Morashá
O nascimento do Movimento Chassídico Foto Ilustrativa

O nascimento do Movimento Chassídico

O 18º dia do mês hebraico de Elul - Chai Elul - marca uma revolução na história judaica. Nessa data, no ano de 5458 (1698), no vilarejo de Akop nos Montes Cárpatos poloneses, nascia um líder e místico que iria revolucionar o pensamento judaico.


Trinta e seis anos depois, também no mesmo 18 de Elul, este Mestre emerge da reclusão, trazendo à luz um movimento que mudou a percepção sobre o judaísmo. Seu nome era Rabi Israel, filho de Eliezer. Ele, o primeiro Rebe Chassídico, é mais conhecido como o Baal Shem Tov - o Mestre do Bom Nome - porque ele conhecia o Verdadeiro e secreto Nome de D'us, com o Qual tinha o dom de realizar feitos sobrenaturais.

O Baal Shem Tov nasceu exatos 50 anos após os pogroms de Chmielnicki, nos quais centenas de milhares de judeus foram massacrados. As comunidades judaicas da Ucrânia, Podólia, Volhynia e Polônia tinham sido dizimadas e os sobreviventes, que haviam testemunhado o mais terrível assassinato em massa dos judeus desde a queda da antiga Israel, afundaram em desespero. Espiritualmente, foi um capítulo muito amargo na história judaica. Os líderes religiosos, à época, traumatizados pelo episódio de Shabetai Zvi - no qual um pseudo-cabalista, alegando ser o Mashiach, iludiu e desencaminhou milhares de judeus - baniram o ensino do misticismo judaico. Em paralelo à proibição, o estudo da Torá se tornara exclusivista e elitista, pois eram poucos os judeus que podiam dar-se ao luxo de estudar. Os livros sagrados eram raros e caros e a maioria dos judeus trabalhava dia e noite para sobreviver, não tendo tempo nem recursos financeiros para estudar a Torá. Barreiras, incluindo diferentes sinagogas, separavam os cultos dos incultos, os ricos dos pobres, os líderes dos homens do povo. Quem não possuísse uma ascendência mais nobre, fortuna ou conhecimento da Torá era ignorado e excluído.

 

Em resposta ao clamor das massas judaicas, que sobreviveram à matança apenas para viver na crença de que sua ignorância em Tora as impedia de se conectar a D'us, um homem só, munido apenas de sua própria força espiritual, fundou um movimento que conseguiu dar um novo e poderoso alento ao judaísmo europeu. Quando faleceu, em 1760, não houve um único vilarejo judaico na Europa Central e Oriental que tivesse ficado fora da órbita da influência do Baal Shem Tov e de seus ensinamentos. Este verdadeiro homem de D'us, que trouxe consolo e esperança e realizou tantos milagres para tantos, surgiu em nosso meio quando nosso povo mais o necessitava. Pois que, para restaurar a fé do Povo Judeu e levar-lhes a mensagem de que D'us nem os esquecera nem os abandonara, Ele enviou ao mundo o Baal Shem Tov.

Nascimento e revelação do Baal Shem Tov

Conta-se que o Rabi Eliezer e sua mulher Sara, casal já idoso e sem filhos, eram tão hospitaleiros a ponto de colocar guardas nos arredores de sua aldeia, fazendo-os deter os migrantes sem posses para trazê-los à sua casa, onde recebiam abrigo e alimento. Os Céus, exultantes com tamanha generosidade, decidem colocá-los à prova. Assim sendo, numa noite de sexta-feira, um estranho, pedinte, levando um cajado e uma trouxa às costas, bateu à porta do Rabi Eliezer. Sem o mínimo sinal de desaprovação, o casal recebe, calorosamente, o pobre homem, ainda que ele houvesse transgredido as leis do Shabat. E, como não o ofenderam nem constrangeram, o mendigo despiu-se do disfarce e se revelou - era Eliahu Hanavi, o Profeta. E fez uma promessa ao casal. Em menos de um ano eles não mais estariam sós - teriam um filho que seria uma luz-guia para o Povo Judeu. Quando o menino nasceu, recebeu o nome de Israel - nome de seu povo - um povo a quem ele nascera para salvar.

Rabi Eliezer faleceu quando o filho ainda era criança. Em seu leito de morte, disse ao herdeiro: "Filho querido, ama todo e qualquer judeu, sem exceção, com o mais profundo de teu coração e o calor de tua alma. E lembra-te de uma coisa - D'us está contigo sempre e, por esta razão, não deves temer nada neste mundo".

Como cresceu órfão e carente, sem um amigo neste mundo, o jovem Israel desde cedo adotou D'us como seu Pai e Amigo. Tido pelos outros como excêntrico e distraído, vivia da magra ajuda que recebia da comunidade e desempenhava diversas profissões, inclusive a de assistente de professor.

Casou-se com uma moça de nome Hannah, que era irmã do líder da comunidade judaica de Brodi, cidade na Ucrânia, o Rabi Gershon Kitiver. Este último alertou a irmã para que não desposasse aquele homem que tinha ares de um camponês - mas não conseguiu demovê-la da idéia. Pouco antes da cerimônia, Israel chamou-a de lado e lhe disse: "Não sou quem pensas que eu seja, mas guarda-o para ti, sem o passar adiante".

Rabi Gershon, envergonhado com o novo cunhado, persuadiu o jovem casal a partir da cidade, para viver bem distante dele. Presenteou-os com uma taberna e um albergue, num ponto perdido dos Montes Cárpatos, onde Hannah e Israel viveram em completo isolamento e miséria. Sete anos de solidão e penúria se passaram até que Rebe Israel, o Baal Shem Tov, recebesse ordem dos Céus para se revelar ao mundo e dar início à revolução espiritual que lhe coube conduzir.

Em 18 de Elul, dia em que o Baal Shem Tov completou 36 anos, um discípulo de Rabi Gershon interrompeu uma viagem para passar o Shabat com Israel e Hannah. À meia-noite, o visitante acordou assustado: uma enorme chama subia da lareira. Pensando em extinguir o fogo e salvar a vida de seus anfitriões, correu em direção às chamas. Ao se aproximar, viu diante de si não mais as labaredas, mas o próprio Baal Shem Tov, inundado de luz. Em choque, desmaiou. Quando volta a si, é repreendido pelo anfitrião: "Um homem não olha para o que não deve olhar". Terminado o Shabat sagrado, o homem volta, apressado, a Brodi, entra precipitadamente na Casa de Estudos e anuncia, emocionado: "Há uma nova Fonte de Luz em local bem próximo a nós". Emergindo de sua reclusão, o Baal Shem Tov promete: "Hei de trazer ao mundo um novo caminho".

Os primórdios do Movimento Chassídico

O que era o Movimento Chassídico, em seus primórdios? Resumia-se a um só homem. O Baal Shem Tov não fundou dinastia, nem tampouco constituiu residência permanente. Diferentemente de renomados mestres que o precederam e sucederam, não tinha secretários nem assistentes que selecionassem seus visitantes, antes de os receber. Queria permanecer bem acessível a quem quer que o quisesse ver. Ademais, estava sempre em movimento, tentando ajudar e servir de inspiração ao maior número possível de pessoas. Falava com todos que encontrava - homens e mulheres - fosse nas sinagogas ou nas ruas, fosse nas florestas e nas feiras, nos mercados e nas tabernas, em toda parte - sempre se achegando a quem quer que carecesse de auxílio material ou força espiritual.

Foi um verdadeiro homem do povo. Tendo crescido na condição de órfão, vivenciara na pele a solidão, a pobreza e a rejeição. Não possuía ancestralidade nobre, nem títulos, nem amigos influentes; dinheiro ou bens materiais. Sequer fazia por ostentar a sua erudição. Bem ao contrário, ocultava sua sabedoria, fazendo-se passar por um ignorante analfabeto que mal conseguia recitar as preces em hebraico. Tudo isso fez com que o mais pobre e inculto dos judeus facilmente se relacionasse com ele. Viam-se refletidos nele, pois o consideravam um dos seus.

O Baal Shem Tov contava às massas judias as verdades que eles precisavam ouvir: que D'us os amava e ouvia suas vozes, compartilhando seu júbilo e sua dor; que o Criador prefere os pecadores humildes aos justos orgulhosos; que o indivíduo pode achegar-se a D'us desde que viva com júbilo e fervor e sinceridade no prazer de atender os Céus; e que mesmo o mais simples dos mortais tem importante papel no Plano Celestial para este mundo. O Baal Shem Tov dava aos pobres e aos marginalizados o que mais necessitavam: a dignidade, o sentido de valor próprio e uma razão para existirem. Costumava ensinar que não é necessário ser um sábio talmudista para chegar a D'us; que a simples fé de um judeu quando este recita os Salmos de David é o mais alto nível de ligação com D'us; que um favor material ou espiritual feito ao próximo é o motivo pelo qual uma alma vem a este mundo. Acima de tudo, ele ensinava que sempre devemos estar alegres e que a depressão e o desespero têm que ser evitados por todos os meios. Proibia o jejuar constante, ensinando que o corpo, não menos do que a alma, é sagrado.

Quanto à Palavra Divina, que, até então, era privilégio da elite intelectual, o Baal Shem Tov começou a disseminá-la através de simples relatos que continham os profundos ensinamentos da Torá.

Rompeu com a liderança rabínica, ensinando misticismo judaico e realizando feitos e milagres sobrenaturais. Tinha presença tão marcante que era impossível ficar indiferente a ele: ou as pessoas abraçavam ou repudiavam aquele homem extraordinário e seu clamor por uma abordagem apaixonada ao judaísmo. A despeito da forte oposição dos rabinos - muitos dos quais posteriormente se tornariam os mais fervorosos seguidores do Baal Shem Tov - que temiam que aquela comoção anunciasse a chegada de outro falso Messias, o Movimento Chassídico rapidamente espalhou-se. Aqueles que se opunham ao Mestre do Bom Nome e a seus métodos - que o desprezavam como um charlatão sensacionalista e inculto - tentavam encontrar meios de o combater e deter sua revolução. Mas, já era tarde. A luz do Baal Shem Tov já se havia disseminado como uma grande chama crescente e inextingüível, com tanto ímpeto e em tantos lugares, que era impossível detê-la. Ele chegara para atender uma lacuna: sua mensagem universal e democrática tinha um apelo irresistível para os judeus simples, a gente do povo. E sua vida era o reflexo daquilo que pregava. Ele dava o valor e o apreço a todas as pessoas - e conseguia alcançá-las por mais distantes que estivessem sem sequer questionar se teriam alguma utilidade para ele próprio, no futuro. Entregava-se por completo aos seus semelhantes - jamais voltando para casa com algum dinheiro, à noite; sempre distribuía tudo o que tinha aos necessitados. Ademais, interessava-se pessoalmente pela vida daqueles que o buscavam; suas alegrias eram as suas; suas dores e suas angústias, também. Ele recebia todo mundo, sem fazer distinções entre as pessoas e as amava com a mesma intensidade - ricos e pobres, cultos e incultos, justos e pecadores. Até mesmo os fora-da-lei e os bêbados vinham pedir bênçãos e abrir seus corações diante dele. Aos grandes eruditos da Torá que com ele estudavam, ensinava os mais esotéricos segredos da Cabalá; aos que não sabiam ler, ele contava histórias que acendiam suas almas. Quem por ele era avistado, sentia a intensidade de seu fogo espiritual percorrer seu corpo inteiro; ser avistado por ele era o maior acontecimento da vida de um indivíduo.

Para os judeus da Europa Central e Oriental, especialmente aqueles que viviam na miséria e sofrimento, ele se tornou um herói - a corporização da esperança. Ele simplesmente surgia do nada, sempre que alguém, à beira do desespero, carecia de um sinal ou milagre dos Céus. Com sua bênção, o doente se tornava saudável, o pobre se tornava rico, a estéril se tornava mãe feliz de muitos filhos. Era o advogado de todos os homens perante a Corte Celestial. Fez de sua missão nesta vida ajudar, sempre, sem jamais julgar a quem quer que fosse. Certa vez, o Mestre disse a um de seus alunos, o Rabi de Kolomaye, "Meu amor pelo judeu mais indigno a teus olhos é maior do que teu amor por teu filho único".

Por causa do Baal Shem Tov, os judeus da Europa voltaram a conhecer o júbilo e a esperança. Seus discípulos e os discípulos de seus discípulos - almas poderosas e mentes brilhantes que não eram facilmente iludidas nem impressionáveis, muitos dos quais se incluíam entre os maiores Sábios da Torá na História Judaica - não conseguiram resistir a ele e à sua mensagem. Quem teve a sorte de conhecer o Mestre do Bom Nome ficava tão obcecado por ele que parecia incapaz de falar dele em termos outros que os de uma lenda.

Ele conseguia fazê-los sonhar tão alto que a ele se referiam como a alguém num sonho. Testemunharam tantos de seus milagres que sua própria vida se tornou, para eles e para todos a quem ajudou, um milagre em si. Parece que o Baal Shem Tov tinha poderes quase que ilimitados: era um curandeiro milagroso, leitor de mente, pressagiador do futuro das pessoas. Dobrava as leis da natureza a seu bel prazer. Diz-se dele que andava sobre as águas; que viajava num vagão à velocidade da luz para chegar àqueles que viviam em algum ponto distante e careciam de ajuda imediata; que comia sob a Sucá sob uma tempestade sem que gota alguma de chuva caísse sobre sua pessoa. Dizia-se que até conseguia influenciar as questões Celestiais: se um anjo não o agradava, conseguia que fosse substituído. E, ainda assim, conta-se que uma única vez usou o Nome de D'us para realizar um milagre - pelo que mais tarde muito se arrependeria. Todos os seus milagres, todos os seus poderes, todos os seus feitos surpreendentes são atribuídos ao fervor de sua oração e à pureza de sua alma. Segundo uma lenda clássica do Chassidismo, quando Adão - que abrigava a alma de todos os homens - postou-se ao lado da Árvore do Conhecimento, a alma do Baal Shem Tov despreendeu-se de seu corpo, não se alimentando do fruto proibido daquela árvore.

Conta-se que o Maguid de Mezeritch, que sucedeu o Baal Shem Tov na liderança do Movimento Chassídico, implorou aos Céus, certa vez, que lhe apontassem um homem que tivesse cada fibra de seu ser sagrada. E lhe foi indicado o contorno da silhueta do Baal Shem Tov, totalmente incandescente. Não havia substância em seu corpo, apenas chamas.

"Quando as fontes de teus ensinamentos se tiverem difundido..."

O Baal Shem Tov estudava a Cabalá do Rabi Isaac Luria - o Arizal. E desde a sua juventude teve por mestres os Tzadikim Nistarim -cabalistas e operadores de milagres, que ocultavam sua verdadeira identidade do restante do mundo. O Mestre do Bom Nome usava o que aprendia para revolucionar o judaísmo tornando-lhes acessível o estudo da Cabalá: ele conseguia transmitir a todos e em linguagem simples os mais profundos segredos do universo.

O Mestre descortinou um caminho novo para o povo judeu, como prometera, conseguindo detectar o que havia de mais místico nas pessoas mais simples e nas mais mundanas das ocorrências. Sobre a Divina Providência, ele ensinava que não há coincidências, na vida. Falava sobre mundos espirituais, sobre reincarnação e sobre vida após a morte, sobre meditação e sobre uniões místicas com Aquele que é Infinito. E sobre a maneira como o homem, ainda que envolvido na mais corriqueira das tarefas, consegue conectar-se com D'us. Ensinava também que tudo aquilo que pensamos, dizemos e fazemos tem significado e impacta a Criação. Citando um verso dos Salmos, "D'us é tua sombra" (Salmo 121:5), o Baal Shem Tov ensinava que assim como uma sombra reproduz completamente as ações de um indivíduo, assim também D'us retribui todos os nossos atos.

Costumava dizer que o amor que D'us tem por cada um dos judeus é infinitamente maior até mesmo do que o amor de um casal idoso por seu único filho, nascido em sua velhice, e que esse amor é devotado indistintamente a todos os judeus. Ensinava que a melhor maneira de retribuir o Amor Divino por nós era amar cada um de Seus filhos. "Vim ao mundo para ensinar que o amor a D'us, o amor à Torá e o amor ao povo judeu constituem um único e mesmo amor e, por conseguinte, são inseparáveis", dizia.

Os ensinamentos do Baal Shem Tov imbuíram o judaísmo e o povo judeu de um novo ímpeto e renovado vigor, pois graças a ele o homem descobriu a majestade e beleza que há no mundo, fazendo da espiritualidade uma realidade palpável. O Mestre do Bom Nome trouxe os judeus mais próximos de D'us e mais próximos uns dos outros. Revelou-lhes que se, por um lado a Infinitude Divina transcende Sua Criação, por outro Ele está tão intimamente envolvido com a mesma que se interessa nos detalhes da vida de cada um de nós. Ensinou - lhes a amar e não a temer o Criador. E também a amar o seu próximo e a celebrar a vida e a não renunciar ao mundo e à sua riqueza. E assim o homem aprendeu, não mais apenas em teoria, que ele não está só no mundo. "D'us vê e D'us ouve. Está em toda a parte, em tudo e em cada evento", repetia constantemente o Baal Shem Tov.

Ao disseminar o Chassidismo ao máximo, o Baal Shem Tov queria fazer mais do que simplesmente dar vida nova aos judeus da Europa. Em carta ao cunhado, o Rabi Kitiver - que se tornara seu fervoroso admirador - o Mestre do Bom Nome revelou que em certo Rosh Hashaná ele tivera uma experiência extracorpórea na qual sua alma ascendera aos Céus e se encontrara com o Mashiach. "Mestre, quando chegarás?", perguntou-lhe o Baal Shem Tov. E o Mashiach lhe respondeu: "Quando as fontes de teus ensinamentos se tiverem difundido pelos quatro cantos do mundo".

A luz que se recusa a se extinguir

Com 62 anos de idade, o Baal Shem Tov adoece. Seu último Pessach, ele o celebrou a sós. Sete semanas depois, em Shavuot, intuindo que seus dias na Terra chegavam ao fim, convidou os discípulos à sua casa para compor um minyan para seu último serviço religioso e para cantar com ele, em seu leito de morte, até que ele não mais pudesse cantar. "Tenho duas horas para conversar com D'us", disse a seus íntimos. Ao ver as lágrimas caírem pelo rosto deles, disse-lhes: "Por que choram? Estou saindo por uma porta simplesmente para entrar por outra". Rebe Pinchas de Koretz, um de seus mais dedicados seguidores, começou a orar pelo Mestre. "Não adianta mais", reagiu o Baal Shem Tov. "O que está feito não pode ser desfeito".

O Mestre do Bom Nome deixou este mundo em Shavuot - como o rei David - cujos Salmos ele tanto amava. No instante em que faleceu, os dois relógios que havia em sua casa simultaneamente pararam de funcionar. E aqueles que trataram de seu corpo e de seu enterro juraram ter visto sua alma ascender aos Céus, como uma chama azulada.

Um ano depois, também em Shavuot - a festa em que celebramos o recebimento da Torá - o Rabi Dov Ber, o Maguid de Mezeritch (Morashá Edição 40 - Março de 2003), assumiu o manto do Movimento Chassídico. Liderado por este extraordinário erudito da Torá e milagreiro, o movimento continuou a crescer e a se espalhar, de triunfo em triunfo. Na segunda década do século 19, a metade dos judeus europeus se tinham tornado chassidim. Mas, a despeito da mudança na liderança e das diferentes dinastias chassídicas fundadas pelos discípulos do Maguid, o Movimento Chassídico continuou sendo sinônimo do nome de seu fundador. Até hoje, todo chassid tem dois mestres: o seu próprio e o Baal Shem Tov.

Após o passamento do Baal Shem Tov, sua influência se tornou ainda mais forte. Nosso povo levou consigo o seu espírito através das atribulações e sofrimentos. Sua lenda e seus ensinamentos ajudaram-nos a continuar vivos e, quando necessário, a enfrentar a morte com coragem e dignidade. O maior de todos os milagres realizados pelo Baal Shem Tov foi o fato de - apesar do quase total aniquilamento de nosso povo - os judeus não abandonaram o judaísmo. Isto, em grande parte, se deve a ele. Elie Wiesel, o escriba do Holocausto, relata: "O que mais surpreende é o fato de os chassidim continuarem chassidim dentro dos campos de morte. À sombra dos carrascos, eles celebravam a vida. Alemães desconcertados sussurravam entre si sobre os judeus que dançavam nos vagões a caminho do campo de extermínio: eram chassidim que festejavam a chegada de Simchat Torá. E havia também aqueles do Bloco 57, em Auschwitz, que tentaram fazer com que eu me juntasse à sua fervorosa cantoria".

Assim como o nosso povo jamais esqueceu o Mestre do Bom Nome, ele tampouco jamais se esqueceu de nós. Momentos antes de morrer, o Baal Shem Tov fez uma promessa: "Retornarei, com certeza, mas não como sou hoje". E o cumpriu. Seu espírito voltou a nosso mundo na forma de inúmeros Mestres Chassídicos que personificaram seus ensinamentos e cujas vidas foram surpreendentemente semelhantes à dele. Como o Baal Shem Tov, aqueles homens se tornaram lendários por seu amor ao nosso povo, por suas habilidades sobrenaturais, por seus feitos e milagres maravilhosos. Como o primeiro Mestre, que permaneceu sendo o modelo supremo de um verdadeiro Rebe, os Mestres Chassídicos posteriores foram uma fonte de luz nas horas de escuridão - uma luz sem a qual nosso povo teria sucumbido ao desespero e à rendição espiritual.

Hoje, quase três séculos desde a criação do Movimento Chassídico, a canção do Baal Shem Tov continua a reverberar na alma de todos aqueles que se permitiram ser transportados por seu chamado. Nem mesmo o Holocausto - nem mesmo a dizimação de 6 milhões de mártires, inclusive praticamente as comunidades chassídicas inteiras - conseguiu extingüir sua luz. A chama que foi acesa naquele 18 de Elul, nos Montes Cárpatos, recusa-se a se apagar. Pelo contrário, brilha mais, a cada dia: reacende nossa fé quando esta fraqueja e restaura nossa coragem quando esta vacila.

Há ainda outra razão para o dia 18 de Elul ser motivo de tão grande celebração. Nessa data, no ano de 5505 (1745), nascia outro grande líder e místico judeu, descendente espiritual do Baal Shem Tov. Um gigante espiritual e intelectual do mais alto calibre, ele tomou a si a responsabilidade de difundir os ensinamentos chassídicos e escreveu uma obra-prima da Cabalá - o Tanya, que tornou os ensinamentos místicos do Chassidismo acessíveis ao povo judeu. Mais do que isso, ele fundou uma dinastia que deu origem a uma organização que hoje conta com centros judaicos localizados em cada um dos continentes e em praticamente todos os países. Estes centros e as sinagogas e casas de estudo de todas as outras dinastias chassídicas são as fontes dos ensinamentos do Baal Shem Tov que se difundem e espalham aos quatro cantos do mundo, iluminando-o e forçando o Mashiach a manter a promessa feita naquele distante Rosh Hashaná ao Rebe Israel, filho de Eliezer, o Mestre do Bom Nome.

Bibliografia:

Wiesel, Elie,"Souls on Fire ", Ed. Simon & Schuster

Rabi Kaplan, Aryeh, "Chassidic Masters ", Ed Moznaim

Buber, Martin, "Tales of the Hasidim", Ed. Schocken

Baal Shem Tov Foundation http://www.baalshemtov.com/

Rabi Tauber, Yanki, "Revolution" www.chabad.org

Rabi Freeman, Tzvi - The Truth about the Baal Shem Tov - www.chabad.org