Morashá
MUSEU DO HOLOCAUSTO EM WASHINGTON Foto Ilustrativa

MUSEU DO HOLOCAUSTO EM WASHINGTON

Inaugurado em 1993, na ocasião do cinqüentenário do Levante do Gueto de Varsóvia, o Museu do Holocausto assume um grande desafio: o de lembrar e imortalizar os seis milhões de judeus e as outras vítimas do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial.


Ciganos, poloneses, homossexuais, portadores de defeitos físicos ou doenças mentais, dissidentes políticos e religiosos, mortos durante o mais terrível dos acontecimentos de nosso tempo: o Holocausto.

O museu foi realizado para contar e transmitir à América do Norte e ao mundo esta história e a lição moral que a acompanha.

À semelhança de outros museus históricos, o Museu do Holocausto é um veículo de educação. Sua principal função é de humanidade.

O museu reconstrói a história do Holocausto através de vários meios visuais, como a organização de objetos, e a apresentação de material de documentação fotográfico e cinematográfico.

Possui a mais ampla e variada coleção de objetos relacionados ao Holocausto do mundo, mas mesmo assim, é um museu conceitual, porque sua finalidade é transmitir idéias, informações complexas e conhecimento, e não meramente exibir objetos.

Não tem a pretensão de questionar "por quê" aconteceu mas tenta responder minuciosamente "como" aconteceu.

Para calar definitivamente as declarações dos revisionistas anti-semitas que pretendem "provar" que o Holocausto não aconteceu, em suas exposições o museu se atém rigorosamente ao material original e de proveniência certa.

O impacto emocional da visita ao museu faz com que o visitante se questione, identifique-se com as vítimas, avalie os criminosos nazistas e seus muitos aliados e reflita sobre as testemunhas que presenciaram os acontecimentos com atitudes que vão desde uma conivente passividade, até o heroísmo dos que arriscaram suas vidas para salvar judeus.

Os nazistas chamavam o extermínio dos judeus de "a Solução Final". A expressão é apenas um eufemismo. Seu objetivo era a total eliminação de todo o sangue judeu.

A Segunda Guerra Mundial teve como mais uma frente de batalha a "guerra contra os judeus" e a destruição planejada de todo um povo. Esta guerra quase foi vencida pelos alemães, já que na Europa dois judeus em cada três estavam mortos, e na Polônia, na Lituânia, na Letônia e na Checoslováquia a proporção era de nove sobre dez. Se os políticos aliados tivessem compreendido a dupla natureza da guerra que ocorreu entre 1939 e 1945, certamente sua atitude com as vítimas do Holocausto teria sido diferente e muitas destas teriam sido poupadas.

Preservar a memória é o único mandamento e o último pedido dos que morreram, e soa como um imperativo para os que sobreviveram: lembrar, não deixar que o mundo esqueça, para que não aconteça novamente.

Israel Ba’al Shem Tov, fundador do chassidismo, dizia: "No esquecimento encontra-se a estrada do exílio. Na lembrança, a semente da redenção."

Elie Wiesel sugere para poder conviver com os espectros do passado que: "No mundo do absurdo, devemos inventar a razão, devemos criar a beleza, do nada. E como no mundo existe o assassinato,.. e sabemos o quão inútil pode parecer nossa luta, devemos combater o homicídio e o absurdo e dar um sentido à nossa batalha, se não à nossa esperança".

O pensamento ortodoxo judeu abraça a lógica existencialista de Wiesel e lhe acrescenta uma conotação teológica; em um mundo em que D’us e a humanidade são excluídos, devemos reencontrar a presença divina e restaurar a idéia de uma humanidade criada à imagem divina. Porque renegar o divino renega a criação... e daí até a destruição é apenas um passo.

A iniciativa da criação de um Museu do Holocausto nos Estados Unidos foi do presidente Jimmy Carter. Em 1989 foi nomeado diretor do museu Yeshaiahu Weinberg, realizador do Museu da Diáspora, em Israel, que levou adiante a idéia de um museu "que conte a história", dando um enfoque único ao museu do Holocausto.

Localizado à pequena distância dos monumentos de Washington, que celebram as liberdades democráticas, o Museu do Holocausto reflete o oposto desses valores: a desintegração da civilização e a perversão das conquistas da tecnologia.

Situado em um edifício projetado por James Ingo Freed, o museu é construído sobre terreno público federal, com fundos doados pelo povo americano e é uma instituição americana.

Mesmo que a tragédia não tenha acontecido em território americano, o cerne da mensagem que o museu transmite é muito familiar ao publico americano: reforça os valores da inalienabilidade dos direitos de cada um, da igualdade protegida por lei e do respeito à vida.

O museu é mais do que um memorial ao genocídio de judeus. É uma espécie de legado, talvez um desafio à questão central da sociedade democrática: a responsabilidade do indivíduo numa sociedade livre e a responsabilidade de uma nação comprometida com a democracia quando são colocadas em risco

as liberdades humanas.
A construção do edifício se vale de metáforas arquitetônicas e de reminiscências da experiência histórica. As quatro torres na parte norte lembram as torres de observação dos campos da morte. A forma triangular que se repete na divisão dos espaços visa lembrar que os prisioneiros eram marcados com uma variedade de triângulos para definir seu estado. O hall central do museu, Hall of Witness, ou seja, o Pavilhão do Testemunho, é caracterizado por sua distorção e por uma posição invertida do céu e da luz: uma fenda de vidro se estende pelo comprimento do piso, para expressar, através da arquitetura, a ruptura da civilização durante o Holocausto. O edifício é pesado. Sugere um mundo fechado e oprimente, contorcido pela angústia. ngulos, fissuras, espaços delimitados parecem cercar a mente do visitante.

Sugere uma rampa de ferro que evoca os trilhos dos trens e leva a um arco representando os portões do campo de Auschwitz.

A visita se inicia na escuridão de um elevador, que conduz ao quarto andar, enquanto se ouvem as vozes dos soldados americanos que contam ter tropeçado nos horrores dos campos. A porta do elevador se abre e o visitante vê, à sua frente, uma enorme fotografia de corpos carbonizados empilhados com troncos de madeira. De lá em diante, a exposição principal, "The Holocaust", estende-se por três andares, descrevendo detalhadamente a vida na Europa desde a década de trinta, antes do Holocausto, até 1945. São apresentados objetos, documentos, fotografias, filmes, depoimentos de testemunhas oculares. Numa das torres do museu, as paredes são revestidas pelas fotografias de uma comunidade da Lituânia em que são documentados 900 anos de vida judaica. Esta comunidade foi totalmente arrasada com armas de fogo em apenas dois dias.

Na entrada do museu, o visitante recebe uma "carteira de identidade" com o nome e a história de uma pessoa real que viveu durante o Holocausto. A visita em companhia desta alma gêmea se torna personalizada e a história acaba adquirindo uma dimensão humana, que às vezes nos escapa.

Quanto ao número de seis milhões de judeus e milhões de outras vítimas é difícil compreendê-lo, em sua verdadeira proporção, e é injusto para com os mortos cujas gerações não aconteceram e nunca acontecerão.

Chorei pela minha alma gêmea, Nadine Schatz, nascida em 1930 em Boulogne-Billacourt, na França, filha de imigrantes russos, e morta em 1942 numa câmara de gás, logo após sua chegada em Auschwitz. Não sei se foi por acaso que escolhi a carteira de Nadine Schatz, cujo nome é quase igual ao meu (Adina Chammah Sakkal), ou se isto tem um significado que foge à minha compreensão.

Meu marido, cuja visita ao museu fora mais rápida que a minha, também encontrou uma alma gêmea, mas em carne e osso: estava aguardando-me no hall central e consolava um velho em lagrimas que mostrava um número tatuado no braço. Era um sobrevivente que estava com um grupo vindo de Toronto. Interrompera sua visita porque não agüentara a emoção e o peso da memória. Sentia-se culpado por não resistir, justificava-se com sua idade avançada, com sua saúde frágil, por ser diabético e cardíaco.

Como escreveu o escritor Primo Levi, eterno refém de suas memórias, "Quem tenha sido vítima de tortura, nunca mais conseguirá sentir-se à vontade no mundo". Exatamente como esse nosso amigo.

Além da exposição permanente, duas galerias mostram exibições especiais, como a linda "Remember the Children: Daniel’s Story". Daniel é um menino imaginário que cresce na Alemanha nazista. As várias fases de sua vida são uma história do Holocausto sob a perspectiva de uma criança. Ele simboliza um milhão e meio de pequenas vítimas.

As outras exposições temporárias são, atualmente, "As olimpíadas nazistas de Berlim de 1936" que examina as polêmicas levantadas por essa olimpíada e sua exploração para fins de propaganda nazista, e "Schindler", sobre a história de Oskar Shindler.

Como o museu se propõe a preservar a memória, no segundo andar tem o solene "Pavilhão da Lembrança", "Hall of Remembrance", que com sua tocha eterna é o memorial da nação às vítimas do Holocausto e serve tanto para a meditação individual, como para a realização de cerimônias.

No andar térreo há uma parede chamada "Children Tile Wall" ou "Wall of Remembrance": é uma parede formada por mais de três mil tijolos pintados à mão por alunos das escolas americanas, em memória do milhão e meio de crianças mortas no Holocausto.

A instituição do museu oferece facilidades para qualquer público interessado em receber maiores informações.

No "Learning Center", totalmente informatizado, o visitante tem acesso a dados, pesquisas, textos, gráficos, mapas, filmes com o simples uso de um computador. O "Resource Center for Educators" fornece material e serviços para educadores e estudantes.

Enfim o "Holocaust Research Institute" é um centro para estudo e pesquisas acadêmicos que inclui uma vasta livraria, um rico arquivo, fotos, filmes, uma videoteca com depoimento pessoais de sobreviventes, perpetradores e libertadores. Nos arquivos o material é preservado, organizado e catalogado. É colocado à disposição dos pesquisadores tanto material original quanto cópias provenientes de países da Europa Oriental, anteriormente inacessíveis aos estudiosos do Ocidente.

Os arquivos incluem um registro de mais de setenta mil nomes de sobreviventes que se estabeleceram, depois da guerra, nos Estados Unidos, com suas cidades de origem, campos de encarceramento, local de libertação, e comunidade de reassentamento.

Testemunhando o mal absoluto que surgiu no centro do Ocidente, no meio do século vinte, o Museu do Holocausto dos Estados Unidos nos lembra quão frágil é a democracia e quão vigilantes nos devemos manter na defesa de nossos valores humanos de dignidade individual, justiça social e direitos civis.

Bibliografia

Michael Berenbaum: "The World Must Know: The History of the Holocaust as told in the United States Holocaust Memorial Museum." Little, Brown & Co. 1993.
George Will: "The Holocaust, in Black and White". International Herald Tribune, April, 22, 1993.