Morashá
Zubin Mehta, cidadão do mundo Foto Ilustrativa

Zubin Mehta, cidadão do mundo

Tel Aviv, 5 de junho de 1967, o maestro Mitropolus ia ensaiar a filarmônica de Israel quando soaram as sirenes que anunciavam o início da guerra, guardou sua batuta, correu para o aeroporto e pegou o primeiro avião. Naquela mesma hora, Mehta aboletava-se em Viena em um avião de carga da El Al. no dia seguinte, ensaiou a filarmônica no subsolo do auditório Mann e, à noite, ali regeu um concerto inesquecível.

Edição 63 - Dezembro de 2008


Mehta esteve pela primeira vez à frente da Filarmônica em 1961, quando tinha apenas 25 anos de idade e era estudante de música em Viena. Ele nasceu em Bombaim, atual Mumbai, de origem pársi. Os pársis, seguidores do profeta Zoroastro, são de origem persa e deixaram seu país natal entre os séculos 8 e 10, estabelecendo-se como lavradores na província de Gujarat e depois se radicaram em Bombaim, onde assimilaram os costumes e tradições da Índia. Zubin tem orgulho de sua ancestralidade pársi e, hoje, mesmo depois de ter-se tornado um aclamado cidadão do mundo, considera-se basicamente um indiano e conserva seu passaporte hindu, o que lhe tem ocasionado desagradáveis problemas para obter vistos quando se desloca para dezenas de países dos cinco continentes. Mesmo assim, não abdica do passaporte original.

Quando menino, estudou em uma escola de jesuítas espanhóis, em Bombaim, porque era a melhor da cidade e porque todo o ensino era transmitido no idioma inglês. Depois, passou para o ginásio Saint Mary, cuja sala de aula abrigava quarenta estudantes que se dividiam entre diversas religiões. Havia pársis, hindus, muçulmanos, sikhs, judeus e cristãos, todos convivendo em harmonia. "Foi lá que aprendi, desde cedo, as minhas mais importantes lições de tolerância e o respeito a todas as religiões".

Seu pai, Mehli Mehta, era um músico de primeira ordem, que, depois de criar a Orquestra Sinfônica de Bombaim, regeu-a durante décadas. Em sua casa, havia um objeto precioso: uma vitrola que tocava aqueles antigos discos quebráveis em 78 rotações. A gravação de uma sinfonia exigia cinco ou seis discos que deviam ser trocados a cada 20 minutos, uma das tarefas do menino Zubin. Foi assim que desde cedo ele teve íntimo contato com a música clássica. A discoteca de Mehli provavelmente era a mais completa da Índia e Zubin já sabia de cor peças de Beethoven, Brahms e Mahler. Sua paixão pela música foi crescendo, a ponto de deixar de comparecer a jogos de críquete, até hoje seu esporte favorito, para assistir em casa aos ensaios do quarteto de cordas também criado por seu pai.

Com 19 anos de idade, Zubin fez dois semestres na faculdade de medicina, porém concluiu que seu destino estava mesmo na música. No ano seguinte, feliz, o pai mandou-o para Viena para estudar música e ele escolheu o contra-baixo como primeiro instrumento. Uma tarde, passando perto do famoso auditório Musikverein, dirigiu-se à entrada dos artistas, de onde dava para ouvir o som maravilhoso da Quarta Sinfonia de Tchaikovsky. Era um peça que ele conhecia bem, a partir dos discos do pai. Entretanto, ouvir aquela música ao vivo era muito diferente e por demais envolvente. Esgueirou-se pela entrada dos fundos do teatro e, através de uma pequena janela de vidro, viu à frente da orquestra, em ritmo de ensaio, o celebre maestro Herbert Von Karajan, que ele só conhecia através de fotografias. Sentou-se na última fila da platéia, sem ser notado. À medida em que a orquestra evoluía, Zubin percebia que aquele, sim, era o som que ele imaginava alcançar desde a infância. Era como se um novo mundo estivesse se abrindo. "Eu me sentia o próprio Cristóvão Colombo liderando uma expedição musical. Ali estavam os fundamentos de tudo que eu queria atingir na vida".

Zubin Mehta considera a Orquestra Filarmônica de Israel a sua própria família. A par de raras exceções, ao longo dos 48 anos em que a vem regendo, ele mesmo escolhe todos os seus músicos, "que entendem cada gesto que eu faço, por mais sutil que seja". Zubin considera a regência como a forma mais consumada de comunicação entre seres humanos, porque maestro e orquestra se entendem à perfeição sem que uma só palavra seja pronunciada. Não se trata de um mínimo denominador comum, mas do máximo que pode ser alcançado. Desde que começou a atuar em Israel, Mehta estabeleceu intensas relações de amizades pessoais como os músicos da orquestra. Freqüentemente estava na companhia deles depois das apresentações e em jantares em sua casa. Lembro-me, por exemplo, de um jantar, há mais de 20 anos, que ele ofereceu para toda a orquestra em um restaurante indiano, em Nova York, depois de um concerto no Carnegie Hall. Recebeu os músicos na porta e abraçou um por um. "Acho que para muitos membros da Filarmônica tenho sido uma espécie de confessor, de psicólogo e de orientador de carreiras". Zubin diz que, no decorrer dos anos, tem aprimorado o som da orquestra para a execução de peças clássicas do século 19, através de exaustivos ensaios das valsas de Strauss, "que são mais difíceis de tocar do que se imagina, porque suas partituras são bastante flexíveis". Em 1971, levou a Filarmônica para uma série de apresentações históricas na Alemanha. Em todas as cidades nas quais regeu, quando o público pedia bis, a peça executada era o Hatikva, hino nacional de Israel.

Apesar de quase meio século de constante presença em Israel, Zubin confessa que tem dificuldade para falar hebraico, mas sente-se inteiramente integrado na vida do país, onde conserva dezenas de amigos, tendo sido um dos mais próximos o ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, assinante por décadas da Filarmônica e a cujas apresentações sempre compareceu, mesmo nos momentos de maior tensão. Certa ocasião, conversando comigo, o maestro disse literalmente: "Não existe nenhuma disputa ideológica entre os partidos políticos em Israel. O único problema é que um partido não quer farguinen o outro". No caso, farguinen é um verbo em íidiche, de difícil tradução, que ao mesmo tempo significa agradar, dar prazer, ceder e conceder. Pensando bem, acho que ele tem razão.

Assim como se prontificou para reger a Filarmônica durante a Guerra dos Seis Dias, Zubin Mehta repetiu a façanha durante as guerras do Yom Kipur, esta com os solistas Isaac Stern e Daniel Barenboim, e do Golfo, em 1991, subindo ao pódio da orquestra enquanto Sadam Hussein despejava mísseis sobre Tel Aviv, mesmo tendo que cancelar compromissos assumidos em Nova York. O público assistiu ao concerto usando máscaras contra gás. O único momento de fricção que viveu em Israel aconteceu em 1981, quando pretendeu que a Filarmônica executasse uma abertura de Wagner. Quando ele anunciou tal programa, a mídia cobriu-o de críticas, algumas virulentas. Mesmo assim, Zubin insistiu e, no dia do anunciado concerto, houve gritaria, tumulto e pancadaria no Auditório Mann. Um dos manifestantes avançou até o proscênio e agarrou-se ao braço do violinista spalla Chaim Taub, para impedi-lo de tocar.

Outros pegaram cadeiras extras e atiraram-nas sobre o palco. O concerto teve que ser cancelado e, anos depois, Zubin Mehta recordou: "Tocar Wagner em Israel é um tabu que não está escrito. Não há nenhuma lei em Israel que o proíba. A verdade é que eu não me dei conta da profunda sensibilidade entre os israelenses sobreviventes dos campos de concentração que foram obrigados a ouvir a música de Wagner enquanto eram submetidos a torturas e trabalhos forçados. Eu imaginava que sendo Israel um país democrático, não ocorreriam tais manifestações. Entretanto, esqueci-me daquele enorme número de judeus que tinham números tatuados em seus braços. Tenho por todos eles um profundo respeito e admiração".

De seus primeiros dias com a Filarmônica, recorda: "Depois de sete anos em Viena, quando cheguei a Israel, senti-me em casa. As ruas do país, naquele tempo, lembravam-se as ruas de Bombaim, bem como o comportamento das pessoas. Na Índia, você faz uma pergunta e ouve quatro respostas. O mesmo acontece em Israel. Quanto à Filarmônica, foi um amor à primeira vista. Eu e a orquestra crescemos juntos, juntamente com o país, e jamais me esqueço de que Israel é a única democracia naquela parte do mundo. Por isso, quando estou em Israel, não tenho o menor receio de expressar minhas opiniões, porque sei que jamais serei admoestado por alguém. Eu digo aos israelenses que um dia eles vão ter que conviver com seus vizinhos, o mesmo que digo aos palestinos. Como hindu, posso ir a Ramalla, onde meu amigo Daniel Barenboim instituiu uma fundação musical para jovens. No momento, o pessoal da minha orquestra não pode fazer a mesma coisa, mas estou certo de que muitos dos meus músicos gostariam de ensinar música às crianças palestinas. Enquanto isso, venho regendo para platéias conjuntas de árabes e israelenses. Demos um concerto na cidade de Acre, ao qual comparecerem mil judeus e quatrocentos árabes. Houve outro da Filarmônica, em Nazaré, somente para árabes. Não se deve subestimar a música como um instrumento para aproximar os povos".

No domínio da música erudita, a carreira de Zubin Mehta é impressionante. Em Viena, estudou regência com Hans Swarowsky, na Academia de Música, e, em 1958, com 22 anos de idade, foi o vencedor do Concurso Internacional de Regência em Liverpool, Inglaterra, e de lá passou uma temporada em Tanglewwod, perto de Boston, onde lecionava o legendário Serge Koussevitsky. A essa altura, apesar da pouca idade, já tinha regido as orquestras de Viena, Berlim e Israel. De 1961 a 1967 foi diretor musical da Orquestra Sinfônica de Montreal.

Nesse meio tempo, em 1962, também tornou-se diretor da Orquestra Sinfonica de Los Angeles, onde até hoje tem residência permanente. Em 1969 foi nomeado conselheiro musical da Filarmônica de Israel, seu diretor musical, e depois do episódio Wagner, recebeu o título de diretor vitalício da orquestra, com a qual, até este ano, já regeu mais de três mil concertos. A rigor, sempre atuou como uma espécie de embaixador virtual de Israel, levando a Filarmônica a países com os quais Israel não mantinha relações diplomáticas, como a China e a Índia. Em 1978, foi contratado para estar à frente da Orquestra Filarmônica de Nova York, posição que ocupou durante 13 anos, a mais longa do século passado. O início ali foi complicado, quando sentiu que devia substituir a metade dos músicos da orquestra, mas acabou por revigorá-la e quebrou sua austeridade, passando a chamar os músicos por seus primeiros nomes e desenvolvendo uma aplaudida série de concertos temáticos. Cancelou um concerto que a Filarmônica de Nova York faria na Malásia, porque as autoridades locais não permitiram a execução de uma obra de um compositor israelense.

Em 1985, assumiu a direção do Teatro Del Maggio Fiorentino, em Florença. Em 1990, foi o regente do recital dos três tenores, Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti, por ocasião da realização da Copa do Mundo de Futebol, na Itália. Entre 1998 e 2006, dirigiu a Orquestra Estadual da Ópera da Bavária, a qual uniu à Filarmônica de Israel em uma memorável apresentação conjunta, no lugar do campo de concentração de Buchenwald. A principal peça da noite foi escolhida a dedo: a segunda sinfonia de Mahler, conhecida como A Ressurreição. Em 1999, recebeu a Medalha da Paz e da Tolerância das Nações Unidas e, em 2006, foi homenageado no Kennedy Center, em Washington, na presença de Bill Clinton. No mesmo ano assumiu a presidência do Festival Mediterrâneo do Palácio das Artes de Valença, na Espanha e, em um território neutro, regeu a Filarmônica de Israel com um coro de 500 crianças israelenses e palestinas. Em outubro de 2008, recebeu da família real do Japão o Praemium Imperiale.

Zubin Mehta e a Filarmônica de Israel vieram pela primeira vez ao Brasil em 1972, sob circunstâncias dramáticas. Foi no dia seguinte ao massacre das Olimpíadas de Munique e tanto ele como os músicos estavam deprimidos. A orquestra passou a contar com proteção especial da polícia em seu hotel e Zubin, por medida de segurança, veio ficar no antigo prédio da Manchete, onde no último andar havia duas suítes para hóspedes vips. Foi assim que iniciamos uma amizade que, para privilégio meu, até hoje perdura. Lembro-me de que ele voltou entusiasmado depois de ensaiar o Hino Nacional brasileiro: 'É magnífico. Nada fica a dever a uma abertura de Rossini". Lembro-me, daqueles dias, que após o triunfal concerto, na saída do Teatro Municipal, um colega jornalista não-judeu comentou: "Sabe quando vai haver paz no Oriente Médio? Quando os árabes tiverem um quarteto de cordas do nível dessa orquestra". Desde então, Zubin voltou ao Brasil umas cinco ou seis vezes, regendo as Filarmônicas de Israel e de Nova York, incluindo um memorável concerto ao ar livre no Parque do Ibirapuera. Mehta esteve recentemente em Bombaim, onde manifestou o desejo de algum dia poder reger concertos na Índia, no Paquistão, e vice-versa, nos quais hindus e muçulmanos possam sentar-se lado a lado.

Em fevereiro de 2006, foi apresentar-se na Austrália, tendo como solista o chinês Lang Lang, que se destaca como um dos maiores virtuoses contemporâneos. Ele levantou a batuta e, antes que fossem emitidos os primeiros acordes do Concerto n. 3 para Piano de Rachmaninoff, a orquestra começou a tocar "Parabéns Para Você". Zubin Mehta estava completando 70 anos de idade.

Zubin em Heliópolis

Em agosto de 2006, quando esteve pela última vez no Brasil à frente da Filarmônica de Israel, Zubin Mehta foi conhecer o Instituto Baccarelli, localizado em Heliópolis, uma das favelas mais pobres da periferia de São Paulo. O Instituto fora fundado pelo maestro Sílvio Baccarelli que, comovido por um incêndio que devastou aquela localidade, ali reuniu um grupo de crianças e adolescentes e passou a lhes ensinar, com recursos do próprio bolso, violino, viola, violoncelo e contrabaixo. O Instituto cresceu e atualmente é uma referência marcante na vida artística de São Paulo, tendo o conjunto inicial se transformado em uma bem sucedida orquestra sinfônica. Para homenagear o ilustre visitante, os jovens da favela começaram a executar a Quinta Sinfonia de Beethoven. Zubin ficou tão emocionado que, a certa altura, tomou a batuta da mão do maestro Roberto Tibiriçá e ele mesmo passou a reger a orquestra até o final da obra. Em seguida, ficou impressionado com o virtuosismo de um contrabaixista chamado Adriano Costa Chaves, de 17 anos de idade, e lhe ofereceu um estágio com a Filarmônica de Israel. Zubin Mehta diz, até hoje, que aquele dia em Heliópolis correspondeu a um dos momentos mais gratificantes em seu quase meio século de carreira.