Morashá
Judeus franceses do séc. 19 Euforia e desencanto Foto Ilustrativa

Judeus franceses do séc. 19 Euforia e desencanto

Para os judeus da França, os cem anos que sucederam a revolução de 1789 foram os mais importantes de sua história, definindo a face do judaísmo francês e moldando a vida e identidade dos judeus do mundo na modernidade.


Ao eclodir a Revolução Francesa, os 40 mil judeus que viviam no Reino da França eram inexpressivos para a História Judaica, tampouco havendo então uma comunidade judaica francesa organizada. Os que viviam dentro do território da atual França estavam divididos regionalmente, separados por suas tradições e por seu modus vivendi. Nas comemorações do centenário da Revolução, os cerca de 70 mil “cidadãos franceses de fé mosaica” compunham a mais influente comunidade judaica da Europa, um modelo para os judeus no continente todo e no Oriente Médio.

Orgulhosos de sua pátria e de suas conquistas, eles acreditavam de corpo e alma no “modelo francês” de emancipação e integração. E, mesmo quando, no final do século 19, a euforia começa a ceder lugar ao desencanto – com o surgimento do moderno antissemitismo e o brutal choque causado pelo caso Dreyfus – na imaginação de seus cidadãos judeus e dos seus irmãos de outras partes, a França ainda representava a pátria dos Direitos Humanos.

Judeus na França no Antigo Regime

Sob o Ancien Régime, os judeus diferiam entre si de acordo com o local de seu assentamento regional. Na região sul da atual França viviam dois grupos, os Juifs du Pape, que viviam do Condado de Venaissin e de Avignon, na época ambos sob a autoridade papal, e, no sudeste, judeus ibéricos.

Os sefaraditas haviam começado a se estabelecer na região no final do século 15, aproveitando a janela de oportunidade que se abrira, em 1472, quando o rei Luís XI encorajara a vinda de estrangeiros a Bordeaux. Entre os comerciantes ibéricos que lá se estabeleceram havia inúmeros “mercadores portugueses” – também conhecidos como “portugueses chamados de cristãos novos”.

Nas décadas seguintes, com a deterioração de sua situação na Península Ibérica – a expulsão da Espanha, em 1492, e a conversão forçada, em Portugal, em 1497– cresce ainda mais o número de cristãos novos que procuram refúgio na França. Nem todos eram criptojudeus e, os que o eram, tinham que manter sua fé em segredo, vivendo como “bons cristãos”, pois a França estava fechada desde 1394 ao Povo Judeu. No entanto, o temor de serem descobertos não os assustava, pois a Inquisição nunca chegou a ter na França o poder que alcançara em outros países.

Em 1550, os “portugueses chamados de cristãos novos” obtêm cartas-patente que lhes garantem a liberdade de comércio, o direito de adquirir propriedades e “de se estabelecer onde desejassem”. Num primeiro momento, estabeleceram-se em Saint-Jean-de-Luz e, a partir do século seguinte, em Saint-Esprit, perto de Bayonne, em Labastide-Clairence, assim como em Marselha, Lyon, Nantes, Rouen e nas colônias francesas da América.

Houve tentativas vãs de bani-los de lá, mas, em 1656, seus privilégios são confirmados por Luís XIV, le Roi-Soleil, que, no entanto, limita sua área de residência à província de Guyenne. O status religioso dos “portugueses” continua ambíguo até as primeiras décadas do século 18, quando são oficialmente reconhecidos como judeus. Em 1723, ao renovar os privilégios a eles concedidos, as cartas-patente de Luís XV utilizam uma fórmula inusitada, tratando-os como “judeus..., conhecidos e estabelecidos em nosso Reino como portugueses ou cristãos-novos”. E, nas cartas de privilégios de 1776, o termo “cristãos-novos” sequer é mencionado.

No entanto, antes mesmo desse “reconhecimento” oficial, os “portugueses” haviam gradualmente abandonado o disfarce do catolicismo. Os de Saint-Esprit assumiram seu judaísmo em 1654. Entre outros, adquiriram terras em Saint-Esprit-les-Bayo para a construção de um cemitério, e, em 1668, organizaram sua comunidade. Passados 30 anos, foi a vez dos judeus de Bordeaux fundarem organizações beneficentes que lançaram as bases da futura comunidade. Em meados do século 18, havia cerca de 3.500 judeus em Saint-Esprit e 2.000 em Bordeaux.

Em sua maioria, os judeus sefaraditas eram abastados, vestiam-se como os membros da burguesia, falavam fluentemente o francês e participavam da vida intelectual e cultural francesa. Em Bordeaux, o francês substituíra o espanhol como idioma usado nas escolas judaicas e nos documentos comunitários. Para os iluministas franceses, os sefaraditas do sul da França eram o modelo ao qual todos os judeus deviam aspirar.

Na segunda metade do século 16, os judeus voltam a se assentar na região norte da França. Quinze anos após a Coroa francesa estabelecer, em 1552, sua hegemonia sobre Metz, Toul e Verdun, quatro famílias de judeus alemães obtém permissão de se instalar em Metz. Ao contrário dos sefaraditas, eram judeus “declarados”, os primeiros a se estabelecer oficialmente no país após a expulsão, no século 14. Em 1595, as 20 famílias que viviam nessa cidade logram fundar uma comunidade judaica asquenazita. O número de judeus que viviam na Alsácia continuaria a aumentar chegando a 6.800, no início do século 18, e a 22.500 nas últimas décadas daquele século. Às vésperas da Revolução, a maioria dos judeus da França viviam na Alsácia e Lorena.

Ao contrário dos sefaraditas, os asquenazitas do norte da França não se haviam aculturado, ainda falavam alemão ou iídiche. Apenas poucos membros da elite dominavam o francês; a grande maioria observava em grande detalhe as leis e tradições judaicas, e quase todos ainda ganhavam seu sustento emprestando dinheiro a juros.

A partir do início do século 18 mais um núcleo judaico vai se formar em Paris, apesar da cidade estar oficialmente “fechada aos judeus”. A capital da França se tornara a capital cultural do mundo e exercia um poderoso fascínio sobre todo o Ocidente, inclusive sobre os judeus da Europa.

Ao chegar a Paris, a maioria dos judeus se via obrigada a viver na semiclandestinidade, pois, com exceção de uns poucos sefaraditas portadores de cartas de naturalização, eles dependiam da boa vontade da polícia para conseguir um visto de permanência. Os judeus parisienses acabam organizando-se em dois grupos distintos: os sefaraditas e os asquenazitas. Cada grupo mantinha suas próprias sinagogas e seus cemitérios. Os “portugueses” inauguram sua sinagoga, na Rua Saint-André-des-Arts, em 1770. Oito anos mais tarde, os “alemães” abrem a sua na Brisemiche e, no ano seguinte, outra na Rua Rénard. Ao eclodir a Revolução, o número de judeus da cidade era insignificante, apenas 600. Em meio a cerca de 800 mil habitantes, eram praticamente invisíveis...

Os philosophes e a questão judaica

A chamada “questão judaica” entrou na agenda dos pensadores iluministas na segunda metade do século 18. Partidários da primazia da razão e defensores da liberdade, eles acreditavam, entre outros, que a condição do indivíduo era mais importante do que suas diferenças históricas ou religiosas e que seu comportamento era consequência do meio em que vivia. Afirmavam ainda, que cada indivíduo tinha direito a uma opinião própria e à sua livre expressão. Em relação aos judeus, a maioria acreditava que era possível “regenerá-los” e transformá-los em “cidadãos úteis”.

Apesar do pensamento iluminista não ter surgido na França, encontra em Paris seu núcleo irradiador. Não era unânime a posição dos philosophes,como eram chamados os iluministas franceses, entre os quais, Montesquieu, Rousseau, Voltaire, quanto aos judeus e à sua emancipação. Os ataques mais virulentos contra eles partiram do “campeão” da liberdade individual, Voltaire, que, entre outras, fez declarações do tipo: “Os judeus nascem, todos, com um violento fanatismo em seu coração, assim como os bretões e os alemães nascem com o cabelo louro (...). Eu não ficaria nem um pouco surpreso se essas pessoas se tornarem, algum dia, mortalmente perigosas para a raça humana”.

“Liberté, Egalité, Fraternité”

Ao eclodir a Revolução, em julho de 1789, havia cerca de 40 mil judeus no território da atual França: 30 mil asquenazitas, os “alemães”, no Norte e no Leste; 5 mil sefaraditas, os “portugueses”, no Sudoeste; 3 mil e 500 Juifs du Pape, no Sul; e cerca de 600 em Paris. Eles ainda viviam à margem da sociedade maior, em corporações separadas, que se autogovernavam de acordo com a lei judaica, em todos os assuntos que envolvessem seus membros.

Em 14 de julho, o povo de Paris toma a Bastilha e, no dia 26 de agosto, a recém-criada Assembleia Nacional Constituinte publica a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. O texto expunha os ideais da Revolução, que podem ser sintetizados em três princípios: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” - Liberté, Egalité, Fraternité, afirmando ainda que “todos os homens nascem iguais e permanecem livres, com iguais direitos” e “nenhum homem pode ser molestado por suas opiniões, mesmo as religiosas”. A declaração foi recebida pelas lideranças judaicas com entusiasmo, pois acreditavam que o espírito igualitário da Revolução, exposto no texto, incluía os judeus e que, portanto, não tardaria a sua emancipação.

No próprio dia 26, os judeus parisienses pleiteiam à Assembleia a sua cidadania, afirmando estarem prontos para renunciar à independência comunitária. Cinco dias depois, é a vez dos judeus ashquenazim da Alsácia e Lorena. Estes, porém, queriam a manutenção da autonomia comunitária. As duas reivindicações não foram atendidas. Para conseguir a emancipação, os judeus teriam que vencer o arraigado antissemitismo da população francesa. Esse sentimento era forte principalmente na região da Alsácia, onde, naquele mesmo verão, eclode uma onda de violência contra a população judaica. Os camponeses haviam “interpretado” a liberdade trazida pela Revolução como uma autorização para não pagar as dívidas que tinham com os judeus. No final de dezembro, a Assembleia debate a concessão de direitos a não católicos. Nomes importantes, como o Abbé Grégoire, posicionam-se a favor da emancipação judaica. Durante um discurso, o conde de Clermont-Tonnerre alertara a Assembleia de que “As reservas aos judeus são muitas. As mais graves são injustas, as outras apenas erradas”. Foi nessa ocasião que Clermont-Tonnerre fez a histórica declaração: “Para os judeus enquanto Nação, nada; para os judeus como indivíduos, tudo”.

No entanto, tamanhas eram as divergências de opiniões e a veemente oposição dos delegados alsacianos, que enquanto os protestantes viram seus direitos reconhecidos, a questão da cidadania judaica foi posta de lado.

Em janeiro de 1790, é a vez dos judeus sefaraditas pleitearem a cidadania. Em seu pedido, eles ressaltam o tempo em que já viviam na França e os privilégios concedidos pelo Estado ao longo dos séculos, assim como sua total integração na sociedade francesa. Depois de um debate acirrado, a Assembleia concedeu aos judeus “conhecidos na França como portugueses, espanhóis e avignhonenses (os que viviam em Bordeaux)… os direitos de cidadãos, uma vez atendidas as condições exigidas pelos decretos da Assembleia”.

Os judeus asquenazitas da Alsácia-Lorena, bem como os de Paris, seguiram fazendo seu lobby durante os anos de 1790 e 1791. Chegaram a levar suas reivindicações à influente Comuna de Paris, centro do poder jacobino, que envia à Assembleia a mensagem de que a emancipação judaica era a “vontade do povo”. Mais uma vez, nada aconteceu.

Os judeus tiveram que esperar até setembro de 1791 para finalmente conseguir a emancipação. A Assembleia Constituinte finalizava seus trabalhos quando um deputado apontou o fato de que os judeus eram o único grupo cujo direito de cidadania ainda não fora regulamentado. Na votação que se seguiu, todos os judeus da França tornaram-se cidadãos plenos, com a condição de que renunciassem ao seu status comunitário.

No entanto, cientes da oposição que a emancipação encontraria, a Assembleia “apaziguou” os ânimos de seus opositores, determinando que as dívidas de não judeus em mãos dos credores judeus seriam revisadas e, conforme o caso, perdoadas.

A Era Napoleônica

Em 1799, um golpe de Estado leva Napoleão ao poder e, cinco anos mais tarde, ele é coroado imperador, tendo governado a França até 1814.

É difícil definir a atitude complexa e contraditória de Napoleão em relação aos judeus. Ele dá guarida aos preconceitos antissemitas e, enquanto para os judeus da França seu governo levou a um retrocesso em seu status civil, nos países ocupados fez mais por sua emancipação do que tudo o que lhes ocorrera nos três séculos anteriores.
 
Hábil político, em pouco tempo consegue apaziguar e controlar os inúmeros grupos e facções político-religiosas existentes na França. A “questão judaica” passa a fazer parte de sua agenda política no início de 1806, quando recebe das autoridades da Alsácia-Lorena queixas sobre os juros cobrados pelos judeus e o pedido de declarar uma anistia geral das dívidas com eles contraídas pela população campesina. Napoleão suspende, então, por um ano, os débitos. Não queria, no entanto, transformar os judeus em grupo insatisfeito; pelo contrário, queria conquistar sua total lealdade.

Para o Imperador, os judeus ainda eram “uma nação dentro de uma nação” e era necessário “corrigir” esse comportamento para que pudessem, de fato, tornar-se “cidadãos franceses de fé judaica”. Napoleão também pretendia esvaziar a campanha dos monarquistas, que pleiteavam a volta das antigas restrições e discriminações, apontando a “incapacidade” judaica de cumprir o dever cívico.

Em julho de 1806, ele convoca, em Paris, uma “Assembleia de Judeus Notáveis”, constituída por “rabinos, proprietários de terras e outros membros da comunidade”. O intuito era de constatar qualquer conflito porventura existente entre a legislação cívico-francesa e a religioso-judaica. A Assembleia teria que responder 12 perguntas de cunho pessoal, comunitário e profissional, mas a pergunta-chave era: “Os judeus veem a França como seu país e concordam em obedecer a suas leis e as defender?” Uma comissão, presidida pelo respeitado rabino de Estrasburgo, David Sinzheim, grande autoridade em Halachá, preparou as respostas que conseguiram “satisfazer” Napoleão, sem, no entanto, desviar-se da Lei Judaica.

O Imperador quis, então, que fossem aceitas por todos os judeus da França. E, em agosto de 1806, decreta a convocação de um “corpo legislativo judaico”, ao qual chamou Sanhedrin. (Ver Morasha 56). Composto por 46 rabinos e 25 notáveis, o “Sanhedrin de Napoleão” reuniu-se em Paris, em fevereiro de 1807. Mais uma vez, o rabino Sinzheim estava na direção dos trabalhos. As respostas da Assembleia dos Notáveis foram endossadas pelo “Sanhedrin de Napoleão”. Sim, os judeus consideravam a França sua pátria e os franceses, seus irmãos, e denunciavam como sendo calúnias as acusações sobre a sua falta de patriotismo. Em suas deliberações, o conclave adotou o conceito de Dina malkuta dina (“a lei do país é a lei”), concluindo, portanto, que os judeus deviam obediência ao Estado nos assuntos civis e políticos. As conclusões desse Sinédrio repercutiram por todo o Ocidente, moldando a vida e identidade dos judeus na modernidade.

Dando sequência a essa política, em março de 1808, o imperador promulga dois importantes decretos. O primeiro, que dizia respeito à “Organização Regulamentar da Religião Mosaica”, criou o “sistema conciliar”, que estabelecia em todo o território francês os consistórios – conselhos de rabinos e leigos responsáveis pela administração dos assuntos comunitários. Pela primeira vez em sua longa história, os judeus da França estavam sob uma única organização centralizada.
Habilmente, Napoleão conseguira colocar, assim como fizera com católicos e protestantes, a estrutura religiosa dos “cidadãos franceses de fé mosaica” sob controle do Estado. Mas, contrariamente à política adotada em relação aos cleros de outras denominações religiosas, o Estado não pagaria o salário dos rabinos.

O “sistema conciliar” era encabeçado pelo Consistório Central de Paris. Nomeado pelo Ministério, esse órgão era formado por três rabinos e dois membros laicos, geralmente integrantes das elites judaicas. Entre suas inúmeras funções, o Consistório Central era encarregado de supervisionar os demais consistórios distritais e gerenciar sinagogas e instituições judaicas em toda a França. Era também o porta-voz oficial dos judeus do país e o responsável pela proteção do judaísmo e dos judeus. Responsáveis pela assistência aos judeus necessitados, os consistórios fundam orfanatos, lares infantis e, em 1852, inauguram, em Paris, o Hospital Rothschild. Como a educação secular se tornara de importância primordial para a integração dos cidadãos de fé mosaica, é criada uma rede de modernas escolas judaicas. A primeira para meninos foi inaugurada, nessa cidade, em 1819, e em 1822 é inaugurada uma escola para meninas.

O segundo decreto promulgado por Napoleão foi um duro golpe para os “cidadãos de fé mosaica”, pois traía todas as promessas de cidadania com igualdade de direitos. Chamado pelos judeus de Décret Infame, a nova legislação, que ficou em vigor por 10 anos, colocava sob escrutínio as dívidas contraídas aos judeus; exigia uma licença especial para quem pretendia exercer atividades comerciais; restringia o direito de residência na Alsácia aos judeus já lá domiciliados; proibia a qualquer judeu fazer-se substituir se recrutado para o serviço militar. Somente os judeus portugueses ficaram excluídos das discriminações.

Foi apenas durante a Monarquia de Julho, instituída após um levante ocorrido em julho de 1830, que os “israélites” obtiveram absoluta igualdade de direitos. Em fevereiro de 1831, o “culto israelita” é equiparado a outras religiões, fazendo jus, assim, a uma dotação do Estado. E, em 1846, graças ao empenho de Adolphe Crémieux, líder dos judeus da França (Ver Morashá 70), foi abolido o more judaico, juramento que os judeus eram obrigados a fazer, desde a Idade Média, em processos judiciais com terceiros não judeus.

Aculturação e integração dos israelitas

A emancipação vai exigir dos judeus franceses grande dose de aculturação e integração. Eles adotam o francês como idioma e o estilo de vida e valores da burguesia francesa, assumindo, inclusive, os mesmos maneirismos. Os cidadãos franceses de fé mosaica acreditavam ser perfeitamente possível viver como cidadãos patriotas e judeus praticantes.

Muitos historiadores consideram que, no decorrer desse processo de integração, os judeus franceses acabaram assimilando-se. Essa visão, no entanto, não faz justiça ao complexo processo de transformação ocorrido no período no seio da comunidade judaica local. Uma assimilação total implicaria na substituição da identidade judaica pela francesa, o que não ocorreu.

Os judeus franceses não visavam o desaparecimento de suas instituições. Tampouco houve um alto índice de conversões ao catolicismo, pois, diferentemente do ocorrido em outros países da Europa, a emancipação precedeu a aculturação, não sendo, portanto, necessário deixar de ser judeu para “subir na vida”. Na realidade, as reformas no culto instituídas pelas lideranças comunitárias foram basicamente estéticas, não pretendendo afastar os judeus de sua fé, nem tampouco fazê-los abandonar suas tradições e herança cultural.

No decorrer do século 19, ansiosos em provar seu patriotismo, eles se envolvem, cada vez mais, na vida econômica, social e política de seu país. A Revolução Industrial provocara um rápido aumento na economia e os judeus participam desse desenvolvimento. Atraídos pelas oportunidades que os centros urbanos ofereciam, milhares deixam suas comunidades em direção a Paris e também a Marselha e Lyon. Em meados do século, metade dos judeus franceses já viviam em centros urbanos.

No entanto, apesar de seus direitos de cidadania serem respeitados sob todos os vários regimes políticos que se sucederam no governo da França, eles ainda eram alvo dos antigos e conhecidos preconceitos antijudaicos e da hostilidade da Igreja e dos monarquistas.

As primeiras desilusões

Em meados do século 19, uma série de acontecimentos os forçaram a arrefecer seu otimismo em relação à sua “Pátria”. A maior cause célebre do século 19, o Caso Damasco, seria a primeira “ducha fria”.

O Caso teve início em fevereiro de 1840, quando 13 judeus proeminentes são presos, em Damasco, acusados de terem matado, para fins rituais, um frade capuchinho e seu criado. Todos eles são submetidos a terríveis torturas.

Na França, os judeus assistem, com grande preocupação, a atitude de seu governo em relação a seus correligionários. O papel do cônsul francês em Damasco, o conde Ratti-Menton, foi de fundamental importância na acusação dos judeus e na divulgação, no Oriente, da “verdade” sobre o envolvimento judaico em assassinatos rituais. O governo francês apoia seu cônsul na Síria e se recusa a qualquer ação em favor dos judeus. O barão James de Rothschild e Adolphe Crémieux inutilmente tentam interceder junto ao rei Louis Philippe e ao primeiro-ministro, Adolphe Thiers, em prol dos injustiçados.
 
Quando os judeus de Damasco são finalmente libertados, isso não se deveu a qualquer ação do governo francês, mas aos esforços de uma delegação judaica composta, entre outros, por Adolphe Crémieux e Sir Moses Montefiore (Ver Morashá 60).

O Caso Damasco provoca grande indignação no judaísmo europeu, que percebe a necessidade de se criar um órgão internacional para atuar na defesa de sua gente. Na França, Samuel Cahen, fundador, em 1840, da revista judaica Archives Israélites, passa a defender a ideia da “Fraternidade Universal Judaica”.

Em 1848, mais uma vez a França seria palco de uma mudança de regime. A crise econômica de 1846 e a difícil situação das classes operárias precipitaram a Revolução de Fevereiro de 1848 e o restabelecimento da chamada Segunda República. Nessa ocasião, Crémieux é indicado ministro da Justiça. Três anos mais tarde, o príncipe Luis Napoleão Bonaparte, então presidente da Segunda Republica, dá um golpe de Estado e instaura o Segundo Império. No novo regime, autocrático e conservador, há um fortalecimento da Igreja, que jamais disfarçara seu antijudaísmo.

Os judeus franceses se sentem ameaçados em várias frentes e observam, preocupados, a incapacidade do Consistório de sair em sua defesa. Além das comunidades judaicas da Alsácia serem, em 1848, novamente vítima de violência, percebem haver um questionamento acerca de seu status em áreas onde acreditavam ser assegurada a igualdade de direitos.

Em junho de 1858, mais um acontecimento abala os israelitas da França. Em Bolonha, o filho de Salomon e Marianne Mortara, Edgard, então com seis anos, é levado pela polícia da cidade. A alegação era que o menino havia sido secretamente batizado e, portanto, devia ser educado dentro do catolicismo. Com a “proteção” do papa Pio IX, Edgard nunca mais voltaria para sua família. Ordenado padre em 1872, tornou-se o abade de Bouhaye.

Para os judeus, a retórica antijudaica do Caso era mais uma confirmação do imperativo de terem um instrumento político que lhes permitisse reagir mundialmente às perseguições de que eram objeto. A hegemonia da França na Europa fazia dos judeus franceses os líderes naturais desse movimento.

Em 1860, essa necessidade se concretiza com a criação da Alliance Israélite Universelle (AIU). Fundada em Paris por um grupo de jovens judeus, a AIU era declaradamente política e seu principal objetivo era ajudar seus correligionários da Diáspora. Os fundadores não concordavam com a cautela política adotada pelo Consistório Central, acreditando que os judeus deviam agir em âmbito internacional em sua própria defesa, através de uma organização unificada. Rapidamente, a AIU se tornou o endereço para onde acorriam os judeus perseguidos, do mundo todo.

Como era de se esperar, a França era central em todo o pensamento e atividades da AIU. Seus fundadores se consideravam franceses e judeus, acreditavam no “modelo francês” de emancipação e na superioridade da cultura francesa. Essa crença fez com que fundassem uma rede de escolas que garantiram uma educação francesa a judeus na África do Norte, nos Bálcãs e no Oriente Médio. Essas escolas acabaram formando uma geração de judeus francófilos. Ainda que fosse apenas por seu idioma e cultura, a França inequivocamente estava presente em todos os níveis de seu cotidiano e o “jeito francês de ser” se tornou parte integral da identidade plural desses judeus.

As conquistas dos cidadãos de fé mosaica

Nos 100 anos que se seguiram à Revolução, o número de judeus passara de cerca 40 mil para cerca de 80 mil pessoas, e, até 1871, quando a Prússia anexa a região, a maioria vivia na Alsácia-Lorena.

A comunidade judaica que mais crescera fora a de Paris, de 600 pessoas, em 1789, para 25 mil, em 1861, chegando a 40 mil, no centenário. No final do século 19, Paris tornara-se lar de mais da metade da população judaica da França. Era a maior comunidade judaica do país e uma das maiores do mundo. Em quatro cidades – Marselha, Bordeaux, Nancy e Lyon havia comunidades com mais de mil pessoas.

O principal vetor de crescimento da comunidade judaica parisiense foi o grande número de judeus da Alsácia-Lorena, principalmente os de classe média, que se transferem para Paris após 1871. A chegada desses imigrantes iria ser fundamental para o desenvolvimento da comunidade judaica parisiense.

Paris, a Cidade Luz, atraía judeus de todas as classes sociais, bem como refugiados políticos, intelectuais e estudantes. Centro da vanguarda, artistas de todas as tendências estabeleceram-se na cidade que provou ser um palco sem igual para o talento judaico.

Em apenas um século após sua emancipação, os judeus tinham-se transformado em importante elemento da burguesia francesa. Na esfera econômica sua presença era marcante. Banqueiros e empresários judeus tiveram importante participação no desenvolvimento da economia francesa, em especial na Bolsa de Valores de Paris e na construção do sistema ferroviário do país. Em 1865, um quinto dos 300 principais financistas do país eram membros da comunidade, assim como o eram, no final do século, mais de 25% dos diretores das instituições financeiras.

Apesar de serem os judeus parisienses mais numerosos no seio da moyenne bourgeoisie, viviam na capital cultural do Ocidente grande número de famílias pertencentes às elites financeiras e empresariais. Entre estas se destacavam 16 famílias da chamada “alta burguesia”, a haute bourgeoisie d’affaires. Entre eles, os Péreire, os Fould, os Oppenheim, os Furtado, os Dupont. Aristocratas judeus vindos de outros países da Europa também se estabelecem na cidade, entre os quais despontam os Camondo, de Istambul, e o barão Leonino, de Gênova, engrossando as fileiras de magnatas financeiros, como os barões de Rothschild, Koenigswarter, d’Almeida e Menasce, e o conde Cahen d’Anvers.
 
Os judeus parisienses também se sobressaem nas profissões liberais, principalmente nas áreas de direito, literatura e medicina e filosofia. A educação secular tivera um papel fundamental na integração judaica na vida francesa. Diferentemente do ocorrido no restante da Europa, onde, até as últimas décadas do século 19, os judeus não tinha acesso a uma educação superior, os franceses podiam cursar universidades e dirigir cátedras universitárias. Adolphe Franck, Henri Bergson e Emile Durkheim (1858-1917, pai da sociologia moderna), são apenas alguns dos intelectuais judeus franceses de fama mundial.

Eles brilharam, também, nas artes e na música. A lista de celebridades inclui compositores como Fromental Halévy, autor da ópera “La Juive”; Isaac Strauss, Charles-Valentin Alcan, Edouard Colonne, Émile Waldteufel, assim como Giacomo Meyerbeer e Henri Herz.

Havia judeus em todos os órgãos estatais, em funções de importância, apesar da resistência à admissão de judeus em suas fileiras ou à sua alçada aos cargos mais elevados, por parte de alguns setores da administração pública, entre as quais o Quai d’Orsay ou as forças armadas. Alguns Juifs d‘État chegaram a servir a seu país nos mais altos escalões governamentais, como Adolphe Crémieux e Michel Goudchaux (1797-1862), que foram, respectivamente, ministro da Justiça e das Finanças no primeiro governo após a Revolução de 1848.

É também no século 19, principalmente durante o Segundo Império, que os orgulhosos cidadãos de fé mosaica erguem em toda França grandes e majestosas sinagogas, a que chamavam de templos. A primeira comunidade a erguer um templo grandioso foi a de Bordeaux. Inaugurado em 1812, sua fachada dava para via pública, algo raro ainda naquela época.

Em Paris, a suntuosa sinagoga de rue de Notre-Dame de  Nazareth é inaugurada em 1822, a da rue  de la Victoire , La Grande Synagogue, em  1874 e a da rue de Tournelles em 1878.  Entre 1790 e 1914 foram construídos em toda França mais de 250 sinagogas.

Judaísmo francês em crise

No final do século 19, o modelo do judaísmo francês é desestabilizado por novos fatores, principalmente o nascimento do antissemitismo moderno e o Caso Dreyfus.

O antissemitismo político surgiu na França nas duas últimas décadas do século 19. Era um “mix ideológico”, que incluía o antijudaísmo tradicional, a judeofobia anticapitalista da esquerda e o pseudocientífico conceito da teoria racial de desigualdade, segundo a qual a “raça judaica” era inferior à “raça ariana”. A publicação, em 1886, da “obra” de Édouard Drumont - La France Juive, “A França Judia”, ajudou a disseminar a nova face do antigo ódio aos judeus.

Jornalista sem expressão, Drumont culpava os judeus por todos os males da França e, em seu livro de 1.200 páginas, consegue reunir todas as “correntes” de pensamento antijudaico. La France Juive foi um estrondoso sucesso, com mais de 100 mil cópias vendidas em menos de um ano. Traduzido em seis línguas, a obra foi reeditada 200 vezes.

De importância ainda maior foi a penetração do raciocínio antissemita no centro do discurso público. Na França do final do século ser antissemita era algo socialmente aceitável e os estereótipos antijudaicos faziam parte da cultura francesa. Os judeus não conseguiam livrar-se dos estigmas antissemitas que os identificavam como estrangeiros, agentes do capitalismo cosmopolita, bolcheviques revolucionários e, acima de tudo, inimigos da França e da herança cristã.

Em meados de 1890, os judeus franceses são sacudidos pelo Caso Dreyfus, cujos pormenores são por demais conhecidos. Acusado de espionagem a favor da Alemanha, o jovem oficial judeu Alfred Dreyfus é julgado por um tribunal militar, a portas fechadas, em dezembro de 1894. Condenado à prisão perpétua, é levado à famigerada prisão na Ilha do Diabo. Durante o ato de sua degradação militar, em 1895, Dreyfus ainda clamava por sua inocência. A cerimônia, que serviu de estopim para todo tipo de manifestações antissemitas, teve profundo impacto sobre Theodor Herzl, jornalista judeu que cobria o evento para um jornal vienense.

L’Affaire Dreyfus dividiu a França em dois campos: os que acreditavam em sua culpa, e os que defendiam sua inocência. Entre os defensores de Dreyfus havia importantes figuras públicas, como os escritores Anatole France e Émile Zola, autor do famoso artigo, “J’Accuse!” (“Eu acuso!”). Em junho de 1899, o caso é, finalmente, reaberto. Mas, apesar das provas de sua inocência, o jovem oficial é novamente condenado por um tribunal militar. Dreyfus acabou recebendo o indulto, mas só seria reabilitado e reintegrado ao exército anos depois, em 1906, com a patente de major, e condecorado com a Legião de Honra francesa.

O Caso Dreyfus foi um tapa no rosto de todos aqueles que acreditavam que o antissemitismo desapareceria à medida que os judeus se aculturassem e os valores do Iluminismo se fossem disseminando. Mas seu desapontamento foi proporcional às ilusões e esperanças que nutriam, pois em sua mente a França nunca desceu do pedestal na qual a tinham colocado.

Bibliografia:
Esther Benbassa, The Jews of France: A History from Antiquity to the Present, E. Princeton University Press,1999
Hyman, Paula E. ,The Jews of Modern France (Jewish Communities in the Modern World), University of California Press, 2005