Morashá
Entrevista com Adina Bar-Shalom Foto Ilustrativa

Entrevista com Adina Bar-Shalom

Casada, mãe de três filhos, avó de 13 crianças e incansavelmente envolvida em projetos sociais, ela andava em busca de um projeto que de fato impactasse toda a sociedade israelense. Sempre observou a pobreza que ronda o cotidiano dos haredim como um desafio que precisava ser enfrentado – e viu na educação uma possível solução. Com a bênção de seu pai,  o Grão-Rabino Ovadia Yossef, tomou para si a liderança da criação da michlalá.

Edição 78 - Dezembro de 2012


Adina Bar-Shalom é uma estrategista nata e superou todos os obstáculos que se impuseram, até o momento. A já esperada luta fora da sociedade Haredi foi tão intensa quanto a interna. Com uma personalidade forte e ao mesmo tempo delicada, ela conquistou o apoio dos líderes de yeshivot para que estimulassem seus alunos a buscar a formação superior na instituição; buscou fundos dentro e fora de Israel para pôr em marcha toda a operação e para a construção da sede; e, por fim, conquistou o apoio de importantes instituições israelenses de ensino superior que se tornaram “sócias” do projeto – e, para isso, Adina Bar-Shalom soube orquestrar com maestria as particularidades de cada um desses grupos. Uma tarefa, de fato, monumental.

Morashá:Qual é a missão e a visão da Michlalá Haredi Yerushalaim?

Adina Bar-Shalom: Nossa missão é prover um ambiente apropriado para que homens e mulheres da comunidade Haredi possam realizar seus estudos acadêmicos e receber diplomas das melhores instituições de ensino do país.

Isso trará benefícios permanentes dentro de seu ambiente e também para a sociedade israelense, uma vez que permitirá sua integração na força de trabalho do país. Já formados, eles poderão alcançar posições bem-remuneradas, o que certamente garantirá a melhoria da qualidade de vida dessa população, retirando-a do ciclo da pobreza e da dependência financeira em que vivem. Importante ressaltar que essa é a primeira e a única instituição criada com esse fim em Israel.

Morashá: A senhora colocou para si mesma um desafio de proporções incríveis e que, aparentemente, representava um sonho impossível. No entanto, a Michlalá Haredi Yerushalaim já está em funcionamento há 12 anos. Pode nos contar como surgiu esse projeto?

A. Bar-Shalom: Sempre vivi tendo ao meu redor homens e mulheres de incrível potencial que, no entanto, viviam em condições precárias simplesmente porque não tinham acesso à educação superior em nosso país. E isso é um pré-requisito para a independência econômica! A forma que encontrei para quebrar esse paradigma foi adotar o conceito “se a montanha não vai até a academia, a academia vai até a montanha”. Este público tem necessidades muito específicas no que diz respeito às condições físicas e ao funcionamento de uma instituição dessas. Assim, imaginei um local onde nosso modo de vida e princípios fossem respeitados para estar apto a receber a população Haredi e oferecer cursos superiores do mais alto nível. O sonho virou realidade e nossa primeira turma começou seus estudos em março de 2001.

Morashá: Hoje, os cursos são direcionados a homens e mulheres.No início, no entanto, atendiam apenas as mulheres, certo?

A. Bar-Shalom: Sim, pois o ensino médio israelense, frequentado pelas meninas, mas não pelos meninos haredim, inclui matérias laicas fundamentais para a continuidade dos estudos até o nível superior. Sabíamos que enfrentaríamos mais dificuldades, ao menos no início, até encontrar uma fórmula voltada para eles. Assim que ganhamos experiência e segurança, fomos em frente.

Morashá: Quais as particularidades da Michlalá?

A. Bar-Shalom: Primeiramente, precisamos oferecer um curso preparatório que preencha as lacunas de conhecimento deixadas pelo ensino voltado aos Haredim. Essa é a etapa inicial fundamental para que os alunos consigam ingressar nos cursos gerais. Também precisamos manter um berçário, uma vez que essa população tem filhos muito cedo. Sem essa facilidade, as mães não teriam como dedicar horas de seu dia ao estudo. Outra particularidade é nossa biblioteca: ela precisa ser separada, uma para homens outra para mulheres, o que significou ter o dobro de acervo e de computadores. Disponibilizamos também madrichim e madrichot que orientam os alunos em questões do dia-a-dia, uma vez que a vida acadêmica é uma novidade para eles. Além disso, oferecemos seminários nos quais discutimos questões que dizem respeito ao universo dessa população. Tratamos sobre a Halachá e as Ciências – como Leis Judaicas e a Tecnologia –, a aplicação de ciências comportamentais e de psicologia no estudo da família, e pesquisas sobre os Haredim e demais grupos religiosos, em geral, seja em Israel seja no mundo. Também oferecemos ajuda para a inserção de nossos alunos no mercado de trabalho.

Morashá: Como a instituição Keren Yerushalaim se envolveu nesse projeto?

A. Bar-Shalom: A integração da Keren Yerushalaim foi de fundamental importância, pois está viabilizando a construção de nossa sede própria, uma etapa crucial para a continuidade e o desenvolvimento do projeto. A Keren Yerushalaim percebe nosso potencial no apoio à solução de um dos maiores problemas da sociedade israelense, representada pela integração do público Haredi. Essa questão está muito concentrada em Jerusalém: ali, 23% da população judaica vive abaixo da linha da pobreza, e a maior parte desse percentual é de Haredim. Somos muito gratos à ajuda que a instituição nos oferece. Não imagino outro projeto de tamanho interesse para todos.

Morashá: Quais são os cursos oferecidos na Michlalá Haredi Yerushalaim?

A. Bar-Shalom: Oferecemos um curso preparatório pré-acadêmico, algo similar ao “cursinho pré-vestibular” que existe no Brasil. Com ele, os alunos preenchem as lacunas do currículo escolar Haredi e se preparam para as provas de admissão à universidade. Com relação aos cursos superiores, oferecemos Ciências da Computação, Logística e Economia, Ciências Sociais, Pedagogia, Comunicação e Ciências Políticas, Psicologia (Pedagógica e Clínica), Gestão Pública, Desenho e Moda, Terapia Ocupacional, Ciências Médicas para Laboratório e Administração. Também disponibilizamos cursos profissionalizantes de Desenho de Interiores, Certificação para Programadores pela Microsoft, Consultoria em Investimentos, Mediação, Educação Familiar e Terapia Lúdica. Também já dispomos de alguns cursos de pós-graduação. Todos são ministrados por instituições de nível internacional, como a Universidade Bar Ilan, o Hadassa College e a Universidade Ben Gurion. Já os cursos profissionalizantes estão sob responsabilidade da Universidade Aberta e do Ministério da Educação.

Morashá: Quantos alunos estão estudando no momento e quantos já estão formados?

A. Bar-Shalom: Tivemos cerca de 800 mulheres e 500 homens no último semestre acadêmico. Para o próximo esperamos um aumento nesse número, pois disporemos de mais espaço físico, o que nos permitirá abrir mais classes. Até hoje foram formados cerca de 800 alunos que, em sua maioria, já estão trabalhando em suas áreas. O índice de inserção no mercado, depois de formados, é altíssimo: chegamos a incríveis 96%. Esse dado nos dá imensa satisfação, mas não nos surpreende, pois nossos alunos são muito motivados, entendem a incrível oportunidade vivenciada e se esforçam muito para alcançar a excelência em seus empregos.

Morashá: Como a senhora vê o impacto dessa mudança na sociedade israelense?

A. Bar-Shalom: O fato de os Haredim entrarem para o mundo acadêmico tem um significado enorme. Afinal, eles finalmente ganham a condição necessária para se integrar no mercado de trabalho, produzir, sustentar suas famílias de forma digna e contribuir para a sociedade, seja com o pagamento de seus impostos, seja com os serviços que prestarão à comunidade. Isso provocará profundas mudanças na sociedade israelense, não tenho a menor dúvida.

Morashá: A senhora receberá o título de Doutora Honorária da Universidade Ben Gurion por sua contribuição à sociedade israelense. Qual o significado disso para si e para a Michlalá?

A. Bar-Shalom: Fiquei muito emocionada ao saber disso. Esse reconhecimento me aquece o coração, pois me engajei em uma luta nada fácil. Constatar que instituições de ponta desejam caminhar de mãos dadas conosco, apreciando e aprovando esse movimento junto à população Haredi, me dá forças para continuar a batalha. Enfrentamos muitos desafios em nosso cotidiano, todos os dias.

Morashá: A Michlalá está prestes a ganhar sede própria. O que muda a partir daí?

A. Bar-Shalom: Atualmente alugamos três andares em um edifício no GanTechnology, que é um centro de pesquisa e desenvolvimento. O aluguel é altíssimo – o valor que é investido nele hoje será destinado a atividades voltadas diretamente aos alunos. Contaremos com instalações mais adequadas às nossas necessidades e abriremos as portas para alunos de outras partes do país, uma vez que no projeto está prevista a construção de dormitórios.

Morashá: Quais são os maiores desafios desse momento?

A. Bar-Shalom: Inicialmente tivemos que lutar contra a resistência de muitas autoridades rabínicas. Embora meu pai, o Grão-Rabino OvadiaYossef, tenha sempre me motivado – foi, inclusive, quem solicitou o desenvolvimento desse projeto –, os próprios Haredim olhavam para esse movimento com desconfiança. Também não foi fácil convencer as universidades mais conceituadas de Israel a investirem nesse público, pois viam à frente muitos empecilhos. Graças a D´us, hoje tudo está nos trilhos nesse aspecto e o número de alunos não para de crescer.

Os “gargalos” desse momento são dois: o espaço físico e, mais do que tudo, o suporte que esses alunos necessitam. Os estudantes que vêm para cá, e estou obviamente falando do público masculino, precisam abrir mão da bolsa que recebem da yeshivá que frequentavam. Muitos já têm sua própria família ou são oriundos de famílias numerosas, e assim não podem contar com ajuda financeira dos pais. Na maioria dos casos, esses estudos só são viabilizados mediante o pagamento de uma
bolsa de estudos, que não é coberta pelo governo. Creio que esse seja o maior desafio para o nosso crescimento e estamos investindo todos os esforços para encontrar a melhor solução.

Estamos diante da possibilidade de reforçar e influenciar o futuro de Am Israel.

A sociedade Haredi, que se dedicou nos últimos 60 anos à construção da Torá Hakdoshá e de Yeshivot, entende que nem todos podem apenas estudar a Torá, necessitando e solicitando ajuda para capacitar centenas de alunos para quem quer entrar no mercado de trabalho.

Além de erradicar a pobreza no meio Haredi, estaremos contribuindo para influenciar o resto do povo e da sociedade israelense, transmitindo-lhes valores mais elevados e um judaísmo mais intenso. Assim estaremos ajudando Am Israel a ser mais unido e mais forte.

Temos uma oportunidade de mudar e influenciar. É nosso dever nos esforçarmos ao máximo para concretizar esta mudança.

A instituição da Rabanit Adina Bar-Shalom é uma das principais escolas na vanguarda deste movimento. Queremos ser parceiros na construção de seu novo campus.

Parabéns aos organizadores. Esperamos  alcançar a meta que nos propusemos!

Discurso proferido em nome da Fundação Horn por ocasião da apresentação do projeto do novo campus da Michlalá Haredi Yerushalaim em outubro desse ano em São Paulo.