Morashá
"O Filho de Saul" uma viagem ao inferno Da esq. à dir.: atores Levente Molnar e Geza Rohrig, diretor Laszló Nemes; produtores Gabor Sipos e Gabor Rajna

"O Filho de Saul" uma viagem ao inferno

Filme de estreia do diretor judeu húngaro, László Nemes - “O Filho de Saul”, ganhador do Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro, uma viagem arrepiante ao íntimo da mecânica do assassinato em massa perpetrado pelos nazistas talvez seja um dos trabalhos artísticos mais impressionantes que já se fez sobre o Holocausto.

Edição 91 - Abril de 2016


A escolha do filme húngaro pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi uma vitória esperada, pois “O Filho de Saul” já acumulara inúmeros prêmios: o Grande Prêmio do Júri e o da Crítica, no Festival de Cannes, em 2015, e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, este ano. Emocionado ao receber o Oscar, László Nemes, que também éoautor do roteiro, afirmou que no filme há uma mensagem de esperança: “Mesmo nas horas mais negras, pode haver uma voz dentro de nós que nos permite continuar humanos...”.

“O Filho de Saul” é um filme emocionalmente exigente e angustiante. A intenção do diretor foi criar uma obra claustrofóbica, levando-nos tão perto quanto possível da “fábrica de morte” nazista, ao modus operandi da execução do assassinato em massa. Ao mostrar o horror “nu e cru”, queria que absorvêssemos o cenário do inferno da hora mais negra da humanidade, num grau de realismo que poucos filmes de ficção tiveram a coragem de tentar.

Não há como escrever a respeito do filme sem dar aos leitores a impressão de ser um daqueles filmes que devia ser assistido, mas do qual tentamos nos esquivar por saber que iria mexer com emoções profundas. Como escreveu Luiz Carlos Merten no Estado de S. Paulo, em 3 de fevereiro de 2016, “O filme chega para perturbar. Gostando ou não, é visceral. Tira o público de sua zona de conforto...”.

Para quem o assistiu, vai ser difícil esquecê-lo. Ao longo de 107 intermináveis minutos, Nemes nos faz vivenciar o mundo de Auschwitz pelos olhos de Shaul Aslander, nosso guia no inferno, protagonizado pelo poeta e ator judeu, Géza Röhrig.

O filme se caracteriza por longos silêncios e imagens desfocadas. A fotografia, assinada por Mátyás Erdély, é um dos elementos que faz do filme uma obra única. Em nenhum momento a carnificina é trazida em primeiro plano – há imagens fugidias de corpos em foco nítido, mas são fragmentadas – mas isso não minimiza o horror: o rosto de Saul espelha tudo o que está desfocado. Numa entrevista, o diretor Nemes explicou por que adotou esse tipo de filmagem: “Acredito que o poder da imaginação é moralmente muito importante, porque não podemos, não há formas de recriar o horror, podemos apenas sugeri-lo”.

A história de Saul Auslander, um Sonderkommando, é fictícia, mas o contexto histórico do filme é preciso. Para escrever o roteiro, Nemes e Carla Royer, co-roteirista, fizeram extensa pesquisa histórica.

Ainda em entrevista, Nemes afirmou: “O filme representa diferentes formas de resistência que ocorreram em Auschwitz, sendo que a revolta armada foi apenas uma delas. Saul escolheu outra forma de rebelião, de resistência, e essa tentativa de busca pessoal será o que a define para ele. Ele está constantemente se movimentando entre diferentes lugares e comportamentos, como quando busca um rabino para dar sentido à sua forma pessoal de resistência.

Diante de uma situação em que não há possibilidade de esperança, a voz interior de Saul lhe ordena sobreviver para ser capaz de fazer algo que tenha significado. Essa ordem interior era para mostrar respeito a um ato que desde os primórdios do judaísmo é muito significativo e sagrado – o enterro de um morto”.

Os Sonderkommando

A escolha de fazer de Saul um membro dos Sonderkommando não foi acidental, pois eles ocupam um lugar especialmente doloroso e controvertido na história do Holocausto. Forçados pelos nazistas a fazer o serviço que precedia e sucedia a morte dos judeus enviados pelos nazistas às câmaras de gás, aos Sonderkommando foi negado o que Primo Levi famosamente chamou de “o consolo da inocência”.

Como o filme revela, os Sonderkommando eram apelidados de “portadores de segredos” (Geheimnisträger), pois vivenciavam dia após dia todo o processo da “cadeia industrial” do “tratamento” das vítimas. A morte fazia parte de sua rotina diária, estando entranhada em suas narinas, em sua pele, mente – e espírito.

Há quem os condene moralmente por sua suposta “colaboração” com os carrascos, mas somente uma profunda falta de conhecimento sobre o nazismo e a “Solução Final” permite a alguém supor que os Sonderkommando dispunham de alternativa ao que faziam, a não ser a morte. Ninguém “escolhia” entrar e tampouco sair do “comando especial”. Se algum deles se recusasse era morto no ato. Tampouco havia como não cumprir as ordens nazistas. Houve casos de Sonderkommandos que por terem avisado judeus do que estava por vir foram atirados vivos às chamas dos fornos, na presença de todos os seus companheiros de infortúnio, para servir de exemplo.

Os Sonderkommando eram melhor alimentados para terem mais forças para cumprir suas “tarefas”; eram mantidos isolados, sem contato com os outros presos e eram, a priori, “marcados para morrer” – seu tempo de vida era de três, quatro meses. Não poderia haver qualquer tipo de vazamento sobre o que testemunhavam. O próprio Saul, interpelado por um de seus companheiros se queria ser morto, responde: “Já estamos todos mortos”...  No filme, através de Saul vemos algumas das horripilantes “tarefas” dos Sonderkommando. Vemo-los encaminhar os judeus às câmaras de gás, vasculhar roupas e haveres pertencentes às vítimas para entregá-los aos nazistas – arriscando-se a guardar algo que “brilhe” para subornar guardas; aguardar os 10 a 12 minutos após as portas das câmaras terem-se fechado – o tempo necessário para o gás matar a todos – para retirar os corpos nus, e após extrair os dentes de ouro, arrastá-los e colocá-los no monta-cargas rumo ao piso de cima, para os fornos crematórios.

Vemos Saul esfregar o chão da câmara para limpar o sangue e excremento para que os que estavam por vir não adivinhassem o que os esperava. Manter as vítimas na ignorância era a melhor forma de assegurar que a morte em massa se desenrolasse sem “atrasos ou contratempos”. Enquanto isso, outros Sonderkommando alimentavam as fornalhas com carvão, onde os corpos eram incinerados, e, no final, transportavam o amontoado de cinzas para ser lançado no Vístula, para não deixar rastro nem vestígios.

Mas mesmo entre os Sonderkommando, assim como entre tantos outros judeus durante a Shoá, houve os que encontraram forma de resistir, de subverter as regras num mundo de silêncio e trevas. Foi em redor dos seus barracões, mais do que em qualquer outro lugar dos campos, que foram encontrados fragmentos de papel enterrados, com relatos e descrições sobre o sofrimento, a máquina de extermínio nazista, as plantas dos edifícios sobre o que os judeus chamaram “o Inferno de Auschwitz-Birkenau”. Deixaram-nos também quatro célebres fotografias tiradas em Birkenau. O filme mostra o momento da captura dessas imagens.

Foram também os Sonderkommando que deflagraram, em 7 de outubro de 1944, uma revolta, durante a qual três guardas foram mortos e foi explodido o Crematório IV, que ficou inutilizado. Jovens judias haviam conseguido os explosivos. Como vimos acima, a revolta serve de pano de fundo para o filme. A retaliação nazista foi implacável.

No final de dois dias, 452 membros do Sonderkommando foram mortos e, para servir de exemplo, os nazistas liquidaram cerca de um terço dos membros de outros “comandos especiais”. Quatro jovens mulheres acusadas de fornecer dinamite aos revoltosos foram torturadas e enforcadas diante dos demais prisioneiros. Uma delas, Roza Robota, de 23 anos, ainda teve a coragem de gritar: “Sejam fortes, tenham coragem”, quando a porta do alçapão se abriu.

A história de Saul

Na primeira cena do filme o espectador é catapultado à porta de uma das câmaras de gás de Auschwitz. Vemos e ouvimos os judeus sendo ludibriados pelos nazistas a se despirem e deixarem todos os seus pertences para “tomar o banho antes de comerem uma sopa quente”; “não esqueçam o número do cabide onde penduraram suas roupas”. Vemos homens, mulheres, jovens e velhos sendo empurrados para dentro da câmara de gás; ouvimos sons e gritos terríveis. A porta se fecha; a tela fica preta e a viagem ao inferno se inicia.

Vemos Saul e o grande X vermelho pintado em suas costas, o sinal de que ele era um Sonderkommando. A vida para ele é nada mais que um pesadelo acordado pelo qual ele vagueia. Saul fala pouco. Afinal, o que há para dizer quando sua vida é a de um escravo forçado a participar da maior falta de humanidade cometida por homens contra outros homens?

Vamos acompanhá-lo, ver o que ele vê. As diretrizes de Nemes à sua equipe de filmagens foram simples: “A câmera deve ficar grudada em Saul, não ultrapassar sua capacidade de visão e audição, não fornecer um único plano do conjunto. A câmera será sua companheira nessa verdadeira travessia do inferno”. Somos transportados em uma corrida infernal, enquanto Nemes nos mantém o tempo todo emocionalmente fragilizados.

Podemos ver, em segundo plano, imagens desfocadas e perturbadoras de cadáveres humanos arrastados como se fossem de carcaças de animais. Mudando de idioma e ocultando as legendas, o som do filme também consegue nos afetar. Os gritos das vítimas podem ser emudecidos, mas não há como os ignorar.

Observamos quando um Saul apático escolhe os objetos de valor do vestuário dos judeus, enquanto podemos ouvir gritos vindos dos “chuveiros” atrás da porta. Depois de encher as caixas com objetos de valor dos judeus para dar aos alemães, ele passa para sua próxima “tarefa”: a remoção “das partes”, como os nazistas grotescamente chamam os corpos, das câmaras de gás. De repente, Saul vê um garoto que sobreviveu ao gás. Um médico nazista é chamado e Saul então testemunha quando, após se certificar que o garoto estava vivo, o médico o sufoca, e pede uma autópsia sobre aquele “exemplar” humano pouco usual, para determinar a causa da “não morte”.

Saul quer acreditar que o garoto é seu filho. De repente, a vida de Saul volta a ter um propósito, um objetivo. Ele fica obcecado em evitar que façam a autópsia, que é proibida pela Lei Judaica; quer encontrar um rabino para dizer o Kadish e tentar dar um enterro digno àquele garoto. Tudo no rosto de Saul nos diz que aquele gesto pequeno, mas, no inferno nazista, muito arriscado, é imperativo. É a última coisa que pode mantê-lo humano.

À medida que ele segue em sua solitária missão, os Sonderkommando estão organizando a revolta. Mas, para Saul, o levante ficou em segundo plano, pois agora está impelido totalmente por sua determinação de tratar deste único judeu, este único ser humano, com a humanidade e o respeito que ordena a Lei Judaica. Ao tentar proteger o corpo do menino, Saul vê a chance, mesmo que de uma forma ínfima, de repudiar o “trabalho” que tem preenchido seus dias e noites.

Mas, apesar de ser nobre a sua missão, o filme nos faz perceber que em Auschwitz as escolhas são mais do que difíceis, nunca há a certeza de estar-se fazendo a coisa certa. A busca obsessiva de Saul ameaça a rebelião; a certa altura ele perde o explosivo que uma mulher envolvida na rebelião lhe entregara. Um outro Sonderkommando o reprova: “Você está prejudicando os vivos para favorecer os mortos”. E ele não estava errado...

O filme termina com a rebelião e fuga de um grupo de Sonderkommando, incluindo Saul que carrega o corpo de seu suposto filho pela floresta e pelo rio, correndo o risco de se afogar, o que só não acontece porque um de seus companheiros o retira da água, fazendo-o abandonar o corpo. O filme se encerra com o som dos tiros que matam os judeus encurralados em uma cabana na floresta. Um fim previsível.

As filmagens

Filmado em apenas 28 dias, com um orçamento de US$ 1.6 milhão, desde o lançamento até o início de 2016 a bilheteria já superava a marca de US$ 2.8 milhões, fato considerado pelos produtores um grande sucesso. A produção recebeu uma verba - US$ 50 mil - da Conferência para Indenizações, que negocia restituições para as vítimas do nazismo; e o restante veio em grande parte do Hungarian National Film Fund.

A jornalistas, Nemes explicou que seus bisavós pereceram em Auschwitz em 1944. “Minha primeira razão ao fazer este filme foi minha raiva”, disse. “Nunca pude aceitar o que aconteceu, e quanto mais ouço falar sobre o Holocausto, menos eu entendo... Queria transmitir aos espectadores o sentido “aqui e agora” de estar no meio do processo de matança – tanto da organização e do caos”.

Para Geza Röhrig, que interpreta Shaul, um Sonderkommando, “O crime mais demoníaco dos nazistas foi forçar os Sonderkommando a ajudar no processo de matança. Ao fazê-lo, eles lhes tiravam até mesmo o consolo de serem inocentes. Eles faziam do Abel um outro Caim...”. Röhrig revelou, durante uma entrevista, que o filme foi muito importante para ele pois sua vida está impregnada das memórias do Holocausto. Órfão aos quatro anos de idade, foi adotado aos 12 de um orfanato em Budapeste por amigos judeus de sua família.

Seu avô adotivo tinha perdido toda a sua família próxima em Auschwitz e sobreviveu em um gueto húngaro. Como universitário na Polônia, Röhrig visitou Auschwitz, cumprindo a promessa que fizera a seu avô adotivo. Mas, ao invés de sair logo depois da visita, ele não conseguia se afastar. Visitou o campo diariamente, durante um mês, meditando. Após aquele mês, ele foi a Israel, matriculando-se numa yeshivá. Queria saber o significado de ser judeu, entender o legado espiritual de seus ancestrais.

Ao responder por que concentrou sua história em um membro dos Sonderkommando, Nemes respondeu: “Foi uma estrada direta ao âmago do extermínio (......). Meu filme não é sobre sobrevivência; é sobre a realidade da morte. Durante a Shoá, a sobrevivência era uma mentira, uma exceção (…). Deixem-me contar-lhes o que nosso assessor histórico me disse; ele calculava que dos 430 mil judeus húngaros que foram deportados, em oito semanas, em 1944, 100 mil eram crianças com menos de 18 anos e que foram para as câmaras de gás. E essas crianças nunca tiveram um enterro (...). É uma ferida aberta... As pessoas vão dizer que o filme é mais uma história do Holocausto... Não; não é só mais uma história. Para nós, judeus, é o presente, não um mito.”