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Yodfat: arqueologia e história PARQUE NACIONAL DE TEL YODFAT, ISRAEL

Yodfat: arqueologia e história

por Prof. Reuven Faingold

No distrito de Misgav, região de Carmiel, estão os vestígios arqueológicos de Yodfat, antiga cidade da Galileia que, no século 1 EC, testemunhou as heroicas e trágicas lutas dos combatentes judeus contra Roma. Observando a fortaleza composta de cavernas, casas, cisternas de água e mikvê, pode-se imaginar como viviam os judeus da Terra de Israel naquele período.

Edição 115 - Junho de 2022


A História da Terra de Israel é repleta de eventos dramáticos. O cerco e queda de Massada, ocorridos entre os anos 73 e 74, dos últimos eventos da Primeira Guerra romano-judaica1 (em hebraico ha-Mered Hagadol) são um dos tantos exemplos e sem dúvida o mais conhecido deles. O que ocorreu em Yodfat, apesar de ter sido o evento determinante na vida de Yossef ben Matitiahu ha-Cohen, conhecido pelo nome de Flávio Josefo, famoso historiador judeu do século 1º, é um fato histórico menos conhecido. Muito do que sabemos hoje sobre o ocorrido durante a Primeira Guerra romano-judaica é fruto dos relatos de cronistas romanos e das obras de Flávio Josefo.

Yossef ben Matitiahu ha-Cohen nasceu em Jerusalém, em 38 ou 39 de nossa Era (EC), em uma renomada família de Cohanim da qual se vangloria em sua autobiografia, que é de onde procedem todas as informações a seu respeito. Sua mãe descende da dinastia hasmoneia. Foi após os dramáticos eventos ocorridos em Yodfat que ele adotou o nome de Flavius Josephus e se tornou um dos mais controversos historiadores da Antiguidade. Ele terminaria seus dias em Roma. Passou os anos escrevendo a história e apologia da Nação Judaica e de si mesmo, suspeito de traição tanto aos olhos de seus correligionários quanto aos olhos dos romanos. Ele é autor de três obras significativas: História dos Hebreus, ondeaborda a história dos judeus durante o período helenístico e romano; Antiguidades dos Judeus, que narra a jornada do povo de Israel desde os primórdios até o período helenístico, e A Vida de Yosef, um texto autobiográfico escrito para justificar suas atitudes – consideradas por muitos estudiosos como uma traição a seu povo.

Flávio Josefo em Yodfat

Yodfat ou Jotapate aparece mencionado na Mishná como sendo uma vila fortificada na Terra de Israel, que data da época de Yehoshua. De acordo com o texto, Yodfat foi cercada por um muro antes ainda da conquista de Canaã pelos judeus, após sua saída do Egito.

Em 66 EC, irrompeu na Terra de Israel a “Grande Revolta” contra o Império Romano, que dominava o país. Os judeus haviam conseguido reconquistar temporariamente sua independência e Yossef ben Matitiahu, posteriormente Flávio Josefo, foi designado pelo Sanhedrin2 governador militar da Galileia, para onde é enviado com o intuito de organizar a resistência judaica.

Além de preparar o território e a população para o enfrentamento com as legiões romanas, Yossef ben Matitiahu procurou combater os conflitos internos provocados pelas várias facções judaicas. Os mais extremistas o culpavam de contemporizar e, por sua atitude ambígua, foi acusado por vários grupos de traição à causa judaica. Tamanha a sua necessidade de se justificar a respeito do curto tempo em que governou a Galileia, que irá dedicar a esse período de sua vida grande parte de sua autobiografia.

Ao eclodir a revolta na Terra de Israel, o Imperador Nero designa Tito Flávio Vespasiano, renomado comandante militar, para reprimi-la. Vespasiano ataca a Galileia à frente de um exército de mais de 60 mil homens. Em sua obra A Guerra Judaica, Josefo faz uma detalhada descrição dos acontecimentos. A devastação é total. O povo da Galileia não tinha como enfrentar os romanos em campo aberto e, sitiadas, as cidades foram caindo uma depois da outra. Josefo fracassara na defesa de Tzipori e Séforis e, então, refugia-se com muitos combatentes em Yodfat.

Vespasiano estava ansioso para destruir a cidade, de posse da informação de que muitos dos rebeldes da Galileia haviam fugido para lá, fortificando-a. A conquista, naquele verão, visava enfraquecer os rebeldes e assim desestimular toda a revolta. Mas, em Yodfat os romanos se deparam com forte resistência judaica.

O cerco de Yodfat

Liderados por Yossef ben Matitiahu os judeus resistem durante 47 dias de cerco. Inicialmente, os rebeldes judeus realizam ataques fora das muralhas para repelir os romanos. Estes, então, decidem construir uma rampa em frente à muralha de Yodfat. Quando sua construção atingiu uma altura considerável, Yossef ben Matitiahu iniciou uma operação para aumentar a muralha, fortalecendo-a. Isso encorajou os judeus a retomarem a luta. Vespasiano, então, adotou uma nova estratégia: parou os combates, mas manteve o cerco. O objetivo era estrangular a cidade até que seus habitantes morressem de fome e sede ou se rendessem.

Os judeus sitiados tinham armazenado comida suficiente, mas sofriam com a falta de água. Era verão e dentro da cidade não havia nenhuma fonte. Yossef ben Matitiahu já controlava a moderação na distribuição de água desde o início do cerco, mas a redução na quantidade distribuída representou um duro golpe no ânimo dos judeus. Era isso o que os romanos queriam. É então que Yossef ben Matitiahu começa uma guerra psicológica, ordenando a seus homens que mergulhassem suas roupas na água e as pendurassem no parapeito da muralha, para que os romanos vissem a água escorrer ao longo dela e abandonassem suas esperanças de conquistar a cidade.

Vespasiano, no entanto, não estava disposto a desistir e voltou a atacar. Depois que os romanos descobriram que os judeus estavam enviando mensagens e recebendo alimentos através de uma fenda de muito difícil acesso, eles a fecharam hermeticamente. Com isso, Yossef ben Matitiahu percebeu que a cidade não aguentaria por muito tempo mais.

Ele planejava deixar Yodfat para recrutar mais combatentes nos vilarejos da Galileia e assim desviar os romanos para uma nova batalha, mas os habitantes da cidade o dissuadiram e ele decidiu lá permanecer. Desesperado, pôs-se em marcha com seus guerreiros, invadiu o acampamento romano e atacou os construtores da rampa. Mas, quando a rampa já estava bem próxima da muralha, os romanos levaram até lá um aríete de ferro, que, com seus repetidos golpes num mesmo ponto, ficou a ponto de derrubar o muro. Yossef ben Matitiahu então ordenou que enchessem sacos com palha e os prendessem no local onde o aríete atingia, a fim de reduzir a força do golpe. Essa ação inibiu os romanos, mas eles recorreram a uma nova estratégia: amarraram foices nas pontas de lanças compridas e cortaram as cordas que prendiam os sacos.

Como último recurso, Yossef ben Matitiahu apelou para o uso do fogo. Seus combatentes irromperam e queimaram as máquinas de guerra romanas. Os romanos, no entanto, voltaram a usar o aríete de ferro contra o muro de Yodfat até fazê-lo desmoronar – o que ocorreu durante a madrugada.

Enquanto Vespasiano se preparava para invadir a cidade, em 20 de Sivan, Yossef ben Matitiahu confiou aos guerreiros mais fortes as fendas da parede, enquanto enviou os mais velhos e já exaustos para proteger o restante da fortaleza. À frente de cada grupo encarregado das fendas, ele colocou seis pessoas que estavam na liderança, sendo ele, um deles.

A seguir ordenou que tampassem os ouvidos para não se assustarem com o som das legiões; que ficassem ajoelhados e cobertos por seus escudos para se protegerem contra as flechas, e que recuassem um pouco até que os disparos cessassem. Era o momento ideal para se prepararem para atingir os romanos que tentassem invadir a fortaleza pelas escadas e pontes.

Já em suas palavras preparatórias antes do ataque às forças de Vespasiano, Yossef ben Matitiahu sabia que não tinha chance alguma de manter o cerco, mas, mesmo assim, tentou inspirar e motivar suas forças com as seguintes palavras:

“Neste dia, cada um de vocês não lutará apenas para salvar sua cidade, mas para nos vingarmos, todos, de sua destruição. Que cada um coloque diante de si a imagem dos idosos e das crianças que são massacrados pelo inimigo, e os rostos das mulheres que estão prestes a serem mortas, e desta forma demonstre toda a sua ira contra os males que hão de vir, e a derrame sobre a cabeça dos que praticam o mal” (História dos Hebreus, Livro III, cap. 14).

A visão do exército cercando a cidade aterrorizou as mulheres e crianças. Temendo que a gritaria e o choro atingissem o coração dos guerreiros, Matitiahu ordenou que as mulheres fossem trancadas em suas casas e silenciadas. Quando o ataque romano começou, os judeus seguiram as instruções recebidas, mas depois de um tempo não conseguiram mais resistir.

A essa altura, os soldados romanos se amontoavam, em bloco, protegidos por seus escudos. Logo Matitiahu ordenou derramar óleo fervente sobre eles, o que os fez espalharem-se pela muralha; e assim eles foram derrubados das pontes. No 47º dia do cerco, os romanos conseguem erguer uma rampa acima da muralha da cidade.

Na vigília da última noite do cerco, os soldados romanos escalaram o muro, massacraram os guardas judeus e invadiram a cidade. Capturaram e mataram aqueles que se escondiam em grutas e cavernas. Vespasiano ordenou que a cidade de Yodfat fosse destruída e todas as suas fortificações queimadas. Após 47 dias, a cidade caiu e o historiador judeu descreve a morte de 40 mil judeus e a escravidão de 1.200 mulheres e crianças. Yodfat caiu no dia 1º de Tamuz (20 de julho do ano de 67), para nunca mais ser reerguida.

A queda de Yodfat

Com a queda da cidade, Yossef ben Matitiahu desceu até uma “cova funda ligada a uma caverna espaçosa”, escondidados olhos de quem estava na superfície, e lá reuniu 40 combatentes da cidade, que se esconderam em um local com comida suficiente para vários dias. Durante o dia, ele permanecia na caverna, mas à noite saía à procura de uma saída para todos. Mas, vendo que os romanos haviam colocado guardas em todos os lugares, foi forçado a voltar para o interior da caverna. No terceiro dia, ainda em seu esconderijo, uma mulher judia foi capturada e revelou o lugar do esconderijo aos romanos. Vespasiano, a seguir, enviou dois tribunos militares à caverna para persuadir Yossef ben Matitiahu a se render. Nada conseguiram. Envia, então, um terceiro tribuno de nome Nicanor, que era um bom amigo de Yossef ben Matitiahu.

O líder dos judeus ouviu o chamado de Nicanor tendo por pano de fundo as vozes raivosas dos soldados romanos que incendiavam a caverna, e decidiu se render. Em resposta, vários combatentes judeus que lá estavam o cercaram, esbofetearam-no por querer livrar sua pele. Ameaçam matá-lo se ele decidisse se entregar. Argumentavam que ele deveria morrer pela espada e não se render, e lhe deram um ultimato: morrer com honra ou morrer em mãos de seus irmãos, judeus.

Yossef ben Matitiahu tentou persuadir seus combatentes e lhes pediu que não se matassem, mas todos ficaram muito irados com ele e o amaldiçoaram por sua covardia. Cercaram-no com espadas desembainhadas, e o ameaçaram. É quando um deles se aproxima com uma sugestão: se decidissem cometer suicídio, eles deveriam sortear a ordem de suas mortes (um método mais tarde conhecido como o “sistema de Josefo”). Morreriam um a um, pelas mãos de seu companheiro.

Desta forma, ninguém teria que se suicidar nem se arrepender após a morte de seu amigo. Os 40 líderes concordaram com a oferta e o ato de suicídio foi realizado. Josefo ficou por último, com mais um combatente. Ele não queria morrer “nem contaminar sua mão com sangue de um companheiro”, então convenceu esse outro a não se suicidar. E ambos se renderam diante dos romanos para salvar suas vidas.

Yossef ben Matitiahu foi conduzido por Nicanor até Vespasiano através da multidão romana, que foi obrigada a ver o comandante judeu de perto. Vespasiano ainda ordenou que uma forte guarda o acompanhasse para ser enviado à presença de Nero.

Ao ouvir isso, Yossef ben Matitiahu pediu que fizessem saber a Vespasiano que ele tinha um segredo para lhe contar, em particular. Na presença do comandante e futuro imperador romano e de dois amigos do comandante, ele declarou publicamente que havia recebido uma Revelação Divina. Pronunciou uma profecia perante Vespasiano, profecia que é citada pelos historiadores Suetônio (69-141) e Dion Cássio (circa 155-235), dizendo:“Um dos cativos dos nobres, de nome Josefo, enquanto aprisionado em correntes, afirmou com confiança e firmeza de espírito que logo Vespasiano desataria suas algemas, mas que nessa época ele já seria o imperador” (História dos Hebreus, Livro III, cap. 27).

A história de Yossef ben Matitiahu, que, após se render aos romanos e ser libertado por Vespasiano, assumiu o nome de Flavius Josephus, revela-nos os dramas, a violência e o ódio que havia entre os judeus e os romanos no século 1º de nossa Era.

Ao se entregar, ele traiu seu povo, tornando-se principal testemunha da grandiosidade, coragem e determinação de um povo que buscava a sua liberdade a todo custo e, por causa disso, pagou o alto preço de uma diáspora de dois mil anos.

A MODERNA YODFAT

A antiga Yodfat ou Jotapate foi identificada pela primeira vez em 1847, por Ernst G. Schultz (1811–1851). Egiptólogo e cônsul da Prússia em Jerusalém, ele usou as descrições geográficas e topográficas fornecidas pelo próprio Flávio Josefo.

Seis temporadas de escavação foram realizadas em Yodfat entre 1992 e 2000, sob a direção do arqueólogo Mordechai Aviam, sob a égide da conceituada Autoridade deAntiguidades de Israel e da Universidade de Rochester. Estas escavações revelaram restos de fortificações, cisternas e extensas evidências das batalhas que ocorreram em Yodfat, incluindo uma vala comum contendo restos humanos. A última temporada terminou em novembro de 2020. De acordo com Aviam, os residentes derramaram óleo fervente sobre os soldados romanos enquanto eles escalavam o muro da cidade em escadas, como vimos acima.

A moderna Yodfat foi fundada em 1960 por alunos graduados da Escola Reali, de Haifa. Hoje é uma comunidade agrícola judaica localizada a 1 km a noroeste das antigas ruínas. No início, a aldeia não passava de um mirante do KKL (Keren Kayemet LeIsrael), ou Fundo Nacional Judaico – JNF, e seus habitantes eram, em sua maioria, funcionários do órgão. Mais tarde, a aldeia se tornou uma sociedade agrícola, com a maioria de seus moradores trabalhando suas próprias terras. Na década de 1990, o vilarejo se transformou em um centro comunitário, oferecendo uma variedade de profissões a seus residentes. Atualmente conta com cerca de 400 famílias.

BIBLIOGRAFIA

Aviam, Mordechai (1999), Yodfat – Desenterrando um Segundo Temploe uma Grande Revoltada cidade judaica da Galileia. Kadmoniut. Sociedade de Exploração de Israel.

Hadas-Lebel, Mireille, Flávio Josefo: o Judeu de Roma. Imago Editora, Rio de Janeiro 1991.

Flavio Josefo, História dos Hebreus, tradução de Vicente Pedroso, 5ª edição. Rio de Janeiro, 1999.

Bibliografia na íntegra disponível no site www.morasha.com.br

Prof. Reuven Faingold é historiador e educador; PHD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. é responsável pelos projetos educacionais do “Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto” de São Paulo.