos de nossos erros, como fazemos nos Dez Dias de Teshuvá. Há que ocorrer um processo relativamente longo e sincero de autorreflexão e autorrefinamento. 

É notável que os três Patriarcas do Povo Judeu – Avraham, Itzhak e Yaacov, os fundadores de nosso povo – viveram centenas de anos antes de a Torá ser ofertada; e, mesmo assim, nossos Sábios ensinam que eles cumpriam seus mandamentos antes mesmo de a termos recebido.

 O Talmud explica que se alguém tem o elevado nível de refinamento espiritual de nossos Patriarcas – que eram verdadeiros gigantes de espírito – essa pessoa tem condições de cumprir a Torá espontaneamente, sem ter que recebê-la dos Céus. A razão para tal é que quanto mais refinada espiritualmente a pessoa fica, mais sintonizada com a Vontade e a Sabedoria de D’us estará – realmente integrada à Torá.

Os dias de Sefirat HaOmer – período de preparação para receber a Torá  – são dias de crescimento interior – uma época de autoaperfeiçoamento e de luta contra todos os traços de nossa personalidade que impedem nosso desenvolvimento espiritual. Como a pessoa realiza o processo de retificar seu caráter? Ela o faz aperfeiçoando as sete Sefirot emocionais, por meio das quais a alma de cada um de nós se manifesta.

Sefirat HaOmer dura 49 dias – sete semanas.  Cada uma delas corresponde e é dedicada a uma das sete Sefirot emocionais: Chessed, Guevurá, Tiferet, Netzach, Hod, Yessod e Malchut. Cada um dos 49 dias corresponde a uma combinação diferente das Sefirot: por exemplo – o segundo dia da primeira semana de Omer corresponde à Guevurá de Chessed, ao passo que o primeiro dia da segunda semana corresponde à Chessed de Guevurá. Morashá descreveu e discutiu longamente as sete Sefirot emocionais em edições passadas. Definimos Chessed como Bondade e Generosidade; Guevurá como Severidade e Julgamento; Tiferet como Beleza e Harmonia; Netzach como Ambição e Vitória; Hod como Glória e Humildade; Yessod como Carisma; e Malchut como Nobreza e Liderança.

Toda emoção humana e os pensamentos, palavras e atos que desencadeiem estão relacionados com as sete Sefirot emocionais – em geral a uma combinação das mesmas. É muito raro o ser humano manifestar uma Sefirá pura; com frequência, manifesta mais de uma combinada, produzindo diferentes resultados. Exemplificando: Chessed de Guevurá é bem diferente de Guevurá de Chessed. O primeiro trata de ser bondoso mesmo em uma situação que exige que ajamos com severidade. Por vezes temos que disciplinar uma criança (Guevurá), mas tem que ficar evidente que isso está sendo feito por amor e para o bem da criança (Chessed); ao passo que a Guevurá de Chessed trata de restringir nossa generosidade. Não podemos dar a nossos filhos tudo o que pedem (Guevurá) para não mimá-los; isso acabará sendo em seu próprio bem (Chessed).

A primeira semana do Omer consiste em retificar a primeira Sefirá emocional de nossa alma, Chessed. O primeiro dia da contagem desse período tão especial é época de refinar a Chessed de Chessed; o segundo dia, a Guevurá de Chessed; o terceiro dia, a Tiferet de Chessed, e assim por diante. A segunda semana do Omer refere-se à Sefiráda Guevurá e, portanto, o primeiro dia corresponde à Chessed de Guevurá; o segundo, à Guevurá de Guevurá; o terceiro dia à Tiferet de Guevurá, e assim por diante. A terceira semana é Tiferet; a quarta, Netzach; a quinta, Hod; a sexta, Yessod e, a sétima, Malchut. O primeiro dia de cada semana da contagem do Omer é Chessed; o segundo é sempre Guevurá; o terceiro, Tiferet; o quarto, Netzach; o quinto, Hod; o sexto, Yessod e, o sétimo, Malchut

Durante essas sete semanas, devemos nos refinar internamente, dia após dia, estágio após estágio, de modo a receber a Torá em Shavuot.  Quando sinceramente corrigimos nossas Sefirot emocionais e suas combinações – quando há um verdadeiro aperfeiçoamento espiritual e não mera autoilusão – nossas almas se tornam mais refinadas; tornamo-nos seres humanos melhores.

Certamente é possível fazer contato com a Torá sem primeiro ter passado por esse processo de refinamento espiritual – qualquer pessoa pode ir à sinagoga em Shavuot e virar a noite estudando, ouvir os Dez Mandamentos e decidir que deseja estar mais conectado a D’us e à Sua Vontade e Sabedoria. Mas sem o preparo espiritual de Sefirat HaOmer, o impacto da Torá sobre nós não acontece em sua plenitude. Assim como quem refina seu paladar terá mais condições de discernir e apreciar os diferentes sabores, também aquele que refinar sua alma estará melhor preparado para se relacionar com a Torá, que é o alimento da alma.

Cada dia de Sefirat HaOmer corresponde a uma outra dimensão de nossa alma. Contamos os 49 dias para cumprir um mandamento Divino, mas esse cumprimento deve ser repleto de significado, e não automático. A contagem dos 49 dias deve levar à preparação condigna para o recebimento da Torá. Sob esta óptica, essas sete semanas são um período solene do ano que servem como ponte que nos permite alcançar a festa de Shavuot. Nela, a luz passa a brilhar e irrompe o júbilo – é o dia em que nós, assim como o fizeram nossos antepassados, postamo-nos perante o Eterno e recebemos a Sua Torá, o elo que liga o finito ao Infinito.

Bibliografia:
The Days of the Counting - Change and Renewal – Rabbi Adin (Even Israel) Steinsaltz – Maggid Books – Koren Publishers
Spiritual Guide to the Counting of the Omer – The Forty-Nine Days of Sefirah – Rabbi Simon Jacobson – Vaad Hanochos Hatmimim
http://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/130631/jewish/Sefirat-HaOmer.htm
http://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/649964/jewish/Counting-the-Omer.htm