Morashá
Relembrando a Kristallnacht Foto Ilustrativa

Relembrando a Kristallnacht

Para o Povo Judeu, o 70º aniversário da Kristallnacht foi uma celebração trágica, pois a noite de 9 de novembro de 1938 marcou o início do período de trevas durante o qual seis milhões de judeus seriam assassinados pelos nazistas.

Edição 63 - Dezembro de 2008


Naquela noite fatídica, quando viram os céus iluminados pelas labaredas provenientes das sinagogas e rolos da Torá que queimavam, e ouviram o barulho ensurdecedor de milhares de vidraças estilhaçadas, os judeus se convenceram de que não havia mais lugar para eles na Alemanha do Terceiro Reich. Até então, apesar das discriminações legais impostas a partir de 1935, da violência e humilhações às quais eram submetidos, muitos deles ainda se iludiam, acreditando que, de uma forma ou de outra, podiam continuar vivendo na Alemanha. Mas, naquela noite, o monstro nazista revelara seu rosto.

A opressão política e econômica dera lugar a uma perseguição e violência brutais, organizadas e abertamente implantadas pelo Estado. Ninguém mais tinha ilusões - os nazistas estavam mais do que prontos para derramar o sangue judeu.

Na Alemanha, a noite foi chamada de Novemberpogrom (o pogrom de novembro) ou Reichspogromnacht (a noite do pogrom do Reich), e o termo Kristallnacht era uma cínica referência nazista à suposta riqueza judaica, simbolizada pelo significado literal, "Noite dos Cristais". O devastador pogrom passou para a História sob o nome Kristallnacht, no entanto, hoje, a expressão é mais comumente traduzida como a "Noite das Vidraças Estilhaçadas" ou dos "Cristais Quebrados", em referência direta ao número não relatado de vidraças de sinagogas, lojas e residências judaicas estilhaçadas durante os ataques. Pois, durante várias horas, turbas violentas - compostas por oficiais e tropas de assalto nazistas, membros da Juventude Hitlerista vestidos à paisana e civis - percorreram, enlouquecidas, as ruas das cidades alemãs e austríacas, atacando os judeus e vandalizando suas propriedades.

Para jamais esquecer

Para que o Povo Judeu e o mundo, em geral, relembrassem os terríveis eventos do dia 9 de novembro de 1938 em Israel, o Ministro Itzhak Herzog, da pasta de Assuntos da Diáspora, e os grãos Rabinos-chefes de Israel Shlomo Amar e Yona Metzger emitiram uma declaração conjunta que dizia: "O objetivo nazista era escurecer os olhos de Israel e apagar 'a luz do mundo', a luz da Torá e das orações que irradiavam das sinagogas e das midrashot. Assim sendo, conclamamos todo o povo de Israel, seja no Estado de Israel, seja na Diáspora, a acender velas e deixar acesas as luzes das sinagogas e dos centros de estudos, para recordar e fazer lembrar às gerações futuras que não podemos jamais esquecer a crueldade e as terríveis ações cometidas contra nós".

Durante a noite do 70º aniversário, em toda a Europa, permaneceram acesas as luzes das sinagogas e de milhares de velas e lamparinas. Em Viena, as velas arderam noite adentro no Memorial do Holocausto, na Judenplatz, a Praça dos Judeus, e os líderes religiosos judeus e cristãos compareceram a uma cerimônia na sinagoga central da cidade, onde parlamentares e membros da comunidade judaica denunciaram a contribuição da Áustria à "explosão da violência". Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel rendeu tributo ao evento, sinagoga de Rykestrasse, em Berlim. Em seu discurso, Angela Merkel afirmou que "os pogroms na Alemanha e na Áustria não foram o primeiro capítulo do anti-semitismo nazista, mas abriram as portas para a catástrofe das catástrofes. O mundo não pode calar diante do anti-semitismo atual, seja este proveniente da extrema-direita ou dos que questionam o direito de Israel à existência soberana".

Além da chanceler alemã, pensadores e líderes judeus lançaram um alerta ao mundo: todo ser humano tem a obrigação de se posicionar contra o mal e não permanecer calado e indiferente diante das injustiças, relembrando que, sem a tácita aprovação de grande parte da Europa ocupada, o Holocausto jamais alcançaria tamanha extensão e proporção.

O "ano de decisão"

Na realidade, os acontecimentos da noite de 9 de novembro de 1938 foram o desfecho da primeira fase da perseguição nazista contra os judeus. Em muitos de seus discursos e em seu livro Mein Kampf, Hitler revelara suas intenções em relação aos judeus, afirmando que usaria de violência contra os mesmos. Em conversa particular com o major Josef Hell, em 1922, chegou a declarar que, se um dia chegasse ao poder, seu objetivo seria uma Alemanha Jüdenrein - livre de judeus e que sua tarefa prioritária seria "o extermínio de judeus".

Assim que Hitler assumiu o poder, na Alemanha de 1933, o ataque sistemático aos judeus era líquido e certo, e eles logo se tornaram alvo de todo tipo de violência física e psicológica, assim como pressões econômicas, sociais e políticas. Já em 1935, após serem decretadas as Leis de Nuremberg privando os judeus de todos os seus direitos básicos, o ditador nazista transmitia, em seus discursos, a idéia da "necessidade" de uma "solução final para o problema judaico". Até 1938, considerações de ordem política haviam freado suas intenções. Estas, no entanto, nesse mesmo ano, já tinham perdido a importância, uma vez que a Alemanha já se rearmara e sua economia retomara o ímpeto passado. Ademais, naquele ano, o expansionismo nazista alavancou-se além-fronteira, acelerando os preparativos internos para a guerra iminente.

No tocante aos judeus, 1938 é denominado em documento alemão de "o ano da decisão", pois introduziu uma nova fase da política nazista. Após cinco anos de governo nazista, o poder econômico dos judeus alemães havia sido destruído e mais de 200 mil já haviam partido. Mas, com a anexação da Áustria à Alemanha - na ação que entrou para a História como o Anschluss - em março daquele mesmo ano, cerca de 200 mil judeus austríacos foram incorporados ao Terceiro Reich. O contingente judaico era numericamente equivalente ao total dos que haviam sido forçados a deixar o país, em anos anteriores. Para o ditador, o "problema judaico continuava sem solução", mas ele estava pronto a adotar as medidas necessárias para solucioná-lo.

Internacionalmente, o mundo assistia, inerte, o desenrolar dos acontecimentos na Alemanha. A situação dos judeus, que vinham sendo forçados a deixar o Terceiro Reich, tornara-se tão desesperadora que Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, convocou uma conferência internacional, em julho de 1938, reunida em Evian-les-Bains, em busca de uma solução. A iniciativa, aliás, foi muito bem recebida pelos judeus, que ainda acreditavam que o mundo tinha intenção de ajudá-los. No entanto, nenhuma ajuda se viu. Apesar de manifestarem sua "simpatia", nenhum dos países abriu suas portas com o intento de abrigá-los. Para a Alemanha nazista, aquela reação era a legitimação de sua afirmação de que "ninguém os queria" e "ninguém, de fato, se importava com o seu destino". Hitler entendeu prontamente que a política de emigração forçada não lhe traria a sonhada Alemanha Jüdenrein - pois não havia para onde mandar os judeus. Cabia ao Reich, portanto, encontrar outra "solução", algo "definitivo".

Hitler e seus comparsas apenas necessitavam de um pretexto para levar a outro patamar sua "política" judaica. Este acabou surgindo no dia 7 de novembro, quando Herschel Grynszpan, um jovem refugiado judeu que vivia em Paris, entrou armado na embaixada alemã e atirou em Ernst von Rath, terceiro-secretário. Hoje sabemos que o jovem, de apenas 17 anos, tomara aquela atitude "incentivado" por agentes alemães. Seu gesto desesperado visava chamar a atenção do mundo sobre a situação de sua família que, assim como outros milhares de judeus poloneses que viviam na Alemanha, havia sido deportada em outubro de 1938 para a região de Zbaszyn, na Polônia. Como o governo polonês se recusara a reconhecer sua cidadania e, conseqüentemente, a aceitá-los de volta, eles viviam amontoados em estábulos, sem alimento ou assistência. Recebendo um cartão postal do pai que lhe relatava a situação em que se encontravam, o jovem se desesperara e, ajudado por um "empurrão" alemão, armara seu plano.

O pogrom da "Noite dos Cristais" não foi, absolutamente, "uma reação espontânea aos acontecimentos na embaixada alemã, em Paris", como declarou à mídia internacional Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, mas uma violência orquestrada com surpreendente precisão.

Consta que quando, no dia 9, morre von Rath, Hitler teria dito a Goebbels: "As tropas de assalto devem ter permissão para agir". Ao que o ministro teria respondido: "Os distúrbios não deverão ser contidos, caso se intensifiquem e se espalhem para outras regiões, além de Berlim". Naquela mesma noite, em Munique, durante uma reunião de líderes nazistas, Goebbels comunica ter chegado o momento de atacar todos os judeus. Imediatamente os líderes nazistas despacham instruções para seus homens. As ordens determinavam que as tropas nazistas fomentassem e participassem da violência, mas à paisana, a fim de que a ação parecesse um movimento espontâneo, "uma reação indignada" do povo alemão à morte do diplomata. Não uma violência orquestrada, em seus mínimos detalhes, pela cúpula nazista...

Dentro de poucas horas, irromperam tumultos alucinados em todo o território alemão e austríaco. A violência matou 91 judeus, milhares ficaram feridos e desabrigados. Os danos materiais foram imensos: saquearam 7.500 lojas, destruíram cemitérios judaicos e mais de mil sinagogas. Oficiais das tropas de assalto deram ordens para incendiar todas as sinagogas do país, enquanto que os bombeiros, tendo recebido ordens de deixar o fogo consumir os alvos, mas evitar que se espalhasse pelos demais prédios "arianos", foram meros espectadores, impávidos. Os alemães e austríacos que não participaram da violência assistiram, sem qualquer reação, enquanto as multidões atacavam os judeus e suas propriedades. Ainda que desaprovassem o que viam, optaram por se calar. Chamados pelo historiador Daniel Jonah Goldhagen de "os carrascos voluntários de Hitler" - nome de seu livro, esta maioria silenciosa permitiu ao Holocausto chegar a tão inconcebível dimensão.

Os pogroms acabaram sendo controlados, por interferência de Heinrich Himmler, que determinou às SS e às forças policiais sob seu comando conter a ampliação da violência e evitar as pilhagens em grande escala.

Himmler mandou prender 30 mil judeus, enviando-os aos campos de concentração de Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen. Dez mil não sairiam com vida; os demais foram libertados nos meses seguintes, sob a condição de deixar imediatamente a Alemanha.

Os acontecimentos da "Noite dos Cristais" foram usados como pretexto para promulgar mais medidas anti-judaicas "legais"; entre elas, a proibição de crianças judias freqüentarem escolas alemãs. Intensificou-se o "processo de arianização", um eufemismo para o seqüestro e roubo de propriedades judaicas, e criou-se um Escritório Central de Emigração Judaica para "estimular" os judeus a deixarem o país. Em um artigo publicado em 11 de novembro, Goebbels referiu-se aos eventos ocorridos entre os dias 9 e 10 como "manifestação dos instintos saudáveis do povo alemão", explicando: "O povo alemão é anti-semita".

Os nazistas responsabilizaram os judeus pelos "distúrbios" e destruição ocorridos, determinando que a população judaica pagasse uma multa de 1 bilhão de marcos (cerca de US$ 400 milhões). Além disso, um decreto oficial anulou os pedidos de indenização por parte de judeus. Foram também anuladas as acusações contra 23 nazistas pelo assassinato de judeus. Outros quatro acusados de estupro de mulheres judias foram expulsos do partido, pois era "necessário estabelecer uma distinção" entre delitos praticados por "idealismo" e demais crimes.

Os países ocidentais ficaram chocados com o pogrom da Kristallnacht e alguns governos começaram a admitir mais refugiados em seu território. No entanto, nada de concreto foi feito e os nazistas seguiram em frente com seu plano de aniquilar o judaísmo europeu. Após o fracasso da Conferência de Evian, eles já sabiam que o destino dos judeus estava em suas mãos e que o mundo não interviria para salvá-los.

Parte da tragédia da Kristallnacht foi o fato de que apesar de ter sido a noite em que o monstro nazismo mostrou sua verdadeira face, aqueles que tinham condições, naquele então, de enfrentar e deter Hitler, optaram por não o fazer. O preço que o mundo livre teve que pagar por esta inércia voluntária foi muito caro, pois, como disse Angela Merkel na sinagoga da Rykestrasse, em Berlim, em seu discurso pelos 70 anos da "Noite dos Cristais": "Naquela noite, queimaram as sinagogas; depois, queimou toda a Alemanha; depois, toda a Europa"...

Depoimento Uma noite para jamais esquecer

"Eu me lembro de tudo". Com esta resposta objetiva e curta, Ernesto Strauss, 81 anos, sintetiza suas memórias da fatídica Kristallnacht. Ele tinha então 12 anos e vivia com os pais e um irmão em Frankfurt. Seus tios-avós maternos e paternos também moravam na cidade. Segundo Strauss, a Kristallnacht foi um marco na vida dos judeus na Alemanha. Até então, apesar de todas as dificuldades e da perseguição crescente - ele mesmo deixou de freqüentar a escola pública por causa do anti-semitismo e da discriminação que sofria por parte dos professores e alunos - havia certa normalidade no dia-a-dia dos judeus.

Sobre aquele período, Strauss ainda lembra que, quando tinha sete anos, um de seus professores, do qual ele muito gostava, tornou-se membro do Partido Nacional Socialista e, a partir daí, começou a incitar cada vez mais os alunos contra os judeus. "Um dia, apanhei tanto de toda a classe que, ao chegar em casa, disse à minha mãe que não voltaria lá. Como morávamos longe da escola judaica, a solução foi estudar na sinagoga próxima de casa. Sozinho em uma sala, eu contava com a boa vontade de um moré para aprender. Mas, foi então que a "Noite dos Cristais" desabou sobre todos nós".

"Poucos dias antes daquele 9 de novembro, nós já sentíamos no ar que algo estava por ocorrer, mas não sabíamos o que. Como acompanhávamos as notícias pela BBC, estávamos a par da morte do funcionário da Embaixada da Alemanha, em Paris. Conhecíamos o nosso governo e era claro para todos que as autoridades alemãs não perderiam a oportunidade de punir os judeus do país", lembra Strauss.

"Naquela manhã de 10 de novembro, acordamos ouvindo muito barulho e sentindo um cheiro muito forte vindo da rua. Minha mãe me disse que fosse, com muito cuidado, até a casa dos meus avós, para ver o que estava acontecendo e como eles estavam. Assim, saí do prédio onde morávamos e voltei duas horas depois, assustado com o que vira".

Ainda hoje, Strauss lembra-se perfeitamente do que viu aos 12 anos de idade. Ele viu membros da Gestapo prendendo centenas de judeus, nas redondezas de sua casa. Viu homens, mulheres e velhos sendo espancados, sangrando, insultados, sem qualquer ajuda dos transeuntes. Pelo contrário. Viu lojas sendo saqueadas, móveis sendo atirados pelas janelas, sinagogas sendo incendiadas e dezenas de livros religiosos sendo rasgados, queimados e espalhados pelas ruas, como se fossem lixo.

Mais do que tudo, no entanto, ele se lembra do momento em que retornou à sua casa e viu dois homens da Gestapo, à paisana, batendo à porta do apartamento em que viviam, procurando pelo seu pai. "Eu vi o meu pai ser preso e levado ninguém sabia para onde, sem poder fazer nada. Fiquei apenas olhando e, em seguida, peguei a minha bicicleta, saí pelas ruas e fui até a sinagoga. Ao chegar lá, também fiquei muito assustado: havia dezenas de pessoas isoladas no pátio do edifício, elas não podiam sair nem reagir sob o risco de apanhar mais ainda. Deviam ficar quietas enquanto viam o fogo se espalhar, os vidros quebrarem, os gritos aumentarem... Depois, soubemos que o que aconteceu em Frankfurt tinha-se repetido em toda a Alemanha e, com violência muito maior nas cidades menores, onde o anti-semitismo era mais virulento.

Seu pai foi um dos muitos heróis de guerra presos pela Gestapo naquela noite trágica. Juntamente com centenas de pessoas, ele foi levado para um estádio onde estavam sendo colocados todos os detidos. Sua mãe, ansiosa por notícias, dirigiu-se ao local e voltou totalmente ensangüentada, como muitas outras que haviam ido em busca de informações sobre os maridos e familiares presos.

"De lá, meu pai foi enviado para o campo de Buchenwald, onde ficou durante 30 dias. Ele foi solto porque o governo determinou que fossem libertados os que tinham sido condecorados, com a Grã Cruz de Ferro. Quando chegou em casa, meu pai estava em péssimas condições de saúde. Ele nos disse o que todos já intuíamos: não seria mais possível continuar na Alemanha. Quem quisesse viver, teria que partir o mais breve, antes que fosse tarde demais".

"Saímos de Frankfurt carregando apenas uma faca, uma colher e um garfo, cada um. Era somente isso que o governo permitia. Todos os bens tiveram que ser vendidos aos alemães a preços irrisórios. Mas, ainda assim, conseguimos partir e tivemos um destino muito melhor do que o de milhões de judeus que ficaram na Europa. Em 1941, conseguimos trazer minha avó materna para o Brasil...".