Morashá
A CIDADE DE TIBERÍADES Foto Ilustrativa

A CIDADE DE TIBERÍADES

Capital da Galiléia – centro espiritual importante desde a queda de Jerusalém e a destruição do Segundo Templo – sede do Sanhedrin. Nela viveram os grandes mestres que redigiram o Talmud Yerushalmi e a Guemará.


Grandes personalidades estão lá enterradas e, diz uma lenda, que com a vinda do messias, seus mortos ressuscitarão primeiro, 40 anos antes que os de Jerusalém.

Tiberíade é situada à margem ocidental do lago de Kineret, ou Mar da Galiléia. Este ocupa uma das depressões da fenda Siro-Africana e se encontra a 213 metros abaixo do nível do mar. Seu nome deriva de Kinor, que significa harpa porque seu formato lembra uma ou porque o som de suas ondas é tão melodioso quanto o de uma harpa. O rio Jordão percorre o lago do norte ao sul e segue seu curso pelo vale homônimo até terminar no Mar Morto.

A localização geográfica da cidade de Tiberíade fez dela o centro turístico, comercial, administrativo e cultural dos sediamentos próximos. Esta se estende em altura sobre a margem montanhosa, chegando os bairros novos chegam a 461 metros acima do nível do lago e 249 metros acima do nível do mar, apresentando grande variação de temperatura, vegetação e índice pluviométrico entre a Cidade Velha, ao nível do lago, e as partes mais altas da Cidade Nova.

História

Tiberíade foi fundada entre os anos 14 e 18 da Era Comum por Heródes Antipas, filho de Heródes o Grande, rei da Judéia, sobre os restos de um antigo sítio bíblico, Rakkat. Seu nome é em homenagem ao imperador romano Tiberius. No século III os rabinos inconformados com a origem romana do nome da cidade, tentaram hebraicizá-lo, considerando-o derivado das palavras Tov Reia, ou bela vista, “bel vedere”, o que condiz com o panorama que se admira.

A cidade, planejada em estilo helenístico, se torna rapidamente a capital da Galiléia e sedia os escritórios governamentais. De acordo com o historiados Flavius Josephus, sua população originariamente era constituída por gregos, escravos libertados e gente sem terra. Como haviam sido encontrados túmulos no local em que foram colocadas as fundações da cidade, esta era proibida para os judeus ortodoxos que inicialmente a visitaram.

O caráter helenizado da cidade mudou no século II quando Rabi Shimon Bar Yohai retira o anátema que pesava sobre ela. É preciso salientar que depois da destruição do Segundo Templo, da ocupação de Jerusalém e da repressão das autoridades romanas, começam a surgir novos pólos espirituais na Galiléia cuja importância cresce rapidamente.

Tiberíade é sede do Sanhedrim, o Conselho que representa a máxima autoridade religiosa depois da perda do Templo.

Na cidade reside o Patriarca ou Nassí e esta continua a capital dos judeus até o século VII quando, com a conquista árabe, as autoridades religiosas se transferem novamente a Jerusalém. É considerada uma das quatro cidades sagradas, junto com Jerusalém, Safed e Hebron.

Grandes mestres viveram na cidade que sediava uma importante academia rabínica. Entre eles lembramos Rabi Meir, Rabi Yohanam, Rabi Ami e Rabi Assi; seus ensinamentos, suas perguntas e suas respostas estão reunidos na Guemará, compilada no final do século V, representando o corpo principal do Talmud Yerushalmi.

Os mestres do Talmud da Palestina e da Babilônia compreenderam que tudo o que sobrou depois da destruição do Templo e da ocupação da Terra de Israel era o livro da Torá, e souberam fazer do seu estudo a força que preservaria o povo durante dois milênios.

Em 636 a cidade é ocupada pelos árabes. A comunidade judaica continua a existir sob o governo árabe e até sob as Cruzadas, de 1100 a 1247.

No século XII, Maimônides visita a cidade e é lá enterrado em 1206.

Em 1562 o sultão turco Suleiman concede a cidade a Don José Nasi, que tenta restabelecer nela uma comunidade judaica, mas no século XVII a cidade está em ruínas. Em 1777 imigrou para a cidade de um importante contingente de chassidim.

O violento terremoto de 1837 provoca grandes danos e a morte, de acordo com as fonte, de 1.000 judeus.

Na virada do século XX a colonização judaica da Galiléia dá um novo impulso à cidade com o estabelecimento de uma comunidade judaica moderna. A cidade se torna o centro dos sediamentos da Baixa Galiléia.

Em 1912-14 surge o primeiro bairro fora da Cidade Velha – Tiberíade é a base da “Brigada do Trabalho” que depois da Primeira Guerra Mundial era encarregada de abrir uma estrada na margem ocidental do lago.

Desde 1920 é construído o bairro de Kiriat Shmuel no versante da montanha, recebendo turistas atraídos pelas fontes de águas quentes da região.

Em 1922 a população judaica da cidade é de 4.500 pessoas sobre um total de 7.000 habitantes.

Em 1948 a população árabe ataca, antecipando a invasão síria. O contra-ataque da Haganah, o exército clandestino judaico, provoca a fuga da totalidade da população árabe. Em seguida é montado na encosta da montanha acima de Kiriat Shmuel uma campo para acomodar novos imigrantes da Europa Ocidental, Yemen, Marrocos, Iraque, chamado de Maabarã. Um novo bairro chamado Pariya é representado pelas moradias definitivas dos habitantes da Maabarã e é completado no início da década de 60, quando a população da cidade é de cerca de 20.000 habitantes. Hoje vivem na cidade por volta de 30.000 pessoas.

A principal atividade econômica é o turismo, especialmente durante a primavera e o inverno, explorando as águas de Hamei Tveria. O parque arqueológico de Hamei Tveria é situado ao sul da cidade onde era a parte romana. São fontes de água termal quente que jorram de 2.000 metros de profundidade. Apresenta dos vestígios de um palácio de banhos romanos e de uma sinagoga do século VI. Já os restos da cidade da época das cruzadas, com sua fortaleza reconstruída no século XVIII, se estendem ao norte da cidade romana até o antigo cemitério. Lá se encontram os túmulos venerados de grande mestres como Rabi Meir, Rabi Yochanan Ben Zakai, Rabi Akiva e Maimônides. O túmulo de Rabi Meir Baal HaNess é um dos mais visitados e é procurado por pessoas que oram para que o mestre interceda para a realização de algum milagre. Rabi Meir viveu no século II; foi um dos grande rabinos do Talmud, discípulo e contemporâneo de Rabi Akiva. Seu nome significa “aquele que ilumina”. É o único mestre que tem uma tzedacá em seu próprio nome, por ter o mérito de defender incondicionalmente o povo de Israel que, na sua opinião, mesmo quando agia errado, continuava sendo filho de D’us e portanto digno de amor.

O complexo arquitetônico é constituído por duas cúpulas, uma sob os cuidados de ashkenazim e a outra de sefaradim. Na parede leva a escrita de “Elokei Meir Aneni”: D’us de Meir me responda ou me salve.

Em seguida encontramos a tumba de Rachel, a sábia esposa de Rabi Akiva e filha de Calba Shavua, que teve um papel fundamental ao incentivar ao estudo o marido, que era analfabeto e ignorante até os quarenta anos de idade e que se tornou depois um dos gigantes em sabedoria, demonstrando que nunca é tarde para o desenvolvimento e a realização intelectual e espiritual.

O túmulo de Rabi Akiva se encontra na entrada ocidental da cidade – figura lendária, fundou uma academia em Bnei Brak e tinha inúmeros discípulos. Morreu heroicamente, como um mártir, para santificar nome de D’us.

O túmulo de Maimônides, o Rambam, se encontra próximo ao centro da cidade – do grande sábio, filósofo e médico, que produziu uma obra monumental, se dizia “Mi Moshe le Moshe ein Ke Moshe”, ou seja, de Moshe Rabenu a Moshe Ben Maimon não houve outro Moshe.

Próximo do túmulo de Maimônides, sempre no centro da cidade, jaz Rabi Yochanan Ben Zakkai, da primeira geração dos Tanayim e contemporâneo à destruição do Segundo Templo. Ao lado dele repousam cinco dos seus discípulos. Yochanam Ben Zakkai presidia o Sanhedrim e uma importante academia. Sua formação era da escola mais antiga de Hillel e Shamai, sendo ele o mais jovem dos oitenta discípulos de Hillel. Viveu 120 anos e presenciou a tragédia da queda de Jerusalém. Conseguiu sair da cidade sitiada fingindo-se morto. Foi até o general Vespasiano a quem revelou que ia se tornar imperador. Em troca, pediu a permissão de fundar uma academia de estudos da Torá em Yavne.

Assim foram colocadas as bases de nossa rica herança cultural nos moldes que se preservam até hoje.


Bibliografia

Enciclopédia Judaica: Tiberíades
M. Michalson, Y. Slomon, M. Milner, "Mekomot Kedoshim U. Kivrei Tzadikim Be Eretz Israel. Defense Ministry, 1996
Ami Bourgamim: Tiberiade, Le lac aux miracles - Éditions du Nadir 1996
Adin Steinzaltz "The Essencial Talmud".