Morashá
Os judeus de Livorno na Tunísia

Os judeus de Livorno na Tunísia

por Nimrod Etsion Koren

A comunidade judaica livornesa em Túnis, também conhecida como Grana, manteve laços estreitos com seu país de origem e teve uma larga influência na esfera política da Itália, durante os séculos 19 e 20, apesar de residir do outro lado do Mediterrâneo. Diferentemente de outras comunidades de origem judaica sefardita na bacia do Mediterrâneo, integradas nas comunidades judaicas locais, Grana manteve fielmente sua independência, defendendo sua “italianitá”.

Edição 102 - Dezembro de 2018


Desde o século 16, a população judaica em Túnis dividia-se entre a originária do local, Touansa, e os judeus livorneses que criaram uma comunidade minoritária chamada Grana (Livorno traduz-se como El-Gorna, em árabe). Essa comunidade judaica, que incluía judeus originários de Livorno1 e de outros locais da Itália, desenvolveu-se separadamente do grupo majoritário local, a antiga comunidade arabizada de judeus tunisianos.

Uma das explicações para essa divisão única, sem paralelo no restante do judaísmo do Norte da África, foi a constante relação da comunidade Grana com seu local de origem, a Itália. Exemplos dessas conexões podem ser observados na cultura, educação e vida religiosa. No contexto político, podemos ressaltar os encontros clandestinos de Giuseppe Garibaldi (1807-1882) com seus seguidores judeus “livorneses”, em 1834; a participação dos “livorneses” em revoltas contra o protetorado francês durante a corrida colonial (1871-1914), e seu envolvimento na atividade secreta do movimento antifascista, às vésperas da 2a Guerra Mundial.

Grana durante a Unificação Italiana

A imigração da Itália para a Tunísia, nos séculos 17 e 18, teve motivação principalmente econômica, mas, já em 1815, um novo motivo foi adicionado: o político, principalmente relacionado à supressão do movimento que levou à unificação da Itália. Tiveram papel central nesse movimento, conhecido como Risorgimento, muitos judeus italianos, especialmente de Livorno. Em razão de suas atividades revolucionárias e perseguições sofridas, alguns deles optaram por se exilar. Nos primeiros anos do movimento de libertação, a Carbonária, sociedade secreta liberal inspirada na Revolução Francesa, liderou rebeliões no Sul e Norte da Itália. A proximidade das revoltas na Toscana, no início da década de 1830, trouxe sua primeira onda de refugiados políticos a Túnis, na era pré-colonial. Entre os proeminentes revolucionários judeus chegados nessa onda, estava o republicano Gaitano Fedriani (1811-1881) que, secretamente, aporta em La Goulette, em 1834, junto com seu amigo Joseph Fani, procurado pelas autoridades da Ligúria (Itália). Fani foi, na verdade, o pseudônimo usado por Garibaldi, um dos principais líderes do Risorgimento, durante sua primeira estada em Túnis. Antes de se refugiar nessa cidade, os dois camaradas se haviam filiado ao novo movimento clandestino fundado por Giuseppe Mazzini, ‘Giovine Italia’ (Itália Jovem), com a promessa de se dedicar à libertação de sua pátria da ocupação austríaca. Em 1834, ambos se haviam implicado em uma revolta encabeçada por Mazzini, no Piemonte, região no norte da Itália. Descoberta a conspiração, Garibaldi é sentenciado à morte in absentia e se refugia, com Gaetano Fedriani, em Túnis.

A política governamental local simpatizante foi uma das razões para Túnis ser escolhida como um porto seguro para os combatentes pela liberdade italianos – juntamente com a identificação da comunidade judaica “livornesa” com a causa e sua localização estratégica. Uma das figuras centrais, que muito contribuiu para organização da causa italiana, foi Giuseppe Raffo, conselheiro próximo ao Bey de Túnis, o governante da Tunísia. Raffo, filho de um escravo italiano capturado por piratas da Berbéria, acabou sendo promovido pela corte do Bey. Simpatizante do nacionalismo italiano, patrocinava os seguidores de Mazzini, permitindo que Fedriani e outros patriotas “livorneses” prosseguissem em suas atividades subversivas.

Uma expressão da carte blanche dada a esses círculos de revolucionários italianos é comprovada por uma furiosa carta anônima dirigida ao cônsul austríaco às vésperas da 1ª Guerra de Independência italiana (1848), sobre as atividades clandestinas de outro patriota, David Franco. Na carta, dizia-se que Franco dirigia um clube político onde “um bando de toscanos que, em qualquer outro lugar, teriam sido mortos sumariamente, reuniam-se para amaldiçoar o Grão-Duque e as autoridades que trouxeram ordem e paz para a Itália”.

Atividade livornesa e o estabelecimento do Reino da Itália

O período principal do processo de libertação italiana (1850-1861), ao final do qual estabeleceu-se o Reino da Itália, está associado aos empreendimentos de Camillo Benso, Conde de Cavour e Primeiro- Ministro do Piemonte-Sardenha, especialmente à sua aliança secreta com o imperador francês. Esta aliança levou à retirada dos austríacos da maior parte da Itália do Norte e Central, durante a 2ª Guerra da Independência (1859), abrindo caminho para a União Italiana. Em Livorno, a comunidade judaica celebrou entusiasticamente as vitórias nacionais. Quando a Toscana se juntou à emergente União, em 1859, o jornal da comunidade, L’Educatore Israelita, declarou: “Judeus de todas as classes sociais se uniram a outros cidadãos para apoiar a bandeira tricolor e proclamar a independência da Itália”.

A retórica do auto sacrifício pela Pátria (a Itália) foi amplamente adotada, em Túnis, pelos membros da Grana, os ditos “livorneses”, que compartilhavam sentimentos patrióticos semelhantes aos de seus irmãos italianos. Sob a liderança do ramo tunisino da ‘Giovine Italia’, a capital tornou-se um centro de distribuição da propaganda de Mazzini, funcionando como um ponto de trânsito para a correspondência clandestina (o que atraiu a atenção de várias organizações de espionagem europeias). E, devido à atividade de Benedeto Calò, carbonário2 “livornês” e seu contato direto com Mazzini em Londres, também como um centro de armas escondidas.

As atividades dos judeus “livorneses” na Tunísia se intensificaram e partiram para o estágio seguinte da campanha pela independência italiana – ou seja, a conquista do Reino da Sicília. Na realidade, devido à dedicação dos exilados e à singular localização geográfica, Mazzini pensou em planejar a chegada à Sicília vindo diretamente da Tunísia. Em suas palavras, “Estamos pensando em armamento a ser transferido para a Tunísia e, se necessário, atacar a Sicília”.

Um dos destaques do envolvimento “livornês” ocorreu durante a “Expedição dos Mil” (a conquista do sul da Itália por Garibaldi), com o carregamento de armas recolhidas por Grana, diretamente para a Sicília, durante o desembarque das forças de Garibaldi. A derrota e o desmantelamento do Reino das Duas Sicílias levaram ao estabelecimento do Reino da Itália (1861), o que animou Grana a estimular a naturalização da maioria das famílias de elite da comunidade. Ostensivamente, após ter passado seus melhores anos no exílio, os “livorneses” optariam por voltar à Itália. Mas, a maioria decidiu ficar na Tunísia, permanecendo, no entanto, fiel a seu torrão natal.

Os “Livorneses” e a Competição Colonial, 1871-1914

Embora o Risorgimento supostamente resolvesse a questão do nacionalismo italiano, a unificação era apenas o começo de um debate interno sobre o novo estado-nação. Com a transferência da capital para Roma (1871), as expectativas eram altas, o que dificultou que se contentassem com as fronteiras existentes. A crença no direito da Itália ao seu próprio império e o desejo de fazer reviver o conceito romano de Mare Nostrum3, surgiu em muitos círculos. Mas sua adesão tardia à corrida colonial, forçou a Itália a adaptar suas ambições a seu poder real4. Portanto, a relativa proximidade da Tunísia - sendo parte do glorioso passado da Itália - e a existência de uma grande comunidade italiana, que incluía a rica elite de Grana –, aumentou a atratividade daquele país como um trunfo para a sua autodeterminação como potência europeia. Assim, apesar das “naturais” ambições italianas e, aparentemente, por causa delas, a França entrou em ação e, no início de 1881, sem aviso prévio, invadiu o país, estabelecendo um protetorado. Os italianos ficaram chocados com a ‘Bomba Tunisiana’ e as relações com os vizinhos franceses foram agravadas.

No entanto, a base da competição por influência entre os dois poderes durante a Regência de Túnis teve suas raízes implantadas durante o período pré-colonial5, tendo Grana desempenhado um papel vital nessa disputa. Já em 1770, o cônsul francês em Túnis escrevera: “O principal fator que impede o desenvolvimento do comércio francês é a competição com os comerciantes judeus [que, em sua maioria, eram “livorneses”]. É um obstáculo que nunca seremos capazes de superar”. Em contraste, vários italianos argumentaram que, desde a conquista francesa da Argélia, em 1830, a Tunísia havia sido submetida à influência política francesa. Um tipo similar de visão também foi compartilhado por Garibaldi, que atribuiu a recusa em permitir sua entrada em Túnis, em 1849, precisamente a essa influência.

Nos anos que se seguiram, o afundamento em dívidas do governo do Bey foi o fator que aumentou a influência da Itália e da França nos assuntos internos de seu país, por meio dos seus súditos judeus, seus principais credores. Mas enquanto os devedores parisienses usaram a alavancagem do governo de Napoleão III para ameaçar o Bey, alguns dos “livorneses” se aproveitaram dessa posição para estabelecer seus status na Corte. A consolidação e a expansão de suas empresas toscanas aumentaram a presença e influência italiana na Regência, mas também a suspeita e o desejo franceses de impedir a Itália de concretizar novas ambições imperialistas. Uma suspeita infundada, na verdade, pois o governo liberal italiano, liderado por Cairoli, aderia, aos poucos, a uma política anti-imperialista de “mãos limpas”. Cairoli, que lutou pela libertação da Áustria durante 20 anos, declarou, em 1879, que todos os países da Europa ou da África tinham direito à autodeterminação. Dois anos depois, quando o exército francês invadiu a Tunísia, ele foi ridicularizado como ingênuo e perdeu seu cargo.

O Protetorado Francês - e seu uso como ferramenta para enfraquecer Grana

Parecia que o estabelecimento do protetorado satisfaria a França em termos de frustrar as futuras ambições da Itália na Tunísia. Na prática, o regime serviu como uma ferramenta eficaz para controlar a influência italiana.

Para lidar com o “Perigo Italiano”, formulou-se uma política e o primeiro grupo a ser afetado pela mesma foi Grana. Apesar de abranger toda a colônia, seu principal objetivo foi direcionado às camadas superiores. Assim, enquanto a administração abria as portas à emigração de milhares de trabalhadores manuais da Sicília, essa nova política agia, através de uma série de decretos, para enfraquecer a burguesia italiana incluindo seus industriais, mercadores, advogados e engenheiros, a maioria dos quais eram judeus “livorneses”.

Durante os primeiros anos da ocupação, o confronto não se deteriorou em violência. Uma das razões para isso foi que, na comunidade judaica, Grana, que se opunha à administração francesa, era uma voz solitária. A comunidade judaica tunisiana local (Touansa) estava convencida de que se beneficiaria das mudanças feitas pela França. Mas a recusa da França em conceder a cidadania francesa aos judeus tunisianos e a deterioração de grande parte dos aspectos de sua vida, levou-os a perceber o domínio francês sob uma luz mais crítica. Em 1887, foi estabelecida uma frente que unificou a liderança de ambas as comunidades judaicas em um protesto conjunto.

Em 20 de março, protestando contra uma tentativa de mudança das regras funerárias judaicas, milhares de manifestantes invadiram o cemitério judeu em Túnis, entrando em confronto com uma força militar e gritando slogans antifranceses e pró-italianos. Em sua busca pelos iniciadores dos tumultos, o ministro francês das Relações Exteriores apontou um dedo acusador para Grana. Definindo os distúrbios como uma conspiração hostil à França, advertiu: “Em tempos de crise, aqueles que se levantam contra nós encontram apoio entre muitos no setor judaico”. Embora a validade da interpretação francesa seja controversa, a visão das autoridades de que membros de Grana estavam por trás da revolta teve implicações dramáticas para todos os judeus da Tunísia. Como resultado, o processo de modernização da comunidade foi adiado por décadas.

Solução da Crise, 1896

Como mencionado, as relações entre a Itália e a França entraram em colapso após a invasão da Tunísia. Por 15 anos, a Itália foi a única potência europeia que se recusou a reconhecer o protetorado francês, mas, devido à colossal derrota sofrida por seu exército, na Etiópia, e à ascensão ao poder de Antonio Starabba, iniciou-se um período de melhores relações com a França. Um tratado assinado em Paris pôs fim à guerra tarifária e, em troca do reconhecimento italiano do protetorado, seus súditos tunisianos passaram a desfrutar de um status único. No entanto, os privilégios concedidos pela França aos súditos italianos não foram gratuitos e o preço pago pelo governo liberal italiano por ajudar os mercadores “livorneses” seria cobrado, ao máximo, pelo regime fascista.

Itália Fascista: Um Desafio para o Patriotismo Italiano

É comum identificar-se o fascismo com o racismo e o antissemitismo devido à sua proximidade política e ideológica ao nazismo, mas, antes do estabelecimento do eixo Roma-Berlim, em 1938, não existia discriminação legal na Itália. De fato, com sua ascensão ao poder, no início dos anos 1920, o movimento fascista saiu contra qualquer ideologia racista e abriu suas portas para muitos judeus. Entre os proeminentes estavam Enrico Rocca, o fundador do movimento, em Roma, e Angelo Olivetti, um de seus principais pensadores. Portanto, não deveria surpreender que a resistência inicial ao fascismo nos círculos judaicos, na Itália e na Tunísia, não se tenha originado de uma política antissemita, mas sim, de um fundo ideológico – especialmente da esquerda.

Em Túnis, durante a década de 1920, vários judeus italianos atuavam nos partidos comunistas, bem como em outras estruturas ideológicas como a maçonaria, células anarquistas ou republicanas. No entanto, nesse período, a maior parte da comunidade vinculou seu destino ao novo regime porque esperavam, como a maioria dos italianos, que servisse à nação italiana. Portanto, muitos se juntaram a suas organizações e, para comprová-lo, portavam o símbolo do partido. Eles também apoiaram reivindicações territoriais como aquela expressa por Mussolini, em 1923: “Os 120.000 na Tunísia, (...) que trabalham hoje para a Regência francesa, mas que, amanhã, provavelmente trabalharão sob a Regência italiana”.

Em 1935, quando o Duce invadiu a Etiópia, os judeus “livorneses” estavam entre os que contribuíram para o esforço de guerra com suas alianças de casamento, e alguns até se ofereceram para servir no exército fascista. Os judeus foram elogiados, entre outros, por Piero Perrini, ministro do governo de Mussolini: “É um prazer enfatizar que esses voluntários judeus são filhos de judeus de Livorno, que deixaram a Itália antes de sua fundação. Este é realmente um bom exemplo de sua devoção”. Uma semana antes, o jornal Boker trazia a história do tenente Atias, de Grana: “(...) comandante de um batalhão inteiro. Ele ocupa a posição mais importante depois do comandante da Legião”.

Portanto, os “livorneses” ficaram muito desapontados quando ficou claro que, pela liberdade de ação dada pela França a Mussolini na Etiópia, este último havia pago com o sacrifício dos direitos dos “livorneses”, como parte do acordo Mussolini-Laval, de 1935. Isso levantou dúvidas no coração dos judeus italianos em relação ao regime e, ao mesmo tempo, motivou os antifascistas.

Os ativistas do movimento underground “livornês” começaram a atuar em uma variedade de arenas: assistência a refugiados, apoio a círculos antifascistas em Paris e, até, participação nos tumultos em Túnis. As organizações fascistas chamavam essas atividades de “traição da terra natal” e os agentes da polícia política secreta (OVRA) começaram a agir contra eles.

Uma Comunidade Dividida - final da década de 1930

A tensão entre os lados aumentava dia após dia, atingindo um dos seus picos em setembro de 1937, quando os marinheiros de um navio fascista ancorado em Túnis descobriram que, no porão da sede do Partido Comunista, estavam sendo preparados panfletos para distribuição a bordo. Mais tarde, naquela noite: ... “50 marinheiros invadiram seus escritórios, atiraram selvagemente em três membros e mataram o secretário Micelli”, como foi publicado no Palestine Post. Referindo-se ao incidente, Nadia Gallico, uma das líderes “livornesas” do movimento comunista clandestino, disse que o assassinato dividira a comunidade. De fato, as diferenças de posição podem ser vistas a partir da versão do evento publicada na imprensa consular italiana, que contava com alguns burgueses de Livorno entre seus editores: “Os marinheiros foram atacados por pessoas com ideias revolucionárias, que disseminavam panfletos de propaganda, levando o secretário a se matar”.

No entanto, um evento com implicações mais significativas ocorreu pouco depois, na Itália. As leis raciais que, em julho de 1938, foram recebidas com aplausos no Parlamento Romano, aturdiram os judeus da Itália (entre outras restrições, proibindo-lhes de casar com cristãos, servir no governo e possuir terras). Embora Grana tivesse sofrido apenas em parte com as regras, “a noção de que a Itália tinha aceito a teoria da raça nazista causou pânico entre eles”, como relata o jornal Boker. Mas mesmo essa política antissemita não produziu uma reação uniforme entre os judeus “livorneses” e os que se diziam “patriotas” continuaram a demonstrar extrema lealdade ao regime. Alguns procuraram ajuda das autoridades do protetorado, mas outros preferiram intensificar sua resistência.

A intensificação das demandas irredentistas6 fascistas também alimentou a luta. Semelhante à Alemanha nazista, essas reivindicações territoriais italianas foram acompanhadas pela radicalização da política racial. Assim, na mesma semana em que as leis raciais foram adotadas, massas de estudantes fascistas marcharam para a embaixada francesa, bradando: “Nós queremos a Tunísia”. Para reforçar as reivindicações, a marinha italiana realizou manobras no litoral de Bizerta. Naquela época, uma nova linha temática começou a caracterizar a propaganda fascista; em seu foco, uma tentativa de incitar a maioria muçulmana contra a minoria judaica, usando a retórica de seus oponentes comunistas, como relatado no jornal Davar: “Os judeus roubam dos árabes os frutos de seu trabalho e vivem às suas custas”. Também encorajou “as massas de Túnis a fazer um acerto final com os judeus, agentes britânicos e ‘sanguessugas’ ”.

Em resposta, o jornal antifascista publicou um manifesto contra as tendências expansionistas da Itália, declarando: “O fascismo anseia pela Tunísia apenas para impor sua dominação terrorista”. Ao mesmo tempo, para aumentar o clamor contra as leis raciais, Maurizio Valenzi, outro proeminente ativista “livornês”, foi a uma missão em Paris, onde ajudou a publicar o jornal dos exilados, La Voce degli Italiani. Esse jornal expressou uma das vozes mais claras contra o fascismo e o antissemitismo: “Ao defender os judeus, que foram confiscados, humilhados, espancados até à morte, defenderemos a herança da civilização italiana contra a barbárie fascista”.

Contra esse pano de fundo de enérgica atividade, pode-se entender a afirmação de Paul Sebag, um dos importantes historiadores do judaísmo tunisiano, de que a atividade “livornesa” na capital, “às vésperas da 2ª Guerra Mundial, transformou Túnis em um dos bastiões de antifascismo fora da Itália”.

Os Motivos do Envolvimento Político de Grana

Dado o extenso envolvimento dessa pequena comunidade de exilados no destino político de seu país de origem, surge a questão sobre seus motivos e a razão para ser uma arena tão vibrante para a atividade política. A resposta parece envolver vários fatores. A proximidade geográfica entre Itália e Tunísia (apenas 145 km no Estreito da Sicília), os tratados bilaterais que garantiam privilégios aos imigrantes toscanos/italianos, o patrocínio dado pelos Beys de Túnis à atividade revolucionária e, especialmente, o poder econômico, cultural e social da comunidade judaica italiana na Tunísia.

No entanto, acima de tudo, esse fenômeno do ativismo político diaspórico pode estar relacionado à incomum divisão entre as duas comunidades judaicas, Grana e Touansa, sem as quais os “livorneses” teriam sido destinados à assimilação entre seus irmãos tunisianos. Parece que sua insistência intransigente em uma existência judaica separada os ajudou a esquecer que eles não mais viviam em sua terra natal. A compreensão de sua língua, nomes, comércio, culinária e seus teatros permitia que ficassem, como afirmou o correspondente de Doar Hayom: “...mentalmente mais próximos dos judeus da Itália do que dos judeus da Tunísia”. Em outras palavras, a tendência cultural, a tendência secular e o separatismo étnico tiveram um impacto significativo na agenda política italiana dos “livorneses”.

1        Livorno é uma cidade na região da Toscana, Itália. Porém, no texto, o termo “livorneses” refere-se aos judeus de Grana - de origem italiana, mas que viviam na Tunísia.

2        A Carbonária foi uma sociedade secreta e revolucionária que atuou na Itália e em outros países.

3        Mare Nostrum (“nosso mar”, em latim) era o nome dado pelos antigos romanos ao mar Mediterrâneo. Após a unificação da Itália, em 1861, o termo foi revivido por nacionalistas italianos, que acreditavam que o país era o sucessor do Império Romano, devendo controlar os territórios que pertenceram a Roma em todo o Mediterrâneo. O termo foi utilizado novamente por Benito Mussolini na propaganda fascista,
de maneira similar ao Lebensraum de Adolf Hitler.

4        O atraso resultou principalmente da unificação tardia do Estado (1871), mas se deveu, também, à influência do nacionalismo moderado das posições defendidas por Mazzini e Garibaldi.

5        Era governada por Beys vassalos do sultão de Istambul até 1881, quando o país foi conquistado pela França.

6        O termo irredentismo indica a aspiração de um povo a completar a própria unidade territorial nacional, anexando terras sujeitas ao domínio estrangeiro com base em teorias de uma identidade étnica ou de uma precedente posse histórica, verdadeira ou suposta.

BIBLIOGRAFIA

Clancy-Smith, Julia, Mediterraneans: North Africa and Europe in an age of migration, c. 1800-1900, University of California Pres, 2012, Berkeley

Ganiage, Jean. Les origines du protectorat franc¸aisen Tunisie (1861-1881), Paris: Presses Universitaires de France, 1959.

Sa’adon, Haim. [Hebrew] Jews and Muslims in Tunisia: Between French Colonialism and Tunisian Nationality, 2003, Tel Aviv.

Sebag, Paul. Histoire des Juifs de Tunisie: des origines à nosjours, Edition L’Harmattan, 1991.

O artigo é baseado em um trabalho apresentado em um seminário enfocando o judaísmo norte-africano e um estudo publicado no Journal of Education, Society and Behavioural science.

Nimrod Etsion Koren é aluno de pós graduação no Departamento de História, Filosofia e Estudos Judaicos na Universidade Aberta de Israel.