Morashá
CAIRO, A VIDA JUDAICA Cerimônia de colocação dos tefilim, com a presença do Grão-Rabino Haim Nahoum e do Rabino Hamaoui

CAIRO, A VIDA JUDAICA

Com a conquista do Egito pelos fatimidas em 969, o Cairo tornou-se o centro cultural de todas as comunidades judaicas do Egito.


Antigas comunidades judaicas no Cairo

Em 641, o general árabe Amr Ibn-el-As conquistou o Egito, fundando a cidade de Fostat, hoje Cairo, e a fez capital do país. Os judeus se estabeleceram desde cedo em Fostat, que logo se tornou um atraente centro econômico.
Com a conquista de todo o Egito pelos fatimidas (969), Cairo foi construída ao norte de Fostat. Os judeus se mudaram para a nova cidade e adotaram para si' um bairro chamado Haret-el-Yahoud, bairro dos judeus. Com o tempo, Cairo tornou-se o centro cultural de todas as comunidades judaicas no Egito.

Grandes personagens judaicas da época

Vários judeus tornaram-se proeminentes, sendo que o mais importante foi o rabino Moses Ben Maimon, ou Maimônides (1135 a 1204). Nascido em Córdoba, na Espanha, refugiou-se no Egito por causa da perseguição aos judeus pelo muçulmano Almohades, que governava o sul da Espanha. Maimônides logo transformou-se no líder espiritual da comunidade judaica, além de ser o médico pessoal do vice-rei Saladin. Outro ilustre rabino, Saadia Ben Joseph Gaon (882 a 942), sistematicamente formatou o Sidur com instruções em árabe e traduziu a Bíblia ao árabe.

A ocupação do Egito pelo Império Otomano

Em 1517, o Egito foi ocupado pelo Império Otomano. Muitos judeus eram responsáveis pela administração financeira da cidade, arrecadando impostos e tarifas alfandegárias. Durante o século 16, alguns refugiados espanhóis vieram ao Egito e, com o tempo, formaram-se três diferentes comunidades: os judeus cuja língua materna era o árabe, os magrebinos (do Magreb, norte da África) e os judeus espanhóis.

Durante os séculos 17 e 18, o Império Otomano começou a decair, acompanhado do declínio da população judaica. Estima-se que a população judaica era de cerca de 7 mil pessoas.

A construção do canal de Suez (1859 a 1869) causou um influxo de europeus e judeus de países do oeste da Europa e da Turquia. Seus filhos freqüentavam escolas que tinham o nível educacional europeu. Em 1947, o Cairo tinha aproximadamente 41.860 judeus.

Principais sinagogas do Cairo

Em 1940, o Cairo possuía 40 sinagogas ativas. No entanto durante as festividades judaicas, não conseguiam atender a demanda. Era necessário alugar escolas, clubes e casas privadas para acomodar todos os que queriam participar do culto. A sinagoga maior e mais importante, na rua Adly Pasha, era conhecida como "o templo Ismailia". O nome em hebraico era Shaar Ha-Shamayim (portão do Paraíso).

É um prédio que lembra o templo de Salomão em Jerusalém. Seu interior tem uma decoração imponente, com colunas de mármore. A sinagoga, no entanto, hoje está fechada.

A única sinagoga que funciona atualmente é a de Meadi, freqüentada por diplomatas israelenses. Outra sinagoga bem conhecida é o Templo Maimônides. As pessoas mais velhas falam das curas milagrosas que ocorriam quando os pacientes pernoitavam numa sala da sinagoga, sonhavam com Moshé Rabenu e esperavam alívio para seu sofrimento. Atualmente, a sinagoga está praticamente em ruínas. O teto desabou no início da guerra de Yom Kipur.

Outra sinagoga famosa, considerada a mais velha do Egito, é a sinagoga Ben Ezra. Ficou conhecida por causa do descobrimento de valiosos documentos guardados em seu sótão, acima da galeria das mulheres. Em 1896, Solomon Schecter, um estudante da Universidade de Cambridge, recebeu alguns fragmentos de documentos do Egito. Entre o material recebido, encontrou os originais perdidos do Eclesiastes em hebraico. Ao notar o grande valor do material, ele viajou para o Egito e conseguiu recuperar cerca de 100 mil documentos. Entre as lendas associadas à sinagoga, está a história da filha do faraó que encontrou Moisés no Nilo. A maioria das outras sinagogas do Cairo são negligenciadas pelas autoridades e estão em ruínas ou foram transformadas em mesquitas, repartições públicas ou até em galpões. Sabemos que muitos artefatos religiosos, incluindo rolos da Torá, são vendidos em antiquários.

O lazer dos judeus no Egito

Existiam vários clubes no centro da cidade. Um deles era o Club Union Universelle de la Jeunesse Juive, onde periodicamente eram ministradas palestras, peças de teatro e aulas de dança.. Mais tarde, o Clube Judeu-espanhol foi fundado por judeus que falavam o ladino. O local funcionava como ponto de encontro para se ir ao cinema, teatro ou ao Groppi, um restaurante e clube dançante para jovens europeus e judeus. Durante o verão, os judeus normalmente freqüentavam os cinemas ao ar livre ou as pistas de patinação. Durante as férias, as praias preferidas eram as de Alexandria, Port Said e Ras-el-Bar.

O Cairo tinha quase tudo que uma cidade européia pode oferecer, como o Royal Opera House, onde a primeira ópera encenada foi Aída, de Verdi. Existiam também os grupos italianos do La Scala, que encenavam peças e balés. Os mais recentes filmes produzidos nos Estados Unidos, França e Itália eram exibidos no Egito. Havia também clubes privados para os mais ricos. A estrutura das camadas profissionais entre os judeus do Egito era similar àquela encontrada nas principais capitais européias.

Mudanças na situação política após a II Guerra Mundial

As mudanças na situação política do pós-guerra quase levaram ao desaparecimento da comunidade judaica no Egito. No dia 2 de novembro de 1945, a primeira ação anti-semita foi deflagrada pelo grupo Misr-el-Fatat ("Egito Jovem"), cujos membros usavam camisas verdes. Algumas sinagogas, um hospital judaico, várias instituições e lojas foram depredados. Agressões, ações terroristas, incêndios criminosos e mesmo assassinatos continuaram a ocorrer. Os casos mais sérios ocorreram durante o aniversário da Declaração Balfour, que prometia um lar judaico em Israel.

Quando deflagrou a guerra entre os exércitos árabe e israelense, em 1948, grande número de jovens judeus do Cairo foram mandados para campos de internação em Huckstep, uma antiga base aérea americana. Os jovens de Alexandria foram mandados para um campo em Abukir.

Em 1952, cerca de 20 mil judeus deixaram o Egito, por vontade própria ou por terem sido expulsos. Em 1954, quando Nasser subiu ao poder no Egito, tornou-se muito mais difícil a vida para os judeus. Em 1960, cerca de 40 mil partiram. Nos anos seguintes, a população judaica continuou diminuindo, até restarem, hoje, apenas cem judeus no país inteiro, dos quais sessenta ainda moram no Cairo.

Atualmente, os judeus do Egito estão dispersos pelas várias capitais do mundo. Eles não possuem nenhuma espécie de laço entre si. Muitos esforços foram feitos, em vão, na França, Itália, Israel, Austrália e Brasil, para fazer com que esses grupos se unissem. Assim como no passado, esses esforços não estão sendo mantidos, já que há falta de interesse por parte dos judeus do Egito em manter seu patrimônio. Muitas das pessoas que fizeram parte desta história não estarão vivas daqui a dez ou vinte anos, e esta maravilhosa saga será perdida para sempre. É preciso lembrar que nunca houve grande esforço por parte dos judeus do Egito de protestar pelos bilhões de dólares em posses deixados para trás ao abandonarem o país.

Uma mostra do que poderia ser feito é o que a comunidade do Iraque fez em Israel, estabelecendo o Centro da Herança Judaica Babilônica, em Yehudá. Este centro publicou cerca de vinte livros sobre diferentes aspectos da vida dos judeus do Iraque. Possuem, também, um jornal em inglês, com artigos sobre vários aspectos da história dos judeus da Babilônia e sua cultura. Estes artigos são normalmente escritos por pesquisadores e acompanhados de ilustrações e fotos. O jornal fornece notícias sobre atividades do centro e também sobre várias comunidades do Iraque no mundo. Oxalá algum dia os judeus do Egito se unam e encarem o desafio de imortalizar sua história. Nós devemos isto a nosso filhos e netos, para que também eles conheçam a vida de seus antepassados. E, assim sendo, Amém!

Dr. Victor Sanua, pesquisador e professor do Departamento de Psicologia da Universidade St. John. Morashá recebeu uma coletânea de artigos sobre o Egito, de autoria do Dr. Victor Sanua e selecionou alguns para esta edição.