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Judeus de Kiev: do séc. 8  à Revolução Russa de 1917 KIEV, FINAL DO SÉC. 19

Judeus de Kiev: do séc. 8 à Revolução Russa de 1917

Esta não é a primeira vez em que a Ucrânia se vê forçada a enfrentar a Rússia, tendo Kiev como palco de sangrentas lutas. Tampouco é a primeira vez em que os judeus vivem dias de terror, pois lá, desde seu estabelecimento em solo ucraniano, muito sangue judeu já foi derramado.  

Edição 114 - Abril de 2022


Um século antes do estabelecimento da nação ucraniana, no século 9, já havia judeus em Kiev. A história do Judaísmo ucraniano, em geral, e da comunidade de Kiev, em particular, é longa e marcada por muito sofrimento, pois a região sempre foi palco de profundo e endêmico antissemitismo. Os judeus eram alvo de ódio, segregação e discriminação, incessantes pogroms e massacres, mas, apesar de todo o sofrimento, a Ucrânia sempre teve um lugar especial no coração judaico. Foi lá que nasceu o Chassidismo, lá viveram grandes Rebes, lá floresceram a cultura iídiche e o Sionismo.

O Principado de Kiev

A história dos judeus de Kiev tem início com a fundação da cidade, no século 8. Sua localização estratégica, na confluência dos rios Dnieper e Pripyat e no cruzamento das principais rotas comerciais Norte-Sul e Leste-Oeste, sempre atraiu comerciante judeus.

No século 9, os vareguesda Escandinávia – conhecidos como Rus’ – conquistam o território que hoje engloba três nações eslavas modernas: a Ucrânia, a então Bielorrússia (desde 1991, Belarus) e a Rússia Ocidental, lançando as bases para o Rus’ Kievana (Kyivan Rus’), o primeiro estado eslavo oriental. Em 877, os Rus’ conquistam Kyiv (Kiev) e fazem dela a capital de seu estado, Kyivan Rus’.

Uma carta encontrada na Guenizá1 do Cairo revela que já no século 10 havia judeus em Kiev, e que eles estavam em contato com outras partes do mundo judaico. Essa carta é o mais antigo documento que faz menção ao nome da cidade.

Kiev era um próspero centro comercial graças à sua localização e os habitantes judeus foram fundamentais para o desenvolvimento comercial da cidade. Temos registros de que mercadores judeus do Ocidente participavam do comércio da cidade, sendo conhecidos em fontes hebraicas como “os frequentadores da Rússia”. Antigas crônicas russas relatam que alguns judeus de Khazaria visitaram Vladimir, príncipe de Kiev, na tentativa de convertê-lo ao Judaísmo (circa 986).

Ainda no século 10 os habitantes de Kyivan Rus’ se convertem ao Cristianismo Ortodoxo. Essa conversão se tornaria crucial para a história judaica, pois essa religião é imbuída de um antijudaísmo profundo e endêmico e seu clero incitava o povo contra os judeus.

Em Kiev, no século 11, Theodosius, o abade do Mosteiro Pechersk Lavra, pregava “viver em paz com os amigos e inimigos, mas com seus próprios inimigos, não os inimigos de D’us: os judeus e os hereges”.

No século 11 e 12 é visível a dicotomia entre os interesses dos governantes e o antijudaísmo do povo. Durante o reinado do príncipe Svyatopolk II, por exemplo, os judeus eram protegidos e usufruíam de total liberdade em termos comerciais. Esse governante chegou a atribuir a alguns deles a cobrança dos impostos do principado. Mas, em 1113, logo após sua morte, o populacho atacou os judeus, ferindo e matando-os, além de queimar suas propriedades. Nos relatos do pogrom é mencionado o “Portão Judaico”. Esse foi o primeiro dos incontáveis pogroms que se sucederiam em Kiev.

Crônicas do século 12 também atestam a presença judaica na cidade. Em seus escritos, vários rabinos alemães do período fazem referência a judeus que viajam com suas mercadorias para a “Rus”. Mencionam a cidade também os relatos de viajantes judeus da época. Ainda no século 12, nas anotações de Benjamin de Tudela feitas em sua viagem da Espanha à Terra Santa (1159 ou 1163 até 1173), ele menciona “Kiov, a cidade grande”. E o rabino alemão Petachiah de Ratisbon, que documentou suas extensas viagens, também esteve em Kiev.

Domínio mongol

No início do século 13, mongóis invadem a região semeando morte e destruição. Os judeus sofrem amargamente, assim como o restante dos habitantes. Em 1223 houve a primeira tentativa, fracassada, de capturar os territórios de Rus’ Kievana. As forças mongóis voltam em 1237, lideradas por Batu, neto de Genghis Khan. Deslancham uma pesada campanha militar no território ucraniano, ocupando Kiev após três anos de luta.

“Domínio tártaro” foi o nome dado aos anos de dominação mongol na região, a dizer, 1240-1320. A devastação causada pela invasão e os altos impostos cobrados deixaram a região arrasada e as cidades em total abandono. A reconstrução de Kiev levaria décadas. O fato de que durante o domínio tártaro os judeus tivessem estado protegidos acirrou ainda mais o ódio da população cristã contra eles.

Grão-Ducado da Lituânia: 1362 – 1503

Enfraquecidos por conflitos internos e pelo domínio tártaro, os principados ucranianos ofereceram pouca resistência à hegemonia lituana. Progressivamente, a maioria das terras de Rus’ Kievana, inclusive Kiev, foi caindo em mãos da Lituânia, até que, em 1362, a cidade é anexada aoGrão-Ducado da Lituânia. Os grão-duques concedem direitos e privilégios aos judeus de seus domínios, garantindo sua vida e suas propriedades. Consequentemente, em Kiev aumenta muito o número de judeus. Muitos prosperam. Havia até alguns que arrendavam a cobrança de impostos, acirrando a “impopularidade” judaica.

Em 1386, Jogaila, grão-duque da Lituânia, desposa Edviges I, rainha da Polônia. Foi uma união de importância político-religiosa, pois, além de ter sido condicionada à conversão de Jogaila e de outros nobres lituanos ao Catolicismo, criou uma união dinástica entre a Polônia e a Lituânia.

Como sob o mando dos grão-duques lituanos os judeus gozavam de mais direitos sociais e econômicos do que os vigentes na Polônia, foi-lhes outorgada uma carta-privilégio, em 1389, assegurando os direitos dos que viviam na união dinástica. O documento garantia-lhes participação em pé de igualdade com os comerciantes cristãos e assegurava-lhes a compra de propriedades. Até o final do século 15 havia judeus ocupando importantes posições financeiras em Kiev, sendo que na corte circulavam judeus médicos, banqueiros e grandes proprietários de terras. À medida que a comunidade judaica foi prosperando e aumentando numericamente, também aumentou o número de eruditos judeus e o judaísmo floresceu.

Mas, em 1495, muda drasticamente a situação dos que vivem no Grão-Ducado da Lituânia. Esses judeussão sumariamente expulsos de Kiev, assim como do restante do Grão-Ducado. A comunidade só voltaria a se reestabelecer na cidade quando da revogação do decreto, em 1503.

Em 1569, mais um acontecimento geopolítico vai afetar o futuro da vida judaica: o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia se fundem, tornando-se uma única nação, a Primeira República da Polônia, também conhecida como a Comunidade Polaco-lituana. No final da Idade Média, milhares de judeus de várias partes da Europa Ocidental buscaram refúgio no leste da Europa. A grande maioria instalou-se nos domínios da Coroa Polonesa, que concedera aos judeus condições favoráveis ao seu assentamento, abrindo oportunidades econômicas tanto na zona rural como nas cidades onde lhes era permitido viver.

Em meados do século 17, viviam no atual território da Ucrânia 45 mil judeus e o iídiche era o idioma utilizado por todos. Eram organizados em kehilot (congregações) dirigidas por um conselho comunitário e sua vida girava em torno de suas respectivas sinagogas. Sua profunda religiosidade determinava todos os aspectos de seu cotidiano.

À medida em que os judeus prosperavam, incendiava-se o ressentimento da população cristã e repetidamente, durante os séculos 17 e 18, inúmeras cidades enviavam pedidos à Coroa para banir os judeus. Era o famoso non tolerandis Judaeis – proibição aos judeus de viver e comerciar dentro dos limites municipais.

Em Kiev, em 1619, os cristãos conseguiram que o rei Sigismund III proibisse os judeus de viver e adquirir propriedades na cidade. Tinham permissão para ir a Kiev apenas com propósitos comerciais, podendo lá permanecer um único dia em uma estalagem designada para esse fim. No entanto, esse decreto não era cumprido à risca e muitos judeus continuaram a viver na cidade sob a proteção do governador distrital e de nobres latifundiários.

Os massacres de Chmielnicki

Entre 1648 e 1667 a Polônia foi sacudida por lutas internas e externas conhecidas, na história polonesa, como “Dilúvio” (Potop, em polonês). Iniciada em 1648, uma rebelião de cossacos e camponeses ucranianos, liderada pelo chefe cossaco Bohdan Chmielnicki, alastrou-se por todo o território da atual Ucrânia. À frente de um exército de cossacos do Dnieper e de tártaros da Crimeia, Chmielnicki semeou terror e morte por toda parte. O pesadelo só chegaria ao fim em agosto do ano seguinte.

Apesar de o principal alvo serem os poloneses católicos, foi sobre os judeus que se abateu toda a sua fúria e violência. Assassinaram a maioria da população judaica que vivia no território da atual Ucrânia, incluindo a de Kiev. Nas crônicas judaicas há uma descrição da devastação e obscena brutalidade. É muito difícil determinar o número total de vítimas judias desses massacres, conhecidos entre os judeus como Gzeyres tach vetat (Malignos decretos). As crônicas judaicas dizem que foram assassinados 100 mil judeus, mas há relatos de terem sido 300 mil e mais de 300 comunidades destruídas.

A história da Ucrânia daria mais uma guinada quando Chmielnicki procurou a ajuda dos russos, que invadiram a Ucrânia. Após a ocupação russa, em 1654, os cidadãos de Kiev demandam ao governo czarista que os judeus sejam proibidos de se estabelecerem na cidade. O Czar Alexis os atende e o banimento tornou-se definitivo em 1667 quando da anexação de Kiev à Rússia.

Zona de Residência

No final do século 18, quando a Polônia deixa de existir como país soberano, sendo dividida entre Prússia, Áustria e Rússia em 1772, 1793 e 1795, o Império Russo fica com a maior parte do território da Ucrânia. Consequentemente, centenas de milhares de judeus que viviam nesse território se tornam súditos indesejáveis dos czares.

Em 1775, a Czarina Catarina decide confinar a população judaica de seu Império na chamada “Zona de Residência” ou “Território do Acordo” – em russo, Cherta Osedlosti. Na área que incluía a antiga Polônia, Ucrânia, Bielorrússia e Lituânia passaram a viver mais de 90% dos judeus do Império.

Kiev era, no século 18, o centro econômico e comercial da região sudoeste da Rússia e, em 1793, após cerca de 150 anos, é reerguida a comunidade judaica de Kiev. Mas, ainda era vivo o ódio entre a população cristã e a judaica. Enquanto os judeus se empenham em obter permissão de se estabelecer na cidade, os cristãos persistem em bani-los, justificando seus pedidos no status quo vigente desde 1619, acrescentando ainda que a “sagrada” Kiev, símbolo da Ortodoxia cristã, seria “profanada” pela presença judaica.

No século 19, a comunidade judaica de Kiev consegue se reerguer e desabrochar, tornando-se uma das maiores da Ucrânia. Em 1815, contava com cerca de 1.500 pessoas; era altamente organizada e tinha duas sinagogas, entre outras instituições comunitárias. Além dessas, contava com uma filial muito atuante da Haskalá, a Sociedade para o Iluminismo dos Judeus Russos, que mantinha 21 escolas judaicas na cidade.

Em 1825, Nicolau I torna-se Czar. A vida dos judeus piora drasticamente pois ele tinha ódio deles. O Czar Nicolau é o responsável pelos famigerados “Decretos Cantonais” de 1827, que tornaram obrigatório o alistamento militar a partir de 18 anos para cristãos e 12 anos para os judeus, com a duração de 25 anos.

Como se não bastasse, reduziu a área de residência permitida à população judaica do Império. E, ainda em 1827, proibiu aos judeus residir em Kiev. O decreto chegou a ser indeferido duas vezes, já que os governantes temiam que a expulsão dos judeus levaria à grave crise econômica. Contudo, em 1835, eles tiveram que deixar a cidade, que se tornou conhecida pelas oblavy (caçadas) policiais atrás de judeus que não possuíam permissão de residência. Mesmo assim, eles continuaram a ter importante papel na economia local, pois os comerciantes judeus eram o elemento principal das grandes feiras de Kiev. Em 1843, os visitantes judeus foram novamente autorizados a entrar na cidade, com a condição de que se alojassem em duas estalagens indicadas para esse fim.

A situação dos judeus do Império melhora em 1855 com a subida ao trono do Czar Alexandre II. Este inicia reformas para implantar na Rússia o sistema de produção capitalista e, em 1865, permite que os chamados judeus “úteis” – comerciantes, banqueiros, artistas e artesãos qualificados e os que tinham curso superior – se estabelecessem fora da Zona de Residência.

Em Kiev, são abolidas as estalagens obrigatórias para visitantes judeus, em 1858, sendo substituídas por um imposto à prefeitura. E, três anos mais tarde, judeus “úteis “ têm permissão de residir na cidade em dois subúrbios, Lyebed e Podol. Assim, em 1863, três mil judeus viviam em Kiev e, em 1872, já eram 13 mil. No entanto, na década de 1870, a vida dos judeus da cidade e de toda a Rússia volta a piorar, pois Alexandre II dera uma guinada reacionária aderindo ao nacionalismo eslavo. Como sempre, os judeus são os principais alvos e vai-se acumulando contra eles uma enorme massa de leis discriminatórias.

Em 1881, Alexandre II é assassinado por revolucionários. A subida ao trono do novo Czar, Alexandre III, faz o ódio aos judeus crescer exponencialmente. Sob a proteção de “eslavófilos”, da Igreja Ortodoxa e do próprio governo agindo nos bastidores, o antissemitismo se torna um movimento organizado. São organizados pogroms e são publicados os famigerados “Protocolos dos Sábios de Sião”.

Seis semanas após a morte de Alexandre II inicia-se, no sul da Ucrânia, uma nova onda de pogroms contra os judeus. Kiev é varrida por um pogrom em maio de 1881, insuflado pelo governador geral, General Drenteln. Muitos judeus são feridos, outros tantos mortos e inúmeras propriedades judaicas destruídas. Em 1882, Alexandre III outorga as “Leis de Maio”. Extremamente discriminatórias e cruéis, as novas leis restringiam ainda mais a liberdade de movimento e de residência da população judaica, seu acesso à educação e atividade econômica. Os judeus são proibidos de comprar terras, ter cargos públicos, ser professores universitários, entre outros.

Apesar dessas novas leis, a comunidade judaica de Kiev continua forte. Muitos dos profissionais liberais assim como cerca da metade dos comerciantes da cidade eram judeus. Em 1822, 17% dos estudantes que cursavam a Universidade de Kiev também o eram. Em Kiev nasceram Golda Meir (Mabovich), que viria a ser primeiro-ministro de Israel. O conhecido escritor Sholem Aleichem, que viveu em Kiev por algum tempo, descreveu a cidade em seu livro Yehupets. A insegurança da permissão de residência judaica na cidade criou o senso de ansiedade que é a característica que define seus personagens e que, em parte, era compartilhado pelo próprio autor.

Em 1862, é inaugurado em Kiev um hospital judaico para os carentes, que atendia toda a população da Ucrânia. A principal sinagoga da cidade, a Sinagoga Brodsky Choral, é erguida em 1897-1898. Durante décadas, as autoridades proibiram a construção de uma grande sinagoga, somente permitindo que convertessem construções existentes em casas de oração judaicas. Temiam que a cidade se tornasse um importante centro religioso judaico – o que era considerado “indesejável” em virtude da importância simbólica de Kiev para o Cristianismo Ortodoxo.

Segundo o censo realizado no Império Russo nos últimos anos do século 19, viviam em Kiev 32 mil judeus.

Século 20

No início do século 20 a Rússia passava por uma grave crise político social. A situação dos judeus era a mais precária. Além da pobreza e problemas econômicos e sociais, o antissemitismo e os pogroms eram constantes e sancionados pelo governo czarista. Os que moravam em Kiev não eram exceção, pelo contrário, pois o ódio dos ucranianos pelos judeus conseguia superar o antissemitismo russo. Entre os judeus também crescia a convicção de que sua situação só melhoraria se houvesse uma mudança política. Assim surgem, em grande número, os partidos socialistas judeus. Entre eles, o Bund, partido socialista-sionista, e o Poalei Tsion (Trabalhadores de Sion).

Para os judeus, a Revolução Russa de 1905 teve consequências dramáticas. Naquele ano o descontentamento, as greves e as manifestações se alastraram por todo o Império. Diante do clima de revolta do povo, o czar Nicolau II lançou um manifesto que garantia liberdades civis básicas e criava a Duma – uma Assembleia Legislativa.

Para “distrair” o povo de seus reais problemas, o governo czarista passa a instigar a violência contra os judeus e as Centúrias Negras (bandos de rua armados) atacam os judeus em dezenas de cidades e vilarejos.

No período de 1903 a 1907, cerca de 660 pogroms ocorreram na Ucrânia e Bessarábia, sendo o mais violento deles o de 18 de outubro, em Kiev. Na época viviam na cidade cerca de 80 mil judeus. Nem a polícia nem o exército controlaram os arruaceiros, que, durante três dias, espalharam violência por toda a cidade. Mas nem esse pogrom conseguiu interromper o desenvolvimento da comunidade, que se tornou uma das mais ricas da Rússia, cultural e economicamente.

O caso Beilis

Ocorrido em Kiev entre 1911 e 1913, o Caso Beilis foi uma clara demonstração do antissemitismo do governo czarista. Em Tisha B’Av de 1911, Mendel Beilis, um judeu, é preso sob a acusação de matar um jovem cristão de 12 anos, Andrei Yushchinsky, por “motivos religiosos”. Os verdadeiros assassinos – uma gangue de ladrões – que já estavam na custódia da polícia, são libertados pela Procuradoria de Kiev. Não apenas Beilis, mas o próprio judaísmo, era acusado pelo crime hediondo. Não era a primeira vez, nem seria a última, que as autoridades czaristas usavam os judeus como bode expiatório para fins políticos.

Em outubro de 1913, inicia-se, em Kiev, seu julgamento. Surpreendentemente, um júri popular, composto em sua maioria por camponeses, declara Beilis inocente. Mas as suspeitas de que os judeus eram “maus e traidores” estavam profundamente arraigadas na população.

O fim do czarismo

A Ucrânia foi palco de sangrentas batalhas durante a 1ª Guerra e, à medida que as forças russas iam debandando, atacavam as populações judaicas. Refugiados judeus começam a surgir em grandes contingentes, em Kiev.

A miséria e as derrotas sofridas nos campos de batalha levaram o povo russo a se revoltar contra o regime czarista e, em 15 de fevereiro de 1917, as forças de oposição (liberais, burguesas e socialistas) depuseram Nicolau II, dando início à Revolução Russa de 1917.

Após a Revolução de Fevereiro ou Revolução Branca, como também foi chamada, toma posse um governo formado por liberais que constituíam as bases do partido menchevique. Esse governo, no entanto, foi derrubado poucos meses depois pelos bolcheviques. A Revolução de Outubro, como é chamada, impôs o governo socialista soviético e desencadeou uma guerra civil. Com a Revolução de Outubro de 1917 os judeus viram abolidas todas as restrições e discriminações impostas pelo governo czarista.

Iniciava-se um novo capítulo na história dos judeus de Kiev, infelizmente não menos sangrento e doloroso ...

1    Guenizá - Repositórios temporários que guardam textos, livros e objetos sagrados danificados ou em desuso, em virtude de ser proibido descartar textos ou objetos que contenham o nome de D’us.

 

BIBLIOGRAFIA

Dubnow, Simon, History of the Jews in Russia and Poland: From the Earliest Times Until the Present Day, Ed. Nabu Press, 2010.

Meir, Natan M. Kiev, Jewish Metropolis: A History, 1859-1914, Ed. Indiana University Press, 2010.