Morashá
Mulheres por trás das unidades de combate

Mulheres por trás das unidades de combate

As mulheres desempenharam um papel fundamental no estabelecimento do Estado de Israel. Sem discriminação ou preconceitos, ajudaram a escrever páginas e páginas desta importante história.

Edição 91 - Abril de 2016


Quando a existência de um Estado Judeu era ainda um sonho, lado a lado com os homens as mulheres judias exerceram as mais diferentes funções, inclusive na proteção dos kibutzim e das aldeias de Eretz Israel. Aprenderam a lutar e atirar e ajudaram na elaboração de estratégias para organizar a defesa.

A história está repleta de exemplos de mulheres combatentes nas batalhas que antecederam a formação do moderno Estado de Israel. Com coragem e determinação atuaram infiltradas como agentes, na retaguarda, e nas frentes de combate. Havia mulheres lutando no Palmach, na Haganá, no Irgun. Lutaram na Guerra de Independência, estando inclusive presentes da defesa de Jerusalém, em 1948.

Em 1953, porém, cinco anos após a Declaração de Independência, o então primeiro-ministro David Ben-Gurion decidiu que elas deveriam servir nas Forças de Defesa de Israel (FDI) em funções burocráticas. Assim, nos 30 anos seguintes, com poucas exceções, atuaram em atividades ligadas à área de saúde e nos escritórios das FDI como secretárias, porta-vozes etc.

A situação mudou na década de 1980, quando o alto comando das FDI tomou uma decisão: permitir a participação feminina como instrutoras de combate. Duas décadas depois, ficou evidente o acerto dessa decisão. Segundo a tenente coronel Shirli Karni, vice-assessora do diretor de Assuntos Femininos, o treinamento de combates da FDI aprimorou-se muito nos últimos 20 anos e atualmente os instrutores são em sua maioria mulheres.

No entanto, as mulheres ainda não podem servir em todas as posições de combate. Mas Shirli acredita que a luta pela igualdade de direitos nas forças armadas israelenses já foi vencida. “Ninguém mais se pergunta se se deve ou não permitir a presença feminina em posições de luta e comando. A única pergunta é como e quando. As FDI passaram por mudanças profundas em seus valores de tal forma que estas são irreversíveis”.

Anualmente, cerca de mil mulheres jovens, ao término do Ensino Médio, tentam tornar-se instrutoras de combate das FDI. Apenas 25% das candidatas são aceitas e, após um breve período de treinamento generalizado, são encaminhadas a uma base específica para sua capacitação. Pode ser uma base de infantaria, blindados, artilharia, entre outras. A mais cobiçada, no entanto, é a remota base dos Batalhões de Engenharia, no Neguev. Para ostentar a boina prateada e a insígnia desse batalhão é preciso passar por um dos cursos mais completos e árduos das FDI.

Com quatro meses de duração, o programa é oferecido duas vezes por ano e tem como foco principal a destruição das defesas inimigas. Sabotagem e desmonte de minas estão entre os temas principais do treinamento. O uso de explosivos nos campos de batalhas, o deslocamento em campos minados e a explosão de barreiras são itens presentes no programa.

Para chegar à Base dos Batalhões de Engenharia no deserto de Neguev, ao sul de Beersheva, é preciso passar pelo povoado de Machtesh Ramon e seguir em direção ao sul por uma estrada na qual os ônibus não avançam.

A atual coordenadora dos cursos de treinamento de combate da base é a Tenente Liron, de 23 anos, cuja aparência é totalmente oposta ao que se imagina para alguém nessa função. Criada em um bairro da cidade de Kochav Yair, não muito distante de Kfar Saba, ela não se alistou logo após o término do Ensino Médio, optando por trabalhar como voluntária durante um ano com crianças, em Afula. Muito bem articulada, termos como moral, valores e sociedade estão sempre presentes em suas conversas. Sobre isso, diz aos visitantes: “Eu tento mesclar aquilo em que acredito com os valores do exército. Meu objetivo não é apenas treinar pessoas para uma possível guerra, mas, também, manter na mente os valores e ideais que devemos agregar ao treinamento”.

Lidar com jovens recém-saídas do colégio não é tão simples. Sua primeira reação ao chegarem à base é de choque total. Ao entrarem no dormitório que deverão compartilhar nos próximos meses se defrontam com uma simplicidade com a qual muitas não estão habituadas.

Durante o curso, as participantes são isoladas em um espaço que incluiu uma cozinha, seis chuveiros, um espaço para lazer e conversas. Este último é uma espécie de sala de estar; salas de aula e dois dormitórios - cada um com capacidade para dez pessoas, com beliches. Cada uma possui o tradicional lençol e saco de dormir do exército. Sob a cama, pequenas lembranças da sua antiga vida: xampu, hidratante corporal, sapatos esportivos - itens que devem ser escondidos diariamente antes da inspeção matutina. No mural do refeitório da base, várias informações, mensagens, desenhos e piadas. Afinal, um pouco de bom humor para quebrar a rigidez é sempre bem-vindo, visto que a maioria das jovens que ali estão tem pouco mais de 18 anos.

Depois de cinco semanas, encerra-se a primeira fase do curso. As recrutas são então divididas em grupos por especialidade. Algumas serão preparadas para treinar soldados no uso de veículos blindados que podem passar por cercas, minas e até trincheiras. A peça fundamental dos veículos blindados do Batalhão de Engenharia é o Puma, um tanque com funções multivariadas. As jovens dão brilho e enceram o Puma a cada sexta-feira antes de saírem de folga no final de semana. Outra especialização são os equipamentos mecânicos pesados, ou seja, enormes escavadeiras. A visão de uma garota de 18 anos operando uma dessas máquinas é surrealista para os visitantes da base. Minas e sabotagem são o terceiro campo de especialização, sendo um curso obrigatório para todas as unidades de combate de elite.

Durante o período do curso, as jovens só têm permissão para falar com as outras recrutas, o que acaba levando ao aprofundamento dos relacionamentos. “Após alguns dias de convivência, já sabemos tudo que é possível saber sobre as colegas, o que gosta ou não, se tem namorado, até os mais íntimos segredos. Isso leva ao fortalecimento do grupo como um todo”. Neste sentido, a Tenente Liron ressalta que o conceito de grupo é um dos principais valores do exército. “A excelência do grupo vem antes da excelência pessoal. Eu repito este conceito diariamente para as alunas”.

Um dos momentos mais significativos para as alunas e para os instrutores é a conclusão do programa. Para serem aprovadas, as jovens devem tirar nota 80, podendo repetir as provas quantas vezes for necessário. Alcançar esta nota é imprescindível para quem quer se formar instrutora de combate. Não é apenas o final do curso, mas, também, o momento de romper as barreiras e a formalidade nas relações com os superiores. Afinal, ao longo do curso, as jovens precisam mostrar deferência em relação aos comandantes, não podem sorrir ou se divertir com eles. Esta aproximação é feita em uma atividade especial.

A Tenente Liron fala sobre a cerimônia chamada de “Quebrando a distância”. “Tudo é planejado nos mínimos detalhes. As jovens são acordadas no meio da noite para o que parece ser mais uma rodada de exercícios sendo informadas que participarão de mais uma marcha extenuante. O curso inclui inúmeras marchas deste tipo cujo objetivo é levar as mulheres ao seu limite físico e elevar o seu nível de atividades. Mas esta marcha é especial, pois ao seu final receberão a boina prateada dos Batalhões de Engenharia. Mas elas ainda não o sabem”.

Ao se prepararem, fazem listas negras no rosto, amarram faixas brancas ao redor da cabeça e partem para a caminhada de 15 quilômetros. Repentinamente são obrigadas a parar e os responsáveis pelo curso distribuem barras de chocolates, balas e pequenos presentes, contando fatos engraçados que presenciaram ao longo do treinamento. “As soldadas ficam totalmente chocadas ao se verem face a face com os superiores, mas as expressões do rosto mudam quando percebem que o programa chegou ao final. Elas começam, então, a rir, dançar e cantar. A marcha é retomada, mas com um estado de espírito completamente diferente e termina ao nascer do sol”. Assim, sob os primeiros raios da manhã, uma a uma, as participantes são chamadas para receber a boina prateada. O choro e a emoção são gerais, um momento comovente, sem dúvida.

“O curso dá às mulheres ferramentas que as acompanharão até o final da vida. Autoconfiança, maturidade e conhecimento para enfrentar situações físicas e psicológicas extremas e a certeza de que podem confiar totalmente em um grupo de amigos e pares”, finaliza a jovem militar Liron.

BIBLIOGRAFIA:
Revista Eretz