Morashá
DIA APÓS DIA Foto Ilustrativa

DIA APÓS DIA

Há muitos anos, na Pérsia, havia um rei chamado Abbas. Era conhecido como um homem honesto e justo. Toda noite ele vagava pelas ruas da cidade, disfarçado, para assim conhecer melhor os seus súditos.

Edição 31 - Dezembro de 2000



Certa vez, durante uma de suas andanças, notou uma pobre cabana. Ao olhar pela janela, viu um homem diante de uma refeição bem simples, cantando louvores a D'us. O rei bateu na porta e perguntou-lhe se aceitava um convidado.

"Um convidado é uma dádiva de D'us", disse o homem. "Por favor, sente-se e junte-se a mim". E, assim, repartiu sua refeição com o rei. Os dois conversaram por muito tempo. O rei perguntou-lhe como ganhava a vida.
"Sou sapateiro", respondeu o homem, "caminho o dia inteiro consertando os sapatos do povo. E, à noite, compro comida com o dinheiro que ganho".

"E o que será do dia de amanhã?", perguntou o rei.
"Não me preocupo com isso", retrucou o homem, assim como está nos Salmos, eu digo: "Bendito seja D'us cada dia, dia após dia".
O rei ficou muito impressionado com essa atitude e prometeu voltar no dia seguinte.

Para testar o novo amigo, o rei promulgou um decreto: ninguém poderia consertar sapatos sem uma licença. E voltou a visitá-lo na noite seguinte, encontrando-o sentado em sua pobre cabana, comendo, bebendo e louvando a D'us. O homem convidou-o novamente a participar da frugal refeição, porque "um convidado é um presente de D'us". O rei ouviu o homem lhe contar:

"Não podendo consertar sapatos, por decreto do rei, resolvi tirar água do poço para as pessoas, para ganhar um pouco de dinheiro e comprar meu sustento".
"E o que você faria se o rei proibisse isso?"
"Direi: Bendito seja D'us, dia após dia."

Mas o rei decidiu testar mais uma vez o homem e decretou que seus súditos estavam proibidos de tirar água dos poços sem licença. Na noite seguinte, voltando novamente à cabana, o rei foi recebido por seu novo amigo com alegria e o ouviu novamente declarar sua fé em D'us .

O rei não estava convencido e decidiu testar mais e mais o homem. Este passou a cortar lenha para garantir seu sustento e, quando isto também foi proibido pelo rei, não desanimou e apresentou-se ao palácio real para fazer parte da guarda real.

O homem que foi sapateiro, depois carregador de água e, em seguida, lenhador, recebeu uma espada, para ser guarda. À noite, sem ter recebido o pagamento, foi até uma loja e trocou a lâmina de sua espada por um pouco de comida e colocou uma lâmina de madeira no cabo, cobrindo-a com a bainha.

Logo depois, o rei chegou. Eles seguiram o mesmo ritual, comendo e conversando até tarde. O amigo lhe contou sobre a espada.

"E se houver uma inspeção nas espadas, o que você fará?", quis saber o rei.
"Bendito seja D'us, dia após dia", respondeu o homem, mais uma vez não demonstrando preocupação alguma.

No dia seguinte, o capitão dos guardas ordenou ao homem que decapitasse um prisioneiro, por ordem do rei.
"Nunca matei ninguém em toda minha vida. Como posso fazer isso", retrucou o homem, abaixando a cabeça e recitando o Salmo: "Bendito seja D'us, dia após dia". Logo ocorreu-lhe uma brilhante idéia e se precipitou para obedecer à ordem do rei. Na frente de uma multidão que viera para assistir a execução, pegou a sua espada e gritou: "D'us Todo-Poderoso, o Senhor sabe que eu não sou um assassino. Se o prisioneiro for culpado, deixe minha espada ser de aço. Mas, se ele for inocente, faça com que a lâmina de aço transforme-se em madeira". Dizendo isso, puxou a bainha e, ohh!, a espada era de madeira! Todos ficaram pasmos de surpresa.

O rei chamou o sapateiro e o abraçou. Contou-lhe sobre o seu disfarce e os testes pelos quais o fizera passar.

"Eu nunca tinha encontrado um homem com tamanha fé", disse o rei. E foi assim que o sapateiro, que se tornou carregador de água e, depois, lenhador e, afinal, guarda real, tornou-se o conselheiro do rei.