Morashá
Agindo como um anjo durante um só dia Interior de uma sinagoga, durante serviço religioso, óleo sobre tela, Holanda, séc. 18

Agindo como um anjo durante um só dia

Yom Kipur, o dia do perdão, décimo dia do mês de Tishrei, é considerado o dia mais sagrado do calendário judaico.

Edição 58 - Setembro de 2007


De acordo com a nossa tradição, após ter ficado quarenta dias na montanha do Sinai, Moshê Rabeinu desce com as tábuas da Lei, nelas gravadas os Mandamentos.

Ao perceber que o povo de Israel cometera o pecado do bezerro de ouro, ele quebra as tábuas antes mesmo de lhes entregá-las. Em seguida, ora e implora para que o Todo Poderoso perdoe o povo pelo grave erro cometido. Depois de quarenta dias de súplicas, o perdão foi concedido e D'us lhe pede que prepare duas novas tábuas nas quais serão escritos, pela segunda vez, os Dez Mandamentos. Moshê sobe novamente a montanha e, após quarenta dias, retorna com outras duas Tábuas e com a grande notícia de que D'us perdoara, por completo, o erro do povo: é o dia de Yom Kipur. Daquele dia em diante, ano após ano, no dia de Yom Kipur, o povo de Israel é agraciado com o perdão e a absolvição.

Durante todo o dia de Kipur, imploramos ao Todo Poderoso que nos perdoe e nos confirme para um ano repleto de saúde e felicidades. Por ser um dia muito importante, com mais Santidade do que os demais, as limitações em Yom Kipur são maiores do que em qualquer outro dia do ano. Além de observar as limitações regulares do Shabat, outras cinco são acrescidas. Neste dia, é proibido comer e beber, lavar-se, passar perfume, cremes ou cosméticos, calçar sapatos de couro e manter relações conjugais.

Por que temos estas limitações adicionais? O Sefer HaChinuch explica que o fato de existir o dia de Yom Kipur é uma demonstração da bondade do Todo Poderoso. Pois Ele estabeleceu que todas as criaturas do mundo tenham um dia no ano no qual possam refletir sobre seus atos e se arrepender de seus erros, para que, posteriormente, possam ser perdoadas. Estas proibições adicionais fazem com que fiquemos centrados no verdadeiro intuito do grande dia. Comendo, bebendo e tendo outros prazeres mundanos, muito provavelmente poderíamos deixar-nos seduzir, fazendo reforçar a parte animal de nosso ser. Com isto, estaríamos desviando-nos do propósito desse dia de arrependimento.

Além disso, qualquer pessoa que esteja envolvida em satisfações corpóreas e prazeres sensoriais, inevitavelmente formará uma barreira ante seu intelecto. E assim, estará impossibilitada de almejar e alcançar a verdade tão desejada em Yom Kipur. No nosso caso, a verdade é servir a D'us e aderir à Sua Torá e aos Seus ensinamentos.

Devemos também recordar que, em Yom Kipur, somos como os súditos que esperam pela misericórdia do Rei. Para tanto é importantíssimo que o súdito tenha a mente desobstruída, de modo que possa apresentar seus argumentos e se defender correta e eficazmente. Por isso, neste dia, temos que nos assegurar de estar perante D'us com a mente totalmente focalizada no arrependimento e na aproximação com o Eterno. Tendo a mente distraída pelo lado terreno e material, particularmente pelos prazeres sensoriais, apenas estaremos prejudicando-nos e impedindo-nos de fazer o que precisa ser feito. Por isso, devemos fortalecer nosso intelecto e alma, reprimindo nossos desejos materiais neste dia Sagrado. Se mantivermos nosso foco no significado e no objetivo deste dia tão especial, é muito provável que nosso perdão seja aceito.

O Sefer HaChinuch termina esta análise dizendo que estas são também as razões para a observância das mesmas proibições de Shabat no dia de Yom Kipur, também chamado de Shabat Shabaton. Neste dia sagrado, é vetado executar os trabalhos que são proibidos no Shabat, a fim de não nos ocuparmos com assuntos estranhos ao espírito e ao propósito do dia. Deste modo, poderemos depositar todo nosso pensamento e nosso coração a fim de pedir perdão ao Todo Poderoso num dia que, desde a Antigüidade, foi reservado como o dia de perdão para o povo de Israel.

Como anjos

Os dez dias de arrependimento começam com Rosh Hashaná e terminam no Dia do Perdão, quando oramos e nos confessamos. Há um princípio importante no pensamento judaico que ensina que a perversão do pecado é totalmente externa ao homem. A essência do judeu, sua alma interna, permanece sempre pura e nunca pode ser maculada, pois a alma é uma Faísca Divina. Assim, começamos diariamente as rezas matinais: "Ó D'us, a alma que colocaste em mim é pura." O pecado é, por assim dizer, um intruso indesejado. É por isso que as tentações materiais do corpo puxam no sentido oposto da verdadeira vontade espiritual da alma. A tradução literal da palavra Teshuvá, arrependimento, é "retornar a si mesmo". Quando uma pessoa se desvia do caminho da Torá e não observa suas leis, está, na realidade, afastando-se de D'us, ou melhor, afastando-se da própria essência de sua alma. Quando conseguir o perdão, é imprescindível retornar a si mesma. Isto significa identificar-se com sua alma e essência.

O mesmo resultado que um ser humano pode alcançar no seu retorno ao Criador acontece também na dimensão do tempo. Durante os seis dias da semana, nosso contato com a matéria e com o físico é contínuo e inevitável. O Shabat, sétimo dia da semana, simboliza o mundo físico que retorna para seu Criador. D'us é a fonte e o início de toda a matéria e todas as criaturas tiveram origem Nele. Ao respeitar o Shabat, queremos elevar-nos do mundo material e voltar para a parte espiritual do mundo, ou seja, a D'us.

A própria palavra Shabat vem da raiz "Shov", que significa "retorno". Yom Kipur é um Shabat de descanso absoluto, onde a expiação para os erros cometidos pela humanidade exige um retorno às raízes espirituais do próprio ser e a aproximação ao Criador.

O motivo da proibição de se envolver em atividades físicas e corporais, tais como comer e beber, como explica o Maharal, deve-se ao fato de ser um dia cuja ênfase inteira deve estar no retorno à nossa essência espiritual. Assim, pode-se dizer que em Yom Kipur o homem se transforma, metaforicamente, em um anjo. Este é o motivo pelo qual neste dia recitamos, em voz alta, o verso: "Baruch Shem Kevod Malchutó Leolam Vaed" - "Bendito é o Nome Daquele cujo Glorioso Reino é Eterno", assim como os anjos o fazem. Este mesmo verso é recitado durante todo o ano, após o versículo de Shemá Yisrael - "Escuta, ó Israel", porém, em voz baixa.

O que são "anjos?" Anjos são seres completamente espirituais, cujo único foco é servir a seu Criador. Em Yom Kipur, cada um dos judeus se torna um anjo. O Maharal de Praga explica: Todos os mandamentos que D'us nos ordenou a respeito desse dia sagrado têm como objetivo remover, tanto quanto possível, o relacionamento da pessoa com o físico e o material, a fim de que ela possa elevar-se à estatura de um anjo. Assim como os anjos estão eretos, também nós temos que estar, durante quase todo o dia de Yom Kipur, de pé, fazendo as orações, na sinagoga. E assim como os anjos "se vestem" de branco, por assim dizer, também nós o fazemos, no mais sagrado dos dias. Em muitas comunidades costuma-se vestir roupas brancas, no Yom Kipur, ou o que é chamado de Kitel. Os anjos tampouco comem ou bebem; e nós os emulamos.

Durante o ano, muitos indivíduos passam os seus dias comendo, trabalhando e se ocupando com bens materiais - simbolizados pelos calçados - e com os prazeres mundanos - simbolizados pelo ato de usar cremes ou perfumes.

Em Yom Kipur, restauramos nossas prioridades, levando-as de volta ao real significado da vida e a seu real valor.

Nossos sábios nos ensinam que estas cinco limitações são equivalentes aos Cinco Livros da Torá. Respeitando-as, no dia de Yom Kipur, com os nossos cinco sentidos, almejamos que os prazeres materiais não atrapalhem o cumprimento e o entendimento dos Cinco Livros da Torá. Isto também simboliza os cinco níveis de nossa alma, de acordo com os sábios da Cabalá. Da mesma forma, os cinco mergulhos no Micvê que o Sumo Sacerdote, o Cohen Gadol, realizava no Templo, durante o dia de Yom Kipur. E, por fim, as cinco orações da Amidá proferidas nesse dia tão especial. Lembramos que diariamente realizamos três orações de Amidá: de manhã, no Shacharit, à tarde, na Minchá, e à noite, na Arvit. No Shabat e dias de Yom Tov acrescentamos uma oração especial: o Mussaf. O único dia do ano no qual fazemos cinco orações é em Yom Kipur, quando, além das quatro orações já citadas, adicionamos a oração de Neilá.

Este poder especial de purificar os erros dos judeus no dia de Yom Kipur se refere apenas às transgressões cometidas em relação a D'us. Isto não inclui os erros cometidos em relação a nossos semelhantes. Conseqüentemente, é um costume judaico universal pedir desculpas em algum momento antes do início do dia sagrado, aos amigos, parentes ou conhecidos, a quem podemos ter prejudicado ou insultado, ainda que não propositalmente, no ano findo.

Este ano, o jejum de Yom Kipur inicia-se no pôr-do-sol da sexta-feira, 21 de setembro, às 17h:41h, e se estende por 25 horas, até o anoitecer do dia seguinte, 22 de setembro, às 18:45h. Na sexta-feira, véspera de Yom Kipur, é uma mitzvá especial comer bastante e festejar. No entanto, na última refeição que é realizada à tarde, antes do jejum, com toda a família, não se pode exagerar na quantidade do alimento. Em caso de doença, um médico e um Rabino devem ser consultados a fim de determinar a gravidade do caso e instruir o que deve ser feito. A razão para todos estes cuidados é o fato de que não comer, nesse dia sagrado, é considerado uma das proibições das mais sérias, na Torá. Se o paciente estiver certo que necessita comer para não ameaçar sua vida, confiamos em sua palavra, mesmo se o médico discordar.

E, no cenário oposto, se o paciente se recusar a comer apesar da recomendação médica, devemos persuadi-lo a segui-la.

Desejamos a todos um jejum fácil, com saúde e muitas bênçãos e que sejam inscritos e selados para um ano de muita felicidade e prosperidade!

Rabino Avraham Cohen é rabino da Sinagoga Beit Yaacov, São Paulo