Morashá
Salônica, metrópole judaica destruída Foto Ilustrativa

Salônica, metrópole judaica destruída

Entre as comunidades judaicas mais atingidas pelo nazismo, encontra-se Salônica. Em poucos meses, a sanha nazista aniquilou 97% dos judeus da cidade, em um extermínio tão devastador que praticamente não deixou vestígios de sua cultura e modo de vida.

Edição 63 - Dezembro de 2008


Um véu de esquecimento cobre, na memória de todos, o lugar ocupado pelos sefarditas nesse triste período da história da humanidade, que deixou manchas indeléveis. Acreditava-se que pouquíssimos tinham sido afetados e, mesmo os mais respeitados trabalhos sobre o Holocausto, pouco fizeram para mudar esta percepção. Poucos, também, são os historiadores que pesquisaram o trágico destino das comunidades sefarditas da Bulgária, Monastir, Romênia, Rodes, antiga Iugoslávia e Grécia. Os números são devastadores: em 1940 viviam nos países balcânicos um total de 253 mil judeus. Destes, 228 mil, ou seja, 90% pereceram na Shoá.

Prova deste esquecimento foi a colocação, somente em março de 2003, de uma placa em ladino em memória deles, no Memorial de Auschwitz-Birkenau. O mesmo texto está gravado sobre inúmeras outras placas, colocadas há mais de 36 anos, em 20 idiomas diferentes, conforme a língua falada pelos mártires: "Ke Este lugar, Ande los Nazis Eksterminaron Un Milyon I Medyo De Ombres, De Mujeres I De Kriaturas, La Mas Parte Djudyos,De Varyos Payizes De La Evropa Sea Para Syempre, Para La Umanidad, Un Grito De Dezespero I Unas Sinyales. Auschwitz-Birkenau 1940-1945".1

Os nazistas em Salônica

No dia 28 de outubro de 1940, após ocupar a Albânia, tropas italianas atacaram a Grécia, sendo repelidas com sucesso pelo exército grego, que, então, contava com o apoio das tropas britânicas. Nas fileiras gregas havia 13 mil judeus; destes, 4 mil eram de Salônica, um alto percentual se considerarmos que, antes da 2ª Guerra Mundial, eram 76 mil os judeus que viviam na Grécia.

Em 6 de abril de 1941, tropas alemãs chegam à região para auxiliar os italianos e, até 2 de junho, ocupam toda a Grécia, dividindo-a em três zonas. Os italianos ficam com a parte ocidental do território grego, inclusive Atenas, tendo 13 mil judeus sob sua jurisdição. A Macedônia Oriental e a Trácia, onde havia cerca de 6 mil judeus, foram entregues aos búlgaros. Os alemães ficaram com a parte central, que incluía a Macedônia Central, uma faixa da Trácia e Creta. Assim, 56 mil judeus, a maioria dos quais em Salônica, ficaram sob o jugo direto dos nazistas.

In Memoriam, Hommage aux victimes juives des nazis en Grèce, é uma das poucas obras que revelam com detalhes os eventos que resultaram na destruição da comunidade judaica da assim-chamada "Jerusalém dos Bálcãs". O livro, publicado pela própria comunidade, é de autoria do Rabino-chefe de Salônica, Michael Molcho, que vivenciou os terríveis acontecimentos.

O destino da comunidade, 55 mil e 600 judeus, foi selado desde o momento da entrada das tropas alemãs na cidade, em 9 abril de 1941. O autor revela que, de imediato, eles empreendem sua ação contra os judeus. Nos primeiros dias da ocupação foram fechados jornais em ladino e francês, criando-se uma nova publicação pró-nazista, em grego. Os nazistas nomearam Saby Saltiel, um simples funcionário administrativo da kehilá, como líder comunitário. Uma das primeiras exigências foi a entrega da lista dos bens e finanças dos membros da comunidade. Ato contínuo, as autoridades nazistas procederam ao confisco de residências, estabelecimentos comerciais e do Hospital Judaico Hirsch, um dos melhores da cidade.

Após invadir a sede do Conselho Comunitário, os nazistas levaram todos os arquivos sobre a comunidade e, para impedir qualquer comunicação, confiscaram máquinas de escrever e um mimeógrafo. Da biblioteca da entidade levaram valiosos documentos históricos, antigos manuscritos e livros. E ainda prenderam os membros do Conselho e lideranças de outras entidades judaicas e sionistas.

Inventariados os objetos de valor das sinagogas, os nazistas enviaram à Alemanha, no final de junho, os tesouros culturais e artísticos da comunidade, alguns deles preciosidades dos séculos 15 e 16. A coordenação desse trabalho "artístico" ficou a cargo da Einsatzstab Rosenberg, grupo organizado por Alfred Rosenberg para "inventariar e expatriar" para seu país os bens culturais e artísticos judaicos. Até hoje, é desconhecido o paradeiro desses tesouros.

No entanto, após essas medidas iniciais, os alemães não voltaram à carga durante quase um ano, nem tampouco deram andamento à perseguição sistemática e coordenada contra a população judaica. E, apesar de continuarem a ocorrer abusos, maus-tratos e execuções, o fato de serem esporádicos levou os judeus a acreditar que o pior já tinha passado. Sem qualquer informação sobre o que acontecia sob o jugo nazista no Leste europeu, os judeus de Salônica não sabiam que era apenas uma questão de tempo para que eles próprios se tornassem vítimas do processo de extermínio engendrado por Hitler. Esta falta de informação foi, sem dúvida, uma das razões para tão elevado percentual de judeus da cidade aniquilados.

Testemunhos indicam que, na época, a maior preocupação era a escassez de alimentos e o alto custo de vida. A situação econômica dos judeus se deteriorava a cada dia. Os ricos haviam perdido propriedades e negócios; a classe média, suas casas, empregos ou estabelecimentos comerciais; enquanto que os mais necessitados chegavam a passar fome. Diariamente, morriam de inanição no mínimo 10 pessoas.

Como em outras partes, as dificuldades levavam a comunidade a se unir ainda mais. Decidiram, então vender as propriedades comunitárias para obter recursos com os quais alimentar os mais carentes. Mas o inverno de 1941-1942 foi particularmente frio e, apesar de todos os esforços, a taxa de mortalidade diária aumentou para cerca de 60 pessoas.

O início da perseguição

Após quase um ano de ocupação, os nazistas começaram a agir rapidamente - e com mortal "eficiência" - contra os judeus de Salônica. Na primavera de 1942, o governo de Atenas, verdadeiro fantoche nazista, emitiu novos documentos de identidade indicando a religião dos portadores. Com essa medida, através dos arquivos da polícia grega, o Comando Militar Alemão podia identificar e localizar os judeus, com facilidade. Um acesso bem mais fácil e eficiente do que as listas de membros da comunidade.

No dia 11 de julho de 1942 são convocados para se apresentar na principal praça da cidade, a Praça da Liberdade (em grego, Plateia Eleftheria), todos os homens judeus entre 18 e 45 anos, para serem registrados para os trabalhos forçados. Aproximadamente 9 mil homens se apresentaram e foram obrigados a ficar de pé, sob o sol escaldante, durante quase 12 horas, enquanto eram submetidos a abusos e humilhações - entre outros, fazer exercícios físicos para "entreter" os nazistas. Qualquer movimento, nem que fosse para tentar proteger os olhos contra o sol, era severamente punido. Muitos foram espancados; alguns, até a morte. O ocorrido não provocou qualquer protesto individual, nenhuma manifestação pública por parte do governo grego ou das elites intelectuais; nem tampouco de estudantes universitários ou dos sindicatos.

No dia 13 de julho, os nazistas convocaram novamente os judeus para a praça. Dessa vez, porém, pressentindo o perigo, alguns não se apresentaram, escondendo-se para depois tentar fugir. Dentre os que compareceram, 2 mil foram enviados aos batalhões de trabalho forçado. Nos dias e semanas seguintes, milhares de outros foram convocados, totalizando 10 mil. Mal alimentados, vivendo em alojamentos com precárias instalações sanitárias, obrigados a trabalhar de 12 a 14 horas seguidas, era alto o número dos que morriam de exaustão ou doenças.

A comunidade procurou aliviar as provações destes homens, inclusive com ajuda financeira às famílias dos que haviam sido levados. Mas, vendo que as convocações continuavam e os homens literalmente trabalhavam até morrer, líderes comunitários propuseram aos nazistas a possibilidade de um resgate contra pagamento. Após várias negociações, os alemães fixaram o preço pela liberdade de 7 mil judeus: 3,5 bilhões de dracmas. Como se tratava de um valor impossível de ser conseguido, os próprios alemães apresentaram a solução. Aceitariam 2,5 bilhões de dracmas em dinheiro, mais o antigo cemitério judaico, que seria usado para fins militares.

O Conselho Rabínico se reuniu para decidir se aquele sacrilégio era permitido, em se tratando de salvar vidas. A decisão foi coerente com a situação. Apesar de declarar que, sob nenhuma circunstância, o cemitério podia ser objeto de transação financeira, as lideranças comunitárias sabiam que não conseguiriam arrecadar o valor pedido; ademais, se os alemães resolvessem desapropriar o cemitério, nada poderiam fazer.

Até dezembro, a comunidade conseguiu levantar 1.650 bilhões de dracmas. Os nazistas desapropriaram o cemitério, transformando-o em uma ampla "pedreira de mármore". Túmulos foram destruídos e deixados abertos; suas mais de 30 mil lápides, utilizadas para fazer o fundo de piscinas usadas pelas tropas nazistas e também pelos gregos simpatizantes para fazer melhorias em suas casas.

Naquele mesmo mês, os nazistas mandam de volta para Salônica o rabino-chefe da cidade, Zvi Koretz, que fora aprisionado pelos nazistas e levado para Viena. Por ser fluente em alemão, fora escolhido para criar umJudenrat - o órgão responsável por executar as ordens nazistas e servir de ligação entre judeus e alemães.

Cada vez mais perto do fim

As SS entram em Salônica em janeiro de 1943. Totalmente isolados, os judeus sequer suspeitavam do que ocorria com seus irmãos do Leste europeu, enquanto que os alemães, por sua vez, faziam de tudo para evitar, até os últimos instantes, que desconfiassem do destino que os aguardava. Mesmo assim, desde a chegada dos nazistas muitos perceberam que algo terrível estava prestes a acontecer e optaram fugir, mesmo se arriscando à execução, se capturados. Uns buscavam ir para Atenas, na zona italiana, que constituía um porto seguro para os judeus. Outros foram ao encontro dos partisans para lutar contra os alemães, juntando-se a unidades da resistência.

Logo em 6 de fevereiro chegam dois membros da equipe de Adolph Eichmann - Dieter Wislinceny e Alois Brunner - para pôr em andamento a "Solução Final". O primeiro foi o carrasco responsável pelas deportações dos judeus da Eslováquia, enquanto Alois Brunner se encarregou dos judeus de Viena. Imediatamente, os judeus são segregados em duas áreas da cidade e obrigados a usar a estrela de David nas vestes. Os dois guetos criados eram subdivididos em diversos setores desconectados entre si, e o bairro Hirsch, próximo à estação de trem, foi transformado em campo de passagem.

Recebendo ordens diretas de Wisliceny e Brunner e advertido de que as mesmas deviam ser cumpridas sem demora, o Rabino Koretz passa a exigir dos judeus cega obediência aos alemães. Temia que fossem tomadas medidas ainda mais severas, caso não obedecessem. Chegou ao ponto de organizar, ele mesmo, a produção de estrelas de David dentro do gueto, cada uma numerada e com o nome de um judeu. Tudo era cuidadosamente anotado em uma lista, uma ferramenta mortal em mãos nazistas. Até o final de fevereiro, todos os judeus já viviam em um dos guetos, impedidos de sair. E, em 1º de março, o Rabino Koretz recebe das SS o prazo de 15 dias para entregar a declaração dos bens, contas bancárias e até de peças de vestuário de cada um dos judeus da cidade.

De repente, no dia 13 de março, 330 vagões de cargas chegam à estação de trem, localizada no coração do gueto. A notícia de que os nazistas iam deportar todos os judeus para Cracóvia, na Polônia, espalhou-se rapidamente. No dia seguinte, um domingo, Wislinceny e Brunner ordenaram ao rabino reunir todos os judeus na sinagoga para avisá-los sobre a partida. Koretz assegurou a toda a comunidade que os judeus de Cracóvia estavam prontos para recebê-los. Desesperados e acreditando que ainda tinham futuro, trocaram o pouco que ainda lhes restava por botas ou roupas de inverno. Mas, na verdade, a comunidade de Cracóvia já não existia mais; desaparecera na fumaça pelos céus dos campos de morte. Os habitantes do primeiro setor do gueto, os mais carentes, foram embarcados em 40 vagões de gado e deixaram Salônica em 16 de março. Outros comboios partiram nos dias seguintes. Vendo a situação piorar rapidamente, membros da comunidade pedem ao rabino uma explicação pública. Mas, seus devaneios otimistas provocaram tamanha revolta que a polícia judaica teve que interferir para que ele não fosse atacado.

Por algum tempo os comboios cessaram e mais judeus conseguiram fugir, mas para maioria não havia escapatória. No final do mês de março, o Rabino Koretz conseguiu uma audiência com o então primeiro-ministro colaboracionista grego, Konstantinos Logothetopoulos, pedindo-lhe para fazer cessarem as deportações. Este lhe respondeu que, nada podia fazer.Logothetopoulos era considerado tão confiável pelos nazistas que havia sido informado sobre as deportações com dois meses de antecedência. Após o encontro, o rabino foi preso e deportado juntamente com toda a sua família.

A liderança de Koretz ainda dá margem a muita controvérsia entre sobreviventes de Salônica e historiadores. Alguns o acusam de ter facilitado o trabalho dos SS com sua atitude, principalmente quando suas ações são comparadas às do Rabino-chefe de Atenas, Elias Barzilai. Homem de grande visão e coragem, ao ser informado sobre o que acontecia com a comunidade judaica de Salônica, envia mensagens implorando que todos os judeus fugissem para as montanhas, assim como ele mesmo fizera, antes que os nazistas ocupassem as áreas onde viviam.

Entre 15 de março e 9 de maio, 16 comboios levaram 42.830 judeus de Salônica. O destino da maioria foi Auschwitz- Birkenau, onde grande parte foi assassinada logo ao chegar. O último trem partiu da cidade no dia 9 de agosto de 1943.

Dos 47 mil judeus de Salônica em 1943, sobreviveram à guerra 1.950 judeus. As 36 sinagogas da cidade foram destruídas ou adaptadas para outros fins. A Sinagoga Monastiriotes (ou Monastirlis), convertida em depósito da Cruz Vermelha, foi poupada da destruição; mas, praticamente todas foram saqueadas e destituídas de seus valiosos pertences. Segundo os testemunhos, a população não-judaica da cidade se mostrou indiferente ao destino de seus compatriotas judeus e, após as deportações, participou ativamente dos saques às suas propriedades.

Entre os judeus que se salvaram muitos devem a vida às autoridades italianas, que lhes concederam documentos e ajuda para escapar de Salônica e, mais tarde, da zona italiana, após a queda desta em mãos alemãs, com a derrota da Itália, em setembro de 1943. Entre os judeus que viviam em Salônica, cerca de 450 portavam passaporte italiano. O Cônsul Geral da Itália, na Grécia, que acompanhava com preocupação as ações das SS em Salônica, conseguiu tirá-los de lá, levando-os para Atenas, que estava então sob jurisdição italiana.

Graças à interferência das autoridades espanholas, salvaram-se também judeus que se haviam beneficiado da lei espanhola de 1924, que garantia uma certa proteção aos descendentes dos sefaradim expulsos da Espanha, em 1492. O governo de Franco invocou esta lei e pediu que todos os judeus que se enquadrassem nessa categoria, cerca de 600, não fossem deportados. Apesar de não conseguir evitar a deportação, o grupo foi levado para Bergen-Belsen, onde havia um setor especial para os judeus que poderiam ser usados como "trunfo". Destes, 369 conseguiram sobreviver.

O sucesso dos nazistas em aniquilar o altíssimo percentual de 97% dos judeus de Salônica, um percentual maior do que o da Polônia, deveu-se, em parte, ao tamanho e características da comunidade. Para os judeus, era difícil misturarem-se à população, entre outros porque somente os jovens falavam grego sem sotaque. Além disso, os fortes laços familiares fizeram com que muitos preferissem compartilhar o triste destino de seus pais a abandoná-los em mãos alemãs. Além do mais, como em Salônica não havia uma resistência local organizada, era difícil chegar até as bases dos partisans para a eles se juntarem.

Após a saída dos nazistas

A Grécia se viu livre da ocupação alemã em outubro de 1944, tarde demais para os judeus de Salônica. A maioria dos sobreviventes deixaram a Grécia; os que ficaram foram ignorados pelo governo.

Esquecer o fato de que os gregos não-judeus atuaram voluntariamente no assassinato de seus compatriotas faz parte da amnésia histórica grega, iniciada no tempo da guerra para ganhar a simpatia dos Aliados, mas que perdura até hoje.

O historiador Cecil Roth, que testemunhou na Salônica do pós-guerra os prejuízos e saques às propriedades judaicas, escreveu: "Por toda a parte vêem-se vestígios de saques. Encontrei uma criança na rua, sentada em uma cadeira de sinagoga, esculpida com inscrições em hebraico; deram-me um fragmento de um Sefer Torá que fora recortado para ser usado como sola de sapatos; vi carroças no cemitério removendo lápides judaicas para a reparação de uma antiga igreja local, obedecendo a instruções do Diretor do Departamento de Antigüidades da província. Em 1946, mal se encontrava um minian no Shabat".

Muitas das propriedades roubadas à população judaica de Salônica jamais foram devolvidas. Até hoje, a prefeitura não reconheceu o fato da Universidade de Salônica ter sido construída no terreno do cemitério judaico, anterior ao século 15, durante a ocupação nazista.

Foram necessários 54 anos para que a Grécia construísse um modesto memorial público em homenagem aos judeus deportados, após mais de uma década de negociações.

As imagens deste artigo fazem parte do Acervo do Centro de Memória do Instituto Morashá de Cultura

Bibliografia:

Del Fuego, Sepharadim and the Holocaust, Editado por Haham Dr. Salomon Gaon e Dr Mitchell Serels, Jacob E. Safra Institute of Sephardic Studies - Yeshiva University.

Ensaio de Dr. Wolf Murmelstein, The Jewish Community Of Salonica During The Shoah, A Critical Reconsideration Of Historical Data

Dawidowicz, Lucy S. The War Against The Jews: 1933-1945, Bantam Books