Morashá
Museu Judaico de São Paulo Foto Ilustrativa

Museu Judaico de São Paulo

Um local para preservar a história dos judeus de São Paulo para as futuras gerações, e assim resguardar o futuro - esse é o objetivo do Museu Judaico de São Paulo.

Edição 87 - Março de 2015


O autor inglês George Orwell, em sua consagrada obra “1984”, afirma que “a maneira mais eficaz de destruir um povo é negar-lhe e obliterar seu próprio entendimento de sua história” e que “aquele que controla o passado controla o futuro. Aquele que controla o presente controla o passado”.
 
Nessas duas frases estão claramente explicitadas a necessidade e a importância dos museus. Estes, com sua missão de preservar a história, fazer-nos entender o presente e preparar as futuras gerações para um futuro melhor, são verdadeiros antídotos contra todo aquele que pretenda deturpar o passado em prol de qualquer que seja sua convicção.

O Museu Judaico do Estado de São Paulo, atualmente em construção, estará situado no local do antigo Templo Beth El, na Rua Martinho Prado. O processo para escolha do projeto foi coordenado pessoalmente pelo Dr. Sergio Daniel Simon. Presidente do museu e provavelmente o maior entusiasta da obra, ele não mediu esforços para buscar parceiros e aliados para transformar esse sonho em realidade e entregar à cidade e ao país, que tão bem recebeu os imigrantes judeus, esse centro de cultura. O tema para o concurso que escolheu o projeto arquitetônico do museu judaico foi “Modernidade e Preservação”.

Venceu o projeto desenvolvido pela Botti Rubin Arquitetura, do Arquiteto Marc Rubin, que logrou com maestria integrar um prédio de quatro andares, ao Templo Beth El, antiga sinagoga em estilo bizantino, construída no período de 1927 a 1932. Este novo prédio, cujas paredes panorâmicas em vidro sobem desde a Avenida 9 de julho até a rua Martinho Prado, culminando em um mezanino, destina-se a abrigar as modernas instalações do novo museu. O Templo Beth El foi obra do arquiteto russo Samuel Roder, da Companhia City. Roder foi também quem, na época, construiu as primeiras casas modernistas nos bairros planejados pela City, Jardim América, Alto de Pinheiros e Alto da Lapa.

O Templo Beth El é uma construção heptagonal. Os sete lados na base do edifício, assim como sua repetição em todas as torres, nos remetem à numerologia judaica, pois a Cabalá ensina que o número sete representa um ciclo completo. Após sete dias, o Eterno completou Sua obra, o mundo. Há seis direções em nosso mundo: Norte, Sul, Leste, Oeste, acima do horizonte 
e abaixo do horizonte. Acrescentando o lugar onde estamos, temos um total de sete pontos de referência. Ademais, o Shabat é o sétimo dia da semana; e há sete semanas na contagem do Omer. A Menorá do Templo tinha sete braços. E, nos casamentos judaicos, recitam-se sete bênçãos, Sheva Berachot.

Totalmente preservado e agora devidamente restaurado, com ajuda parcial do governo alemão, o Templo poderá ser considerado a maior peça do museu. Como disse Samuel Roder em seu português ainda com sotaque, em uma entrevista realizada pela Diretora Executiva do museu, Roberta Sundfeld: “É um monument. E eu vou passar, mas ela fica”.

Quem, no futuro próximo, visitar o museu – que se propõe a trazer, também, exposições temáticas de outros países – e maravilhar-se com essa iniciativa da comunidade judaica, eventualmente não saberá que para que toda a população paulistana pudesse contar com mais esse centro de cultura na cidade, muito tempo e esforço foram necessários.

A história do museu começa na realidade com a história do Templo Beth El; em 1920, com Salomão Klabin, reunindo um grupo de pessoas influentes da comunidade, como os Teperman, Lafer, Feffer, Kauffmann e muitos outros, para angariar fundos para construir uma sinagoga em um terreno da Cia. City, na Rua Martinho Prado, uma área que começava a concentrar muitas famílias judaicas que haviam migrado do Brás e do Bom Retiro principalmente para os bairros de Higienópolis e do Pacaembu.

Em 1927, sete anos após Salomão Klabin ter imaginado o projeto, este finalmente é iniciado, sendo contratado o arquiteto Samuel Roder para lhe dar forma e transformá-lo em realidade.

Roder teria, desta forma, o privilégio de projetar a sinagoga, mesmo tendo competido com Gregori Warchavchik, arquiteto russo importantíssimo na história da moderna arquitetura brasileira, que era casado com Mina Klabin.

Apesar de todos os esforços dos envolvidos, devido à sua complexidade e peculiaridades do terreno, as obras que deveriam estar terminadas em 1929 somente foram entregues provisoriamente em 1930 para a celebração do ano novo judaico, com um altar de pinho improvisado e cadeiras alugadas para os frequentadores.

O início de suas atividades deu-se apenas em 1932. O Templo Beth El de rito asquenazita era uma sinagoga aberta, que aceitava rabinos das mais diversas proveniências e que deitava por terra o argumento de frequentar essa ou aquela sinagoga porque nela se rezava como em sua terra de origem. Na sua fachada estava escrito em hebraico: “Que esta seja uma casa de orações para todos os povos”. E esse preceito era seguido à risca.

O Templo Beth El viveu seu apogeu nas décadas de 1940 a 1960, com a celebração de inúmeras cerimônias de brith milá, barmitzvá, casamento e yskor.

No início dos anos de 1990, com uma nova migração das famílias que frequentavam a sinagoga para bairros como os Jardins, o Templo Beth – El foi perdendo sua importância e assim ficou até setembro de 1999, quando, em uma reunião na sede do Colégio Renascença, Alberto Kremnitzer, Alexandre Carasso e Marcos Feldman plantaram o que viria a ser a semente da futura Associação dos Amigos do Museu Judaico no Estado de São Paulo (AMJSP), visando à criação do Museu Judaico.

Cinco anos mais tarde, em 24 de abril de 2004, a AMJSP e a Congregação Israelita Ashkenazi de São Paulo assinaram um Contrato de Comodato – corpo e alma unidos. O Templo Beth-El (tombado pelo Município) se tornaria o endereço do novo Museu Judaico de São Paulo.

Ironicamente, apesar dos avanços da engenharia, hoje, os arquitetos encarregados da construção do museu enfrentam os mesmos problemas que Roder, em sua época. Devido ao lençol freático que se inicia um metro e meio abaixo da Avenida 9 de Julho, as estacas de sustentação, inicialmente planejadas para terem 30 metros, tiveram de ser trocadas por outras de 50 metros. Isto causou um atraso na obra, que, agora, deverá ser entregue somente em julho de 2016.

Este museu já nascerá com dimensão internacional, o que facilitou a criação de parcerias com museus de todo o mundo para trazer para suas salas importantes exposições internacionais. Contatos da Diretoria com os museus judaicos de Jerusalém, Nova York e Berlim garantiram um fluxo importante de material expositivo e de exposições temporárias de alto nível para os primeiros anos de funcionamento do Museu.

No momento, existem várias forças de trabalho executando obras em conjunto, como a construção do prédio novo, a restauração do Templo (que mostrou que seu domo original não era dourado, como estava, e sim azul e branco, com a borda decorada com ladrilhos, assemelhando-se a umaquipá), bem como equipes de conceituação, museologia, museografia, expografia, arquivo e catalogação do material já coletado.

No nível da Rua Martinho Prado, no local da antiga sinagoga, estará uma grande exposição sobre Judaísmo, centrada na grande bimá (o altar) do Templo Beth El, cujo Aron Hakodesh já foi totalmente restaurado. Esta exposição mostrará os rituais, festas, tradições e cultura judaicas.

No mezanino, local antigamente reservado às mulheres, haverá uma área de educação, pesquisa e multimídia. Aí haverá uma biblioteca especializada em temas judaicos (história, ética, religião, Holocausto) e áreas de pesquisas em mídia eletrônica, toda ligada às atividades da comunidade judaica brasileira e a centros culturais internacionais.

O primeiro subsolo abrigará uma exposição permanente sobre a história dos judeus no Brasil, desde os primeiros descobridores portugueses até a onda migratória mais recente, dos judeus do Líbano, Síria e Egito nos anos 1960-1970. Uma sala especial será dedicada ao Memorial do Holocausto, em especial às relações do Brasil com a Alemanha nazista e a história dos refugiados em terras brasileiras, tanto judeus como refugiados nazistas. São os inúmeros refugiados nazistas que se esconderam no Brasil e aqui trabalharam na Volkswagen, na Mercedes Benz e em outras firmas em geral alemãs. Alguns foram descobertos, outros não.

Uma última área mostrará o nascimento do Estado de Israel e chamará a atenção para as personalidades judias que contribuíram para o desenvolvimento da sociedade brasileira (políticos, escritores, professores, artistas, músicos, banqueiros, industriais etc.) Este andar abrigará ainda um restaurante de comida judaica casher e uma loja do Museu.

No segundo subsolo, normalmente dedicado às artes, serão exibidas as grandes exposições temporárias, tanto montadas pela própria equipe do Museu como vindas de museus judaicos de outros países. Uma área para recepções e vernissages completa este andar.

Finalmente, no nível da Avenida 9 de Julho, haverá uma sala educativa para as crianças que visitarem o Museu em visitas monitoradas poderem discutir e aprofundar temas apresentados no Museu, tais como cidadania, discriminação, racismo e antissemitismo.

O Museu Judaico já conta com um acervo de mais de 1.200 peças, entre documentos, objetos rituais, vestimentas, obras de arte etc. Entre esses objetos, destacam-se um talit com mais de 150 anos, talheres vindos de um campo de concentração, documentos, objetos de culto e de uso cotidiano trazidos pelos imigrantes judeus.

Entre eles, uma curiosidade: o dinheiro falso “utilizado” em Theresienstadt, um campo de concentração localizado a 60 km de Praga, na República Checa, onde Hitler encenou uma vila com atrativos como centros de arte e bancos para os judeus, a fim de convencer a Cruz Vermelha Internacional, em sua vistoria, de que os judeus eram “muito bem tratados”.
 
Apesar de já contar com vasto número de obras de arte, o museu continua aceitando doações que podem, inclusive, ser feitas em forma de comodato, por dez anos. Essa é uma maneira de preservar em mãos competentes uma parte da história das famílias, e, quem assim o desejar, poderá ter o objeto de volta decorrido o prazo.

A importância deste Museu é enorme, tanto para a comunidade judaica quanto para a sociedade brasileira, nesta época em que os judeus são novamente alvo de tantas demonstrações hostis em vários países do mundo. Quando ele retrata a história de milhares de judeus que, vindo de terras distantes, escolheram o Brasil para fixar suas raízes e aqui fizeram história, sua importância transcende o tempo e justifica o título deste artigo, uma vez que o conhecimento de seu passado certamente ajudará as gerações futuras a trilhar um caminho de paz e esperança.
Esta é a história que o primeiro Museu Judaico de São Paulo e o Templo  Beth El se propõem a contar. Afinal, que melhor lugar para se guardar os objetos que nos são caros do que a Casa do Senhor?

Meus agradecimentos às seguintes pessoas, sem cuja colaboração este artigo não teria sido possível:

Roberta Alexander Sundfeld, historiadora e Diretora Executiva do museu; Issac Waissmann, Gerente Administrativo;
Gilberto Lerner, Engenheiro Responsável; 
Paulo Kauffmann e Dálio Sahm. 
E, à minha filha, historiadora Kim Kutscka, que fez a revisão deste artigo.

Nota: A entrevista com Samuel Roder pode ser vista na internet: www.youtube.com/watch?v=G0Tan5lKycA 

H. James Kutscka é publicitário, pintor e autor.