Morashá
Krav Maga: o sistema de autodefesa de Israel

Krav Maga: o sistema de autodefesa de Israel

Krav Maga é um sistema de autodefesa, adotado pelas Forças de Defesa de Israel. Não é uma arte marcial, não possui as tradições milenares das artes marciais orientais e tampouco surgiu no Oriente. Foi criado na Europa Oriental, em 1930, por um judeu, Imi Lichtenfeld, para defender os judeus de ataques fascistas e nazistas.

Edição 97 - Setembro de 2017


O Krav Maga é uma arte de defesa pessoal, um sistema de combate corpo a corpo,com rápidos contra-ataques e técnicas ofensivas que visam impedir que o agressor atinja seu alvo. Atualmente, os repetidos ataques terroristas a indivíduos, muitos realizados com facas, tornaram muito recomendado o seu aprendizado em Israel e na Europa. Na França, por exemplo, desde que a onda de ataques antissemitas e terroristas tomou conta do país, houve um grande aumento no interesse pelo Krav Maga, que, aliás, está sendo ensinado aos alunos de escolas judaicas.

É bem verdade que seu domínio exige muito treinamento tanto em termos das técnicas como do condicionamento físico, mas as técnicas básicas do Krav Maga podem ser aprendidas e aplicadas por qualquer pessoa em um curto espaço de tempo. Diferentemente das demais artes marciais, não leva anos para ser dominado. Desde o início, o intuito de Imi Lichtenfeld era criar um sistema de autodefesa que pudesse ser posto em prática o mais rapidamente possível. O Krav Maga dá as ferramentas para que homens, mulheres e até crianças, independentemente da idade, possam se defender. E, apesar de existir há menos de 100 anos, é, atualmente, o sistema de luta escolhido por várias unidades das elites militares e das forças de segurança norte-americanas e europeias. É também adotado no Brasil para o treinamento de forças militares e policiais.

O criador: Imi Lichtenfeld

Filho de Channa e Samuel Lichtenfeld, Imrich Sde-Or ou “Imi”, como era conhecido, nasceu em 26 de maio de 1910, em Budapeste, na época um dos centros do Império Austro-húngaro; mas cresceu na capital da Eslováquia, Bratislava.

Seu pai, um grande atleta, teve suma influência em sua vida. Aos 13 anos, Samuel começou a trabalhar num circo como acrobata e, durante duas décadas, treinou inúmeros esportes, inclusive luta-livre e levantamento de pesos. Após deixar o circo, ele se mudou para Bratislava. Lá fundou a primeira academia moderna de atividade física da cidade, onde se dedicava à luta livre, boxe e musculação.

Em Bratislava, Samuel trabalhava na força policial; tornou-se detetive e ocupou o posto de Inspetor Chefe. Conquistou a reputação como o policial que fez a prisão e levou a julgamento o maior número de criminosos violentos. Como Inspetor Chefe, periodicamente treinava seus homens nas técnicas de defesa pessoal. O filho, Imi, estava sempre ao seu lado. Exímio lutador de luta-livre quando jovem, Samuel estimulou o filho a participar de uma variedade de atividades atléticas.

Imi logo se tornou um excelente ginasta, boxeador e lutador, entrando para o Time Nacional de Luta Livre da Eslováquia. Competia em campeonatos nacionais e internacionais, ganhando vários troféus. No período de 1929 a 1939, foi um dos melhores lutadores da Europa.

No final da década de 1930, enquanto o fascismo e o antissemitismo varriam todo o continente europeu, a vida dos judeus de Bratislava tornava-se cada dia mais difícil. Os ataques violentos contra indivíduos e contra as comunidades passaram a ser lugar-comum nas ruas de muitas das cidades da Europa Oriental. Os judeus buscavam meios de se defender, de continuar vivos.

Vendo que algo tinha que ser feito para proteger sua comunidade, Imi organizou um grupo de jovens judeus para patrulhar o Bairro Judeu e defender seus habitantes contra os ataques. Da noite para o dia, ele se tornou o líder incontestado de cerca de 100 rapazes da comunidade. Juntos, eles defendiam os judeus de Bratislava contra as gangues antissemitas e as milícias fascistas.

Enquanto lutavam nas ruas, Imi rapidamente entendeu que as lutas competitivas esportivas eram totalmente diferentes das de rua. Além de serem extremamente violentas, nas ruas não havia regras e nem árbitros. Ele começa, então, a desenvolver um sistema de técnicas de autodefesa para situações de perigo, passando a ensiná-las aos jovens encarregados da defesa do Bairro Judeu. Seu princípio fundamental era usar os movimentos e reações naturais do corpo aliados a um contra-ataque imediato e decisivo. Assim começou o Krav Maga. Entre 1936 e 1940, Imi participou de inúmeros conflitos e lutas de rua. Ele e seus companheiros tiveram que conter grupos antissemitas armados, que chegavam a centenas de pessoas, em sua tentativa de invadir o Bairro Judeu.

Em 1939 o Estado eslovaco tornou-se um Estado fantoche da Alemanha nazista e Imi e os judeus de Bratislava se viram cada vez mais ameaçados pelas milícias fascistas. Ele passou a ser vigiado, era considerado um “sério problema” pelas autoridades eslovacas e grupos antissemitas. Em 18 de maio 1940, Imi deixa a Europa, embarcando naquele que seria o último navio de judeus a conseguir escapar dos nazistas. Sua família não o acompanhou, e não sobreviveu a Shoá.

A embarcação se dirigia à Terra de Israel. Era um barco usado para navegação fluvial, de nome Pentcho, modificado para transportar refugiados judeus da Europa Central. A embarcação, adequada para transportar 150 pessoas, acabou levando, abarrotados, 500 jovens. Durante a travessia, uma caldeira do Pentcho explode e o barco naufraga na ilha grega Kamilonissi. Imi saltou várias vezes n’água para salvar passageiros e recuperar as escassas sacas com alimentos que haviam caído no mar. Isso lhe acarretou uma forte infecção no ouvido que quase lhe custa a vida.

Ele e outros quatro amigos conseguiram um bote a remo e saíram em direção à ilha de Creta em busca de ajuda. Em virtude dos fortes ventos, os cinco nunca chegaram à ilha. No quinto dia, um navio de guerra inglês os encontrou vagando pelo mar, e os levou para Alexandria. Após relatarem sobre o naufrágio do Pentcho, as autoridades italianas foram alertadas e um navio foi enviado para a ilha Kamilonissi para resgatar os refugiados, que depois foram levados para Rhodes. A maior parte dos sobreviventes do Pentcho chegou à então Palestina em 1944.

Segundo um dos amigos, ao chegar a Alexandria o estado do Imi era gravíssimo e eles temiam que o amigo não escapasse. No entanto, resistiu e, já restabelecido, se alistou na Legião Checa, à época sob o comando do exército britânico. Durante ano e meio, ele ocupou vários postos militares no Oriente Médio sempre servindo com distinção.

Em 1942, Imi recebeu um visto de entrada na então Palestina sob Mandato Britânico. À época, muitos de seus amigos que já estavam em Eretz Israel serviam na Haganá (defesa, em hebraico), fundada em 1919 para defender os assentamentos judeus contra os árabes.

Imi é muito bem recebido nas fileiras da Haganá, cujos líderes perceberam suas aptidões em combate e sua habilidade em transmitir as técnicas. Ele ficou encarregado do treinamento das forças de elite militar no combate desarmado. Treinou forças da Haganá, Palmach (a força de ataque de elite), Palyam (os comandos navais), e grupos policiais. Imi passa a treiná-los intensamente em suas áreas de especialização: preparação física e nas técnicas de combate que estava desenvolvendo, baseado em sua experiência em combate real.

Com a fundação do Estado de Israel, em 1948, todas as diversas forças judaicas combatentes se unem, dando origem às Forças de Defesa de Israel (FDI). O novo estilo de combate criado por Imi é adotado como o estilo oficial das FDI e da Força Policial de Israel. É nomeado Instrutor Chefe de Preparação Física na Escola de Preparação para Combates das FDI. Ele era o principal instrutor de combates corpo a corpo. Nesse período, aperfeiçoou ainda mais suas técnicas de autodefesa; ele queria que fossem rápidas, eficazes e aplicáveis a cenários modernos. Acima de tudo, tinham que ser simples, lógicas e fáceis de aprender; um método que pudesse transmitir ao soldado israelense, em poucas semanas, noções reais de autodefesa, com as mãos nuas, contra todo tipo de ataques. Após a Operação Sinai de 1956, o nome “Krav Maga” passou a ser utilizado para o novo estilo de combate, já tendo um formato pronto para treinamento e ensino.

Imi serviu nas FDI até 1964. Nesse período ele foi o responsável pelo treinamento dos melhores combatentes das principais unidades de elite das FDI. Após se aposentar, abriu dois centros de treinamento nas cidades de Tel-Aviv e Netanya. Pela primeira vez o Krav Maga seria ensinado a civis. O ensino a civis difere do utilizado por militares ou agentes de segurança. Em seu uso civil, o Krav Maga ensina como se proteger em situações em que a vítima está desarmada e tem que contar apenas consigo mesma. É um cenário muito diferente do militar. Nos anos seguintes, Imi se dedicou a adaptar as técnicas, modificando-as de acordo com as necessidades da vida civil.

Em 1974, ele fundou a Associação Krav Maga, uma organização para o ensino do sistema de autodefesa. Alguns de seus primeiros alunos levaram-na aos Estados Unidos e o mestre Kobi Lichtenstein a trouxe ao Brasil.

Imi Lichtenfeld faleceu em 1998, aos 87 anos. Até os últimos anos de sua vida, continuou a atuar tanto no mundo militar, como conselheiro, quanto no civil supervisionando aulas e treinando equipes de segurança de outras nacionalidades. Em uma carta oficial pelo “Galardão de Mérito”, Itzhak Rabin, então Chefe das Forças de Defesa de Israel, escreveu que desde os tempos da Haganá e do Palmach, incluindo todos os anos no Tzahal (FDI), a capacidade de luta e o potencial pessoal de Imi tinham sido os pilares de qualidade do combatente israelense, e, ninguém mais responsável por esse desempenho de excelência do que Imi Lichtenfeld.

Ainda em vida, recebeu o “Azul e branco”, um título de honra para aqueles que muito se dedicaram a seu país.

Fundamentos

Como vimos acima, o Krav Maga pretende ser a forma mais eficaz de autodefesa. Em entrevista a Morashá, o faixa preta e professor de Krav Maga, Uri Aronson, perito e consultor em segurança pessoal, empresarial e comunitária, e um dos primeiros alunos do mestre Kobi no Brasil, explicou os fundamentos do combate. “O Krav Maga ensina a enfrentar o perigo com uma estratégia em mente, sem desgaste físico desnecessário, reservando a energia física para aplicá-la no momento oportuno. A defesa e o contra-ataque devem ser rápidos e eficazes. O aluno de Krav Maga treina para ter a mente clara e tranquila para tomar decisões com prontidão, mesmo em uma situação de emergência. Por exemplo, se estiver sendo imobilizado e a primeira técnica para se libertar não funcionar, em vez de se desesperar tentando novamente, deve passar a aplicar outra técnica”.

Como mencionamos acima, as técnicas do Krav Maga se baseiam em princípios simples e movimentos instintivos, naturais ao corpo humano. O treinamento inclui, de um lado, o aprendizado de incontáveis técnicas que visam impedir que o agressor atinja o alvo, do outro lado movimentos explosivos de contra-ataque. Diferentemente de outras artes marciais que tratam os movimentos defensivos e ofensivos como ações separadas, no Krav Magá estes são simultâneos. A técnica dá ênfase ao movimento contínuo: bloqueia-se ao mesmo tempo em que se contra-ataca rapidamente, visando pontos sensíveis do agressor. Independentemente de quão grande e forte o oponente, algumas áreas do corpo humano são sempre vulneráveis.

Noções de física, fisiologia e matemática são utilizadas para definir as técnicas que devem ser aplicadas. Em cada tipo de ataque, a técnica usada deve levar em conta a transferência de peso e a rapidez e força de explosão do contra-ataque, visando a potencialização da ação independentemente da força física.

Como os confrontos são geralmente inesperados e perigosos, os alunos são treinados a procurar dar um fim às situações de perigo, com a maior rapidez possível. Quem treina Krav Maga parte da premissa de que seus atacantes serão maiores e mais fortes do que ele, e, possivelmente, que enfrentará múltiplos agressores. Uri Aronson, que treinou centenas de alunos de Krav Maga, executivos e equipes da área de segurança de multinacionais, costuma enfatizar que “a essência do Krav Maga é que se um de vocês se encontrar em uma situação de perigo, saiba o que fazer para voltar para casa com vida. Procuro transmitir a meus alunos que o Krav Maga não se restringe ao que é ensinado durante as aulas. Trata-se de um estilo de vida. O mundo moderno exige que se tomem decisões rapidamente, ainda mais se a pessoa for um líder ou um executivo, mantendo-se focado mesmo em situações turbulentas e agindo sob pressão com clareza mental. O Krav Maga proporciona tudo isso e muito mais.”

O treinamento que Uri passa a seus alunos inclui a “inteligência” por trás das técnicas. “É necessário visualizar e analisar uma situação rapidamente e apreender como reagir a qualquer tipo de ameaça, sem hesitação. É essencial agir de forma segura e neutralizar o agressor rapidamente, fazendo o que for preciso”.

Os treinos simulam situações reais. Como Imi descobriu nas ruas da Europa, lutar para obter pontos numa luta esportiva e lutar por sua vida em um confronto de rua exige uma atitude mental e técnicas totalmente diferentes. No Krav Maga o fato de não haver “regras” em uma luta é muito enfatizado. Não há katas – padrões detalhados de coreografia de movimentos – como no caratê e demais artes marciais. Não dá para se preocupar com a “etiqueta” da luta quando sua vida está em risco. Quem aprende e interioriza os princípios do Krav Maga consegue enfrentar qualquer tipo de agressão, e a eficiência das técnicas em combate real mostra que eles são atemporais, funcionam em qualquer realidade.

E, como não há regras nem restrições, o Krav Maga não realiza competições. Algumas organizações adotam faixas coloridas – populares nas artes marciais – como um sistema didático que divide o aprendizado das técnicas por faixa. Quanto maior for a graduação, mais avançadas serão as técnicas ensinadas.

Antes de 1980, todos os especialistas na técnica viviam em Israel e treinavam seguindo a Associação Israelense de Krav Maga. Na década de 1980, Lichtenfeld começou a treinar seus alunos mais próximos para levá-la à arena internacional. Hoje, o Krav Maga é disseminado pelo mundo todo.

Krav Maga no Brasil

Kobi Lichtenstein, um dos primeiros alunos civis de Imi Lichtenfeld, começou a treinar ainda menino. Lichtenfeld o indicou para disseminar o sistema na América do Sul. Em 1990, o aluno, hoje conhecido como Grão-mestre Kobi, o trouxe para o Brasil. O atual crescimento do Krav Maga no País se deve muito ao fato de a população viver refém da violência. Esta técnica oferece as ferramentas para a pessoa não viver com tanto medo e poder, eventualmente, se defender.

O Grão-mestre é 8º dan e presidente da Federação Sul-Americana de Krav Maga. Um de seus objetivos é preservá-lo da forma que lhe foi ensinado por seu mestre, em Israel. Com sede do Rio de Janeiro, mestre Kobi ensina Krav Maga e qualifica instrutores que ensinam no Brasil e na América Latina. Assim como Imi, ele prepara a próxima geração. “Não formo instrutores, mas educadores” declara mestre Kobi. “O processo de formação exige anos de treinamento, aulas de anatomia, fisiologia, primeiros socorros, filosofia e a história do Estado de Israel. De dois em dois anos, levamos delegações para Israel, para conhecer o berço do Krav Maga, para desmistificar as inverdades que a mídia mostra, e conhecer como os israelenses convivem com as diferenças. Os grupos saem do Brasil achando que vão a um país violento e voltam entendendo que violento é o país em que vivemos”.

Com quatro livros lançados em português, várias medalhas conferidas pelas autoridades brasileiras – Pedro Ernesto, Tiradentes, Mérito Legislativo e outras, o Krav Maga no Brasil tornou-se referência de defesa pessoal. O Krav Maga Brasil é ativo também no treinamento de corporações militares e policiais, como por exemplo, as unidades contra o terror que atuaram nas últimas Olimpíadas.

“Além da própria técnica”, declara Mestre Kobi, “as aulas de Krav Maga mostram uma outra forma de ver a vida, em que não importa o tamanho da ameaça, sempre é possível se defender, sobreviver à ameaça, assim como o Povo Judeu sobreviveu, assim como Israel sobrevive e ainda cresce, com qualidade de vida e respeito ao próximo”.