Morashá
A Filarmônica de Israel, 70 anos de espetáculo Foto Ilustrativa

A Filarmônica de Israel, 70 anos de espetáculo

As comunidades judaicas instaladas em Eretz Israel, ainda sob mandato britânico, lutavam por sua sobrevivência; Israel ainda não existia como país independente, mas já possuía uma orquestra.

Edição 57 - Junho de 2007


Criada em 1936 por iniciativa de Bronislaw Huberman, violinista polonês, a orquestra fez seu primeiro concerto na região, em 26 de dezembro daquele mesmo ano, sob o nome de "Orquestra Filarmônica da Palestina".

A apresentação teve a regência do célebre maestro Arturo Toscanini, tendo por solista o próprio Huberman.

Setenta anos depois, em dezembro de 2006, a Orquestra Filarmônica de Israel - OFI (nome que passou a usar logo após a independência, em 1948) - faria uma série de concertos celebrando sua fundação e encantando o público presente ao Auditório Mann, em Tel Aviv, um dos mais importantes de Israel. Intérpretes internacionais e músicos de diferentes gerações, vindos de várias partes, uniram-se para render homenagem a essa que é considerada, hoje, uma das grandes orquestras do mundo.

Realizando atualmente cerca de 150 concertos anuais por assinatura - em Tel Aviv, Jerusalém, Haifa e outras cidades do país, com cerca de 30.000 assinantes - a orquestra possui variado repertório, com grande espaço para a música alemã, exceção feita às composições de Richard Strauss e Wagner. Celeiro de grandes artistas que, posteriormente, seguiram carreira-solo ou em outros conjuntos de renome, a OFI é, por excelência, uma das grandes embaixadoras do país. Muito contribui para isso, entre outros, a reputação de seu Diretor Artístico Vitalício, o maestro Zubin Mehta, de origem indiana, que não se cansa de repetir: "Nossa orquestra é a voz, a bandeira de Israel entre as nações".

A idéia de criar uma orquestra nacional revela o ideal sionista de desenvolver uma cultura realmente própria em Eretz Israel. Em 1936, com a escalada do anti-semitismo na Europa, Huberman obteve, junto às autoridades britânicas, ainda que com muita dificuldade, visto para os músicos. Conseguiu, assim, salvar grandes artistas judeus. Se conseguir a documentação foi tarefa difícil, mais difícil ainda foi convencer os músicos a se integrarem ao projeto, na então estéril Palestina. Huberman precisou de quase três anos para convencer alguns dos melhores instrumentistas de orquestras alemãs e do leste europeu, expulsos das instituições por causa da ascensão do nazismo, a emigrar para Eretz Israel.

Com sua fundação em 1936, já em janeiro de 1937 o grupo fazia sua primeira turnê no exterior, apresentando-se no Cairo e em Alexandria (no Egito). Em 1948, com o nome de Orquestra Filarmônica de Israel, começa a conquistar seu lugar no cenário internacional, procurando sempre atrair e estimular o talento de artistas nascidos em Israel e dos recém-chegados. Nela atuaram artistas de renome como Leonard Bernstein, Arthur Rubinstein, Isaac Stern, Itzhak Perlman, Daniel Barenboim, Pinchas Zuckerman, Dimitris Mitropoulos, Serge Koussevitzky, Eugène Ormandy, Charles Munch, Georg Solti, Lorin Maazel, Claudio Abbado, Klaus Tennstedt, Christoph von Dohnányi e Kurt Masur, que em 1992 foi agraciado com o título de "Regente Convidado Honorário" da OFI.

A Filarmônica de Israel tem desempenhado papel singular na história do país, acompanhando pari passu momentos marcantes da trajetória nacional. Quando Beersheva foi libertada, em outubro de 1948, o conjunto tocou, sob a regência de um então jovem Leonard Bernstein, no deserto de Neguev, em plena frente de batalha. Ainda sob a batuta de Bernstein, interpretou a "Sinfonia da Ressurreição", de Mahler, no Monte Scopus, comemorando a libertação de Jerusalém, em 1967. Em 1970 apresentou-se na Alemanha, marcando o início de uma nova era nas relações diplomáticas e no intercâmbio cultural entre os dois países.

Na década seguinte, dirigida por Zubin Mehta, a Orquestra visitou o campo de concentração de Auschwitz, em uma turnê que a levou à Polônia, Rússia, Letônia e Hungria; e em meados dos anos 1990, sob a direção do maestro, apresentou-se na China e na Índia, marcando o início do diálogo entre Israel e o Extremo Oriente.

A educação e a formação de jovens talentos também fazem parte dos objetivos da Filarmônica de Israel, para os quais procura abrir novas perspectivas profissionais. Para isso, mantém um programa de bolsas de estudo, apóia a Filarmônica Jovem de Israel, a série Concertos de Jovens Artistas e suas séries regulares de Concertos para Crianças e Jovens.

Ao longo de quase sete décadas de vida artística, a Orquestra Filarmônica de Israel registrou extensa discografia, sobretudo para os selos Sony Classical, Teldec, EMI e Deutsche Grammophon. Dentre os lançamentos recentes, sob a direção de Zubin Mehta, destacam-se as "Quatro Sinfonias de Brahms" e os "Concertos para Piano de Prokofiev", com o pianista Yefim Bronfman, todos para a Sony Classical, bem como, de Gustav Mahler, as Sinfonias n°1, n° 2 e n° 3.

A venda de ingressos, doações e subsídios governamentais garantem o orçamento da Filarmônica, além de duas fundações: a Sociedade de Amigos Americanos da OFI e a Fundação Filarmônica de Israel, com sede em Tel Aviv. Essas organizações são uma verdadeira extensão da Orquestra e os fundos que arrecadam, além de assegurar seu futuro, são usados para apoiar projetos especiais e turnês, além de constantemente adquirir novos instrumentos.

Relações especiais

Leonard Bernstein escreveu um capítulo especial na história da Orquestra. Em 1963, em Tel Aviv, o Regente e compositor dirigiu o conjunto e os solistas Hanna Rovina e Jennie Tourel, na primeira apresentação mundial de sua "Kaddish Symphony", que posteriormente gravaram para o selo Deutsche Grammophon, pelo qual lançaram também duas outras obras suas - "Chichester Psalms" e "Jeremiah Symphony".

As visitas anuais de Bernstein a Israel, as diversas turnês mundiais conjuntas e o grande número de gravações criaram laços indissolúveis entre o maestro e a Orquestra. Em 1988, foram celebrados seus mais de quarenta anos vivendo música com a nomeação de Leonard Bernstein para "Regente Honorário" da Orquestra Filarmônica de Israel.

A colaboração entre Mehta e a Filarmônica de Israel teve início em 1961, quando o conceituado maestro regeu o grupo pela primeira vez. Estreitou-se em 1968, quando foi designado seu Conselheiro Musical; aprofundou-se a partir de 1977, quando assumiu o posto de Diretor Musical, para se consolidar, definitivamente, em 1981, quando passou a ocupar a posição em caráter vitalício.

É inegável sua profunda relação com a orquestra que regeu, tanto em suas apresentações regulares no país, quanto em concertos especiais, em eventos nacionais de importância, em apresentações em cidades em desenvolvimento, em kibutzim e em campos de treinamento militar. Em tempos de crise e guerra, Zubin Mehta jamais hesitou em cancelar outras obrigações profissionais no exterior para estar à frente da Filarmônica de Israel e de seus músicos.

Por sua contribuição à música, Zubin Mehta foi agraciado com diversas distinções internacionais, dentre as quais se destacam a prestigiosa Ordem do Lótus da Índia; títulos de Doutor Honoris Causa da Universidade Hebraica de Jerusalém, da Universidade de Tel Aviv e do Instituto Weizmann de Ciências; o Prêmio Israel, em reconhecimento à sua devoção ao país; e a homenagem da Universidade Hebraica de Jerusalém, que escolheu os nomes de Zubin e Mehli Mehta, este último, o pai do maestro, para uma das divisões de seu Departamento de Musicologia.

Bibliografia:

L'Arche, 586 Tribune Juive, 23 www.ipo.co.il