Morashá
AGUARDANDO OS FERIDOS Foto Ilustrativa

AGUARDANDO OS FERIDOS

Quando um homem bomba se auto-explode em Jerusalém. focp sabemdo dentro de segundo. Ando com dois bipes e um celular, mesmo na cama.

Edição 38 - Setembro de 2002


Quase sempre, ao volante de meu próprio carro, chego ao hospital antes das primeiras ambulâncias, mesmo se estiver dormindo ao receber a primeira ligação.

As sirenas cantam, estridentes, à medida que as ambulâncias, uma após a outra, param na praça principal do Hospital Universitário Hadassah. Espero diante delas, com o coração querendo saltar do peito, de pavor. Quando as portas se abrem, par a par, meu maior temor é que um de meus quatro filhos ou de um dos vizinhos lá esteja deitado, entre as vítimas do terrorismo, tantas das quais são apenas crianças.

Nossos inimigos escolhem seus alvos visando mutilar nossos jovens. Atacam em pizzarias, ônibus escolares, sorveterias. Os paramédicos tomam suas próprias decisões rápidas no campo: os pacientes em estado mais grave são trazidos para o Hospital Hadassah, o único centro de traumatologia de nível 1 na região do Vale do Jordão até Beersheva. Sou o responsável por essa unidade. Cabe-me em primeiro lugar fazer a triagem, avaliando no ato qual o tratamento que cada paciente irá receber: ser levado, às pressas, para a mesa de trauma com uma dúzia dos melhores especialistas a rodeá-lo, ser transportado na maca para o centro cirúrgico ou trazido para a sala do pronto-socorro para o atendimento de praxe nas emergências. Ouço o relato dos paramédicos, olho os pacientes e toco-os com minhas mãos. Minha especialização médica em Israel e nos Estados Unidos, anos de experiência, intuição e, muitas vezes, a mão do Todo-Poderoso – que é algo que, em Jerusalém, não temos constrangimento algum em admitir – ajudam-me a tomar essas decisões de vida ou morte. Os desafios médicos são de apavorar. 

As vítimas com ferimentos por deslocamento de ar causado pelas explosões podem parecer ilesas, por fora, mas podem estar sendo consumidas, por dentro. Há várias semanas, agachei-me para examinar uma moça, jovem, linda, chamada Shiri Nagari, ainda no estacionamento do Hospital. Perguntei-lhe como se sentia e ela respondeu que estava bem. Mas percebi que havia algo de errado com ela. Estava-se apagando. Dei ordens para a entubarem, imediatamente, abrindo uma via respiratória. Alguns de meus colegas eram da opinião que devíamos dedicar-nos, primeiro, aos pacientes com ferimentos mais visíveis. Mas sua radiografia de tórax confirmou o meu palpite: uma borboletinha branca sobre o fundo negro. Os pulmões de Shiri haviam explodido. A mesma onda forte de ar que estoura nossos tímpanos pode comprimir o ar em nossos pulmões e projetá-lo, destruindo os órgãos da cavidade abdominal. Três fortes ondas de choque causam dano letal quando uma bomba explode em ambiente fechado. Rapidamente despachamos Shiri para a sala de cirurgia da unidade de trauma, sempre vazia à espera das emergências, e a abrimos: sangue no tórax e no abdome, o fígado dilacerado. A despeito de todo o sangue que lhe bombeamos, ela não conseguiu sobreviver. Tenho 52 anos e, como a maioria dos israelenses, também servi o exército. Já vi o que me tocava ver em lesões causadas por tanques, em tipos implacáveis de câncer e em estragos causados por acidentes de trânsito.

A morte de Shiri foi a primeira vez em que chorei ao perder um paciente.

Tenho horror de ter que dar a notícia aos pais do paciente, mas isto também é parte de minha obrigação. Até mesmo os anúncios menos terríveis são difíceis. Recentemente, após um ataque terrorista em uma feira livre, em Jerusalém, tive que informar à esposa de uma vítima que tínhamos amputado a perna dele. A mulher ficou enfurecida. Já estou familiarizado com esse tipo de raiva. Passo o tempo todo controlando a minha própria por não conseguir desencantar um milagre para cada paciente. As lesões causadas por concussões, esses choques violentos, são apenas uma parte do dano causado pelas explosões urbanas. 

Temos tratado de lesões no cérebro, pulmões, ossos e coração causadas por pregos, dardos e mancais de esfera embutidos nas bombas de alta velocidade.

Adi Hudja, de apenas 14 anos, tinha mais de 40 objetos de metal dentro de suas pernas após a explosão suicida na Ben Yehuda, em dezembro passado. A hemorragia não parava, com tantos ferimentos. Ainda no local do atentado, tivemos a idéia de experimentar um coagulante para hemofílicos que ainda não recebeu a aprovação do FDA dos Estados Unidos e que certamente não será aprovado para centros de trauma. Um vidro pequeno do produto custa US$10 mil, mas funcionou. Passaram-se seis meses e a garota está fazendo fisioterapia três vezes por semana, no Centro de Reabilitação Monte Scopus, do Hadassah, e está reaprendendo a andar. No próximo ano, talvez já possa voltar a freqüentar as aulas. Ela tem a mesma idade que uma das minhas filhas. 

O relógio bate as horas

Independentemente do grau de sofisticação do atendimento médico, a rapidez conta muito. A maioria dos milhares de procedimentos que nós, cirurgiões do meu departamento, realizamos anualmente são eletivos, mas em trauma, a história é outra. Nossa enfermeira-chefe do setor de trauma-tologia, Etti Ben Yaakov, sempre se refere à “hora de ouro” que temos para salvar a vida de nossos pacientes. 

Ela está certa. 

O relógio conta o tempo desde que se ouve o som obsceno da explosão. No centro de trauma, conto com uma equipe fora de série de médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório. Quase todas as vítimas de explosões suicidas necessitam de atendimento multidisciplinar.

Temos que decidir quem sai na frente: o neurocirurgião, o cirurgião vascular, o cirurgião geral, o cirurgião ortopédico ou o especialista em cirurgia da face?

Mesmo no meio da noite, médicos, enfermeiros e técnicos e a equipe de limpeza chegam ao hospital sem sequer terem sido chamados. 

Quem fará a anestesia? Várias mãos se levantam: toda a equipe do centro cirúrgico está pronta para um plantão fora da escala.

Todas as decisões que tomo são fundamentadas na minha crença visceral de que todos os pacientes querem viver. Às vezes este credo me força a tentar o que chamamos de cirurgias heróicas, quando tudo já parece perdido.

Em outubro de 2000, Shimon Ohana, um oficial da polícia de fronteiras, de 18 anos, foi dado como morto, ainda em campo. Mas eu pedi ao motorista da ambulância que o trouxesse ao hospital. Algumas decisões são difíceis de serem tomadas no local da ocorrência. Tirei o pano que o cobria, abrimos a sua cavidade torácica e começamos a trabalhar. Trouxemo-lo de volta à vida, mas ele ficou em coma durante 17 dias. 

Por fim, acordou.

Hoje, ele é um rapaz perfeitamente normal que amestra cães e adora computação. Ele vive em Beersheva, mas vem com freqüência ao Hospital Hadassah para acompanhamento de seu tratamento ou para servir de estímulo aos nossos outros pacientes. Não consigo resistir e o abraço, apertado: ele me faz lembrar, continuamente, que não podemos perder as esperanças.

Todos são tratados da mesma forma

As ambulâncias enfileiradas trazem, inevitavelmente, uma percentagem razoável de pacientes árabes.

Não podemos distinguir se são os perpetradores ou as vítimas. E mesmo se pudéssemos, não faria diferença alguma: todos os que entram no pátio do Hospital Hadassah são tratados da mesma forma.

E, pois é, já operei terroristas.

Certa vez, fui acordado às 2 da madrugada, num Shabat, para realizar uma cirurgia de emergência em um terrorista que tinha sido ferido enquanto era cercado e preso. Eu já tinha visto os resultados pavorosos de suas explosões no ônibus. 

Antes de qualquer outra coisa, todos – amigos, visitantes e até mesmo pacientes – querem saber como me sinto ao usar minha especialização médica para salvar a vida desses assassinos em massa.

Pelo fato de eu ser médico, de ser um judeu fervoroso, um ser humano, eu jamais deixaria um paciente morrer se o pudesse salvar. Mas este salvar vidas é mais do que uma exigência da profissão de médico: é uma missão. 

Ao tratar dos orifícios no tórax e abdome deles, estou dando um atestado de que não sou como essas forças do mal que querem mergulhar este país em sangue. 

Será que eles entendem? Não tenho a menor dúvida de que sim. Eles me agradecem. Eles me olham de forma diferente. Eu e o meu povo já não somos mais os demônios pintados em sua vil propaganda. E eles compreendem, subitamente, aquilo que as mulheres americanas da organização feminina Hadassah – que fundaram nosso hospital e a maioria dos hospitais e ambulatórios desta terra, sem fazer distinção entre raça ou credo – entenderam há 90 anos.

O lema do Hadassah foi tirado das palavras do profeta Jeremias, em seu clamor: “Cura e salva, Senhor, o Teu povo”.

A cura de todos os povos é a única forma de se salvar o futuro desta região.


Traduzido por Lilia Wachsmann com permissão do Dr. Avraham Rivkind é chefe do departamento de cirurgia geral e da unidade de traumatologia do Hospital Universitário Hadassah, em Jerusalém
Publicado no The Chicago Tribune,
em 14 de julho de 2002
Direitos autorais (c) 2002, Chicago Tribune.

---

Ela se foi para sempre...

Na terça-feira, 18/06/02, Shiri Nagari saiu de casa, em Guiló, subúrbio de Jerusalém, para ir ao trabalho. Estava, temporariamente, trabalhando em um banco onde pretendia ficar até o início do próximo ano letivo, quando entraria para a faculdade. Perdeu o ônibus que sempre tomava, mas pegou uma carona com a mãe, que saía de carro para levar o filho menor para a escola. Deixaram Shiri no meio do caminho e ela tomou o ônibus que perdera, naquela manhã fatídica.

Na parada seguinte, um terrorista suicida subiu no ônibus e, logo depois, fez detonar uma potente bomba que trazia numa sacola. O ônibus, repleto de escolares e pessoas que se dirigiam ao trabalho, voou pelos ares. O teto ficou destampado como uma lata de sardinha. As testemunhas oculares descreveram a cena atroz – uma explosão sem tamanho, pedaços do ônibus, partes dos corpos dos passageiros espalhadas por todo lado. Shiri era muito especial. Parecia irradiar uma qualidade espiritual difícil de se definir. Era a personificação da inocência e da beleza. Desde criança conseguia atrair as pessoas por sua beleza tão natural. Nunca cortou os cabelos e sua linda e longa trança dourada se tornou sua marca pessoal.

Adorava rir e fazia com que os outros rissem com ela. Adorava dançar e sabia aproveitar as pequenas coisas da vida. Tinha o talento especial de ver bondade e beleza em todos os que conhecia e fazia amigos em qualquer lugar. Era o reflexo do ambiente alegre e vibrante em que crescera, em casa de seus pais. Sempre cheia de vida, cantava e compunha suas próprias músicas. Uma atriz nata, deliciava os familiares e amigos com suas improvisações e descrições espontâneas e vívidas. Escrevia poemas. Adorava nadar. E, mais do que tudo, era conhecida por seus elevados padrões morais e pela lealdade incondicional aos valores da educação religiosa que recebeu de seus pais. 

Durante o serviço militar, Shiri serviu como instrutora e trabalhava com jovens evadidos das escolas. Passava horas sentada, discutindo com eles seus problemas. Esse período foi a primeira vez em que se separou de casa e da família, começando a desenvolver sua independência. Aquela garotinha religiosa, frágil, tornou-se moça forte, resoluta e independente, apesar de sua aparência de adolescente.

Shiri pretendia começar os estudos universitários na Universidade Hebraica de Jerusalém, em outubro próximo. O suicida-bomba que matou Shiri, naquela manhã fatídica de 18 de junho, destruiu, de um golpe só, todas as promessas que o futuro guardava para nossa Shiri. Ela não voltará a cantar, ela nunca se casará nem terá filhos. Nunca mais ouviremos seu riso. Ela se foi para sempre.

Lilia wachsmann