Morashá
Filhos de gigantes Foto Ilustrativa

Filhos de gigantes

‘Um salmo de David: rendei tributos ao Senhor, ó filhos de gigantes’ (Salmo 29).

Edição 57 - Junho de 2007


O 17º dia do mês hebraico de Tamuz dá início a um período de três semanas de luto nacional, para os judeus, que culmina em Tishá b'Av - o nono dia do mês de Menachem Av.

O Talmud enumera cinco eventos trágicos que se abateram sobre nossos antepassados nesse mesmo 17 de Tamuz, a começar pela quebra do primeiro conjunto de Tábuas dos Dez Mandamentos. O incidente ocorreu pouco depois da Revelação Divina, no Sinai. Após D'us ter-Se revelado, proclama os Dez mandamentos e sela um pacto com cada um dos membros do Povo Judeu. Ele diz a Moshé para ascender ao Monte Sinai, onde Ele mesmo lhe transmitiria toda a Torá. Quarenta dias mais tarde, em 17 de Tamuz, quando Moshé retorna ao acampamento dos judeus com as Tábuas contendo os Dez Mandamentos, ele se depara com o povo praticando idolatria, rendendo louvores a um bezerro de ouro. Por inúmeras razões, o profeta reage à cena quebrando as Tábuas. Tendo sido informado, por D'us, de que os judeus mereciam ser aniquilados pelo pecado do bezerro de ouro, Moshé novamente sobe o Monte Sinai, para, dessa vez, implorar por nosso povo. Através de muita oração e argumentação, e através de um exemplo de coragem e auto-sacrifício inéditos, ele consegue revogar o Decreto Divino de extermínio.

O episódio do bezerro de ouro - primeira falta grave do Povo Judeu, que continua sendo o arquétipo de todos os pecados de Israel, ao longo de todas as gerações é simbólico do relacionamento, turbulento, entre D'us e o Povo a quem Ele escolheu para Si. E traz à baila a pergunta: teria D'us feito um "mau negócio" ao escolher os judeus? William Norman Ewer, jornalista inglês que foi espião para a União Soviética, expressou sua opinião - que é também a de vários outros - com a famosa frase, que em inglês, tem interessante rima: "How odd of G-d to choose the Jews", isto é, quão estranho que D'us tenha escolhido os judeus.

Anti-semita ou não, a frase rimada levanta uma pergunta válida: por que, de fato, teria D'us escolhido os judeus? Em toda a Torá Escrita, e especialmente no Livro de Isaías, ouve-se não apenas da boca dos profetas, mas diretamente de D'us, alertas e castigos contra o Povo Judeu por idolatria e outros pecados. O Talmud, ao explicar os motivos para a queda de Jerusalém, a destruição do Templo Sagrado e o subseqüente exílio de nosso povo, subscreve a nossos antepassados uma longa e variada lista de pecados: idolatria, assassinato, imoralidade, falta de respeito à Torá, abusos contra os fracos e os humildes, difamação, ódio gratuito, e tantos mais. Durante as três semanas que têm início em 17 de Tamuz, devemos vasculhar nosso íntimo para tentar corrigir os pecados cometidos, não apenas por nossos antepassados, mas por nossa própria geração.

Esse período de luto para o Povo Judeu se inicia com um jejum - no dia 17 de Tamuz - e termina com outro - no dia de Tishá b'Av. O de 9 de Av, dia mais triste do calendário judaico, é o único, além do de Iom Kipur, que dura a noite e o dia inteiros. A razão para jejuarmos nesses dois dias, no período mencionado, é que todas as tragédias que se abateram sobre nosso povo, desde sua expulsão da Terra de Israel, são uma conseqüência de dolorosos eventos ocorridos, há dois milênios, durante aquelas Três Semanas, entre os quais se incluem a queda de Jerusalém e a destruição do Templo Sagrado.

Mas, fazendo justiça a nosso povo, deve-se levantar a questão, especialmente à luz dos 2.000 anos de sofrimento judaico. Teriam sido os judeus do Antigo Israel piores do que qualquer um dos povos que viviam à época? Teriam eles sido piores do que os romanos, sanguinários, que os massacraram e destruíram a Morada de D'us? Teriam sido os judeus, de fato, ao longo da História - mesmo em seus momentos de comportamento mais desprezível - piores do que aqueles que os caluniavam e oprimiam?

A resposta é óbvia. No entanto, isto é irrelevante. No livro, Revolta das Massas, o filósofo e sociólogo espanhol, José Ortega y Gasset, escreveu que a nobreza de caráter é melhor expressa na expressão francesa, "noblesse oblige", que significa que ser nobre não significa ter mais direitos ou posses ou privilégios; mas, sim, implica ter mais obrigações, mais responsabilidades e um nível mais elevado de moral e conduta. Quanto mais importante é a pessoa, mais dela se espera. O Midrash nos ensina que D'us julga cada uma das pessoas de acordo com o que ela é e o que dela se espera. Em outras palavras, cada um de nós é julgado de acordo com seus atos, mas também considerando o seu potencial - o que poderíamos ter realizado e não o fizemos. O Povo Judeu, como proclama o Salmo 29, é composto por filhos de gigantes; eles são os filhos dos três patriarcas - Avraham, Itzhak e Yaacov. Tal herança, uma linha espiritual tão nobre, significa que temos dentro de nós um tremendo potencial; mas, também, uma enorme responsabilidade a cumprir. E, conseqüentemente, significa que D'us espera muitíssimo de cada um de nós.

Ser judeu significa termos obrigações desde o momento em que despertamos, pela manhã, até o momento em que nos deitamos, à noite; desde o nosso nascimento - de fato, o mandamento da circuncisão recai sobre um neonato do sexo masculino a partir de seu oitavo dia de vida - até o dia em que deixamos este mundo físico. Não é apenas em Rosh Hashaná, Iom Kipur ou mesmo no Shabat que temos que nos lembrar de que somos judeus. Não há momento, não há dia qualquer em que podemos nos abstrair da Presença Divina e de Sua Providência. Ser judeu significa nunca perder de vista o fato de que Alguém está sempre nos observando e registrando todos os nossos atos. Muitos de nós talvez não prestem muito atenção aos fatos da vida cotidiana; por exemplo, aquilo que comemos ou que dizemos. Talvez comer carne não-casher ou fazer algumas fofocas possa parecer sem importância no contexto macro deste mundo - mas, por alguma razão, todos estes atos pequenos muito contam perante D'us.

Noblesse oblige significa que um pequeno pecado para um romano da Antigüidade representa um enorme pecado para um judeu. Sendo, como somos, filhos de homens do calibre de Avraham, Itzhak e Yaacov - os três homens mais espirituais que jamais pisaram neste Mundo - e não de qualquer um dos loucos imperadores de Roma Antiga, significa que um judeu, especialmente aquele que fala em nome da Torá, não pode fazer o que quiser e pensar que se livrará de seu ato. Conhecer a Glória de D'us e ignorá-Lo, ou rebelar-se contra Ele é um pecado dos mais graves. As conseqüências dos atos de uma pessoa devota são muito maiores do que as de alguém com menos profundidade. Dependendo do nível espiritual da pessoa, seus atos alcançam Alturas impensáveis nos mundos espirituais e se refletem, de alguma maneira, em nosso mundo físico. E, portanto, quando uma pessoa devota - ou uma com grande potencial espiritual - peca, o dano pode atingir sérias proporções. A idolatria e o sacrilégio, o assassinato e a imoralidade, a desonestidade e a perversão da justiça podem ter sido a forma de vida da maioria das sociedades da Antigüidade, mas jamais poderiam ser toleradas em um reino e povo constituído 'por filhos de gigantes'. Foi por esta razão que Jerusalém caiu e o Templo Sagrado, foi destruído.

Mas, D'us, que é o Senhor de tudo, sabe exatamente o que fez ao escolher os judeus entre todas as nações. Ele não nos escolheu apenas por sermos filhos dos três patriarcas. Ele nos escolheu porque conhece nossas fraquezas enquanto povo e sabe que, ironicamente, são a própria fonte de nossa força. Se os judeus foram atraídos para a idolatria, foi porque sua sede de espiritualidade e transcendência é tão grande que chega a ser desorientada. Se os judeus fizerem mal um ao outro, é porque eles são muito mais do que um povo que comunga de uma história e uma religião comuns: eles são uma família intimamente entrelaçada e, como o restante da humanidade, lamentavelmente têm a estranha noção de terem liberdade de agir contra um membro de sua família da forma como não ousariam fazer com um estranho. A história de Caim e Abel, que não apenas pertence ao povo judeu, mas a toda a humanidade, comprova que crimes são, com freqüência, cometidos contra nossos próprios irmãos.

Na Torá, D'us se queixa, várias vezes, de que os judeus são um povo teimoso e obstinado - uma nação que não vacila, facilmente. Mas, por estranho que seja, logo após o episódio do bezerro de ouro, quando Moshé ora a D'us, pedindo-Lhe que perdoe o seu povo, ele diz: "Ki Am Kishei Oref Hu…Visalachta… pois é um povo obstinado, e Tu hás de perdoar..."

Sem dúvida, uma estranha linha de argumentação defensiva. Por que razão Moshé rogaria em nome dos judeus apontando a D'us um traço de nosso caráter que, ao que tudo indica, Ele considera deplorável? Rabi Moshé ben Nachman, Nachmânides, sábio espanhol do século 13, explica: Moshé, com aquelas palavras, dizia a D'us: "Tu conheces Teu povo. São terrivelmente obstinados. Transformá-los, requereria muito tempo e esforço. Deves lembrar-Te de que eles viveram no Egito, sociedade que era o epicentro da idolatria, durante séculos. Tu não podes esperar deles grandes mudanças em tão curto espaço de tempo. Levará muitos anos, ainda, para que possam transformar-se". Assim sendo, Moshé, que sabia exatamente o que fazia, conclui: "Mas quando eles se transformarem, a mesma teimosia estará a Teu lado. Eles jamais hão de Te abandonar".

Foi esta a razão para que D'us escolhesse o Povo Judeu. Pois que nada nem ninguém, nem mesmo um Holocausto conseguiu fazer-nos vacilar. Em dois mil anos, nosso povo foi submetido a sofrimentos sem paralelo na história - a destruição de dois Templos, o exílio aos quatro cantos do mundo, perseguições e expulsões em massa, discriminação e ódio, tudo emanando de povos e pessoas a quem nunca maltratamos, massacres e pogroms, uma Inquisição e um Holocausto. E, contudo, nosso povo como um todo não deixou de lado sua identidade judaica. Há histórias incontáveis sobre judeus, muitos dos quais não declaradamente religiosos, que se atiraram às fogueiras da Inquisição ou foram assassinados durante o Holocausto por se terem recusado a abandonar sua fé ou a realizar sacrilégios, tais como violar um Sefer Torá ou comer em Iom Kipur.

Mas, perguntamos, terá compensado permanecer judeu? Terá valido a pena tentar viver como filhos de gigantes, com todas as inevitáveis obrigações e responsabilidades? As respostas a esta e a outras perguntas semelhantes não são fáceis nem simples. Uma destas encontra-se no Talmud, em uma passagem que discute as conseqüências do pecado do bezerro de ouro. A passagem detalha os argumentos utilizados por Moshé para demover D'us de Seu decreto de aniquilação. Seu argumento final foi: "Mestre do Universo, caso Tu venhas a destruir Israel, as nações do mundo dirão: 'Seu poder se enfraqueceu... e Ele já não consegue salvar-nos. Quando se tratava de um único rei, no caso, o Faraó, Ele ainda pôde enfrentar e sair em nossa defesa. No entanto, Ele não tem como enfrentar trinta e um soberanos, isto é, todos aqueles que reinam sobre a Terra de Canaã". O que Moshé disse a D'us naquele malfadado dia, quando o futuro do Povo Judeu pendia por um fio, foi: "Tu escolheste para Ti o Povo Judeu. Tu e Teu Nome ligaste a eles. Se deixarem de existir os judeus, as nações do mundo dirão que o D'us de Israel não teve poder suficiente para preservar seu próprio povo, e deixarão de acreditar que Tu És Uno e o Único Senhor do Universo. A derrota do Povo Judeu é a Tua derrota". E como reage D'us a tal argumentação? D'us volta atrás em Seu decreto de aniquilar o Seu povo, dizendo a Seu profeta: "Moshé, com tuas palavras, tu Me mantiveste vivo entre todos os povos".

Nós, o Povo Judeu, somos as testemunhas Divinas. Isto significa, como D'us admitiu a Moshé logo após o incidente com o bezerro de ouro, que a existência do Povo Judeu é o que O mantém, por assim dizer, vivo entre os povos do mundo. A razão para isto é que fomos nós, a começar por nosso patriarca Avraham, quem ensinou o monoteísmo à Humanidade. A pedra fundamental da civilização humana - a responsabilidade perante um Poder Superior e um elevado código de ética e moralidade - está calcada na Revelação Divina no Sinai. Há pessoas que podem se perguntar por que teria D'us nos escolhido. Mas, para aqueles que crêem na Bíblia, não há dúvidas de que foi a nós que Ele escolheu. Na Torá, D'us diz a Seu povo "E serás para Mim um reino de sacerdotes e uma Nação Santificada" (Êxodo, 19:5). Somos uma nação que leva a mensagem de D'us ao mundo. O Livro de Ezequiel claramente explica que todo o Povo Judeu, um a um, sem faltar ninguém, somos representantes e emissários de D'us neste mundo. Pois que os judeus levam em si o Nome de D'us e Seu Nome está intimamente ligado a nós. E, assim sendo, quando um de nós vacila espiritualmente - ou seja, se nos assimilamos ou demonstramos um enfraquecimento em nossa fé ou agimos de uma maneira desrespeitosa perante o restante da humanidade - estamos maculando o Nome de D'us e Sua Presença neste mundo. Quando os gigantes do espírito têm um comportamento inadequado, eles são inevitavelmente seguidos pelo restante da humanidade e o resultado é corrupção e decadência. Assim, apesar do ônus inerente à noblesse oblige, apesar dos inúmeros desafios e tentações e inimigos, temos que continuar judeus e tentar desempenhar da melhor forma possível a nobre missão que D'us confiou a cada um de nós.

As Três Semanas de Luto são um momento de introspecção e de busca interior, nas quais precisamos lidar com nossas falhas, quer como indivíduos, quer como povo, para que possamos levar uma vida que honre os Filhos de Israel e o D'us de Israel. Não se trata de tarefa fácil. A história de vida do Povo Judeu - e, de fato, de cada um de nós, judeus - não deve ser um diário pessoal, repleto de trivialidades e fantasias e buscas inconseqüentes - mas, pelo contrário, "O Livro das Guerras do Senhor" (Números, 21:14). Uma vida assim, de grandes desafios e enormes responsabilidades, é aquela em que, diariamente, são travadas batalhas verdadeiras. Mas, também, em que as verdadeiras vitórias da vida são vencidas.

Traduzido por Lilia Wachsmann

Bibliografia:

Talmud Bavli - Tratados: Ta'anit, Berachot e Chaguigá

Rabbi Steinsaltz, Adin (Even Israel), artigo "It Takes a Giant", 11 de março de 2003;

The Aleph Society - www.steinsaltz.org

Rabbi Steinsaltz, Adin (Even Israel), "Bar Mitzvah, The Aleph Society", www.steinsaltz.org

Rabbi Steinsaltz, Adin (Even Israel), "We Jews - Who Are We and What Should We Do" Jossey-Bass Publisher.