Morashá
Reuven Rivlin, o presidente do diálogo

Reuven Rivlin, o presidente do diálogo

por Jaime Spitzcovsky

Reuven Rivlin encerra seus sete anos de mandato como presidente de Israel sem abrir mão de uma característica a moldar sua trajetória política: a conciliação. Ao ser eleito, definiu-se como representante de “todos os cidadãos de Israel – judeus, árabes, drusos, ricos, pobres, religiosos e menos religiosos”.

Edição 111 - Junho de 2021


Com a voz embargada, continuou o discurso da vitória: “A partir deste momento, não sou mais um homem de partido, mas um homem de todos, um homem de todo o povo”. Reuven Rivlin, antes de chegar à presidência, construiu uma longa e sólida carreira política no Likud, com posições firmes e de acordo com cartilhas direitistas, mas sempre aberto ao diálogo democrático com seus adversários.

No sistema parlamentarista de Israel, o cargo de presidente corresponde ao de chefe de Estado, com funções eminentemente cerimoniais, embora guarde algumas tarefas políticas importantes. O chefe de governo, a quem cabe dirigir o poder executivo, corresponde ao primeiro-ministro, líder da coalizão partidária com maioria no Knesset (Parlamento).

Também é função dos 120 deputados eleger o presidente. Ex-parlamentar que chegou a presidir o Knesset e lá demonstrou credenciais democráticas, de diálogo e de conciliação, Rivlin conquistou a presidência ao conseguir também votos da esquerda e de partidos árabes, além do apoio de seus tradicionais aliados da direita. A trabalhista Shelley Yachimovich, ao anunciar a opção pelo candidato likudista, declarou: “Ele é um democrata exemplar, honesto e incorruptível, modesto em seus modos pessoais e age como um estadista em suas concepções e conduta pública”.

A adversária política prosseguiu: “Não é necessário especular como ele vai se comportar no cargo de presidente. Mesmo como alguém da direita e cujas opiniões são frequentemente contrárias às minhas, ele é aprovado, permanecendo como uma rocha sólida na defesa da democracia”.

Apoiador decidido das teses da direita e do movimento de assentamentos judaicos, Rivlin sempre buscou diálogo com a comunidade árabe-israelense. Manteve canais abertos sobretudo nos dois períodos em que presidiu o Knesset (2003-2006 e 2009-13), e, em sua primeira viagem no cargo, foi à cidade de Umm al-Fahm, considerada um foco tradicional de grupos com atividades anti-israelenses. Acompanharam-no naquela visita os deputados Uri Orbach, do direitista A Casa Judaica, e Afu Agbaruyah, do comunista Hadash.

Desde o início do mandato como chefe de Estado, Reuven Rivlin priorizou, em suas atividades e cerimoniais, o universo doméstico da sociedade israelense, sem abandonar temas internacionais, assuntos prediletos de seu antecessor: “(Shimon) Peres foi um presidente orientado à política externa. Reuven Rivlin se concentrará em Israel, e será um presidente para o povo, a sociedade”, afirmou à época da eleição Reuven Hazan, cientista político da Universidade Hebraica de Jerusalém.

A diferença de focos e a origem em campos ideológicos distintos não impediram o direitista Rivlin e o centro-esquerdista Peres de, por exemplo, assinarem um texto em conjunto, no diário Yediot Ahronot, com apelos ao fim de ciclos de violência na região. “O derramamento de sangue terminará apenas quando todos nós entendermos que não é um destino infeliz viver lado a lado, mas é sim nosso destino a construir”, escreveram.

Embora buscasse priorizar temas domésticos, Rivlin não se furtou a importantes iniciativas internacionais, em particular num momento histórico como o da assinatura, em 2020, dos Acordos de Abraão, nome utilizado para descrever os tratados de normalização de relações com quatro países árabes: Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos. Em uma ocasião, o presidente conversou ao telefone com o rei bareinita, Hamad bin Isa Al Khalifa, para parabenizá-lo pelo dia nacional da nação do golfo Pérsico.

“Esse dia nacional marca um ano de desdobramentos históricos entre Israel e Bahrein e os Emirados Árabes Unidos”, afirmou Rivlin. “O avanço em nossas relações não poderia ter acontecido sem a decisão corajosa e histórica de Sua Majestade Rei Hamad, de estabelecer uma paz calorosa com Israel”.

Na conversa telefônica, o presidente israelense afirmou esperar que a paz alcançada nos Acordos de Abraão sirva de modelo a outros países da região e destacou, ainda, o fato de a cooperação bilateral começar em áreas como economia, inovação e saúde. “Estamos cheios de esperança de que os palestinos também tomem iniciativas para construir confiança mútua, cooperação e paz”, acrescentou Rivlin.

O diálogo, no entanto, não foi o primeiro com uma autoridade bareinita. O ministro da Relações Exteriores, Abdullatif bin Rashid al-Zayani, havia visitado Rivlin em Jerusalém, quando o líder israelense formalizou um convite ao rei Hamad Al Khalifa para visitar Israel.

Como representante da nação israelense, Rivlin também abriu amplo espaço em sua agenda para recepcionar visitantes dos países árabes que assinaram acordos de paz com Israel. Certa feita, encontrou-se com uma delegação de representantes da sociedade civil de Bahrein e Emirados Árabes Unidos. “Paz é feita entre povos e nações”, discursou então o presidente, que acrescentou: “Sua visita aqui é mais um passo na direção da construção de relações calorosas entre nossos países”.

Em documento divulgado após o encontro, consta uma declaração de Mashaal a-Shamri, de Bahrein: “Como uma mulher bareinita visitando Israel, é uma grande honra para mim reunir-me com o presidente. Vemos Israel como um local de paz, sucesso e coexistência”.

Reuven Rivlin também se dedicou às relações com as comunidades judaicas na diáspora. Na mensagem do último Yom Haatzmaut de seu mandato, ele enfatizou a ideia do “destino compartilhado”. “Devemos lembrar que somos uma forte, grande e diversificada família. Temos um destino em comum. Uma nova esperança israelense e judaica deve ser baseada na unidade e na diversidade, no entendimento mútuo e no compartilhamento de experiências”, sustentou a mensagem presidencial.

No plano pessoal, Rivlin enfrentou, na época do mandato, momento trágico, com o falecimento, em 2019, de sua esposa, Nechama, que havia trabalhado muitos anos na Universidade Hebraica de Jerusalém, cidade onde nasceu o presidente, em 1939.

A família Rivlin conta com raízes profundas e antigas na capital de Israel. Lá, Reuven construiu sua vida política, foi vereador e vice do prefeito Teddy Kollek. Também ocupou o cargo de ministro das comunicações entre 2001 e 2003, no governo de Ariel Sharon.

Nos planos pós-presidência – o mandato termina em julho –, Rivlin incluiu o aluguel de um apartamento na rua King David e justificou a escolha do local: proximidade dos nove netos. Argumentou, em entrevista ao site Ynetnews, que vai sempre consultá-los sobre seus planos futuros.

O mandato de Reuven Rivlin chegou ao fim no começo de junho, quando o Knesset elegeu seu sucessor. Com 87 votos, foi escolhido Yitzhak Herzog, liderança com densa trajetória política e profissional e filho de Chaim Herzog, que presidiu Israel entre 1983 e 1993. Ligado ao Partido Trabalhista, Yitzhak, conhecido como “Bougie” Herzog, exerceu cargos de parlamentar e de ministro em várias pastas, como Bem-Estar Social e Turismo. Ao se candidatar à presidência, ocupava a chefia da Agência Judaica.

Jaime Spitzcovsky colunista da “Folha de S.Paulo”, foi correspondente do jornal em Moscou e em Pequim.